Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

31
Dez 17

Para terminar o ano deixo-vos um conto policial que escrevi em 2010 e ao qual perdi o rasto neste intricado labirinto de arquivo digital. Hoje, por acaso, encontrei-o. Espero que gostem.

 

Coçou a orelha direita e deixou-se ficar encostado à ombreira da porta que dava para o longo corredor. O inspector Maurício seguia com olhar as idas e vindas dos elementos da brigada técnica que recolhiam os vestígios possíveis.

- Raio de sítio para um gajo esticar o pernil – observa o Cabral espreitando para dentro da sala – Encontraram alguma coisa?

- Não… e tu?

- É pá, cambada de murcões… ninguém sabe nada. Não viram o gajo chegar e a sala devia estar fechada.

- Quem é que tem a chave?

- Deve haver uma dúzia de chaves pelo menos. Desde as gajas da limpeza, aos professores, o segurança… sei lá, são mais que as mães!

- Vais apurar isso de seguida e aproveitar para dizer-lhes que não saem daqui até novas ordens. Temos de os começar a interrogar em seguida… O Ramos deve estar aí a chegar e vêm um ou dois estagiários para ajudar.

- Ajudar ou estorvar, carago! Sabes bem…

- Deixa-te de coisas, que tu também foste maçarico… Vai lá saber da questão das chaves e diz ao segurança que venha ter aqui comigo. – Atalha o inspector da Judiciária.

Dentro da sala um dos técnicos esvaziava os bolsos ao cadáver que teve de ser virado pois fora encontrado de bruços. Uma grande mancha de sangue tinha ensopado a camisa de flanela na zona do peito.

- Passa-me a carteira – pede o Inspector enquanto enfiava umas luvas de látex.

A carteira preta era fina, vulgar, em material sintético e fechada com velcro. No interior a carta de condução, o bilhete de identidade, um talão de compras de uma conhecida loja de material electrónico e um cartão multibanco. Indiferente, voltou a entregar a carteira que foi fazer companhia aos outros objectos retirados do cadáver e acondicionados num saco de plástico transparente.

- Foi o senhor que me mandou chamar? – pergunta um homem fardado no meio do corredor.

- Aaah… o segurança! Sim, quero perguntar-lhe umas coisas. Não é um interrogatório formal, mas preciso que me elucide sobre o ambiente aqui na escola.

-Sim senhor, estou à sua disposição.

- Há por aqui algum sítio onde se pode falar…

- Uma das outras salas ou então temos lá ao fundo uma pequena sala de convívio usada pelos funcionários.

- É longe?

- É ali ao fundo, à esquerda e não deve estar lá ninguém a esta hora.

- Então vamos lá.

O segurança percorreu o corredor um passo à frente do inspector que aproveitou para melhor o apreciar. Calças e blusão da farda cinzentos, um crachá brilhante ao peito com a insígnia da empresa. Cerca de um metro e oitenta, crânio rapado a disfarçar uma calvície precoce, não deveria ultrapassar os trinta e cinco anos.

- Então diga-me lá, o homem era presidente da associação de estudantes?

- Exactamente.

- Mas ele já não é novo!

- Pois não, ele já está na escola há muitos anos.

- Estou a ver, não ligava nada aos estudos e a família…

- Não é isso – interrompe o segurança – ele já está a fazer o terceiro curso.

- Não tinha mais nada que fazer?

- Ele tem uma empresa de alumínios… Acho que tem um sócio. Não sei bem.

- Sabe o nome da empresa?

- Não sei o nome da firma, mas ele é de Santa Marta.

- De Penaguião? Tão longe?

- Não, senhor inspector. Estou a referir-me a Santa Marta de Portuzelo. Aqui perto na estrada para Ponte de Lima.

- E da chave da sala que me diz?

- Todos os professores que dão aulas nessa sala têm a chave. Eu tenho outra na portaria e uma no chaveiro central.

- E o pessoal de limpeza?

- É verdade, já me esquecia.

- Hoje de manhã o falecido… tenho aqui anotado o nome… Exactamente, Jorge Gonçalves! O que eu quero saber é se o viu entrar?

- Não senhor, pela porta principal não passou.

- Tem a certeza?

- Absoluta, absoluta… não!

- Porquê?

- Porque houve um momento que fui ao WC e mais tarde fui ao gabinete do Sr. Ricardo dar-lhe um recado.

- Onde?

- Na secretaria, foram só uns segundos, mas podia muito bem ter entrado nesse momento e eu não o ter visto.

- Tem alguma ideia do que podia estar a fazer na escola logo de manhã?

- Que saiba não havia nenhuma reunião agendada e não faço ideia o que o levou até àquela sala.

- O Jorge Gonçalves tinha lá aulas habitualmente?

- Ele é de desporto que só usam as salas novas.

- Explique-me isso que não estou a perceber.

- Ele é aluno… huum… era aluno do curso de desporto, que só tem aulas teóricas na parte nova da escola. Posso levá-lo lá se quiser…

- Mais tarde. Quer dizer que o crime foi cometido numa das salas antigas.

- Exactamente, senhor inspector.

- Sabe se ele tinha algum problema com alguém? Um colega ou professor…

- Não lhe sei dizer. Repare, eu pouco lido com os alunos, apesar de os ver passar todos os dias à minha frente ao entrarem e à saída. Da maior parte, nem sei os nomes, nem os cursos. Apenas os conheço de vista…

- Mas este era bem conhecido.

- Claro, já fazia parte da mobília, como se costuma dizer. Além disso passava muito tempo na associação…

- Que tem instalações na escola…

- Exactamente e bem perto daqui, por sinal.

- Sim?

- Por trás deste espaço há umas escadas que levam às duas salas da associação de estudantes.

- E já foi lá alguém ver se estava tudo normal?

- Quando chamamos a polícia fui lá com um agente e a porta está fechada.

- Entraram?

- Não senhor…

- Tem as chaves dessa porta?

- Tenho… quero dizer, não! Estão na portaria.

- Então vá buscá-las para darmos uma vista de olhos.

Enquanto aguardava, o inspector Maurício tirou do bolso a caixa das cigarrilhas e meteu uma entre os lábios. Percorreu o largo corredor para lá e para cá distraidamente, olhando para o campo de jogos relvado que ocupava todo o espaço traseiro do recinto escola. Voltou a guardar a cigarrilha enquanto reflectia sobre o que levaria um aluno, que era também presidente da associação de estudantes a comparecer às 9 da manhã de um dia de férias numa sala de aulas. Sobre a causa da morte não subsistiam grandes dúvidas, pois eram visíveis dois golpes profundos no lado esquerdo do peito, apesar de não terem ainda encontrado a arma do crime. Uma faca bastante fina ou um estilete tinha-lhe dito o técnico que examinara o cadáver.

- Preciso de um café – resmungou e dirigiu-se para o bar quando viu o segurança avançar na sua direcção. Deu meia volta e encaminhou-se para as escadas estreitas que levavam a sede da associação de estudantes.

Quando o segurança abriu a porta e viram uma sala que se tinha como iluminação natural a luz que se esgueirava pelos acanhados postigos posicionados ao nível do jardim. A sede estava a precisar de uma boa arrumação pensou o inspector ao avançar para a sala do fundo, um misto de sala de reuniões e gabinete da direcção. Parou à porta ao distinguir um vulto caído sobre a puída carpete.

- Outro…

- Outro, quê, senhor inspector?

- Outro corpo, carago… Esta merda vai-nos dar que fazer… Vá lá acima dizer a um dos técnicos que venha cá. Eu fico por aqui.

Pegou no telemóvel, ligou para o inspector chefe Peres a comunicar a descoberta e a pedir reforços perante o avolumar de trabalho que iria ter pela frente.

- Tenha paciência mas de momento não tenho ninguém para o ir ajudar – dizia-lhe o chefe - Vá-se desenrascando com o seu pessoal, mais logo, quando tiver gente livre envio-os aí para Viana… Antes que me esqueça, tenha cuidado…

- Com a imprensa! Já sei, chefe, já sei!

- Ponha esses calões da PSP a trabalhar! Estão mal habituados, só a passar multas e com o cu alapado na cadeira.

O inspector Maurício sorriu ao pensar que o Peres passara os últimos quatro anos com o “cu alapado”, como ele dizia, desde que fora promovido a inspector chefe.

- Se um dia lá chegar, até fico apanhado só de pensar que tenho de estar o tempo todo a folhear relatórios que nem para limpar o cu servem – dizia o inspector Maurício aos colegas, quando o tema de conversa caía nas sempre polémicas promoções e nos louvores atribuídos.

O cadáver encontrado na sala da associação foi rapidamente identificado como sendo de um aluno de gestão artística, que também pertencia à direcção da associação de estudantes.

Os agentes Ramos e Cabral tinham-se instalado em duas salas de aulas e começaram os interrogatórios sob um coro de protestos dos professores, que se viam impedidos de sair das instalações. Os dois estagiários desdobravam-se em múltiplas diligências, mais parecendo moços de recados que agentes de investigação criminal.

O inspector Maurício tivera uma entrevista com a directora da escola e o director de serviços académicos mas tinha sido inconclusiva. Ninguém tinha ideia do que tinha acontecido. A esperança residia nos vestígios que os técnicos estavam a recolher, mas todos tinham consciência que estavam num espaço utilizado diariamente por centenas de alunos, professores e funcionários. Nem queria imaginar a quantidade de impressões digitais que os técnicos de dactiloscopia teriam de analisar.

Depois de engolir no bar da escola uma sanduíche de fiambre e um sumo, convocou a sua equipa para um pequeno brienfing que teve a particularidade de se realizar no exterior junto à entrada, de forma a puder saborear a cigarrilha que passara a manhã a sair e a entrar na caixa.

- Estes gajos estão a procurar proteger-se uns aos outros.

- Ó Ramos, isso nem parece teu. Então achas que nos iriam dar pistas que os pudessem incriminar.

- Bem, afinal o que apuraram nos interrogatórios que efectuaram? – Pergunta o Maurício.

- Ninguém os viu entrar na escola, não foi Cabral?

- Pois foi… Mas os gajos foram assassinados há poucas horas… Que é que disse o Dr. Pimenta?

- O exame preliminar aponta o momento do óbito para um intervalo entre as sete e as oito da manhã… e a família deles confirma que passaram a noite em casa. A PSP já encontrou os seus automóveis?

- Ainda não senhor inspector – diz um dos estagiários – mas o mais novo… aquele que foi encontrado na cave da associação, tem o carro estacionado à porta de casa.

- Será que o outro o foi buscar?

- Falei com a irmã dele e ela ouviu-o sair de casa, mas não se apercebeu do barulho de algum automóvel a arrancar.

- Continuem com os interrogatórios que eu vou falar com o comissário da polícia. Vocês – virando-se para os estagiários - vão passar a pente fino as imediações da escola. Já vi uma estação dos correios e do outro lado há um bairro. Deve haver algum café ou mercearias… Interroguem os comerciantes e se encontrarem algo relacionado com o caso, chamem de imediato o Ramos ou o Cabral. Entendido?

 

 

- Resumindo, andamos às aranhas… concluiu o inspector chefe Peres, recostando-se na cadeira.

- Às aranhas não andamos, mas também não temos muito a que nos agarrar… – responde o inspector Maurício, sabendo que não adianta nada argumentar com o chefe.

- Bem… recebi um telefonema relacionado com o caso que tem de ser levado em consideração… Assunto sob reserva…

- Mau…

- Temos os Serviços de Informação metidos no assunto.

- Qual deles? O SIS?

- Exactamente. O tipo da associação de estudantes era agente deles.

- O presidente?

- Sim – Admite o inspector-chefe soltando um longo suspiro.

- E o outro?

- Não tinha qualquer ligação com essa gente.

- Então vamos abandonar a investigação?

- Não, eles estão igualmente preocupados, porque não encontram ligação com as tarefas desse agente… pelo que percebi ele nem sequer tinha nada entre mãos, não tinha qualquer dossier à sua responsabilidade.

- Limitava-se a vigiar..

- A coçá-los, diz muito bem… e nós a descontar para esses inúteis… Agora que pretende fazer?

- Regresso a Viana após falar com o dr. Pimenta e com alguém do laboratório.

- Mantenha-me informado e tenha cuidado com…

- Os jornalistas! – Rematou o inspector Maurício, que conhecia de ginjeira o discurso do chefe.

- Isto é pólvora, Maurício! Se cai nas malhas desses gajos, pfff…

 

 Reunidos à volta da mesa onde tomavam o pequeno-almoço, os investigadores ouviam o resumo feito pelo inspector Maurício.

- O patologista diz que foi com uma faca de escalar peixe ou algo semelhante o que nos abre outras possibilidades; podemos estar a lidar com um pescador ou pelo menos alguém que tem acesso a esse tipo de facas, em casa ou no trabalho…

- Ó pá… e o motivo carago?... não temos um motivo que justifique estes assassinatos – enerva-se o Cabral – A não ser que fossem paneleiros e viessem…

- Deixa-te disso! Já investigamos por esse lado e nada. É provável que hoje ou amanhã tenhamos a listagem com os telefonemas deles.

Toca um telemóvel, o inspector Maurício olha para o visor, franze o sobrolho, atende com um “sim” expectante.

- O próprio, não incomoda nada… diga comissário.

- …

- Vou imediatamente… Isso é para norte?

- …

- Quinze quilómetros, Sereia da Gelfa… logo a seguir, à esquerda – repete o homem da Judiciária, desligando o telefone.

- Encontraram o automóvel do Jorge Gonçalves abandonado, junto ao mar, na praia da Gelfa.

- Eu sei onde fica – diz um dos estagiários – é uma zona isolada, tem um pequeno castelo e um sanatório para malucos, mas acho que está fechado.

- Eu vou lá ver, vocês continuam com os trabalhos em curso.

 

Estacionou quando o agente da GNR o mandou parar e dirigiu-se para o bosque de austrálias que invadiam as dunas litorais. Para trás ficara o Forte do Cão, umas ruínas do século dezassete a precisarem de intervenção sempre adiada pela razão tão velha como a nacionalidade, a falta de verbas. Ao longe avistava-se uma povoação subindo a encosta do monte e uma imensa língua de areia dourada, a praia de Âncora.

Uma área tinha sido delimitada com fita plástica multicolor e vários agentes da GNR observavam os trabalhos de dois colegas do núcleo de investigação criminal. Depois de feitas as apresentações informaram-no que o automóvel fora encontrado aberto, com as chaves na ignição e sido alvo de limpeza de impressões digitais. Volante, alavanca de velocidades, manípulos de portas e outros pontos tinham sido limpos antes de o abandonarem, o que revelava a precaução consciente dos criminosos. Era ponto assente que estavam a lidar com mais de uma pessoa porque o lado direito do carro também tinha sido limpo. Dois, pelo menos, provavelmente três, porque alguém os deve ter vindo recolher àquele ponto ermo da Praia da Gelfa.

- Já vem a caminho um reboque para levar o automóvel ao laboratório. Façam-me o favor de verificar nas imediações se há algo de interesse. – pediu o inspector Maurício.

- Já demos uma volta por aí, mas vamos repetir com mais calma – informa o sargento da GNR – Amílcar e Pereira vão com o cabo Presa para o norte, por ali; os outros vão para aquele lado. Atenção, qualquer indício deve ser sinalizado…

- Já agora… - interrompe o inspector – prestem atenção a alguma situação de solo revolvido. Deve estar tudo coberto de folhas secas, não é fácil distinguir, mas pode ser importante.

 

Entre duas garfadas de esparguete atende o telemóvel, a Rosa saía de serviço no Hospital de S. João à meia-noite e não lhe agradava passar a noite sozinha. Não teria outro remédio…

- Sei lá, isto está complicado. Talvez amanhã… Tenho uma chamada da directoria em espera, desculpa… um beijo.

Do laboratório informaram-no que o automóvel encontrado poucos indícios revelava, mas um dos cães treinado na detecção de explosivos sinalizou claramente um transporte recente na bagageira.

- Andaram a transportar explosivos no carro.

- Encontraram vestígios? – Perguntou o Ramos sem levantar o olhar da costeleta de novilho que lhe enchia o prato.

- Foi o cão que detectou o cheiro.

- Dois cabrões esticados! Um deles era bufo na escola! Agora um carro que transporta explosivos… só nos falta dar de caras com uns gajos da ETA – resmunga o Cabral com a habitual linguagem de calão da Ribeira, mais propriamente da Cantareira.

- Já pensei nisso e temos que abordar a caso também por esse prisma, mas agora vamos apanhar com o SIS em cima… de certeza. O chefe já lhes deve ter telefonado.

- Então amanhã temos esses maricões a meter o nariz nos nossos cus!

- Tenho de ir ver o e-mail que o Dr. Pimenta me enviou com os dados preliminares da perícia ao automóvel. Aguentem aqui, vou ao quarto ligar o portátil e já venho.

 

O relatório revelou-se pouco esclarecedor. Na bagageira, onde o cão tinha detectado o odor de explosivos foram encontrados alguns grãos de areia grosseira e terra com elevados níveis de azoto.

- Provavelmente puseram um plástico a cobrir o fundo do carro e ao retirarem-no caiu um pouco de terra. Eles estão a fazer análises comparativas para ver se detectam a região de origem.

- Inspector – começa um dos estagiários, algo acanhado – ocorreu-me uma ideia…

- Diga, diga…

- Azoto é um fertilizante, um adubo e há zonas onde misturam areia na terra para a tomar mais macia, melhor, menos compacta e mais apropriada para certas culturas.

- Está a falar-nos de terrenos agrícolas?

- Humm… Exactamente, inspector. Estou a falar de terrenos de cultura intensiva. Possivelmente estufas…

- Onde?

- Talvez na zona da Póvoa de Varzim.

- Porquê na Póvoa? Pode ser noutro lado qualquer!

- Poder, pode… Mas na zona da Póvoa é vulgar misturar areia grossa na terra e no relatório falam de “areia grossa”. Mais, na Póvoa produzem hortícolas que precisam de muito azoto para se desenvolver. Não fala de níveis elevados de outros fertilizantes, apenas azoto.

- Bem pensado, vale a pena investigar.

- É pá onde é que aprendeste isso da agricultura? – Pergunta o Ramos intrigado.

- Os meus pais são comerciantes, mas os meus tios e os meus avós são agricultores… na Apúlia.

- Já que tens ligações à zona e ao meio vais auxiliar o Ramos a averiguar se há alguma conexão entre as vítimas e a zona da Póvoa.

 

- Sente-se e conte-me como é que arrumou o caso de Viana – convidou o inspector chefe, fechando a pasta que tinha à sua frente.

- Um caso complexo. Nem faz ideia das voltas que aquilo levou… Quem diria!

- Faça-me um resumo. Os pormenores ficam para o relatório.

- A chave estava nos grãos de areia e terra encontrados na mala do carro. Um dos nossos estagiários estabeleceu ligação com a zona da Póvoa de Varzim que coincidia com a morada da namorada do Jorge Guimarães e apurou-se que ela possuía várias estufas em A-Ver-O-Mar, não sei se sabe onde…

-Eu sei, continue!

- Ao princípio refugiou-se na choradeira do costume, mas quando recolhemos uma amostra da terra das estufas, falamos dos explosivos e de levar lá o cão para farejar… abriu-se toda! Atirou com as culpas para o namorado falecido, que a convencera a enterrar uns bidões plásticos, que de início ela pensara que era droga, mas que ele lhe mostrara que tinham apenas explosivos para serem usados pelos pescadores das traineiras. Algo inofensivo, no dizer dela.

- Para a pesca da sardinha?

- Sim… Principalmente para a sardinha. Parece-me que também se usa para outros peixes, desde que estejam em cardume. Fazem um cerco com as redes, atiram o explosivo lá para o meio e o peixe ou morre na explosão ou foge e vai ao encontro da rede. Mas eu de pesca… pouco sei. O que sabemos agora é que o tipo da associação de estudantes alem de ser agente do SIS, contrabandeava explosivos que comprava numa empresa da Póvoa de Lanhoso. Também já os entalamos, porque aquilo era uma vigarice pegada… Parecia um supermercado de material explosivo. Amonite, gelamonite, goma2, havia de tudo! Continuando… Depois enterrava o material nas estufas da namorada, tudo acondicionado dentro de uns bidões plásticos herméticos e vendia a retalho a alguns mestres de traineiras de Viana, da Póvoa e principalmente de espanhóis de Vigo e de outros portos da Galiza. O problema é que o tipo além de vender ainda quis fazer chantagem com um dos armadores, um tal Gallardo de Pontevedra, quando se apercebeu que o tipo revendia parte do material a outros e que acabavam por se perder não se sabe bem onde.

- País Basco? – Pergunta o inspector Chefe Peres.

- Não sabemos… É possível. O Jorge Gonçalves queria os contactos do Gallardo para fazer directamente o negócio ou ameaçava-o acusar perante a polícia espanhola de fornecedor dos terroristas.

- Que filho da mãe…

- O que ele não sabia é que o Gallardo é cunhado de um professor da escola e lhe montou uma armadilha ao marcar…

- O professor? – Interrompe o inspector chefe Peres.

- Bem… agora atiram as culpas um para o outro. O mais provável é que o professor soubesse que era uma armadilha, mas provavelmente pensou que o cunhado apenas queria meter um susto aos dois rapazes. Foi o professor que abriu uma porta de emergência nas traseiras, perto da sede da associação de estudantes, ao espanhol e mais tarde aos outros dois que foram habilmente separados e assassinados.

- Só não percebo porque é que o outro rapaz da associação foi ao tal encontro, se efectivamente não tinha qualquer participação no negócio dos explosivos.

- O Jorge Gonçalves levou o colega da Associação por segurança. Devia pressentir que o Gallardo era perigoso. Está detido em Pontevedra e o juiz de instrução já emitiu o respectivo pedido de extradição.

- E como descobriram o professor?

- Pelas impressões digitais deixadas na barra de abertura da porta de emergência. O normal seria encontrar impressões do pessoal auxiliar e dos seguranças, não de um professor. A partir do momento que detectamos o relacionamento familiar com o Gallardo foi simples pôr o melro a cantar. Por algum motivo ele era professor de música…

 

 

 

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 13:20
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Dez 17

A Confraria da Senhora da Bonança tem origem em Carreço em data indeterminada, regendo-se desde 1727 por Estatutos aprovados a 22 de Novembro, pelo Arcebispo de Braga D. Rodrigo de Moura Teles.

Sabe-se que estes novos estatutos vieram substituir outros mais antigos que eram “supérfluos em alguas couzas e em muitas deminutos”, conforme se pode ler no 1º acórdão do “Livros dos acordos da Irmandade da Senhora da Bonança, da freguesia de Carreço”.

A mesa era constituída por um juiz, um escrivão, um procurador, um tesoureiro e oito mordomos, sendo dois por cada lugar da freguesia. A função de tesoureiro era da maior importância pois cabia-lhe zelar pelo património, desde o arrolamento dos bens doados até ao abate dos bens deteriorados, além das tarefas próprias de tesouraria como gerir o “dinheiro a juro”. Não tinha porém autonomia para receber, vender ou destruir bens, ficando-se pela elaboração do rol desses bens e apresenta-los à mesa da confraria. Igualmente competia-lhe manter as alfaias do culto em condições, fornecer a cera para as missas e funerais, levar a cruz no funeral de algum “irmão”, sob pena, nã cumprindo estas obrigações de pagar uma multa em dinheiro. O tesoureiro tinha também a incumbência de liquidar os anuais e não podia emprestar dinheiro sem licença da mesa ou na ausência do pároco, bem como admitir, por sua conta, novos irmãos, algo que seria usual antes da aprovação dos estatutos de 1727.

Igreja de Carreço (2).JPG

Visto que a freguesia se dividia em quatro populosos lugares, Troviscoso, Carreço, Montedor e Paçô, prestando cada um dos mordomos durante o ano, mês e meio de serviço efectivo, sendo sua obrigação:

  • Acender duas velas no altar da Senhora da Bonança aos domingos e dias santos durante a missa conventual à qual eram obrigados a assistir junto ao altar da Senhora com as opas vestidas;
  • Participar nas reuniões da Confraria;
  • Fazer o peditório aos domingos na igreja;
  • Pedir esmola pelos lugares no S. Miguel;
  • Acompanhar os irmãos falecidos no seu funeral com as opas vestidas e velas acesas;
  • Acompanhar os defuntos que não sendo membros da confraria, manifestassem vontade de ter o funeral como se o fossem;
  • Limpar os castiçais e manter asseado o altar;
  • Os mordomos do lugar eram obrigados a acompanhar o funeral dos descendentes de um irmão, desde que menor de catorze anos;

A Confraria tinha também influência na vizinha freguesia de Afife, que contava com um tesoureiro que prestava contas à mesa e entregava os montantes recebidos ao tesoureiro da Confraria.

Embora não fizessem parte da mesa, os párocos locais podiam assistir à eleição e confirmar os votos dos membros da mesa; o capelão deveria ser prioritariamente o coadjutor da freguesia, a quem cabia dizer as missas da capela, zelar pelo altar e informar a mesa das faltas que eventualmente os mordomos cometessem.

Pelo rol dos irmãos verifica-se que muitos residiam em Viana, Areosa, Afife e Gontinhães, chegando alguns deles, designadamente padres, a ocupar cargos de chefia na confraria.

A confraria tinha obrigações a cumprir em favor de irmãos falecidos e em relação ao culto que devia prestar à Senhora da Bonança.

Cada irmão que falecia tinha direito a doze missas, acompanhamento dos mordomos com as velas acesas e opas vestidas. Os mordomos faltosos pagavam de multa cinquenta reis.

A obrigação de culto estava voltada praticamente para a festa que se realizava no segundo domingo de Maio, com vésperas cantadas, missa, sermão e procissão no fim da missa à volta da igreja.

A mesa da Confraria era eleita no dia da festa da Senhora da Bonança e tinham de estar presentes todos ao elementos da mesa cessante. Se faltasse algum recorria-se a quem já tivesse feito parte da mesma e recomendava-se precaução para que fossem escolhidas “pessoas capazes e que dellas se espere serem zelosas pera a Confraria”.

Dois meses depois da eleição reunia-se a mesa para tomar conhecimento da situação da Confraria, o tesoureiro cessante apresentava contas escrituradas no livro respectivo, que era depois assinado por todos. No período entre a festa e o mês de Julho, o tesoureiro esforçava-se por cobrar todas as importância devidas, nomeadamente os anuais, sob pena de ser ele a repor o dinheiro em falta. No mês de Agosto reunia-se novamente a mesa para que os mordomos prestassem contas e entregavam a chave do “caixão” da cera aos novos mordomos. A mesa reunia obrigatoriamente no mês de Novembro e em Maio, para preparar a festa que se avizinhava. Não obstante esta obrigação, reuniam as vezes que entendessem necessário. Estas reuniões só tinham validade se estivessem presentes sete ou oito pessoas. Porém, os mordomos por si só não constituíam quórum, porque era necessária a presença do juiz, do escrivão e do procurador. Na falta do juiz, este era substituído pelo escrivão. O pároco devia também assistir às reuniões, esclarecendo as dúvidas surgidas e tinha tal como os demais direito a voto

A Confraria possuía um conjunto de livros onde era plasmada a vida da mesma. Apenas o escrivão os podia escriturar e só em reunião da mesa os outros elementos assinavam os documentos (actas, contractos, escrituras, inventários, contas, etc.). Os livros estavam permanentemente fechados, sendo confiadas as chaves ao tesoureiro, que por necessidade e inerência de funções, tinha em sua posse o livro dos contractos e dos anuais.

Uma das fontes de rendimento, além das cotas dos irmãos, aqui designadas por “anuais”, esmolas, peditório na missa e multas, era o empréstimo de dinheiro a juro de 5%, não podendo ser emprestado à mesma pessoa mais do que cinco mil reis.

Os “anuais” variavam conforme a idade dos candidatos a “irmão”. Quanto mais velho mais pagava por “se deixarem andar tanto sem se meter por Irmãos desta Santa Confraria”.

A devoção à Senhora da Bonança ainda que muito antiga tem a ver com o mar e os pescadores. A freguesia de Carreço tinha uma comunidade piscatória reconhecida, que nos meses de verão retirava sustento do que o mar lhes oferecia, dedicando-se à lavoura nos restantes meses do ano. Por isso se construíram barracos de aprestos e um portinho no Lumiar, bem como barracos nos lugares de Paçô e Fonte da Vila.

Também nestas enseadas naturais, durante os meses de verão, atracavam os pescadores da Lagarteira, descarregando peixe que era vendido em Carreço. Areosa e Afife.

E assim começou a devoção dos pescadores ancorenses ao culto da Senhora da Bonança. Igualmente os pescadores de Viana manifestavam devoção à Santa, sendo usual as mulheres da Ribeira de Viana, por motivo de temporal ou de naufrágio, peregrinavam a pé, com traje escuro e vela acesa na mão, pedir à Senhora da Bonança a calma das águas e dos ventos, assim como agradecer graças recebidas.

Em Vila Praia de Âncora, ou melhor no Lugar da Lagarteira da freguesia de Gontinhães, à falta de uma padroeira dos pescadores, o culto teve origem na Senhora das Necessidades, com capela erguida em 1760 pelo abade Gonçalo Pinto Medeiros de Carvalho.

SIPAImage.jpg

Por volta de 1889, essa pequena capela é demolida e no mesmo local é erguida uma capela mais ampla, ainda dedicada à Senhora das Necessidades e mais tarde à Senhora da Bonança, pois o culto crescia continuamente, ao contrário de Carreço, onde a Confraria entra em declínio e o culto esmorece. Sem qualquer oposição dos habitantes de Carreço, o culto à Senhora da Bonança passa para a nova capela de Gontinhães com festividade marcada para o segundo domingo de Setembro, ao contrário da festividade em honra da Senhora das Necessidades, que se realizava na segunda-feira de Pascoela. Esta festividade realizou-se até aos anos sessenta do século passado, quando em consequência da reforma do calendário religioso saído do Concílio Vaticano II, caiu em desuso, extinguindo-se a festividade.

SIPAImage (1).jpg

A festa da Senhora da Bonança começou a realizar-se em Gontinhães no ano de 1882 e poucos anos depois era já um marco nas romarias do Alto Minho. Em 1893 um grupo de pescadores ofereceu o altar de Nossa Senhora da Bonança.

Em Carreço resta o altar barroco da Senhora da Bonança do século XVIII, com uma imagem moderna, bem proporcionada, que sai anualmente para integrar a procissão da Senhora da Graça, levada aos ombros pelos poucos pescadores que restam na freguesia.

Sobre a festividade da Senhora da Bonança pode consultar este post. http://vilapraiadeancora.blogs.sapo.pt/origem-da-festa-da-senhora-da-bonanca-116362 

publicado por Brito Ribeiro às 11:44
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