Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

15
Abr 11

Já ando enjoado de ver a toda a hora, governantes e pretendentes, atirarem as culpas uns aos outros, como se o ultimo argumento esgrimido fosse demonstrativo a causa para os males que Portugal padece.

Nada mais errado, pois continua-se a mentir descaradamente, continua-se a provocar ruído para abafar a culpa e a falta de ideias gritante dos dois principais partidos. Muitos dirão que com estes não vamos a lado nenhum e com os outros iremos de mal a pior. Infelizmente tenho de concordar com esta posição. Se Sócrates é um estorvo ao país, Passos Coelho nem esperança é.

De PEC em PEC, atemorizados com o fantasma papão do FMI, alegremente caminhamos para o abismo da bancarrota, financiando um estado desleixado, corrupto e de conveniência. Financiaram-se Bancos privados falidos, estabeleceram-se parcerias publico privadas em condições escandalosas, aceitaram-se contas de obras públicas com derrapagens financeiras vergonhosas, legislaram-se privilégios para as elites políticas, tudo à custa do Zé Povinho, bem comportado e leal pagador de impostos. Mas factos são factos e o legado destes últimos governos são arrasadores:

 

1) Na última década, Portugal teve o pior crescimento económico dos últimos 90 anos

 

2) Temos a pior dívida pública (em % do PIB) dos últimos 160 anos. A dívida pública este ano vai rondar os 100% do PIB

 

3) Esta dívida pública histórica não inclui as dívidas das empresas públicas (mais 25% do PIB nacional)

 

4) Esta dívida pública sem precedentes não inclui os 60 mil milhões de euros das PPPs (35% do PIB adicionais), que foram utilizadas pelos nossos governantes para fazer obra (auto-estradas, hospitais, etc.) enquanto se adiava o seu pagamento para os próximos governos e as gerações futuras. As escolas também foram construídas a crédito.

 

5) Temos a pior taxa de desemprego dos últimos 90 anos (desde que há registos). Em 2005, a taxa de desemprego era de 6,6%. Em 2011, a taxa de desemprego chegou aos 11,1% e continua a aumentar.

 

6) Temos 620 mil desempregados, dos quais mais de 300 mil estão desempregados há mais de 12 meses

 

7) Temos a maior dívida externa dos últimos 120 anos.

8) A nossa dívida externa bruta é quase 8 vezes maior do que as nossas exportações

 

9) Estamos no top 10 dos países mais endividados do mundo em praticamente todos os indicadores possíveis

 

10) A nossa dívida externa bruta em 1995 era inferior a 40% do PIB. Hoje é de 230% do PIB

 

11) A nossa dívida externa líquida em 1995 era de 10% do PIB. Hoje é de quase 110% do PIB

 

12) As dívidas das famílias são cerca de 100% do PIB e 135% do rendimento disponível

 

13) As dívidas das empresas são equivalentes a 150% do PIB

 

14) Cerca de 50% de todo endividamento nacional deve-se, directa ou indirectamente, ao nosso Estado

 

15) Temos a segunda maior vaga de emigração dos últimos 160 anos

 

16) Temos a segunda maior fuga de cérebros de toda a OCDE

 

17) Temos a pior taxa de poupança dos últimos 50 anos

 

18) Nos últimos 10 anos, tivemos défices da balança corrente que rondaram entre os 8% e os 10% do PIB

 

19) Há 1,6 milhões de casos pendentes nos tribunais civis. Em 1995, havia 630 mil. Portugal é ainda um dos países que mais gasta com os tribunais por habitante na Europa

 

20) Temos a terceira pior taxa de abandono escolar de toda a OCDE (só melhor do que o México e a Turquia)

 

21) Temos um Estado desproporcionado para o nosso país, um Estado cujo peso já ultrapassa os 50% do PIB

 

22) As entidades e organismos públicos contam-se aos milhares. Há 349 Institutos Públicos, 87 Direcções Regionais, 68 Direcções-Gerais, 25 Estruturas de Missões, 100 Estruturas Atípicas, 10 Entidades Administrativas Independentes, 2 Forças de Segurança, 8 entidades e sub-entidades das Forças Armadas, 3 Entidades Empresariais regionais, 6 Gabinetes, 1 Gabinete do Primeiro Ministro, 16 Gabinetes de Ministros, 38 Gabinetes de Secretários de Estado, 15 Gabinetes dos Secretários Regionais, 2 Gabinetes do Presidente Regional, 2 Gabinetes da Vice-Presidência dos Governos Regionais, 18 Governos Civis, 2 Áreas Metropolitanas, 9 Inspecções Regionais, 16 Inspecções-Gerais, 31 Órgãos Consultivos, 350 Órgãos Independentes (tribunais e afins), 17 Secretarias-Gerais, 17 Serviços de Apoio, 2 Gabinetes dos Representantes da República nas regiões autónomas, e ainda 308 Câmaras Municipais, 4260 Juntas de Freguesias. Há ainda as Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional, e as Comunidades Inter-Municipais.

 

22) Nos últimos anos, nada foi feito para cortar neste Estado omnipresente e despesista, embora já se cortaram salários, já se subiram impostos, já se reduziram pensões e já se impuseram vários pacotes de austeridade aos portugueses. O Estado tem ficado imune à austeridade.

Dados retirados do blog de Álvaro Santos Pereira

 

 

Isto não é política. São factos. Factos que nos andaram a negar durante anos e, ainda mais grave, nos negam hoje.

Estes é que deviam ser os verdadeiros factos da agenda política actual, designadamente da próxima campanha eleitoral.

publicado por Brito Ribeiro às 15:47
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10
Abr 11

Este conto foi ficcionado com base em acontecimentos reais. É também uma singela homenagem a todos os pescadores que ao longo de gerações procuram o sustento de forma tão dura e perigosa. Simultaneamente,  é uma forma de recordar aqueles amigos que nos deixaram há tão pouco tempo.

 

 

Mar de Âncora, 14 de Fevereiro de 1951

 

O relógio da sala deu as quatro horas. A cama rangeu sob o peso do Chico que se levantou às escuras. Ao seu lado o irmão ainda dormia, tinha sorte, iria alar as redes já com o dia, podia dormir descansado mais um par de horas.

Vestiu-se na cozinha à luz do coto da vela, engoliu a broa dura com uns goles de cevada que a mãe deixara na cafeteira, sobre o fogão ainda morno.

No Portinho, as gamelas deslizavam sobre os rolos de pinho em direcção ao mar que a brisa encapelava de leve.

- Ao menos não vamos precisar dos remos – diz o Tone Machina, que aos treze anos, tal como o Chico da Caganta, já labutavam no mar o sustento escasso, que o mar consentia dar.

Cedo içaram a vela que empurrou o “Sempre em Frente”, velho barco tipo poveiro, em direcção aos mares de Afife. À sua frente navegava o “Pesse Bucha” que ia procurar sustento para os mesmos lados.

A verga da vela rangia sob o esforço, o vento era mais que em terra, assobiava nos cabos retesados. Ao leme, o César do Baba procurava aproveitar o máximo da força, oferecendo pano às rajadas consecutivas. Cada vez que a direcção do vento mudava, o mestre compensava com um golpe de leme que fazia o barco adornar. A água corria então veloz a escassos dedos da borda, um ou outro salpico invadia o interior já molhado do pequeno barco de pesca.

De súbito, uma rajada de través pôs a tripulação alerta.

- Arreai a vela – grita o mestre vendo o barco inclinar-se perigosamente.

Os homens soltaram a adriça, mas a verga não desceu. Uma volta no cabo de linho duro, não passou no moitão. Desesperadamente puxaram novamente pelo cabo da adriça e soltaram-no de imediato, na esperança de se desfazer a volta do cabo, uma “cocha” na linguagem destes pescadores.

O cabo molhado e rijo voltou a prender e a vela não desceu como todos ansiavam. Com a inclinação a vela tocou na água, o leme soltou-se, o barco rodopiou e tombou de lado.

Os homens caíram ao mar esbracejando em pânico. O nome do Senhor dos Aflitos passou de boca em boca, enquanto se procuravam desembaraçar da roupa grossa que os puxava para o fundo.

Uns agarrados ao mastro tombado, outros seguros às tábuas alcatroadas do barco, gritaram até ficarem roucos, mas a embarcação que os precedia continuou a sua marcha, ignorante da tragédia que se desenrolava na sua esteira.

O tempo passava, os homens na água subiam e desciam ao sabor da ondulação cavada. A terra estava longe e inalcançável, devido ao vento que se fazia e os atirava para sul. Por perto não se vislumbrava qualquer outra embarcação.

Ao fim de uma hora estavam gelados, a água em Fevereiro está sempre fria e o Fininho, doente dos pulmões, desesperado com a ausência de socorro, conseguiu abrir a navalha e dizer ”prefiro matar-me a esperar a morte”, no que foi prontamente contrariado pelos seus companheiros que o demoveram de tão dramática atitude.

- Vamos rapaz, aguenta-te, que os barcos da pescada hão-de estar a passar e algum nos vai socorrer – diz o mestre Cesar do Baba, mais para incutir animo nos seus homens, que por convicção.

- Estou a ver uma vela – diz o Chico que se tinha sentado sobre o mastro que acompanhava a ondulação das ondas.

- Gritai meus filhos, gritai… - diz o mestre.

Ao longe, no “Estrela d`Âncora”  do Tio Morranga, navegava-se sem pressa, as redes estavam perto, o vento estava manhoso e não havia que fiar. O Tó Malhão levantou-se, inclinou a cabeça para um e outro lado, subiu para o banco na tentativa de olhar mais longe.

- Desce daí rapaz, não vês que é perigoso da maneira que está o vento – diz-lhe o pai e mestre da embarcação.

- Estou a ouviu gritos – justifica o Tó.

- Não ouvi nada.

- Eu também não.

- Calai-vos e escutai. Vem daquele lado.

- Tio Morranga, eu também ouvi agora qualquer coisa – diz o Luís da Laparda

- Eu tambem já ouvi! Caça-me a escota que vamos virar para oeste, rápido, é alguém que está naufragado aí fora. Deus queira que cheguemos a tempo…

O Tó continuava à proa, ora debruçado sobre o testeiro, ora subindo ao banco mais próximo até distinguir a mancha escura do barco poveiro voltado.

A vela foi arreada, os remos empunhados por mãos rudes, dedos fortes que se fecharam sobre as empunhaduras com a força do desespero. Na água, a tripulação do barco do Baba dava graças às divindades evocadas naquela hora de aflição. O Chico e o Tone da Justa seguravam o Fininho, muito debilitado devido ao frio que a doença não repelia.

Depois de todos a salvo, passaram um cabo ao barco naufragado, fundearam-no para mais tarde o recuperarem. Chegaram rapidamente a terra e cada um tratou de ir mudar de roupa e tomar algo quente que afastasse o gelo que sentiam na carne e na alma. 

Ao fim da tarde, o “Sempre em Frente” entrava no portinho a reboque de dois outros barcos que o tinham ido resgatar.

Dois dias depois já pescava novamente nos mares de Afife.    

publicado por Brito Ribeiro às 12:06
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