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Ago 07
 Retomamos a saga da "Bela e do Monstro" que interrompemos há algumas semans atrás. Como declaramos desde o início, todas as personagens e situações são ficcionadas e não tem correspondencia directa com quem quer que seja.
O largo do Tribunal estava cheio desde as oito da manhã. Dois carros da polícia estacionados discretamente e alguns agentes nas imediações davam um ar mais solene e prenunciavam a chegada eminente dos detidos, dos advogados e das testemunhas.
Alguns jornalistas ainda com ar ensonado preparavam os equipamentos de som e de imagem. O Agostinho Moravitch era o único que já estava em directo e aproveitava para ir entrevistando alguns dos presentes, com a entrada habitual “ora muito bem, senhores óbintes”.
Faltavam dez minutos para as nove, ouve-se uma sirene e aparece um carro à civil com uma luz rotativa no tejadilho, logo seguido de uma carrinha fechada dos Serviços Prisionais e outro carro da polícia a fechar a escolta. Rapidamente abrem a porta lateral da carrinha e saem dois indivíduos algemados, tentando esconder a cara com os casacos, esquecendo-se que eram mais conhecidos que os tremoços, depois daquela aventura rocambolesca do assalto aos correios.
Vários agentes acompanharam os presos para o interior do tribunal e outros barraram a passagem aos inúmeros mirones que se preparavam para entrar de qualquer maneira. Só entravam a conta gotas, depois de apalpados e após passarem por um detector de metais. Em breve a sala de audiências ficou cheia e os que não tiveram a sorte de entrar, ficaram na rua a conversar e a apreciar as movimentações dos jornalistas.
 
Enquanto não se iniciava o julgamento os presos aguardavam numa salinha junto do gabinete do juiz, nas traseiras, com um guarda junto deles.
O gago sentado na cadeira junto à janela lia uma revista antiga que encontrara na sala, enquanto o cúmplice se entretinha a fazer desenhos imaginários com a biqueira dos ténis. O guarda fumava um cigarro e dava pequenos passeios, para lá e para cá entre a porta e a janela.
De repente o gago investe de cabeça contra a barriga do guarda que desprevenido é atingido em cheio, dobrando-se para a frente sem um pio. Imediatamente caiu sem fôlego, acto que o gago aproveitou para lhe acertar um par de pontapés raivosos.
De seguida procurou a chave das algemas que encontrou no bolso da camisa do guarda inconsciente. Depois de livre das amarras que lhe impediam os movimentos dos braços, retirou-lhe a pistola e soltou o pencudo que continuava a olhar de forma aparvalhada para o seu companheiro.
- Então, v…vens ou… ou não vens?
- Para onde?
- Fu… fu… fugir, estúpido!
- Fu, fu, o quê?
- Pi… pi… pirarmo-nos!
- Não percebo nada. Agora é pi, pi, mas o quê?
- Bu…rro. Anda co… comigo.
O gago entreabriu a porta e espreitou para o corredor. No fundo deste, um guarda estava encostado à parede. Por ali era difícil sair, sem ter de começar aos tiros. Se isso acontecesse ficava em desvantagem, porque haviam muitos polícias nas redondezas e rapidamente iriam cercar o tribunal.
Fechou a porta silenciosamente, aproximou-se da janela, depois de ferrar outro pontapé na cara do guarda, que lentamente recobrava conhecimento. Da janela do primeiro andar era fácil alcançar o pátio das traseiras, onde estavam estacionados vários carros pertencentes aos advogados e aos juízes. Por baixo da janela, nem de propósito, estava estacionado um monovolume, que encurtava a distância ao solo.
Aberta a janela, passou uma perna para o exterior, olhou em todas as direcções e saltou suavemente para o tejadilho do carro. Daí escorregou para o chão e colado a carroçaria chamou pelo parceiro, que em duas pernadas se lhe juntou.
Escolheu um Alfa-Romeo encarnado, experimentou a porta mas estava fechada. Levantou a pistola para rebentar o vidro com a coronha, quando o pencudo lhe diz:
- Olha, este está aberto!
Era um dos novos Mercedes, que por acaso pertencia ao juiz que ia presidir ao julgamento, estava aberto e com a chave na ignição. O pencudo instalou-se ao volante, mas foi violentamente puxado do exterior pelo gago, que lhe disse:
- Fo…fora daí. Q…uem gui…a sou, sou eu.
 
Motor em marcha, o gago ao volante e o pencudo encolhido no banco do lado direito, o carro arranca suavemente e dirige-se para a saída do parque. Na rua em frente ao parque, um polícia manda, com autoridade, parar o trânsito para o reluzente Mercedes passar. O gago nem queria acreditar, paravam o trânsito, deixavam-no passar e ainda lhe faziam continência. “Que grande polícia nós temos, haviam de ser todos assim”. E afastam-se calmamente em direcção à periferia e à liberdade.
Deram a volta à praça do mercado, subiram ao longo da avenida e quando passavam o cruzamento da rua que levava à estação, pareceu-lhes que o céu lhes caiu em cima.
Algo bateu com uma força incrível no lado direito do Mercedes, que foi projectado contra outros carros que estavam estacionados ao longo da rua. Os air-bags rebentaram o que contribuiu para aumentar a confusão.
O gago tentou abrir a porta esquerda mas estava esmagado contra um dos carros estacionados. Olhou para o lado direito e viu o capot fumegante do outro carro, o que os tinha abalroado, perigosamente perto do pencudo que em choque olhava para ele com os olhos esbugalhados. Estava encurralado, só lhe restava sair pelo para brisas. Quando se preparava para levantar uma das pernas para forçar o vidro, uma dor aguda subiu-lhe ao longo do corpo, deixando-o sem acção.
Olhou para a perna direita e admirou-se com o ângulo impossível que apresentava. Custava-lhe a crer, tinha uma perna partida e nem dera por isso. Pronto, acabara-se a fuga. Que raio de azar!
Cada vez mais gente se juntava em roda dos veículos acidentados, até que apareceram uns polícias que estavam ali perto, no exterior do tribunal, e reconheceram de imediato os ocupantes do amachucado Mercedes. Do outro veiculo estavam a retirar os dois ocupantes. Um senhor de meia-idade que tinha um golpe profundo na testa e o condutor, um moço alto que não se tinha nas pernas, aparentemente sem ferimentos de maior.
O gago, ainda encerrado dentro do habitáculo luxuoso do Mercedes, olhava para o outro condutor, com a boca aberta de espanto:
- Não po…de ser. Ou… outra vez o mes…mes…mo gajo. Vou da…dar-lhe um, um, ti…ti…tiro.
E procurou a pistola que tinha entalado no cós do cinto e que, com o embate tinha saltado, rebolado no piso do carro.
Fez um esforço para se dobrar, a dor na perna era insuportável quando se mexia, conseguiu chegar-lhe com a ponta dos dedos, arrastou-a até a empunhar decididamente, levantou a cabeça e embateu nos queixos do pencudo que se tinha inclinado para ver o que o cúmplice fazia. “Pum”, ouviu-se dentro do carro, o gago olhava aparvalhado para a pistola fumegante, ao seu lado o pencudo berrava, parecia que o estavam a esfolar
- Mer…da, que foi que… que te d…deu?
- Filho da puta, deste-me um tiro, vou-te meter a pistola pelo cu acim…
- Larga a pistola!
- Mãos no ar!
Eram os polícias que no exterior apontavam as armas para o interior do Mercedes, depois dos primeiros momentos de admiração.
- Vamos, não ouviste? Larga a pistola, senão disparamos.
Lentamente o gago deixou cair a pistola e levantou as mãos contra o para brisas do Mercedes. Ao seu lado o pencudo apertava a perna onde alastrava uma mancha de sangue.
 
Ouvem-se as sirenes das ambulâncias, saem os socorristas, os polícias tornaram a algemar os presos que são desencarcerados no meio de muitos queixumes. Um com a perna partida, outro com a dita furada a tiro.
Os ocupantes do outro carro recebiam a primeira assistência sentados na beira do passeio até serem encaminhados para uma ambulância.
O automóvel que ocupavam, um Volkswagen verde com publicidade de uma escola de condução, estava com a frente desfeita contra o lado direito do espampanante Mercedes, que só parou depois de esmagar um carro pequeno e já antigo, ao qual lhe era difícil identificar a marca e o modelo, tal era o estado em que ficou.
Jornalistas com câmaras e microfones corriam para cobrir o acontecimento, Agostinho o pivot da rádio local foi o primeiro a chegar e ainda teve oportunidade de entrevistar em directo alguns dos acidentados.
 
 
publicado por Brito Ribeiro às 23:43
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