Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

26
Mai 10

Texto publicado no jornal "Diário do Minho" de Braga, um orgão de imprensa ligado à Igreja. Muito curiosa é a autoria deste mesmo texto. Leiam, por favor.  

               

De novo um título alheio. Hoje, sabe o Leitor, de Morris West. Como sabe também o Leitor, Michel Anderson realizou a partir dele uma fita (como se dizia no meu tempo), de grande êxito, estrelada por Anthony Quinn e dois outros colossos do cinema: Laurence Olivier e Vitorio de Sica. Como recordam, havia ali muito de profecia pois, quinze anos antes da chegada a Roma de João Paulo II, Morris West punha na Cadeira de Pedro, um Papa Polaco: Kiril Lakota. Mas o livro integra uma mensagem que vai muito além da casual ou meditada profecia e nela centralizo esta crónica.

Casual é vir o título a encimar Crónica escrita na semana em que pela terceira vez temos um Papa em Terras de Santa Maria. Quando o escolhi nem pensei na coincidência. É certo que poderia eu, a partir de “As Sandálias do Pescador”, fazer a análise desta visita, a começar exactamente na mensagem do romance ou seja na força interior do Papa Kiril na decisão sobre as questões geopolíticas tão semelhantes às que hoje vivemos: momento histórico em que a Europa põe em causa, questionando ou recusando a herança cristã em que enraíza e ganha razão e sentido, o seu próprio SER e Estar num Mundo em desvario.

É certo que poderia eu fazer decorrer a análise da visita de Bento XVI do sentido que o autor dá ao título e assim tipificar a visita do Papa, hoje, numa perspectiva dos passos das sandálias papais e daí insurgir-me, como me insurjo, com as parvoíçadas da drª Catarina Pestana (que tinha por pessoa séria) e dos rapazelhos da Universidade Católica, que desde já perspectivam, para mal dos vossos pecados (por cá já não me terá o Senhor quando essa j. qualquer coisa mandar no país), uns outros Sócrates ou Passos Coelho, que vem a dar ao mesmo em colorido diferente.

É ainda certo que, conjugando o título com a visita de Bento XVI, poderia indignar-me com o indigno e trapaceiro conluio de Sócrates e Passos Coelho, que sabidamente aproveitaram a entrega do Povo à estada papal para cozinharam, às escondidas, leis que o castigam, escudando-se mentirosamente num estarem a servir a Pátria quando é a eles que se servem. Verdadeiro golpe de “chico-esperto” que ambos são.

publicado por Brito Ribeiro às 15:23
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18
Mai 10

As diferentes fases do linho

 

Em Portugal o cultivo do linho pouco difere de região para região (Alves, 2002). As mudanças mais significativas dão-se ao nível do vocabulário que identifica certas operações de processamento e os utensílios ou equipamentos próprios deste labor.

A variedade usada é geralmente o linho “galego” que deve ir para a terra na primeira quinzena de Abril sendo arrancado em Julho, após um desenvolvimento médio de cem dias.

Sementeira – Com o terreno pronto, bem adubado, lavrado, gradado e dividido em leiras, faz-se o lançamento das sementes para a terra. A sementeira é feita em lance farto (mão cheia) verificando-se ainda um antigo costume de molhar com saliva a cabeça do dedo polegar e encostá-lo à terra: se vierem sete sementes agarradas, o campo considera-se bem semeado.

Regas – A primeira rega, ligeira, deve ser efectuada três dias após a sementeira se o tempo estiver seco e quente. As restantes até um máximo de doze, embora haja quem defenda o máximo de nove (Costa, 2009), devem ser consoante as necessidades da terra.

Mondas – o arranque das ervas daninhas deve acontecer um mês após a sementeira e está bem patente na seguinte quadra:

 

Eu hei-de ir ao teu linhar

Que o teu linhar tudo tem

Tem gorga, tem Saramago

E pesseguelo também

 

 

 

Arrancada – No início de Julho, a planta perde a flor de cor azul-violeta e começa a ganhar uma cor amarelada.

Nas pontas nasce a “baganha”, uma espécie de casulo que vem substituir a flor, dentro da qual estão as sementes do linho, designadas por linhaça. Se o linho estiver forte, bem desenvolvido, cada baganha deve conter dez a doze sementes de linhaça.

 

Donde vens ó Ana?

Venho da montanha

De regar o linho

Que já tem baganha

 

Chegou a altura de fazer a colheita, que em algumas zonas pode ser conhecida por “arrinca” ou “arreiga”, devido ao facto da planta ser arrancada com a raiz.

Ripagem – O linho é então junto com a raiz para o mesmo lado, sendo-lhe retirada a baganha com a ajuda do ripo.

Consoante as zonas, esta espécie de pente grande com dentes de ferro, toma as designações de ripador, rapigo, ripanço. A operação também se designa por desbaganhar, ripar, ou arripinhar. A baganha depois de esmagada e apartadas as sementes, servia, antigamente, para encher travesseiros, almofadas e colchões.

Da semente obtida, reservava-se uma parte para a próxima sementeira e a restante para aplicação medicinal (papas de linhaça), infusões e ainda para a indústria de tintas e vernizes.

Maceração – Depois da ripagem o linho é separado em molhos e afogados ou enriados em água. Podia ser no rio, num tanque, numa presa ou numa poça, que tinham a designação específica de poças do linho. Na Freguesia de Âncora ainda hoje existe uma pequena lagoa conhecida entre os locais pelo topónimo de “Poço do linho”.

O objectivo desta maceração é a dissolução dos cimentos pécticos e hemicelulósicos que ligam os feixes de fibras entre si e durava em média 8 a 10 dias, consoante a temperatura da água (Oliveira, 1978).

Secagem – Depois de saírem da água os molhos de palha são abertos e postos a corar de oito a doze dias, havendo o cuidado de os manusear com cuidado para não partir e que a secagem fosse rápida e uniforme. Se forem dadas muitas voltas e de forma descuidada obtinham-se fibras curtas e grande quantidade de estopas o que era de evitar. A palha está macerada se apresentar um tom cinzento prateado e se separe facilmente da fibra por fricção dos caules na mão.

Maçar – Esta operação, quando manual, é efectuada sobre um bom cepo de madeira ou uma pedra lisa. Esmaga-se a palha batendo com um maço de madeira até a parte lenhosa se separar da fibra.

No entanto, esta operação podia ser efectuada com recurso a um “engenho”, primeiro mecânico e depois com recurso à energia hidráulica. Este equipamento era geralmente colectivo, mas há casos de famílias mais abastadas que tinham o seu próprio engenho.

Em volta da Serra D’Arga, com a pulverização dos terrenos e o carácter essencialmente de auto consumo do linho eram raros os engenhos e regra geral as maçadas eram manuais.

Amadar – Esfrega-se manualmente o linho maçado, torcendo-o em espiral para separar os restos de celulose e para o tornar mais maleável.

Espadelagem – Consiste em bater pequenas porções de linho na boca de um cortiço cilíndrico ou num espadeladouro com a ajuda do espadelo, uma espécie de cutelo em madeira.

A espadelagem é uma fase que requer muita habilidade e efectua-se geralmente em volta da eira ou ao serão, juntando-se a família, os vizinhos e os amigos. Iremos debruçar-nos mais à frente sobre esta manifestação sociológica de enorme significado. Por acção da espadelagem vão soltando-se os tomentos, que são as fibras mais ásperas do linho.

 


Sedar – O sedeiro é um equipamento muito simples que funciona como um crivo e apresenta dois tipos de malha, uma mais grossa que outra. A mais grossa destina-se a separar a estopa grossa dos fios mais finos; a malha mais fina separa a estopa linheira das fibras do linho.

Fiação – Trabalho muitas vezes feito ao serão, junto à lareira, com o auxílio da roca e do fuso. Por torção das fibras têxteis vai-se construindo um fio que deve ser uniforme em todo o seu comprimento e ter entre 40 e 50 fibras (Caldas, 1991).

Depois de fiado e enrolado em maçarocas, o fio, com a ajuda do sarilho é dobado em meadas. Na Serra D’ Arga o sarilho tem a particularidade de ser feito em madeira e canas; noutros lugares é exclusivamente usada a madeira.

Cozedura – As meadas são então metidas em potes de ferro e fervidas durante sete horas para tornar o fio mais macio. Nesta fase podem-se acrescentar algumas substâncias para tingir o linho, como por exemplo, cascas de nozes para o fio ficar com tom castanho (Domingues, 2009).

Barrelas – Depois de cozidas, as meadas são introduzidas num cortiço ou em panela de ferro em cuja boca se estendeu um pano coberto de cinza, proveniente de lenha de vide, chamado barreleiro. Durante vários dias deita-se periodicamente água a ferver. O líquido passa pelo filtro do pano com cinza acumula-se dentro do cortiço com as meadas de linho e escoa-se lentamente pelo fundo, havendo o cuidado de manter a barrela sempre quente e bem tapada.

Na Serra d’Arga acrescentam-se à cinza, bocados desfeitos de sabão rosa, farinha milha e algumas ervas (mentrastos, funcho ou aradeiras) para amaciar o linho. Havia quem acrescentasse à barrela um pouco de bosta de vaca. Após a barrela, as meadas são batidas e lavadas nas pedras do rio ou tanque, preferencialmente em água corrente, para depois serem estendidas a secar (Domingues, 2009).

 


Dobadoura – Consiste em passar as meadas bem secas para novelos de fio.

Urdidura – É a preparação dos fios de teia para serem, de seguida, colocados no tear, operação deveras complexa devido ao grande número de linhas que tem de ser colocadas em paralelo e que vão determinar a largura da peça a tecer.

Tecer - Chega então o momento de começar a tecer o pano fazendo passar a lançadeira entre a teia, com o tear a mover-se comandado pelos pés da tecedeira num movimento sincronizado, mil vezes repetido fazendo crescendo o labor, linha a linha, escassos palmos por dia, até à obra acabada.

 

publicado por Brito Ribeiro às 10:27
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08
Mai 10

“Na sala do linho está a gloriosa recordação da família portuguesa, das virtudes das nossas mães, do nosso lar. Tudo alvo puro, respirando o perfume da modesta flor azul, espelhando a frescura dos ribeiros e dos lameiros. Será talvez sentimentalismo, mas um minhoto não olhará para este quadro encantador, para as maravilhas da roca e do fuso, sem alguma comoção” (Vasconcelos, 1884, 145)


 

Introdução

 

O linho sempre exerceu um determinado fascínio sobre mim. É certo que não descendo de família camponesa, por isso nunca tive um contacto privilegiado com esta cultura, mas fruto de um relacionamento antigo e frequente com as gentes das aldeias em volta da Serra D’Arga, absorvi o gosto e algum conhecimento deste ícone da cultura local.

O linho é mais que uma planta, uma cultura agrícola, um fio ou um pano. É o exemplo paradigmático que a soma das partes é mais que o todo. É uma actividade complexa, com tradições, ritos e manifestações culturais que diferem em cada lugar, embora com uma intencionalidade semelhante.

Este trabalho pretende simplesmente dar a conhecer o linho como manifestação sócio cultural, sem esquecer o papel histórico, funcional e económico que desempenhou ao longo dos tempos.

Começarei por abordar a cultura do linho no contexto histórico, seguidamente procurarei dar uma breve explicação sobre as diversas fases da cultura, o contexto em que era produzido e concluirei o trabalho com o enfoque no aspecto sociológico e antropológico de que se reveste este fenómeno, nos ritos e tradições associados, assim como o panorama actual e perspectivas futuras.

 

 

Génese e origem do linho

 

Há mais de 30.000 anos os caçadores-recolectores da Europa de Leste, na região da actual Geórgia, já utilizavam o linho para fabricar tecidos e cordas. Esta foi a descoberta feita por uma equipa de arqueólogos e paleobiólogos que estudam uma gruta desde 1996 e que publicaram na revista Science um artigo com estes dados (Viana, 2007).

Um dos investigadores, Ofer Bar-Yosef, da Universidade de Harvard considerou que “esta foi uma invenção decisiva para os primeiros humanos. Eles devem ter utilizado estas fibras para produzir roupa, cordas ou cestos”.

A equipa de especialistas tinha como primeiro objectivo estudar os grãos de pólen existentes nos diversos extractos da gruta para compreender as variações climáticas que as populações da época experimentaram. No entanto, acabaram por encontrar fibras microscópicas de linho selvagem que, submetidas análises de carbono 14, permitiu datar o achado.

Muitos milénios mais tarde, o linho era usado no Egipto nas primeiras culturas pré-dinásticas. Fragmentos de tecidos e fusos foram encontrados em jazidas neolíticas que datam de 5.000 a.C..

O linho vem citado expressamente no Antigo Testamento (Viana, 2007) como um cultivo normal e uma utilização fina, até luxuosa. Ele é referido no Exodo (IX, 31) como uma das culturas que se perdeu com a chuva de pedras que o Senhor fez cair sobre o Egipto. Também as cortinas e o véu do Tabernáculo e da sua entrada e as vestes de Aarão como oficiante eram de linho fino retorcido (XXXVI, 8, 35 e 37, XXXIX, 1 e 2).


As citações ao linho aparecem igualmente no Novo Testamento, nomeadamente no Apocalipse de S. João que fala de “sete anjos que tinham sete pragas saíram do templo,  vestidos de linho puro resplandecentes e cingidos com cintos de oiro pelos peitos… ou ainda … um homem rico que se vestia de púrpura e de fino linho”. Também José da Arimateia pegou num lençol de linho puro e embrulhou o corpo de Jesus após o descer da cruz (Viana, 2009).

Estrabão informa que os Iberos de Emporium (Ampurias) eram hábeis em tecer o linho, que usavam em várias peças de vestuário e com ele fabricavam couraças com que protegiam o tronco em combate. Com a dominação de Roma e a imposição da pax romana, o linho foi muito explorado, não só nas áreas mais próximas da capital do Império, mas também nas diversas regiões conquistadas, nomeadamente na Ibéria.

As populações autóctones que viviam em castros situados em locais altos, nos montes de difícil acesso, instalaram-se em terras baixas e vales férteis, desbravando matagais e ocupando os solos com as culturas de trigo, centeio e cevada em regime de sequeiro. Os terrenos húmidos e fundos eram ocupados pelos linhares e pelas ervagens que serviam de pastagens permanentes para o gado.

Em Portugal, o primeiro registo escrito (Caldas, 1991) onde o linho é mencionado é o foral de Guimarães do Conde D. Henrique, data de 1096 e são referidos os lenzários de Guimarães.

No século XIII o linho, utilizado ao longo de toda a Idade Média para o pagamento das rendas aos abades e senhores, dos dízimos às igrejas, constituía a primeira indústria do nosso país, lugar que conservou até ao Século XV.

No Século seguinte principia a sua decadência, para isso contribuindo a desertificação dos campos a favor das navegações para a Índia, África e Brasil.

Terrenos de cultivo na Serra D'Arga


No século XVII verifica-se a difusão do milho no cultivo das terras e paralelamente, Filipe III proíbe a exportação do linho, em tecido e em rama. Nos séculos seguintes as preferências recaem no algodão que havia entrado em Portugal nos primeiros anos do Século XVI.

No entanto, o linho manteve quase até aos nossos dias um papel preponderante na sociedade, principalmente nas comunidades rurais, onde o linho era associado a tradições e ritos muito importantes.

(continua)

publicado por Brito Ribeiro às 14:23
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