Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

30
Jul 11

Desta vez o juiz assinou o mandato para análise dos telefonemas, que foi imediatamente enviado à Vodafone, com uma nota de “muito urgente”. Autorizou a peritagem ao BMW do Dr. Lacerda, com muita relutância e apenas depois de lhe ser assegurado que estava em causa uma questão crucial para a investigação.

O banqueiro ficou escandalizado quando lhe entregaram o mandato que autorizava a perícia à sua viatura. Ligou para o advogado que o aconselhou a colaborar e a retirar-se para o recato da sua moradia, antes que os jornalistas farejassem o acontecimento.

Uma aturada vistoria à viatura permitiu encontrar vestígios de sémen nos tapetes traseiros, alguns cabelos e vários conjuntos de impressões que se provou pertencerem ao jovem assassinado. No tapete do lugar do condutor foram encontrados uns fragmentos minúsculos de saibro idêntico ao do Jardim de Arca d`Água.

Face a este conjunto de indícios, o insigne banqueiro foi detido para interrogatório e quando saiu cinco horas depois, já tinha sido constituído arguido, com termo de identidade e residência como medida de coacção. Durante o interrogatório manteve uma postura calma e respondeu com notória poupança de palavras a tudo o que o juiz lhe perguntou.

Sustentou sempre que não conhecia o rapaz, negou ter estado nos últimos vinte anos no jardim de Arca d’Água e negou ter disparado a pistola assassina. Declarou ter estado em casa toda a noite, não ter saído e ter adormecido perto da uma da manhã, o que foi corroborado pela esposa que dormia no quarto ao lado e que o ouviu ressonar regularmente.

O meio da alta finança acordou abalado com o escândalo provocado por um dos seus pares mais conceituado. As acções do Banco de Investimento desceram seis pontos, alguns clientes importantes encerraram as suas contas, o Conselho de Administração reuniu de emergência para analisar a crise provocada pelo escândalo e pela demissão pedida pelo seu presidente. Telejornais abriram, com directos da tranquila avenida onde o arguido residia e onde se supunha estar refugiado.

 

- Ó pá, é demasiado simples. Há muito que já deixei de acreditar em tudo o que me põe em frente do nariz… E esta merda cheira mal de cada vez que lhe tocamos. – dizia o Cabral enquanto rolava um palito entre os dentes.

- Isso é verdade, mas os indícios são muito fortes e o velho não tem um álibi em condições. Tanto podia estar a dormir como a enrabar algum puto – concorda o Ramos, recostado na cadeira.

- Ou a ser enrabado… - resmunga o Cabral.

- Fiquei com a impressão que o Dr. Bacelar não disse tudo durante o interrogatório e o juiz também ficou com a mesma impressão. Aquela capa de indiferença está a camuflar algo mais profundo. Há várias hipóteses. Pode ter sido ele a apagar o miúdo ou está a proteger alguém. Também pode estar a ser tramado…

- Por quem, carago? – pergunta o Ramos.

- Por algum filho da puta do banco, que o quer foder! – explica o Cabral com a habitual profusão de vocabulário vernáculo.

- Não pode ser. Estás a esquecer-te que a arma do crime estava na gaveta fechada à chave no quarto dele e ao BMW só tem acesso o motorista. A propósito algum de vocês interrogou o segurança sobre esse aspecto.

- Falei eu com ele e confirmou que o BMW ficou estacionado na rua em frente à casa – diz o Cabral.

- Mas porque é que não o recolheram na garagem?

- Porque esteve a fazer revisão e só à noite é que um mecânico o veio trazer. Já não é a primeira vez que assim acontece e é habitual deixá-lo estacionado em frente à casa e meter as chaves na caixa do correio.

- Detesto estas coisas da alta sociedade. Nunca são o que parecem…

- Tirando o dinheiro, ainda são mais fodidos que nós, os tesos! – sentencia o Cabral.

O telemóvel do inspector Maurício tocou, era o Dr. Lacerda a dizer-lhe que tinha algo a comunicar e pedia-lhe que passasse por sua casa a qualquer hora.

- Fala-se no diabo e ele aparece. Bem, vou lá ver o que ele quer, mas palpita-me que vai começar a levantar a tampa – diz o Maurício, espreguiçando-se.

 

- Eu conhecia o miúdo. Lamento ter dito que não o conhecia mas estava assustado e… hum… segui o conselho do meu advogado. Ele nem sonha que estou a ter esta conversa consigo.

- Quero informá-lo que tudo o que me transmitir constará dos autos do processo…

- Eu sei, mas não posso deixar que este crime horroroso fique impune e eu passe por criminoso. Como lhe dizia, eu conheço… melhor, conhecia o miúdo. Soube da existência dele há três meses por um conjunto de circunstâncias desagradáveis, mas…

- Desculpe interromper, mas se quer informar-me de todos os factos que dispõe, tem de deixar-se de rodeios e ir directamente aos factos.

- Tem razão. É um velho hábito do meu meio. Descobri que o Tomé era meu neto. Quando ainda era solteiro, na casa de meus pais tive um… tive uma… uma relação com uma empregada. Ela ficou grávida e foi para a terra, algures no norte e a vida continuou. A minha mãe foi muito generosa com a rapariga, ela ficou bem, tanto quanto sei e eu fui enviado para Londres e lá fiquei durante um par de anos. Quando regressei casei com uma senhora que faleceu pouco depois e uni-me em segundas núpcias com a minha actual esposa, da qual tenho três filhos. A nossa antiga empregada teve uma filha e nunca lhe disse quem era o pai, tinha sido o acordo feito pela minha mãe. A criança cresceu na aldeia, fez-se mulher, sei agora que se chamava Aurora, veio para o Porto, casou com um desgraçado qualquer e andou a prostituir-se por aí, até que a mataram há uns meses. É capaz de se lembrar do caso inspector…

- Sim, Aurora… recordo uma mulher estrangulada na Via Norte. Nunca se descobriu quem foi, provavelmente um cliente…

- Talvez sim, talvez não… O certo é que era minha filha e quando ela faleceu o Tomé foi informado, trabalhava numa fábrica de móveis. No funeral parece que encontrou um tio, melhor, um tio-avô, irmão da nossa antiga empregada, que lhe contou a história da família, com nomes e tudo. Um dia o rapaz apareceu-me aqui à porta, o segurança correu com ele, mas voltou e insistiu nos dias seguintes até que disse que era meu neto. O segurança informou-me e imagine como eu fiquei ao ouvir da sua boca coisas que eu pensava já ter esquecido. Dei-lhe algum dinheiro e pedi algum tempo para reflectir. Voltou mais duas vezes e da última contou-me algo arrepiante…

- Algo relacionado com a prostituição masculina? – perguntou o inspector Maurício.

- Sim. Ele tinha-se iniciado na prostituição muito novo quando ainda estava no reformatório. Um dos seus clientes habituais… desculpe, nem lhe ofereci uma bebida.

- Não, obrigado. Continue…

- Mas eu preciso de uma bebida… forte.

Serviu-se de uma garrafa de cristal contendo um líquido âmbar, deixou verter longamente no copo e emborcou metade da porção de um trago. Via-se pela contracção do rosto que não estava habituado a beber dessa forma, mas as circunstâncias eram excepcionais.

- Bem… Dizia eu, que me contou que estava no negócio da prostituição masculina e que tinha um cliente com um carro como o meu e parecido comigo a quem ele roubou uma pasta com documentos. Levou para casa e viu que aparecia o meu nome em vários papeis… Sabe o que isto quer dizer?

- Que pediu dinheiro pelos papéis – conclui o inspector Maurício.

- Não, o miúdo nunca tentou fazer chantagem. Eu acho que ele queria apenas um pouco de atenção, se calhar uma família. Aquilo que ele nunca teve.

- Então quem é o dono do outro carro, o tal que era cliente?

- É o meu filho mais velho, que também pertence ao conselho de administração do banco. Todos os administradores têm viaturas de serviço iguais. O carro dele é exactamente igual ao meu, só muda a matrícula. Foi um choque muito grande para mim saber que frequentava os meios da prostituição masculina, a prostituição infantil. Muito duro, inspector, muito duro para um pai! Mas o pior ainda estava para vir, pois eu confrontei-o com os factos, ele negou sempre e dois dias depois o rapaz… o meu neto estava morto e eu suspeito de homicídio e de práticas… práticas nojentas. Usou a minha arma e o meu automóvel para me incriminar, para afastar-me do banco e eliminar um herdeiro inesperado, pois eu comuniquei-lhe a intenção de tomar conta do rapaz e dar-lhe uma educação adequada, se ainda fosse a tempo… A minha vida está arruinada, mas isso pouco me importa, nos dois últimos dias passei a ver vida com outros olhos.

- Dr. Lacerda tenho que proceder à detenção do seu filho imediatamente e solicitar-lhe que me acompanhe para registar as suas declarações.

- Sim, sim, mas mais logo inspector. Peço-lhe apenas duas horas, talvez três horas… O meu filho deve estar a chegar e quero ter uma conversa tranquila com ele. Depois pode levá-lo preso, até me pode levar a mim.

- Muito bem senhor doutor, vou manter esta casa sob vigilância e logo que termine a conferência com o seu filho peço-lhe que me telefone para proceder à detenção com a maior discrição possível.

 

Às 19,45 o segurança da propriedade ouviu vários estampidos provenientes do escritório e face à ausência de resposta do interior, arrombou a porta deparando com os cadáveres do pai e do filho. No chão, ao lado do Dr. Lacerda, estava uma pistola Browning 6,35 ainda quente.

 Fim

 

publicado por Brito Ribeiro às 15:39
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24
Jul 11

O inspector Maurício desligou o telemóvel, recostou-se na cadeira, tamborilou no tampo do portátil fechado e procurou ordenar os pensamentos.

Aquele homicídio estava a dar-lhe água pela barba e ainda por cima não podia trabalhar à vontade, pois estava envolvida gente da alta sociedade, tipos com ligações às mais altas esferas do poder político e financeiro. Tinha de os tratar com toda a delicadeza e quase subserviência, o que o deixava hesitante e pouco seguro.

O cadáver tinha sido encontrado no Jardim de Arca d`Água, um jovem assassinado a tiro, com marcas da entrada dos projécteis nas costas. Segundo apuraram no local, rapidamente vedado aos mirones, o rapaz devia ter sido alvejado quando fugia de alguém, que após a queda do alvo, voltou a disparar à queima-roupa mais duas vezes. Estes dois ultimos projécteis, atravessaram-lhe o dorso e enterraram-se alguns centímetros no saibro da álea onde o cadáver foi encontrado.

Ninguém ouvira os tiros e o cadáver tinha sido identificado pelas impressões digitais como Tomé Alves Rodrigues, dezassete anos, um longo curriculum de pequenos delitos desde os nove anos, idade com que saiu de casa, sufocado com a indiferença da mãe, que se prostituía no Bonjardim e do pai, que se embebedava onde calhava. Internado na Oficina de S. José, fugiu diversas vezes, mas deixava-se apanhar sempre, como que de um jogo se tratasse. Pelo menos ali não passava fome.

Aos dezasseis anos saiu do Lar para ir trabalhar numa fábrica em Paços de Ferreira e perdia-se a pista durante longos meses.

Na zona de Arca d`Água ninguém o conhecia, mas acabaram por descobrir, através de um antigo colega da Oficina, que nas últimas semanas, o Tomé tinha dormido numa residencial manhosa, para os lados da Areosa.

A surpresa instalou-se na cara dos agentes da Judiciária que procediam à recolha de indícios no quarto da residencial, ao depararem com alguns milhares de euros em notas dentro de uma mochila e uma pasta com documentos do Dr. João Baltar Lacerda, presidente do Conselho de Administração do Banco de Investimento, figura muito conhecida do jet-set portuense.

Quando confrontado com o achado, o Dr. Lacerda mostrou-se reservadamente indiferente, dizendo apenas que eram papeis sem importância, que provavelmente qualquer dos seus colaboradores a tinha perdido, não fazendo ideia de quem seria o dinheiro encontrado.

O inspector Maurício registou uma brevíssima perturbação do banqueiro, quando o informou sobre o destino trágico do rapaz, que possuía os documentos e o dinheiro.

Quando solicitou ao juiz um mandato judicial para investigar o telefone do banqueiro, deparou com uma negativa peremptória e quase foi corrido do gabinete do magistrado, que, certamente, tinha na melhor conta a figura do Dr. Lacerda.

Estava atado de pés e mãos, restava-lhe investigar os últimos dias do rapaz. Conseguiu saber que o Tomé se tinha despedido há três meses e que uma ou duas vezes foi visto entrar para um enorme BMW preto.

O antigo colega que tinha estado com ele nas Oficinas de S. José, acabou por dizer que ele tinha “umas cenas maradas com gajos de massa que gostam de putos”. Quando ligou para o Lopes, um inspector pouco mais velho que ele e que era sistematicamente destacado para casos que envolviam pedofilia, o semblante carregou-se pois o nome do banqueiro nunca tinha sido associado a tais práticas.

Deixou-se ficar recostado na cadeira a pensar qual seria o próximo passo a dar. Tinha a convicção de que se não avançasse depressa com algum facto novo, o processo seria ultrapassado por outro e mais tarde ou mais cedo seria arquivado, ficando mais um caso por resolver.

Do laboratório tinham-lhe enviado um e-mail informando que a arma do crime era um revolver de calibre trinta e dois, o que pouco ajudava, pois há milhares de armas deste calibre espalhadas por todo o lado. Ligou para a central do departamento e pediu a um estagiário que verificasse se o Dr. Lacerda tinha alguma arma registada em seu nome.

Estava a almoçar no restaurante habitual, perto da directoria, quando o estagiário lhe confirmou por telefone que o Dr. Baltar Lacerda tinha registado em seu nome várias armas, entre as quais, um revolver de calibre 32.

De regresso ao edifício da Judiciária ligou ao principal suspeito do crime que estava a investigar.

- Sabemos que o senhor possui um revolver calibre 32 e gostaríamos de o ver.

- O crime foi cometido com uma arma desse tipo? – perguntou o Dr. Lacerda.

- É provável. Quando posso ter acesso à arma?

- Daqui a meia hora. Estou a sair de um almoço e passo por casa. Pode mandar alguém ir lá recolhê-la.

- Obrigado, irei eu próprio.

 

Esperou à porta da magnífica propriedade do Dr. Lacerda, na Maia. Pouco depois chegou o reluzente BMW conduzido por um motorista. O banqueiro apeou-se e fez um sinal ao Inspector Maurício para o seguir até casa, uma discreta mansão, escondida entre pinheiros mansos e longos relvados. Dispensou os cuidados de uma criada que correu a recebê-los, subiram a escadaria curva e entraram no seu quarto de dormir, certamente maior que muitos apartamentos médios. Abriu uma das gavetas, retirou um estojo de couro que entregou ao Inspector.

- Aqui tem o revólver. Tenho também ali uma pistola Browning de calibre 6.35. Não sei se também quer ver…

- Não, apenas preciso dos documentos desta arma, se os tiver aí.

- Com certeza. Eu tenho estas armas e nunca as usei fora de casa. São mais como… como tranquilizantes de consciência, do que uma protecção efectiva. Aliás, o senhor sabe que nós temos segurança privada na propriedade.

- Sim, sim. Já verificamos.

- Vou levar esta arma ao laboratório para ser analisada.

Ao final da tarde já lhe davam o relatório preliminar, que confirmava ser aquela a arma do crime. No tambor nem sequer tinham sido substituídos os cartuchos disparados e a comparação das estrias revelou-se positiva. A arma tinha sido recentemente disparada, não tinha sido limpa e as únicas impressões digitais pertenciam ao seu proprietário, embora houvessem vestígios de ter sido manuseada com luvas de látex, provavelmente quando foi disparada pela última vez.

O técnico prometeu enviar-lhe o relatório por e-mail, ligou para o Lopes a saber se tinha descoberto alguma coisa nos meios da prostituição masculina ou nos meios ainda mais restritos da pedofilia.

Apenas tinha confirmado a existência de um BMW de alta gama, vidros escuros do qual ninguém parecia conhecer o condutor. Circulava lentamente, às vezes parava, baixava o vidro, algum dos rapazes aproximava-se, o condutor permanecia na sombra. Conversas escassas se geravam, prazeres se combinavam, as notas mudavam de mão, nunca faltavam.

- Bolas! – resmunga o Inspector desmoralizado com a insuficiência das informações dadas pelo colega.

Chegou a casa poucos minutos depois da Rosa, enfermeira no S. João, com quem vivia há três anos. Jantaram em silêncio, sentaram-se a ver um filme antigo, beberam cerveja, fizeram amor no chão da sala, deitaram-se já depois da meia-noite.

Antes de adormecer ainda pensou que no dia seguinte voltaria ao gabinete do juiz com o relatório do laboratório, para lhe solicitar novamente o mandato, que lhe permitiria analisar as chamadas telefónicas feitas e recebidas pelo principal suspeito, assim como examinar pericialmente o vistoso BMW, em busca de algo que provasse a presença do Tomé na viatura.

Na manhã seguinte foi chamado ao gabinete do Inspector Chefe Peres, que sem delongas lhe apontou para a primeira página do “24ª Hora”, um jornal sensacionalista que parecia farejar todos os assuntos que exalam mau cheiro. “Banqueiro suspeito de homicídio de um jovem prostituto” e seguia-se uma foto do visado com ar austero, a sair da sede do banco.

- Ó Maurício, como é que estes filhos da puta tiveram acesso a esta informação? Que grande bronca…

- Isso queria eu saber. A investigação tem sido feita no máximo sigilo, conforme nos indicou e que eu saiba, do nosso lado não pode ter havido fuga. Ainda por cima só estou eu, o Ramos e o Cabral a trabalhar nisso e apenas fiz meia dúzia de perguntas ao Lopes sobre os meandros da pedofilia, mais nada.

- Bem, de algum lado saiu, que esses cabrões não iam adivinhar sozinhos. Diga-me lá o que apuraram.

(continua)

 

publicado por Brito Ribeiro às 16:48
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11
Jul 11

Segundo foi apurado no Censos 2011, o Concelho de Caminha perdeu 439 habitantes, 2,57% da população total. Lembro que o Concelho de Caminha nas últimas décadas vinha a ganhar população de forma consistente, para o qual muito contribuía Vila Praia de Âncora, com um crescimento que não tinha paralelo no Distrito de Viana do Castelo. Desta vez, nem o crescimento de Moledo, Vilarelho e Vila Praia de Âncora, conseguem equilibrar o saldo populacional.

Este resultado contraria a tendência positiva registada pelos concelhos vizinhos, por exemplo Vila Nova de Cerveira, que registou um ganho de 5%. Aguardo com alguma curiosidade outros elementos que o Censos nos vai revelar e que poderão explicar os porquês de um resultado tão desencorajador. Teria sido o saldo natural, reflexo de uma baixa taxa de natalidade ou pelo contrário terá sido o saldo migratório, com a deslocação das pessoas para fora do espaço concelhio? Provavelmente uma conjugação destes dois factores, visto que o Concelho de Caminha não é atractivo para casais jovens se fixarem e cada vez mais há a necessidade de rumar a outras paragens para garantir o sustento e prosseguir carreira académica e profissional.

Estaremos perante um problema de interioridade num concelho geograficamente do litoral? Parece-me que sim, se atendermos ao modelo de desenvolvimento implementado na última década e que agora trás à superfície os efeitos de tais políticas (ou a falta delas).


Nos últimos doze anos o Concelho perdeu a quase totalidade do seu tecido industrial, com o lançamento no desemprego de algumas centenas de trabalhadores que foram absorvidos de forma mais ou menos tolerante pelos Concelhos vizinhos, com elevada dinâmica empresarial e pela emigração para países como Espanha, França, Angola ou Andorra.

Por outro lado, o Concelho não conseguiu no seu espaço territorial, criar alternativas compatíveis com a mão-de-obra disponível, originando vários problemas em cascata. Nem a mão-de-obra que emigrou ou foi trabalhar para outros Concelhos, regressou ao Concelho de origem, nem foram criadas condições para a fixação de novos residentes, nem o comércio e serviços locais se desenvolveram por haver uma diminuição acentuada de recursos financeiros em circulação.

Em 2001 quando chegou à Câmara Municipal, a Presidente Júlia Paula Costa encontrou uma situação que longe de ser satisfatória não enfermava dos males actuais. Tinha na freguesia de Âncora um pequeno pólo industrial vazio, com problemas de documentação, mas a sua legalização e consequente entrada em funcionamento tardou imenso, gerando mais uma desilusão pois não houve uma efectiva criação de postos de trabalho. Todo este processo enfermou de um grande amadorismo persistente, que até hoje não conseguiu captar novos investimentos industriais, invariavelmente destinados a Vila Nova de Cerveira, Viana do Castelo, Valença, Monção ou Ponte de Lima.


As apostas erradas, em eventos voláteis e efémeros, em obras de má qualidade, pior oportunidade e outros desvarios de gestão, não conseguem disfarçar a condição economicamente miserável em que se transformou o Concelho de Caminha.

No turismo a oferta continua a ser incipiente em quantidade e variedade, baseada no sol e na praia, dois meses, mal medidos, por ano. A agricultura, tal como no resto do país, está abandonada, a pesca e a náutica de recreio estão condenadas com as péssimas condições operacionais do porto de mar de Vila Praia de Âncora e da barra do Rio Minho. Sobre as obras de requalificação que estão em curso na zona adjacente ao porto de mar de Vila Praia de Âncora, entendo que não fazem o mínimo sentido, porque a questão devia estar centrada na resolução estrutural dos problemas de assoreamento do Porto de Mar. Gastar os poucos recursos financeiros públicos, num embelezamento deste tipo, quando deviam ser aplicados na resolução e potenciação de actividades economicamente reprodutivas é uma estupidez, demonstra a falta de qualidade da nossa classe política e é um dos principais motivos porque este país está nas mãos do FMI e companhia.


O Concelho de Caminha precisa urgentemente de captar investimento industrial, amigo do ambiente, com incorporação tecnológica, adaptado ao espaço disponível (que é pouco) ou a disponibilizar no futuro. Só assim poderá inverter a tendência de perda de população e de empobrecimento dos cidadãos.

Precisa de encontrar incentivos à produção agrícola e florestal, única forma de estancar no curto prazo a sangria de populações nas freguesias interiores.

Precisa de substituir o estafado mosaico de paisagens por um conjunto de políticas sérias de ordenamento do território, sem concessão de vantagens e privilégios a especuladores imobiliários que paulatinamente tem vindo a destruir o que de bom havia na faixa litoral do concelho, tornando-a vulgar, desordenada e ecologicamente insustentável, como se pode comprovar pelo estado a que chegou a praia de Moledo.

É isso que, no mínimo, se espera que uma autarquia seja um facilitador da actividade económica, um catalizador de novas iniciativas e projectos, deixando de lado a aspiração de ser o maior empregador do Concelho, com as habituais novelas sobre cunhas e prognósticos anunciados.

publicado por Brito Ribeiro às 16:07
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