Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

10
Jul 13

A odisseia do Porto de Mar de Vila Praia de Âncora no que toca a assoreamentos e consequentes dragagens é digna de uma reflexão séria. Lamentavelmente, esta reflexão não está feita e provavelmente nem sequer interessa à classe política, mais interessada em usar como arma de arremesso a paternidade da obra e o enjeitamento da culpa, nos erros de concepção do projecto.

Há uns meses a esta data, tomei conhecimento de um trabalho científico que aborda a questão da transposição de sedimentos em portos e outras embocaduras. É uma tese de mestrado (2008) da autoria de João Pedro Torres Pinheiro, Mestre em Engenharia Civil, especializado em Hidráulica, Recursos Hídricos e Ambiente. Neste trabalho há uma apreciação geral da problemática das embocaduras de portos, transporte sedimentar litoral e erosão costeira associada, estudando-se potencialidades da aplicação de sistemas de transposição artificial.

Foram estudados casos internacionais de sistemas de transposição artificial em termos do seu sucesso, das suas características técnicas, equipamento, potencialidades, limitações, custos e problemas associados. No objectivo final, o autor propõe possíveis soluções, baseadas em sistemas de transposição artificial, a casos portugueses, em concreto: Barra da Figueira da Foz, Praia da Aguda, Costa da Caparica, Barra de Aveiro e Vila Praia de Âncora.

É obvio que não posso aqui e agora, reproduzir ou mesmo resumir o estudo vertente, nem tenho competências para tal tarefa, mas de forma telegráfica dizer que o cerne da questão baseia-se num sistema de bombagem, geralmente automático, amovível, colocado no ponto de entrada/deposição dos sedimentos, que trabalhando algumas horas por dia, retira os sedimentos enviando-os através de um emissário para o local de recarga, seja em terra, seja no mar.

Este método que ainda não foi aplicado (tanto quanto sei) em Portugal, tem sido desenvolvido e aplicado com sucesso em países como os EUA ou a Austrália.

Acrescento também, que o estudo referido foi coordenado pelos Professores Doutores Fernando Veloso Gomes e Francisco Taveira Pinto da Universidade de Engenharia do Porto. Veloso Gomes é uma reconhecida autoridade internacional em dinâmica costeira e no conjunto, estes docentes garantem a credibilidade da análise e das soluções propostas no estudo.

 

Então o caso do assoreamento do Porto de Vila Praia de Âncora já foi objecto de um estudo científico e (aparentemente) ninguém sabe disso? Um estudo que aponta para uma solução de minimização do assoreamento e de combate à erosão da praia não é divulgado, nem discutido publicamente, acabando no fundo da gaveta do esquecimento. Porque não realizar um grande debate, envolvendo o autor do estudo e seus coordenadores, as autarquias, o IPTM, a Comunidade Intermunicipal do Alto Minho, associações representativas e sociedade civil, para esclarecer sobre o potencial destes métodos e a sua aplicabilidade ao caso local?

 

Os custos apresentados para o caso de Vila Praia de Âncora apontam para valores de instalação entre os 44 mil euros e os 72 mil euros, dependendo do tipo de bomba aplicada. Estes valores, obtidos ao ano de 2008, já compreendem a manutenção programada e o consumo de energia. Os custos de utilização nos anos seguintes rondariam os dois mil euros/ano.

Das duas, uma; ou isto é o ovo de Colombo ou a razão para o silêncio é mais que suspeita. O negócio das dragagens é um verdadeiro cancro para os recursos do Estado e é frequente estarem envolvidos em polémica e suspeição.

O recente caso da dragagem do porto de Mar de Vila Praia de Âncora espelha aquilo que acabei de dizer, pois o trabalho ficou a meio, o porto continua assoreado, sem condições de utilização na baixa-mar. Será que foram controladas as quantidades de inertes retirados? Será que as quantidades adjudicadas na empreitada tinham alguma correspondência com a realidade ou foram pura e simplesmente apontadas por conveniência? Fica a dúvida, levanta-se a suspeita.

 

Este método minimiza o assoreamento, não resolve os problemas estruturais decorrentes da má concepção do porto, mas a fazer fé no estudo apresentado, poderá reduzir para um sexto as consequências da transposição natural dos sedimentos.

Em termos práticos, podemos estar a falar da necessidade de fazer uma dragagem por década, em vez das dragagens de três em três anos, que nada resolvem e que apenas enchem os bolsos a meia dúzia.

 

publicado por Brito Ribeiro às 14:46
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05
Jul 13

A vida tem destas coisas e o mesmo político que começou a sua carreira fulgurante derrubando uma coligação governamental constituída para salvar o país, arrisca ver a sua carreira afundar-se nas areias movediças de uma crise da coligação, que chegou ao poder e por lá se mantem com a sua preciosa ajuda.

O conflito entre Cavaco Silva e o seu próprio destino não termina aqui, a maldade é bem maior, pois o governo do bloco central que ele derrubou tinha sido constituído na sequência de um acordo com o FMI para superar a bancarrota a que o país foi parar, muito por culpa de um ministro das Finanças que decidiu ser populista com um orçamento expansionista e uma revalorização do escudo (1980). Sobre esta revalorização Silva Lopes escreve: “em conjugação com a falta de rigor no controle da procura interna, essas alterações da política cambial foram um das principais causas dos défices catastróficos da balança de transacções correntes de 1981 e 1982” (A Economia Portuguesa desde 1960, p. 231).

Pode este presidente ter autoridade moral ou competência para remendar coligações?

 

Mas a falta de autoridade moral de Cavaco Silva não é apenas histórica, ainda que agora se arrisque a tropeçar na memória que ele próprio tanto invoca quando diz “eu escrevi”, “eu disse”, “eu discursei”, “eu avisei”.

O senhor que raramente tem dúvidas e nunca se engana, também pode tropeçar no argumento eleitoral de que os seus conhecimentos de economia seriam uma preciosa ajuda para o país. Pois ainda estamos para o ver ajudar o país; a verdade é que não foi apenas o Gaspar e a troika a falhar nas previsões, Cavaco Silva também prometeu crescimento e emprego para o final de 2012, voltou a fazê-lo para o final deste ano e ainda recentemente garantiu que acreditava no cumprimento das metas do défice.

Como é que pode um Presidente ajudar um país com os seus conhecimentos económicos se as suas previsões ao nível da política económica estão alguns degrau abaixo do “Borda d’Água”?

Um economista que não acerta uma previsão e que justifica os sucessos pontuais com a ajuda da Nossa Senhora de Fátima não tem autoridade moral para pedir aos portugueses que confiem na política económica do governo.

 

O que fez Cavaco Silva para levar Passos Coelho a cumprir o acordo de concertação social, o tal acordo de que Cavaco tanto se orgulha do seu papel? O que fez Cavaco para impedir a humilhação sistemática do líder do CDS pela canalhada afecta a Passos Coelho? O que fez Cavaco Silva para impedir que o PS fosse ignorado em sucessivas revisões do memorando? Um presidente que fez questão que o acordo inicial com a troika tivesse a chancela do PSD e até “meteu” o amigo Catroga a conduzir as negociações, para depois ignorar o PS nas revisões do memorando, não tem autoridade moral para falar em consensos políticos.

 

O país precisa de um presidente de todos os portugueses, um presidente que pense em termos de nação e não um presidente que aparenta estar mais preocupado com o seu papel na história do que com Portugal.

Cavaco Silva, que nunca teve competência para o cargo, agora já não tem qualquer autoridade moral.


Inspirado num post do jumento.blogspot

publicado por Brito Ribeiro às 12:13
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