Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

14
Fev 16

Há um ano atrás escrevi nas páginas da revista "Vale Mais" um artigo sob o título “A impermeabilização dos solos”, no qual apontei algumas consequências daí decorrentes, bem como do estrangulamento ou supressão das linhas de “águas bravas”. O que aconteceu recentemente na vila de Albufeira, no Algarve, foi uma lição eloquente sobre os erros de ordenamento de que grande parte dos municípios é fértil, designadamente os do litoral.

Hoje em dia, começa a alterar-se o paradigma dos projectos relacionados com infra-estruturas básicas, não passando tanto pelas extensões de rede, mas pela correção de erros anteriores e substituição de materiais desapropriados ou obsoletos. No entanto, falta coragem e meios para atacar o problema pela raiz, porque iria colidir com interesses de poderosas empresas ou instituições, com direitos adquiridos e com uma lei, que na maior parte das vezes não defende o Estado, nem a causa pública.

Mais que encontrar desculpas esfarrapadas para consumo mediático, tais como as alterações climáticas (que existem, sem dúvida), é necessário tomar consciência que a culpa pertence ao homem que provoca o desequilíbrio ambiental do planeta, com o somatório de pequenas interações isoladas que todos conhecemos. A fábrica que produz resíduos tóxicos, o efluente de saneamento descarregado no ribeiro, a barragem que alterou o ecossistema regional, o porto de mar que modificou a dinâmica costeira, o entubamento do riacho para facilitar a urbanização, o fogo florestal que destruiu o pulmão da região e provocou a erosão do solo ou o aumento exponencial do trânsito automóvel, são apenas alguns exemplos de questões que nos devem preocupar e que tem de entrar nas agendas políticas dos governantes.

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No caso concreto da Bacia Hidrográfica do Rio Minho, a poluição associada às descargas dos efluentes de saneamento doméstico e industrial, bem como a construção de 43 barragens ao longo do seu curso ou dos seus afluentes, transformaram um ecossistema riquíssimo do ponto de vista ambiental, mas também do ponto de vista dos recursos económicos, num curso de água que se debate diariamente com um conjunto de problemas difíceis ou impossíveis de ultrapassar.

Se a poluição tem vindo a diminuir fruto de investimento público em sistemas de tratamento de efluentes, a questão das barragens condiciona em absoluto o ciclo de reprodução das espécies migradoras como a lampreia, o sável ou o salmão. Destes verdadeiros ex-libris do Rio Minho, o sável está em grave declínio, o salmão está praticamente extinto, mantendo a lampreia um nível de capturas mais ou menos estável.

No momento em que escrevo este pequeno artigo, infelizmente as questões ambientais foram suplantadas por uma preocupação maior e de consequências imediatas, o terrorismo, um absurdo que está provocar uma alteração profunda na complexa sociedade da Europa e bacia Mediterrânica.

Saibamos nós dar uma resposta decente aos desafios que nos colocam.

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 10:37

09
Fev 16

Tomei conhecimento que a Junta de Freguesia de Vila Praia de Âncora pretende adquirir uns terrenos para alargamento do cemitério. Referiram-me também, que seria necessário vender alguns terrenos que possui noutros locais para custear o investimento.

Não me choca a solução, face à urgência em tornar realidade esta obra, mas sinto um amargo de boca quando recordo que as coisas poderiam ter sido melhor delineadas, sem a visão míope do miserabilismo que caracteriza boa parte das decisões quando toca a investimentos em Vila Praia de Âncora.

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O ancestral costume de enterrar os corpos no interior das igrejas e nos adros, foi revertido, em termos de legislação, em 1835, durante o regime liberal e marca o início da secularização dos cemitérios. Porém, a adesão a esta nova disposição nem sempre foi pacífica, estando até na origem daquilo que se conhece por “Revolta da Maria da Fonte”.

Esta revolta ocorrida em 1846 e iniciada na zona da Póvoa de Lanhoso, resultou das tensões sociais remanescentes das guerras liberais, exacerbadas pelo grande descontentamento popular gerado pelas novas leis de recrutamento militar, por alterações fiscais e pela proibição de realizar enterros dentro de igrejas.

Em Gontinhães, assim se chamava a nossa terra à época, não ocorreram conflitos, porque se continuou a enterrar os defuntos no adro, mas o problema foi-se agravando até que no final do século XIX em consequência de um conjunto de surtos epidémicos que provocaram grande mortandade entre a população, ocasionando a saturação do adro da igreja matriz e a consequente falta de condições de salubridade que potenciava os riscos de contágio.

Após o surto de cólera que grassou entre 1833 e 1852, uma epidemia de varíola varreu Gontinhães em 1895, sendo 60,9% dos óbitos registados na zona litoral da freguesia. Especialmente nos meses mais quentes, as epidemias de varíola e tifo ou difteria, atribuídas aos “maus cheiros” dos estrumes do patêlo, que por ali se costumava empregar como estrume, pelo que as autoridades administrativas ordenaram que este estrume depois de colhido no mar fosse imediatamente enterrado a um palmo de profundidade. O correspondente local de “O Jornal da Manhã” refere na sua crónica sobre Gontinhães:

 “nesta freguesia há muito a fazer, particularmente no porto de pesca, e nas casas de alguns lavradores que, nada cuidadosos da sua saúde, têm as cortes dos gados vacum e suíno juntas ou por baixo dos aposentos em que habitam e dormem

Como os cadáveres eram inumados no átrio da Igreja e este já estivesse sobrelotado, o Governo Civil de Viana do Castelo exigiu à Administração da Câmara de Caminha que procedesse de imediato à aquisição dos terrenos necessários à construção do cemitério. Esta deliberou rapidamente e por unanimidade na compra 886 m2, mas será a Junta de Paróquia  de Gontinhães a efectuar empréstimos e a lançar derramas para custear a obra, que se concluirá em 1897.

Um século depois, mais ou menos há vinte e cinco anos atrás, após muitos anos de reivindicação, a autarquia caminhense financiou um alargamento do cemitério que ficou muito aquém das expectativas e das necessidades, como lamentavelmente vimos a constatar por mais uma intervenção que terá de ser feita no futuro próximo e que, recorrentemente, vai ter de ser custeada pela Freguesia e pelo seu património.

publicado por Brito Ribeiro às 16:53

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