Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

01
Out 07
- Ora muito bem, senhores óbintes, estamos em directo do cruzamento da avenida com a rua da estação, onde ocorreu há momentos um grave acidente do qual resultaram alguns feridos, que já estão a ser socorridos pelos bombeiros. Felizmente não há vitimas a lamentar, mas como dizia os feridos são todos ligeiros, excepto aqueles que são mais graves. Vamos tentar falar com os intervenientes mas isto está difícil, porque a policia não nos deixa chegar ao local do acidente, precisamente porque dois dos feridos são os presos que fugiram do tribunal. Vamos então tentar falar com os outros que vão agora para a ambulância, por favor, com licença, em directo, com Agostinho Moravitch para a rádio Estrela do Norte, com licença, Bertinho, Bertinho, que aconteceu?
- Eu tinha prioridade, mais nada!
- Mas como se deu o acidente?
- Eu vinha da estação e ao chegar ao cruzamento, toda a gente sabe que tenho prioridade, passei à vontade, apareceu esse carrão guiado por um idiota qualquer que não respeitou as regras de trânsito e bateu-nos com toda a força.
- Ora muito bem, senhores óbintes, é o relato do acidente na voz de um dos intervenientes, vamos agora tentar falar com outro dos acidentados, um dos fugitivos que foram envolvidos no acidente e recapturados. Com licença, em directo para a rádio Estrela do Norte diga-nos como conseguiram fugir?
- F… foi praga q… que me ro… ro… rogaram. Apa… rece sempre o mes… mesmo gajo. Pre…prefiro ir pre… preso.
- E pronto, senhores óbintes, foi a reportagem possível, as ambulâncias vão a caminho do hospital e nós vamos seguir para lá, se arranjarmos boleia, para estar em cima dos acontecimentos.
 
O Simplício ouviu aquele estardalhaço na rua e virou-se com precipitação para a porta, espalhando as pedras do dominó alinhadas na sua frente. Ao assomar à porta da tasca o coração gelou-lhe ao ver dois automóveis engalfinhados, praticamente em cima do carrinho “novo”, o seu Fiesta que nem um mês tinha na sua mão.
Estava totalmente destruído, não tinha conserto. “Ai, os ovos, bolas esqueci-me” pensou o Simplício, que só agora se recordava que tinha no banco traseiro duas caixas de ovos que a Júlia lhe tinha pedido para ir buscar ao aviário e ele se esquecera de deixar na loja da mulher. Sentiu a cabeça andar à roda, uma tontura e alguém lhe deitou a mão.
- Então Simplício, que é isso? Deixa lá o carro, anda sentar-te e bebe um copo de água.
- Não lhe dês água que ainda lhe faz mal, sabes que ele não está habituado, dá-lhe um bagacinho de medronho, vais ver ele a arribar.
- Isto não é nada rapazes, foi a comoção de ver o meu carro esmagado – Diz o Simplício com a voz trémula.
- Bebe isto que te faz bem – aconselha o Libório, estendendo-lhe um cálice.
 
- Júlia, outra desgraça…
- Que foi mulher, tu não me assustes…
- Não te atrapalhes, foram os ladrões que iam começar hoje a ser julgados, fugiram do tribunal no carro do juiz e foram caçados pelo Bertinho. Agora já estão presos outra vez!
- Então isso é alguma desgraça?
- É, porque o Bertinho provocou um acidente que rebentou com o carro da escola de condução e ainda esmagaram mais uns carros que estavam estacionados.
- Oh diabo, isso é que é pior!
- E ainda não sabes do pior…
- Conta, conta…
- O carro que ficou mais esmagado, só para a sucata, foi o carro do teu homem…
- O quê…?
- É verdade. O carro que ficou pior é do teu Simplício, que estava estacionado em frente à porta do Libório.
- E ele…?
- Estava lá dentro a jogar uma partida de dominó com os parceiros do costume. Parece que apanharam um susto!
- Mas aleijou-se alguém? O Bertinho?
- Foi para o hospital com os outros mas não tem nada de grave. Os que queriam fugir é que estão pior.
 
- Que raio é aquilo amarelo dentro do carro?
- Sei lá, parece tinta…
- Não é nada disso, são ovos.
- Ovos? Ficaram bonitos… Como é que foram ali parar?
- Parece que eram para o Simplício levar para a loja da mulher.
- Oh Simplício – chama um dos mirones - agora a tua mulher vende omoletes?
- Aquilo não são omoletes, são ovos mexidos! – comenta outro.
 
A Júlia teve de levar o marido para a cama porque com a comoção provocada pelos acontecimentos e a anestesia dos bagacinhos de medronho, já nem se percebia nada do que dizia. O Bertinho tinha-lhe telefonado do hospital a contar-lhe a nova aventura e a dizer-lhe que ia fazer uns exames, mas que não devia ter nada partido. O instrutor é que estava pior e iria ficar internado.
 
Na casa da Júlia estavam todos reunidos em volta da mesa da sala de baixo, na cave, onde tinha a cozinha regional e onde costumavam fazer umas petiscadas. Sobre a mesa rectangular, comprida, em madeira envernizada, apenas alguns sumos, cervejas e respectivos copos. De um lado a Júlia, o Zé Bastos e a Suzete; em frente o Martinho e o Lopes de Barcelos, ao fundo da mesa o Januário marido da Suzete que dizia:
- Para já chegam os que cá estão, depois chamamos os outros, quando as coisas estiverem encaminhadas.
- Sim, mas é preciso avançar e nós não vemos nada – dizia o Martinho de modo brusco como era habito.
- Calma, já temos a maior parte das associações controladas, agora o Zé Bastos vai para os bombeiros…
- Mas vai como? Pensas que isso se faz com falinhas mansas? Ele tem de se afirmar como candidato.
- E vai afirmar-se, tem calma. Aquilo está tudo minado, o Chico está velho, basta um abanão e cai sozinho. Deixa lá que já lhe estamos a fazer a cama.
- E o resto? Já tende lista? E contactos? Ainda não fizestes nada que se veja, carago!
- Já temos lista, sim senhor. Vai a Júlia e em terceiro o Zé Bastos.
- Muito bem – diz o Martinho – e quem é o segundo?
- O Bertinho.
- O quê? Mas vocês estão malucos? Que raio de parvoíce é essa?
- Cala-te e ouve a nossa explicação. O Bertinho não é da nossa preferência, nem minha, nem dos outros, mas com as recentes aventuras nas quais foi protagonista, o gajo é mais popular que todos nós juntos. E tem uma sede de protagonismo que nem imaginas.
- Ai imagino, imagino! É disso mesmo que eu tenho medo.
- Mas não precisais de temer nada, porque quem controla o processo sou eu e a Júlia, hum… e o Zé Bastos também. Interessa é ganhar, que depois estou cá eu para coordenar com a vossa ajuda.
- Mas já falastes com ele? Já vos comprometestes?
- Já o abordamos, só para lhe apalpar o pulso, mas ainda não concretizamos nada. Conto falar com ele amanhã, eu e a Júlia.
- E a concorrência?
- Deve ser o Gonçalves e mais dois ou três comunas. O perigo vem do Quim Tita que está por detrás dele e que tem andado a arrastar a asa ao Bertinho. Esse velho é que é perigoso.
- Mas olha que o Gonçalves tem uma “lábia” que enrola meio mundo.
- Tu ainda não viste a minha, – interrompe a Júlia – quando eu puxar ao choradinho ides ver para que lado caem.
 
 
 
publicado por Brito Ribeiro às 21:32
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