Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

28
Nov 09

Este monte sobranceiro a Vila Praia de Âncora sempre nos atraiu pelo domínio que exerce sobre o Vale do Âncora e pela deslumbrante paisagem que nos proporciona.

Há muitos séculos que a presença humana por lá deixa vestígios, sejam  as minas de água, escavadas em rocha viva, sejam os trilhos dos caçadores e outros recolectores, sejam os caminhos que ligavam várias freguesias como Vile , Moledo ou Azevedo ou tão só pela monumentalidade religiosa construída em honra e louvor do Senhor do Calvário ou da desaparecida e enigmática Capela de Bulhente.

 

1903 -  Capela do Senhor do Calvário

 

1931 - Capelas do Senhor do Calvário (à direita), Gruta da Nossa Senhora de Lurdes (à esquerda). Entre as capelas pode-se ver a Casa das Sessões

 

1950 - Escadório de acesso à Capela do Senhor do Calvário. O arranjo do adro da Capela e a construção do escadório tiveram lugar entre 1904 e 1911

 

1931 - Gruta de Nossa Senhora de Lurdes, foi construída e oferecida por Aniceto Rodrigo Pontes em 1926.

 


1950 - Capela do Senhor do Calvário e Casa das Sessões. Esta panorâmica mantém-se ainda hoje inalterável

 

1950 - Miradouro em frente à Gruta, cuja estrada ficou concluída em 1949. Atente-se nos espaços de lavradio, na habitação dispersa e na volumetria da Escola do Rego. O Pinhal da Gelfa parecia não ter fim...

 

publicado por Brito Ribeiro às 15:20

19
Nov 09

Não sou nem nunca fui apreciador da musica de Michael Jackson, embora sempre tenha admirado as suas qualidades enquanto bailarino e a dinâmica utilizada nos videoclipes e  espectáculos.

Não é agora que o homem se finou que vou começar com o discurso do "coitadinho, que era tão boa pessoa". Aliás, como pessoa, a fazer fé no que a imprensa nos impingia, até nem era "grande espingarda", que me perdoem os seus admiradores.

Há dias tive conhecimento de um videoclip do Michael Jackson que terá sido censurado nos Estados Unidos durante os anos noventa e por essa razão nunca lá foi editado como single, apesar de ser o single mais vendido de sempre na Inglaterra. É certo que eu já conhecia a música mas os meus conhecimentos de inglês estão como o nivel de vida da maioria dos portugueses, completamente de rastos.

Em primeiro lugar muito admirado fiquei em saber que tambem havia censura nos EUA, os autodenominados paladinos da democracia, da liberdade e de outras coisas mais, dos seus interesses. Como poluição não é assunto que interesse ao maior poluidor mundial, que são os EUA, censura-se.

Segundo, descobri uma faceta ambientalista e preocupada no artista de quem falamos.

Terceiro, no essencial identifico-me com a letra da canção... e aqui curvo-me perante a sua memória.

Quarto, continuo a pensar que, como homem, ele deixou muito a desejar, mas... sei lá, quem sou eu para julgar...

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 22:30
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14
Nov 09

Este conto baseia-se no naufrágio do "Janko" ,um navio tanque que se partiu na costa da Galiza, naufragando uma das partes na costa portuguesa, perto da Capela de Santo Izidoro, Freguesia de Moledo.
 
O vento ciclónico soprava entre os ramos agitados dos pinheiros. A caruma voava e as pinhas desprendiam-se precoces. Pássaros sarapantados, escondiam-se algures entre a folhagem de arbustos rasteiros. Mais um galho quebrado abate-se na areia que lhe vai servir de cama. O som de madeira rachada faz-se ouvir, logo abafado pelo supremo uivo do ar em correria desesperada de norte para sul.

Na povoação as crianças agarradas às saias das mães tremelicam de medo e frio, que o Fevereiro trás o diabo nele. Temporal assim não lembrava aos mais velhos, já vão mais de duas semanas sem tréguas nem acalmia. Quantas telhas voaram dos frágeis casebres junto à praia. Até a chaminé do Tio Caçola se abateu rendida ao sopro de Éolo. Vidas miseráveis, ainda mais pobres quando o tempo amainar. Só pode ser obra do Demónio… ou do Senhor que está zangado. Por via das dúvidas acende-se o círio no oratório da sala e faz-se novena devota com esmola e promessa.

Os homens na loja da Curraca olham para o mar e não reconhecem as águas que lhes dão peixe, que lhes dão de comer. Vagas altas como castelos, coroadas de espuma suja que entram terra dentro para engolir os seus pobres haveres e tomar conta do que um dia foi seu. Mais logo, pela praia mar, vai molhar-lhes os pés, são marés mortas, se fosse esto de lua nova arrebentava com portas e postigos.

Entre duas tigelas de carrascão e o baralho sebento, discute-se o temporal que vem de noroeste, dos ingleses ou dos Açores, dizem aqueles que já foram ao bacalhau. Um vulto tapa por momentos a abertura da única porta da loja. A penumbra do interior torna-se tão carregada que nem a chama do candeeiro de petróleo sobre o pipo do vinho branco consegue penetrar. Entra sacudindo a samarra, limpa o rosto molhado à manga, resmunga uma praga que só ele percebe.

- Vem um navio à deriva – exclama com voz rouca perante a turba que não se contem com perguntas – para os lados da Meia Légua. Está partido em dois… vem dos galegos e vai encalhar…

Como impelidos por uma força maior, todos se acotovelaram para cruzar a pequena porta de duas folhas. Das toscas mesas não se moveram dois velhos que mal se tinham nas pernas e a dona da loja, ao balcão a aviar fiados que hão-de de ser saldados com o apuro das primeiras fainas. O mensageiro deixou-se cair sobre um dos bancos corridos e engoliu sôfrego o tinto que manchava a tigela esmoucada.

- Ainda tenho tempo, que o vapor está longe e vem a direito das Paredes Altas – justifica-se – vou a casa buscar uma corda que há-de dar jeito mais logo.

Os velhos acenaram com a cabeça, compreendida a intenção de saquear os despojos arrojados à penedia, se a Guarda-fiscal não aparecesse primeiro, corvos de uma figa. Ladrões que queriam tudo para eles. Chegavam à terra pobres como Jó, com uma mão atrás outra à frente e em duas penadas já construíam casa e compravam leiras de cultivo.

A porta da loja ainda batia impaciente agitando rolos de fumo que se desfaziam no ar frio do exterior. O tropel dos tamancos esvaía-se ao longe, o silvar do vento e o rezingar do mar voltaram a encher a taberna.

O navio tanque que se partira a noroeste da Corunha trepou preguiçoso pelos rochedos e deixou-se finalmente vistoriar pelos miseráveis que nada tinham e que tudo lhes servia. Um pedaço de ferro, uma camisa, um cabo, um saco de batatas, uma navalha; a tinta que enchia os porões libertava um fedor atordoante, mas já não havia nas redondezas nenhum balde, púcaro ou gamela que sobrasse. Tudo servia para arrecadar o precioso líquido que na primavera iria refrescar as paredes e os muros escurecidos do musgo invernal.

Os da Guarda Fiscal montaram vigia em terra durante dias, enquanto os homens acorriam ao salvado por o lado do mar, desembarcando das frágeis masseiras sempre que o mar lhes concedia uma calada. Uns ficavam aos remos a governar a embarcação, outros saltavam a penedia até às entranhas ferrugentas do velho “Janko” para lhe escoarem mais uns litros do precioso esmalte branco.

Da ociosidade da tasca já ninguém recordava, agora valia o negócio que gentes de Viana vinham fazer, a notícia correu célere, tal como no tempo do volfrâmio que ganhava quem mercava e pouco rendia a quem esgravatava. Negócio feito, tenda desfeita, a tempestade já lá vai, do vapor faz-se sucata, as dívidas estão saldadas, boa ajuda deu esta empreitada.

As redes da pescada estão prontas, os camaradas a postos, ultimo empurrão e a masseira flutua nas águas remansosas do portinho. Remos na mão, que vento só ao largo.

“Ala, ala, que temos de aproveitar a maré, o Senhor dos Aflitos vela por nós e as mulheres que ficaram hão-de dizer um Padre-Nosso por nós”.

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 11:53
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07
Nov 09

Navio tanque sueco, construído nos estaleiros Gotaverken de Gothenburg lançado à água a 28 de Julho de 1928 com 9827 toneladas e 149 metros de comprimento. Estava equipado com duas máquinas a diesel e podia atingir 11,5 nós.

 

 

Este barco mudou de nome várias vezes. No lançamento chamava-se “Nike” e pertencia à empresa R. Sorman; em 1938 foi vendido à empresa A. Jahre & Co que lhe mudou o nome para “Jaguar” e em 1939 para “Janko”; em 1941 foi vendido ao Governo Norueguês que passou a designá-lo por “Norsktank”; em 1947 regressa à posse de A. Jahre & Co. e volta a usar o nome “Janko”.
A 28 de Janeiro de 1951 devido ao mau tempo partiu-se em dois a cerca de 67 milhas a noroeste da Corunha (43,40N 9,40W) carregado com tinta. Uma das partes do navio veio à deriva e encalhou no Lugar do Caído, a norte de Vila Praia de Âncora, sendo posteriormente desmantelado para sucata.
publicado por Brito Ribeiro às 08:58
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