Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

19
Out 07

A Exposição Colonial Portuguesa esteve em preparação desde 1931, sendo intenção do Estado Novo organizar um evento de dimensões nacionais. Após algumas hesitações, a decisão sobre a escolha do local mais adequado para instalar a exposição recaiu sobre o Palácio de Cristal e os seus jardins, no Porto.

Afirmava-se ser a localização perfeita, uma vez que os terrenos incluíam não só um edifício que se prestava à exposição, como também amplos jardins e longas áleas plenas de árvores e de sombras.

Em Junho de 1934 a exposição estava pronta e no dia 16 abriu as suas portas ao público.

Os edifícios, terrenos e jardins do Palácio de Cristal estavam transformados num Império Colonial em miniatura, onde era possível encontrar a floresta tropical, o deserto, uma picada angolana, aldeias típicas de todas as colónias e muitas outras simulações que tinham por intenção dar ao visitante, após o passeio, a sensação de ter viajado por todo o Império Português.

 

A ideia foi do Abel, naturalmente, que depois do habitual jantar de bacalhau cozido com batatas e hortaliça, recostou-se na cadeira e arrumando o palito no canto da boca, disse para a Delfina:

- Vamos levar as raparigas ao Porto, para verem a exposição.

- Lá estás tu com ideias. Não vês que aquilo é uma confusão…

- Qual confusão? Vamos pela manhã e regressamos à tarde. Li no jornal que os jardins foram arranjados, estão muito bonitos e a exposição é enorme.

- Mas levar as raparigas… não sei, tenho medo, são outros mundos, pode haver quem se meta com elas e eu não…

- Ora, ora! Que feitio o teu! Elas já são umas mulheres, tu até te esqueces que a Bela já está casada, agora vive no Porto... e além disso nós vamos com elas.

- Nós? Eu não vou. Achas que ia deixar a pensão ao “Deus dará”? Parece que não sabes como são as criadas.

- Seria por umas horas… Até podíamos fechar.

- Nem penses nisso. Se queres, vai tu com elas. Eu fico a tomar conta do negócio. E para mais, eu ainda não levantei o luto pelo nosso António.

O Abel deu um suspiro de resignação e esticou o braço para as maçãs que enchiam a fruteira. Quando a mulher teimava, não valia a pena insistir e se havia coisa que o incomodasse era falarem-lhe no António, o seu único rapaz, que tinha morrido há dois anos com uma doença no sangue.

Tinha de decidir a forma de as levar até ao Porto. Podiam ir de comboio, mas de S. Bento até à Exposição, que era do outro lado da cidade não dava para ir a pé. Indo de carro era a mesma coisa, não cabiam todos. “Bem, há-de resolver-se” e encolhendo os ombros, levantou-se e foi até à sala da frente onde três hospedes se entretinham a jogar umas partidas de dominó.

- Ainda bem que chegou sr. Abel, faltava-nos um parceiro para um jogo a sério. Isto de jogar dominó a três, não tem piada nenhuma.

 

Dias depois, o Abel da Chocalha teve mais uma ideia das suas, “iriam de camioneta de passageiros”. Teria de falar com o Rogério de Caminha, que alem de um táxi, tinha uma camioneta que usava para transportar as pessoas das aldeias para as feiras, à quarta para Caminha, à quinta para Âncora e aos fins de semana fazia excursões à Senhora da Peneda ou outros santuários e até já tinha ido várias vezes a Fátima.

Foi até Caminha, estacionou o automóvel no Terreiro e dirigiu-se à Cova da Onça, pouso habitual do Rogério que por lá passava os dias na jogatina ou na conversa, sempre que não tinha fretes de transporte.

Não foi nada difícil fazê-lo concordar com o negócio, pois o Abel disponibilizou-lhe a sua camioneta de carga para quando precisasse, o que até lhe vinha a calhar, porque queria fazer umas obras lá em casa e era preciso transportar os materiais.

- Eu empresto-lhe a camioneta sr. Abel, mas tem de ser à segunda ou à terça-feira, porque nos outros dias tenho serviços.

- Muito bem, e tu, quando quiseres, tens a minha camioneta à disposição. Tens é de me avisar antes.

O acordo logo ali ficou selado pela palavra e por dois copos de vinho branco da mais conhecida tasca caminhense.

 

Como a camioneta do Rogério tinha lugar para trinta pessoas o Abel pensou em completar a lotação com quem o quisesse acompanhar, desde que ajudassem a pagar o combustível.

Quando se soube na vizinhança que o Abel da Chocalha estava a organizar uma excursão ao Porto para visitar a Exposição Colonial, não faltaram interessados e rapidamente a camioneta encheu. Alem do organizador que também faria de motorista, iriam as três filhas mais novas, a Minda, a Quinhas e a Letinha. A mais velha, a Bela, tinha casado, morava no Porto com o Simão e já esperava o primeiro filho.

Como convidados participariam a Maria Férrinha, cozinheira da pensão e mulher de confiança da Delfina e o Mota, um sapateiro amigo da família que alinhava sempre nestas coisas.

 

Chegou o dia combinado e logo pela manhã juntaram-se os excursionistas em volta da camioneta que estava estacionada no Largo do Sol Posto, havendo uma fartura de cestos carregados com os mais saborosos merendeiros.

A Delfina que sempre foi muito exigente com a alimentação, tinha dada carta branca à Maria para aprontar, de véspera, o repasto que iria ser comido à sombra de alguma árvore dos jardins do Palácio de Cristal.

Nos cestos foram cuidadosamente acondicionados uns franguinhos assados, carnes de cozido e unha de porco, bolos de bacalhau, ovos cozidos, vários chouriços, um bom naco de presunto, broa acabada de cozer, um pote de azeitonas, um garrafão de vinho tinto para os homens, umas garrafas de vinho branco para as mulheres, sem esquecer uma garrafinha de aguardente para alguma má disposição.

O Mota, como convidado estava dispensado de trazer merendeiro, mas apresentou-se com uma maleta cheia de ferramentas próprias do seu ofício, argumentando “se for preciso alguma coisa…”.

 

Bagagem presa no porta bagagens do tejadilho, excursionistas nos lugares e “ala que se faz tarde”. Com um par de solavancos e envolta numa nuvem de fumo a camioneta arrancou, estrada fora em direcção a Viana do Castelo.

Antes de chegar à Povoa ainda fizeram uma breve paragem junto a uns campos de milho para “verter águas” e quando entraram no Porto, o motorista seguiu directo para o recinto da Exposição. Como era segunda-feira não havia movimento e àquela hora as bilheteiras estavam às moscas.

O Mota, finalmente, foi convencido a deixar a caixa das ferramentas dentro da camioneta e o Abel, na sua voz grave e tranquila, fez a ultima recomendação aos seus passageiros.

- Todos aqui ao meio-dia, para tirar as cestas.

 

E lá foram, com as suas roupas domingueiras, de nariz no ar à procura das novidades da Exposição Colonial, uma recriação dos usos e costumes dos nativos africanos em cenário grandioso, montado com o máximo de realismo possível. As palhotas redondas com as nativas nos seus trajes tradicionais, as crianças transportadas às costas das mães, as pirogas, o pilão onde se preparava a farinha de mandioca, os arcos e flechas de caça.

Logo à entrada, dois polícias negros de uniforme e espingarda ao ombro em pose marcial, que muitos duvidavam serem homens verdadeiros, chegando a serem apalpados pelos mais incrédulos.

Tudo exposto para conhecimento e comentário dos visitantes, que na sua maioria esmagadora nunca tinham estado em Africa e muitos até era a primeira vez que viam um negro.

Uma jovem negra vestida apenas com uma espécie de saia feita de fibras vegetais, com um peito exuberante à mostra, a Rosinha, era a atracão maior. Só mesmo quando se exibiam os grupos em danças tradicionais é que conseguiam reter a atenção dos visitantes, que esqueciam momentaneamente a formosa ninfa cor de ébano.

As três manas acompanhavam o tranquilo Abel, que não se furtava de dar umas olhadelas sorrateiras a tudo o que tivesse saias, a sua fraqueza.

Quando deram as doze badaladas no campanário de uma igreja distante, talvez a do Carmo, lá foram buscar os lautos farnéis que foram tranquilamente degustados à sombra de um frondoso choupo, depois de estendida sobre a relva uma toalha de linho que a Delfina fizera questão que trouxessem. Todos estavam com apetite, especialmente o Mota, que apesar da compleição franzina era um bom garfo.

A meio da tarde, chegada a hora de iniciarem o regresso, muitos ainda compraram roscas, pão doce e rebuçados que se vendiam no jardim, para os catraios que ficaram em casa.

 

Logo à saída do Porto, face a insistentes pedidos do Mota, a camioneta parou e o atrapalhado sapateiro embrenhou-se no interior do pinhal para um urgente alívio intestinal. Já com outros ares regressou à camioneta, mas quilómetros mais à frente renovou o pedido para mais uma paragem. Até ao fim da viagem ainda foi preciso parar na veiga de Montedor o que já motivava os mais variados comentários dentro da camioneta.

- Ó sr. Abel, pare lá a camioneta senão o homem borra-se todo aqui dentro.

- Mota, faz dentro da caixa da ferramenta, senão havemos de chegar a Âncora de noite.

O Mota tentava fazer cara alegre, mas o sorriso era amarelo e de vez em quando vinham aquelas cólicas, que até lhe faltava o ar.

Com estas peripécias e no mais alegre convívio ao qual não faltaram umas canções bem conhecidas de todos, a camioneta acabou por parar em frente à pensão Âncora de onde saiu a Delfina que já estava em cuidados, pela demora.

- Que queres? – justifica o Abel com a tranquilidade habitual – O Mota comeu como um alarve e depois veio a cagar-se desde o Porto até cá. Tive de parar não sei quantas vezes. Estava a ver que tinha de o subir para o porta bagagens…

 


publicado por Brito Ribeiro às 23:51
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Muito boa esta história que tem o nosso avô (que não conhecemos) como personagem central.
Eu lembrava-me de ouvir a tia Bela falar na preta de mamas ao léu...ah ah ah.

Um abraço
António a 20 de Outubro de 2007 às 21:36

Por favor, escreve mais... delicioso! Um beijão
* prima ap
apps a 20 de Outubro de 2007 às 21:42

Obrigado pelo vosso incentivo. O Abel devia ser mesmo um "gajo porreiro". Tenho imensa pena de não o ter conhecido.
Brito Ribeiro a 20 de Outubro de 2007 às 22:23

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