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01
Fev 17

Desde criança que ouvia falar do Convento ou Mosteiro de Bulhente; muitas vezes por lá passei, onde se via uma parede incompleta pertença de uma edificação, fosse mosteiro ou outra coisa qualquer. Há dias por ouvir um amigo referir-se ao dito, decidi debruçar-me um pouco sobre o assunto e passar o resumo a escrito.

Popularmente, sobre este convento avançavam-se as mais fantasiosas lendas, onde se misturavam tuneis secretos, frades, freiras e não sei que mais para apimentar a estória.

Porém, o rigor histórico não se compadece destas fantasias e consultando alguns dados sobre esta matéria, cedo nos assolam dúvidas mais que fundadas sobre a existência de um convento na medieva freguesia de Bulhente.

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Cruzeiro de Bulhente - Rampa do Calvário

A primeira referencia a S. Salvador de Bulhente surge em 1258 e nos séculos imediatos não se encontra o termo “mosteiro” aplicado à igreja paroquial existente.

Na acta de inquirição de 1258, mandada executar por D. Afonso III, feita em St.ª Maria de Caminha sobre Bulhente, conclui-se que era uma aldeia povoada há relativamente pouco tempo, talvez aquando da presúria de Paio Vermudes no século XII, onde os povoadores ergueram uma ermida consagrada ao Divino Salvador, usufruindo por isso de padroado, que lhes permitia apresentar clérigo para celebrar actos de culto. Tinham obrigação de pagar foro ao rei pelas terras outorgadas e o dote desta igreja devia ter alguma importância, pois eram cobiçados pelos descendentes de um tal Nuno Velho, figura da corte de D. Afonso Henriques, que malgrado a oposição dos fregueses, tentavam apoderar-se deles pela força.

No Censual da Terra da Vinha, em 1321, Bulhente já não figura como ermida mas como “yglesia”, ou seja, freguesia. A partir de 1436 ou até antes, Bulhente “hé tornada sem cura porque nom tinha freigueses”, portanto estava despovoada.

O padroado e as rendas de Bulhente estavam divididas desde o início do reinado de D. Fernando em duas partes iguais, uma sem cura, outra com cura, havendo longo rol de confirmações até 1598, quando é unida ao Colégio de S. Pedro do Seminário Conciliar de Braga.

É precisamente em 1598 que surge a primeira referência “…do mosteiro de São Salvador de Bulhente da comarcua de Vallença” num registo de confirmação (Arquivo Distrital de Braga, Registo geral, nº 318, fls. 77-77v), numa época que já se sabia estar a paróquia desabitada.

Curiosamente é o mesmo escrivão da câmara da comarca e administração de Valença, Feliciano de Carvalho Barreto, que a 30 de Maio de 1598 apelidou de “mosteiro” e quatro meses antes, a 23 de Janeiro do mesmo ano, a apelidou de “igreja”.

Mais tarde, aparece outra alusão ao Mosteiro de Bulhente nas Inquirições Paroquiais de 1758, onde o abade de Gontinháes, Gonçalo Pinto de Carvalho Medeiros, ao responder ao inquérito, escreve:

A Cappella de Salvador de Bulhente, que antiguamente estava junto ao alto da Serra para aparte do Norte em sitio, que Chamão Bulhente, e por tradição foy Mosteyro de Religiosos Mendicantes que se extinguio há perto de trezentos anos…” Mais à frente refere: “Outros querem dizer também per tradicam, que otal Mosteyro fora de Religiozas

É muito improvável que a ordem fosse dos Mendicantes (Dominicanos e Franciscanos), pois estes estavam vocacionados para a pregação e testemunho de pobreza, preferindo os meios urbanos para se fixarem. Neste sentido, referir uma Ordem Mendicante levanta imediatamente suspeita, pois Bulhente fica isolada a meia encosta de um monte agreste e difícil de aceder, contrariando as localizações tradicionais destas Ordens, fossem dentro de recintos amuralhados fossem fora, mas nas imediações.

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Coluna da igreja de Bulhente - Terreno particular

A própria duvida sobre se era um mosteiro masculino ou feminino, não abona nada em favor da sua existência.

É já no século XIX, quando Pinho Leal publicou “Portugal antigo e moderno” que deparamos com fantasiosas afirmações de Bulhente ser um Mosteiro de freiras Beneditinas e que “já existia no tempo dos Suevos”.

Com o caminho preparado por uma suposta informação histórica, faz um conjunto de afirmações apenas explicadas por um anticlericalismo exacerbado e uma falta de rigor confrangedora:

As freiras d’aqui eram, como as de Requião (vide esta palavra que traz coisas curiosíssimas com respeito às freiras) praticando toda a casta de escândalos com quem lhes aparecia, principalmente com os frades de S. João de Cabanas, na freguesia de Afife, que ficavam perto, parecendo mais sacerdotisas de Venus, do que religiosas christans. Tantas fizeram que o bispo de Ceuta, suprimiu este convento, pelos anos de 1460, e parece que até o mandou arrasar”.

Na obra de João de Barros de 1548, Geografia d’Entre Douro e Minho, que registou outros mosteiros da região, incluindo despovoados, como o de Cabanas, nada consta sobre um hipotético Mosteiro de Bulhente; também o cronista da Ordem de S. Bento, Frei Leão de S. Tomás, na sua obra Benedictina Lusitana não faz nenhuma referência ao hipotético Mosteiro.

Esta paróquia junta-se à extensa lista de aldeias e instituições portuguesas que não sobreviveram à crise demográfica e económica dos séculos XIV e XV, sensivelmente entre 1330 e 1450.

Em jeito de conclusão, não há nenhuma prova consistente da existência de um Mosteiro em Bulhente, pelo contrário, existem razões muito fundamentadas para duvidar do rigor histórico das Inquirições de 1758 e principalmente do “Portugal antigo e moderno” de Pinho Leal.

Fontes consultadas: "O mosteiro de Bulhente não existiu" de José Marques; "Monografia do Concelho de Caminha" de Lourenço Alves

publicado por Brito Ribeiro às 10:46

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