Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

30
Ago 11

Muitos pescadores ancorenses passaram pela pesca do bacalhau nos bancos da Terra Nova. Uns, os mais antigos, em lugres à vela, trabalhando na pesca à linha. Outros, os mais novos, conheceram de perto a tecnica do arrasto, tanto em navios fábrica portugueses como em navios alemães destino de muitos emigrantes nos anos setenta e oitenta. Este artigo foi publicado no excelente blog http://caxinas-a-freguesia.blogs.sapo.pt/ de onde o retirei com o devido agradecimento.

 

Há 500 anos, o explorador John Cabot regressava das águas em volta do que agora chamamos Terra Nova e reportava que o bacalhau era tanto que se podia apanhar com simples cestos à borda dos navios. Cabot tinha "descoberto" (algo muito discutível) um recurso que mudaria a Inglaterra para sempre, a base de um comércio marítimo que daria àquela pequena ilha-reino a riqueza, artes e capacidade de construção naval que a tornaria num império global. Ele havia descoberto os maiores Bancos de pesca que o mundo jamais conhecera, águas tão cheias de vida que uma vasta extensão do Novo-Mundo foi colonizada somente para recolher tamanho prémio.

Um século após Cabot, capitães de pesca Ingleses ainda reportavam baixios de bacalhau “tão espessos ao pé da costa que mal se consegue remar através deles”. Havia bacalhaus de 1,8, a 2 metros de comprimento a pesar tanto como 90 quilos. Havia grandes bancos de ostras, tão grandes como sapatos. Com a maré baixa, crianças eram mandadas para a beira-mar para a apanha de lagostas de 5 a 10 quilos. As corridas da desova do arenque, lula e capelim eram colossais, deixando boquiabertos observadores durante quatro séculos. Hoje, o peixe da Terra Nova desapareceu.

Das 10 províncias do Canadá, o território conjunto da Terra Nova e Labrador é o menos acessível. A maioria da sua população de meio milhão, vivem na grande ilha da Terra Nova, uma massa de terra de 39.500 milhas quadradas que consiste em costas rochosas, colinas selvagens e montes de pinheiros. No Inverno a ilha é bafejada por ventos do Ártico e em inícios do Verão icebergues passam pela costa vindos da Gronelândia. O Labrador, 3 vezes maior que a Terra Nova, contém apenas uns poucos milhares de habitantes, pois é demasiado frio, descampado e virado a Norte para suportar maior população. Mesmo no Verão, uma viagem de Boston para St. John´s, a capital, leva 16 horas de carro e 14 de ferry.

Tal como a maioria da Terra Nova, a península de Burin a Sul foi fundada com base na pesca. Existem provas da presença de pescadores Bascos como estação de pesca de Verão por alturas dos anos 1500s. Pescadores Franceses podem ter começado a viver lá por alturas dos 1640s, embora a maioria tenha abandonado a área quando o território foi cedido à Inglaterra nos inícios do séc. XVIII. No auge da pesca nos Grandes Bancos com escunas, as comunidades de Burin estavam cheias de vida e enormes mansões Vitorianas foram construídas na cidade de Grand Bank. Durante a era industrial mecanizada de arrastões, a península estava no centro do processamento de peixe com fábricas de trabalho contínuo em Fortune, Marystown, St. Lawrence e Grand Bank. A maioria da população de 29.000 habitantes na península ou pescava ou trabalhava nas fábricas ou nos estaleiros navais de construção de arrastões que alimentavam as sempre famintas linhas de produção. Estas fábricas forneciam os filetes de peixe para a McDonald´s e ainda o faz hoje, mas o peixe usado agora é importado da Europa.

A razão para tal é o facto dos grandes aglomerados de bacalhau do Norte terem sido “limpos” por grandes redes de arrasto e o Governo encerrou a maior faina do mundo por falta de peixe – um ridículo exemplo de fechar a porta do estábulo quando o cavalo já fugiu. Em 1996, a península de Burin registou a maior taxa de desemprego do país durante meses e 30% da população não tinha trabalho.

Até 1949, a Terra Nova foi uma colónia Inglesa e ainda hoje se sente que é um posto longínquo da Europa do Norte. Muita da sua história está ligada à Inglaterra e Irlanda por laços de família, comércio e política. Com o desenvolvimento das tecnologias de congelação em inícios da II Guerra Mundial, os E.U.A. tornaram-se o maior mercado para o bacalhau da Terra Nova, mas o contacto com o Canadá era muito pouco. Não é por acaso que St. John´s está localizada no extremo Leste da ilha, metida entre montes numa baía virada para a Inglaterra, algures para além dum perpétuo muro de nevoeiro. De St. John´s, Londres fica mais perto que Calgary e a Irlanda mais perto que Winnipeg.

A colonização da Terra Nova e na verdade de muita da América do Norte foi uma consequência da busca pelo bacalhau. Bacalhau bem seco e salgado durava por longos períodos, algo de muito importante antes da moderna refrigeração, sendo relativamente leve e fácil de transportar. Desde o advento das pescas no Novo Mundo em inícios do séc. XIV, que havia um mercado insaciável por bacalhau salgado na Europa. Era de longe uma fonte mais barata de proteínas que bife, porco ou cordeiro e a única fonte permitida de proteínas aos Católicos durante 166 dias de cada ano. Rentável, transportável e facilmente comercializado, o bacalhau rivalizaria com o ouro da América do Sul e açúcar das Caraíbas.

Contudo a história da destruição do bacalhau começa quando a era colonial da Terra Nova termina. Nos primeiros 4 séculos após Cabot, os habitantes da Terra Nova tinham pouco trabalho em encontrar e apanhar bacalhau. Pareciam ser eternos no seu número. Estes grandes e robustos peixes foram feitos para durar, sendo adaptáveis, omnívoros e bastante fecundos (uma grande fêmea produz 9 milhões de ovos numa única desova). O bacalhau do Atlântico sobreviveu na sua presente forma durante 10 milhões de anos, passando idades do gelo e aquecimentos globais que alteraram o nível dos mares em 90 metros. Vivem 20 ou mais anos e os seus ovos adaptam-se bem ao frio ou ao calor e com a riqueza de várias gerações ao mesmo tempo, o seu sucesso sempre foi garantido... até surgir a pesca industrializada.

O bacalhau pertence a uma família de peixe conhecida como “peixe do fundo”, assim denominada porque normalmente habita junto do fundo do mar ao longo da placa continental. Outras espécies das mesmas áreas são o eglefim, alabote, abrótea, e solha. Todas estas espécies foram intensamente pescadas e muitas partilham o mesmo fim do “primo” bacalhau. No entanto o bacalhau era o mais numeroso, valioso e importante. O bacalhau não vive apenas em cardumes mas sim em distintas populações reprodutoras. Cada qual movimenta-se como grandes “manadas” para se reproduzir e alimentar e raramente se mistura com outras. O bacalhau do Norte habita as costas geladas do Labrador e nordeste da Terra Nova. Outro grupo desova nos ricos em nutrientes Grandes Bancos, uma vasta série de montes submersos em águas pouco profundas ao largo da Terra Nova. Existem outras populações distintas no Golfo de St. Lawrence e nos Bancos de St. Pierre, perto de Burin; outras massas estão ao longo da Nova Escócia e no Banco de Georges ao largo da Nova Inglaterra. Estes últimos vivem em águas um pouco mais quentes e são maiores e mais “mexidos” que os do Norte. Outros grupos de bacalhau povoam as costas da Islândia e Europa.

Os pescadores beneficiam do facto do bacalhau se agrupar em grandes números. Na desova, congregam-se em massas de centenas de milhões de peixes. O peixe do Norte e Grandes Bancos enchia as correntes oceânicas com triliões de ovos o que tornava possível a sua pesca com linhas de mão (trol) e em décadas mais recentes a apanha de grupos inteiros com enormes redes içadas por arrastões do tamanho de pequenos transatlânticos. Mas durante vários séculos eram as migrações do bacalhau que determinavam quanto havia à mesa. Curiosamente, um dos alimentos do bacalhau, o capelim, desova na mesma zona e ambos migram depois para mais próximo da costa. O bacalhau na verdade come de tudo o que consiga meter à boca, o que os tornou versáteis por natureza, comendo desde mexilhões a caranguejos, lagostas, lulas e até outros jovens bacalhaus. Tal também tornava o isco de pesca fácil aos pescadores. Podem facilmente ser alados com um pedaço de chumbo, pedaços de “hot-dog” ou mesmo copos de plástico. Uma vez mordido o isco, não oferecem resistência até entrarem no bote.

publicado por Brito Ribeiro às 12:04
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22
Ago 11

Dia após dia, deparamo-nos com dificuldades acrescidas no estacionamento de viaturas em Vila Praia de Âncora. Este “fenómeno” tem vindo a consolidar-se, não só nos turbulentos meses de verão, mas já se estendem por todo o ano, pelo menos nas zonas centrais da vila.

Erros de planeamento com origem nas últimas décadas do século vinte explicam, em parte, os porquês do problema. Com o desenvolvimento urbanístico pós 25 de Abril, uma das coisas não acauteladas foram os estacionamentos das urbanizações. Construía-se mal e à toa, sem qualidade e sem preocupação de ordenamento, como todos sabemos e disso estamos conscientes. Os tempos eram outros e o que hoje sobra em meios técnicos e recursos humanos, ditos especializados, escasseava nessa época.

Além disso, se em 1976 havia em Portugal cerca de um milhão de viaturas, hoje temos cerca de seis milhões de viaturas, segundo dados da ACAP. Por isso as necessidades de estacionamento ou aparcamento aumentaram em flecha. Nas áreas metropolitanas tem-se feito algum esforço no sentido de dar maior operacionalidade aos transportes públicos, mas esta questão não se aplica em Vila Praia de Âncora.

Por isso, deviam ter sido investidos esforços no sentido de encontrar soluções de minimização do impacto urbano e de atractividade turística para a zona. É lamentável mas, alem de não se ter procurado solução ainda se agrava deliberadamente o problema, com soluções pretensiosamente requalificadoras, que não requalificam coisa nenhuma, apenas introduzem um factor de embelezamento, muito ao sabor das modas e do gosto dos mandantes.

Isto tudo a propósito da falta de lugares de estacionamento em Vila Praia de Âncora que está a transformar esta vila num cenário caótico, tipo capital subsariana. Se este é o cartaz turístico de acolhimento, estamos conversados.

Para ajudar à festa temos gente sem o mínimo de escrúpulos que “deixa” os carros de qualquer maneira, não restando à autoridade outro remédio que chamar o reboque para expulsar os prevaricadores. Claro que também há casos de excesso de zelo, nomeadamente da Polícia Marítima, que não aportam nada de positivo e deixam uma imagem ainda mais negativa da terra.

 

Vista aérea da praia e Av. Dr. Ramos Pereira - Crédito Foto DAP

Este ano fomos também confrontados com o surgimento de uns pequenos quadriciclos a pedal que deambulam por entre os peões que passeiam na Avenida Doutor Ramos Pereira, com incómodo e perigo constante de atropelamento. Até porque na maior parte dos casos não são crianças que conduzem os quadriciclos, mas “matulões” em corridas e gincanas parvas entre as pessoas. Confinados à praça multiuso no Parque ainda vá que não vá, com esforço, mas é admissível (também a praça não serve para mais nada…).

Agora, circular anarquicamente em espaço público, entre as pessoas que passeiam, é que não. E isto para não questionar a legalidade de todo este negócio, desde o licenciamento, até ao controlo fiscal. Mas isso é outra conversa e compete às autoridades avaliar esses parâmetros, aqui o que quero destacar é o absurdo a que esta terra chegou, por falta de soluções reflectidas, de planeamento e de responsabilidade.

 

publicado por Brito Ribeiro às 18:45
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Ouvi várias vezes a minha mãe falar do vapor que “deu à costa” em Montedor carregado de vinho e azeite, mas nunca me dera ao trabalho de aprofundar o conhecimento deste naufrágio. Hoje, tropecei na notícia publicada à época no “Comércio do Porto” e que retirei do Blog “Navios e Navegadores”  http://naviosenavegadores.blogspot.com/, a quem felicito pelo trabalho desenvolvido em prol da nossa história marítima.

Embora no artigo do “Comércio do Porto” se refira a Freguesia de Areosa, penso que se trata de um erro do jornalista, pois, mais à frente, refere-se o Lugar de Montedor, na Freguesia de Carreço. Analisando as coordenadas verifica-se também, que correspondem a uma zona compreendida entre a costa do farol e o inicio da praia de Paçô.

O navio vapor de nome “ Cabo Blanco “, foi construido em 1909 pela Cia. Euskalduna, Bilbao, Espanha, 04.1909, pertencia a Ybarra & Cia., Sevilha e naufragou a 13 de Julho de 1936 em Montedor. Este navio tinha uma arqueação de Tab 2.163,00 tons - Tal 1.325,00 tons e as dimensões de Pp 80,92 mts - Boca 11,77 mts - Pontal 4,88 mts.

A propulsão era obtida por uma máquina Blair & Co., 1909 - 1:Te - 3:Ci - 187 Nhp - 9 mph/h e tinha uma equipagem de 27 tripulantes.

 

Viana do Castelo, 13 - Ao norte da barra desta cidade, em frente à freguesia da Areosa, naufragou esta manhã o vapor espanhol “Cabo Blanco”, da companhia Vasco Andaluza, de Sevilha. Vinha de Huelva com destino a Vigo e trazia dois dias de viagem. Salvou-se a tripulação composta de 27 homens, que abandonaram o navio e sete passageiros. O capitão conserva-se a bordo. A carga compõe-se de barris de vinho, cascos de azeite, etc. Parte da tripulação ainda não abandonou o navio, que se considera perdido, procurando contudo salvá-lo.

Da companhia portuguesa «Radio Marconi», recebemos a seguinte informação, respeitante ao naufrágio:- Ontem, de manhã, as estações costeiras de Lisboa e de Leixões Rádio, desta companhia, interceptaram um sinal de S.O.S. lançado cerca das 6 horas BST, pelo vapor espanhol “Cabo Blanco”, anunciando que devido ao denso nevoeiro, tinha encalhado na Lat. 41º45’N e Long. 08º52’W, em Montedor ao sul de Vigo, pedindo assistência imediata de navios, especialmente de rebocadores.

Pelas 06,45 horas BST o rebocador holandês “Ganges“, informou-nos que seguia a toda a velocidade em direcção do navio sinistrado, informando nessa mesma ocasião, qual a sua posição obtida às 06,30 horas BST.

Também o vapor inglês “Highland Princess” informou, pelas 06,18 horas BST, que só em caso de extrema urgência é que se aproximaria daquele navio, a fim de proceder ao salvamento da tripulação, de contrário e em virtude de transportar passageiros e malas de correio continuaria viagem. Cerca das 12,30 horas BST, o vapor espanhol “Cabo Prior” comunicou estar já à vista do navio sinistrado, esperando auxiliá-lo dentro do espaço de meia hora. Segundo informações prestadas pelo próprio navio sinistrado, sabe-se que foram tentados todos os esforços pela respectiva tripulação para salvarem o navio tem resultado inúteis, continuando aqueles contudo, esperançados em o conseguir com a colaboração de rebocadores, cuja chegada era esperada dentro de algum tempo. Mais informaram que o navio estava já metendo água e se encontrava encalhado numa posição bastante critica e entre rochas. Não obstante, sentem-se bastante animados em virtude do mar estar muito calmo.

A estação de Leixões-Rádio continua mantendo comunicação directa com o navio sinistrado, assistindo-lhe em todos os casos requeridos por T.S.F.

(In jornal “O Comércio do Porto”, de 14 de Julho de 1936).

 

Viana do Castelo, 15 - Tem sido uma romaria à praia da Areosa, para ver o vapor espanhol “Cabo Blanco“, encalhado na segunda-feira nos penhascos dos Moinhos. Como o barco trazia bom vinho, os sequiosos tem tomado boas «carraspanas», dando lugar a cenas picarescas! Na Delegação Aduaneira estão-se arrecadando carga e utensílios de bordo.

O barco considera-se perdido, pois enfragou na penedia e tem os porões inundados. Enquanto o mar se conservar calmo, poderá salvar-se alguma carga; mas a mais pequena ressaca obrigará a suspender quaisquer trabalhos de salvamento.

(In jornal “O Comércio do Porto”, de 16 de Julho de 1936).

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 11:01

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