Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

24
Set 09

A Câmara Municipal de Caminha emitiu recentemente um comunicado onde dá conta dos resultados do estudo “Identificação e Caracterização das Fontes Poluidoras do Rio Âncora” que tinha sido encomendado à Faculdade de Engenharia do Porto.

Este estudo aponta a ETAR da Gelfa “como principal foco poluidor” do Rio Âncora assim como as linhas de água pluviais que atravessam a zona urbana de VPA, descarregando na zona do Parque Ramos Pereira e que acarretam lixos e águas residuais.
Sem reservas, subscrevo genericamente estas conclusões. Acrescento também que as defendo publicamente há mais de dez anos em artigos de opinião, publicados em jornais ou revistas locais e regionais, assim como durante o meu exercício como vereador na autarquia caminhense entre 2002 e 2005.
Foram precisos tantos anos para (afinal) dar a mão à palmatória e reconhecer aquilo que era por demais evidente a qualquer pessoa de bom senso e com um mínimo de conhecimentos sobre ambiente. Lamentável é vir agora dizer que a Empresa de Águas Minho Lima é maioritariamente detida pelo Estado Português e esconder que é também participada pelo Município de Caminha que até detêm lugares indigitados nos seus órgãos sociais.
Quem ganhar o próximo confronto eleitoral autárquico deverá, sem tibiezas, defender perante a Empresa de Águas Minho-Lima a construção de um emissário submarino e deve encetar a requalificação das linhas de água que recolhem as águas pluviais ao longo do seu curso, assim como águas residuais clandestinamente ligadas.
Como Ancorense fico feliz se a conclusão deste estudo contribuir para resolver, de forma séria, os problemas de poluição que ciclicamente levam Vila Praia de Âncora e o Rio Âncora para as páginas dos jornais.
No entanto, ficarei seriamente preocupado se este comunicado não passar de baixa chicana política de arremesso a dois ou três dia de um acto eleitoral e não tiver consequências futuras.
Vamos esperar para ver.
publicado por Brito Ribeiro às 20:09
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18
Set 09

Foto obtida durante a Festa da senhora da Agonia de 2009 em Viana do Castelo. Simplesmente espectacular, digo eu!

publicado por Brito Ribeiro às 22:42

13
Set 09

De origem medieval, as feiras apresentaram-se como um dos aspectos mais importantes da organização económica. Após o fim das invasões bárbaras, o ressurgimento económico e a necessidade de promover trocas entre o campo e a cidade, levaram à criação deste intercâmbio económico. A sua realização está sempre associada a uma povoação de alguma importância.

Esta importância é demonstrada pelo facto dos monarcas portugueses, sobretudo os primeiros, se terem assenhorado da prerrogativa de criação das feiras. Desde D. Teresa (1112-1128), até D. Afonso V (1438-1481), com apogeu no reinado de D. Dinis (1279-1325), várias feiras foram instituídas em território português.
A feira de Caminha foi estabelecida por este último rei, que manda aí fazer “fazer feira na vila, todos os meses, três dias andados do mês” e a ela são constrangidos todos os moradores do termo para aí venderem os seus produtos (à semelhança do que acontecia em Viana).
No século XV, em cortes é referida a feira mensal que se realizava na primeira quinta-feira de cada mês. A partir de 1 de Maio de 1627 e até (pelo menos) 1739, a feira de Caminha efectua-se no primeiro dia de cada mês embora, com algumas vozes discordantes da sua realização. Mesmo assim, a feira foi sendo realizada até aos nossos dias.
Em 1859 após diversas vicissitudes por que a feira passou, os munícipes pedem a criação da feira semanal à quarta-feira “attendendo as necessidades dos habitantes deste município”. Esta situação ocorre noutras localidades como é o caso de Viana, cuja periodicidade passa, a partir de 1823, do quinzenal para o semanal, o que atesta a dinâmica económica da região.
A importância deste potenciador económico da região, conduziu as Juntas de Paróquia de Argela, Moledo, Venade, Azevedo, Vilar de Mouros, Âncora e Vile, em 1894, à solicitação de que os mercados realizados ao domingo voltassem a ser transferidos para a quarta feira como anteriormente vigorava. Contudo, no ano seguinte, o município concluiu que os mercados semanais eram mais concorridos ao domingo, pelo que voltaram, novamente a ser realizados nesse dia.
 
 
Além da feira para venda de produtos locais, também em Caminha se realizavam feiras de gado que ocorriam em três períodos anuais: 1º de Janeiro, 1º de Novembro e terceiro domingo de cada mês. Esta tinha por espaço os terrenos entre a avenida da estação e o parque.
Alem do aspecto económico, devemos igualmente fazer referência ao papel cultural que as feiras desempenhavam, pois a obrigação de os habitantes à venda dos seus produtos na feira leva ao desenvolvimento de uma sociabilidade e à circulação de “notícias”.
Além das feiras que tinham uma periodicidade alargada (mensal, anual) deveremos igualmente fazer referência aos mercados que, também de criação medieval, embora há quem os reporte a séculos anteriores, sobretudo a quando da presença dos muçulmanos em território português, tem a sua realização em prazos mais curtos (diária ou semanalmente).
O mercado era um núcleo indispensável para o comércio local por que se destinava a promover a alimentação quotidiana nas populações locais, supria as necessidades da localidade onde se fazia e era apenas concorrido pelos moradores da vizinhança. Nele se vendiam os produtos agrícolas e as mercadorias necessárias à vida de todos os dias.
Com o crescimento de Gontinhães (Vila Praia de Âncora), quer em termos demográficos quer económicos, urgia a criação de locais onde a venda de produtos desta localidade e freguesias limítrofes do Vale do Âncora, se efectuasse.
 
 
A partir do século XIX, com o desenvolvimento de uma colónia de pescadores sentiu-se a necessidade de encontrar um local para a venda de peixe. Deste modo, em 1889, Laureano Brito ofereceu ao município a quantia de cento e oitenta mil reis para adquirir um terreno, na referida localidade, para a criação de uma praça de mercado especialmente para peixe porque o Largo das Necessidades (hoje Praça da República) “attendendo às suas pequenas dimensões, transformações por que está passando e ao grande número de forasteiros que aqui que por aqui affluem por occazião da epocha balnear, não pode satisfazer esta necessidade”.
Porém, esta questão de estabelecimento da praça de peixe não foi consensual, quer pelo local da sua criação quer pela oposição à expropriação do proprietário do terreno, na Lagarteira, onde se pretendia construir o dito mercado. Finalmente, no ano seguinte, a decisão municipal foi construir a referida praça de peixe num terreno próximo ao teatro.
Alem da venda de peixe não podemos esquecer que a região é rural e, por isso, desde cedo, pelo menos desde o século XVIII, se sentiu a necessidade de fazer uma feira de gado sediada na Lagarteira.
Em 1925, após a transformação de Gontinhães em Vila Praia de Âncora, o vereador Rodrigues Pires solicitou que fosse criada uma feira anual de gado a realizar por ocasião das festas da vila do largo chamado “Campo da Retorta” ou Avenida da Republica. Esta feira, após o longo período de abstinência da quaresma, era importante para a venda de gado para abate e posterior consumo.
O mercado passou a ser importante com o crescimento populacional desta localidade no século XIX. Este facto é atestado quando Maria Joaquina Afonso, em 1888 pediu licença para colocar um balcão de madeira, no largo da Lagarteira, para expor à venda na época balnear, géneros alimentares.
De Gontinhães e das freguesias vizinhas, as mulheres, maioritariamente, com cestos à cabeça, deslocam-se à “feira” para vender aquilo que cultivavam e excedia, como produtos hortícolas, fruta, galinhas, ovos, cereais, enchidos, unto, presunto, manteiga, (Pinho Leal refere a venda de “excellente manteiga, chamada de Vianna, que provinha das freguesias de Âncora, Affife e Carreço”), castanhas, batatas, nozes, azeitona, linhaça. Porcos de criação, para poderem adquirir outros bens que necessitavam.
Em suma, podemos com Ramalho Ortigão que “a feira é constituída por mulheres… [que] chegam de manhã, enfileiram-se ao lado umas das outras,… pousam no chão os cestos com as respectivas mercadorias, e vendem de pé à multidão que preenche os espaços intermédios de fila para fila, os ovos, a manteiga o pano de linho… todos os variados e curiosíssimos produtos das industrias caseiras dos arredores”.
 
in: Folheto do cortejo etnográfico, grupo da Freguesia de Âncora, Festas da Senhora da Bonança - 2009
publicado por Brito Ribeiro às 21:27
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10
Set 09

Durante muitos anos montou-se um passadiço em madeira sobre o leito do Rio Âncora na época estival, para usufruto dos banhistas que frequentavam a Praia de Âncora.

 

 Passadiço estival em madeira - 1953

Por pressão da Junta de Turismo local, após diversos avanços e recuos, foi construída uma ponte com pilares em cantaria e tabuleiro pré-esforçado de betão.

Nesta construção não foi tido em conta a proximidade do mar e a resistência dos materiais utilizados, levando ao colapso desta ponte poucos anos depois, durante um temporal.

 

 Ponte em betão - 1958

Uma noite, o mar galgou o tabuleiro arrastando-o à sua frente, deixando para trás os pilares quebrados, que foram aproveitados para assentamento de mais um tabuleiro provisório em madeira.

 

O lance em betão complementado por um lance tosco em madeira - 1968

Este passadiço misto, metade betão, metade madeira, funcionou durante alguns anos até à construção do passadiço que ainda hoje existe e que foi requalificado pelo Ministério do Ambiente há quatro ou cinco anos.

publicado por Brito Ribeiro às 22:04

01
Set 09

Julho de 1969

 
O comboio balouçava ao passar cada emenda dos carris. Contar os ressaltos teria sido uma boa maneira de passar o tempo se não tivesse na cabeça um turbilhão de pensamentos. De cada lado sentava-se um agente da PIDE, repousando os pés deles sobre os seus próprios sapatos, uma medida de segurança, tinham-lhe dito, uma humilhação pensava o Álvaro.
Tinha sido detido na fronteira em Valença. Regressava da Bélgica para passar uns dias de férias com a mãe e os amigos, em Âncora, pequena vila encostada ao mar. O mar que o viu nascer e crescer, a terra que lhe negou o sustento digno e suficiente, obrigando-o a emigrar para longe, mais para o norte, junto ao mar, como em Âncora.
Por lá foi aprendendo os porquês da emigração, ficou a saber mais das Províncias Ultramarinas que o regime dizia que eram nossas, quando todo o mundo dizia o contrário e condenava Portugal como potência colonial. Por lá assistira a reuniões de opositores a Salazar, que pregavam a liberdade e a democracia. Nunca se envolvera muito, o trabalho estava primeiro e a vida de emigrante não deixa tempo livre.
Na fronteira, quando entregou o passaporte ao funcionário da alfândega, nunca pensou que estariam à sua espera e lembra-se de apenas desejar que o comboio partisse logo, para abraçar a sua velha mãe, agora tão perto.
Os PIDES apresentaram-se sem alarido, nada de cenas à moda de Hollywood, simplesmente perguntaram-lhe o nome, como se não soubessem, e deram-lhe voz de prisão em tom perfeitamente casual. Antes de se sentarem ao seu lado, um deles fez questão de lhe mostrar disfarçadamente a arma que trazia ao cinto dizendo em voz baixa, “ o último que levei para o Porto quis fugir e tive que lhe dar dois tiros”.
Aquilo gelou-lhe o coração, a ameaça dita sem sentimento, como quem atira um caroço pela janela, o ar indiferente como os esbirros da polícia política encaravam a prisão de alguém que eles não conheciam, que não tinha cometido nenhum crime, que nem sequer tinha tomado parte em acções subversivas, que apenas tinha aprendido a desprezar a ordem imposta sobre um povo ignorante.
No Porto passou a noite na sede da R. do Heroísmo e no dia seguinte foi metido numa carrinha fechada com mais três indivíduos. Horas depois, meio cego com a luz forte de uma tarde de Julho, entrou na sinistra sede da Rua António Maria Cardoso em Lisboa.
Ao empurrão introduziram-no na sala onde um agente preencheu vagarosamente uma ficha com os seus dados pessoais. Quando terminaram, foi informado que ia ao médico, limitando-se este a examinar os papéis recem preenchidos. Perguntou-lhe se se queixava de alguma coisa e a rematar aquela caricatura de acto médico, atirou-lhe com ar cínico, “veja lá, não se queixe muito quando um dia sair daqui”. Mais outro balde de água fria a juntar aos anteriores, mas o que mais o apoquentava era a incerteza do que se iria passar, o desconhecido, mais até que o medo da tortura, que ouvira falar nas reuniões, na Bélgica. Como estava longe a Bélgica, era agora parte do passado e só de lá tinha saído há três dias.
Foi levado para uma pequena sala quase vazia, apenas uma velha e carunchosa secretária ocupava um dos cantos. Mandaram-no permanecer de pé várias horas, ao fim das quais começaram a interrogá-lo. Dois tipos, as ameaças de mil e um terrores se não respondesse com verdade a tudo.
O que fazia, com quem trabalhava, que portugueses é que conhecia na Bélgica, a quem escrevia para Portugal, quem eram os delegados sindicais da fábrica onde trabalhava, como se chamavam os homens do Partido Comunista, o que faziam os agitadores, onde viviam, como contactavam… Mil perguntas, mil vezes repetidas.
Só uma vez o PIDE que o estava a interrogar lhe deu uma bofetada. Mais para o acordar do que para doer. Preferiam pisar-lhe os pés, já massacrados pelas horas incontáveis de interrogatório e de estátua. Várias vezes se foi abaixo das pernas, logo espevitados com umas caneladas sabiamente aplicadas.
Quando o agente ameaçador saía por instantes da sala, logo o outro que se mantinha quase sempre em silêncio, vinha solicito tentar convencê-lo a falar, “sabe como é, tenho colegas violentos, que não tem paciência para nada. O melhor era você dizer tudo o que sabe para eu poder ajudá-lo”. Tudo falso, tudo combinado entre eles, que muitas vezes colocavam um bufo na cela dos novos para os ouvir “despejar o saco” entre eles.
Eles revezavam-se, voltavam as ameaças, as pisadelas, nunca batiam onde pudessem ficar marcas, tornava a escutar os conselhos do PIDE que dizia querer ajudar. Queria-se rir, chamar-lhes filhos da puta, já lhe disse sem conta que não conhecia ninguém do Partido Comunista, nem estudantes, nem operários, nem nada… Só venho a Portugal de férias para ver a minha mãe. O meu irmão anda embarcado num barco mercante… Sei lá qual é o barco!
Recorda-se de o terem levado para a cela, os pés inchados, quase não conseguia tirar os sapatos, não soube a que horas entrou, quanto tempo o deixaram descansar, um sono agitado, sonhou que caía a um poço, talvez o tivessem empurrado, nunca mais chegava lá abaixo.
Voltaram a metê-lo dentro de uma carrinha fechada, desta vez só, sentia-se dentro do poço do sonho, percebia as voltas, muitas voltas que deu até se encontrar dentro do Forte de Caxias.
Tudo pintado de branco, o Álvaro avançava penosamente, arrastando os pés, os olhos ardiam-lhe da intensidade da luz. Mais papéis para preencher, um molho de roupa, “vamos” disse-lhe o guarda virando-lhe as costas, sem se importar em saber se o seguia ou não.
A cela branca, a cama em cimento com estrado de madeira, uma luz fraca, um balde. Dois metros para lá, dois metros para cá. Um dia no isolamento pareceu-lhe uma semana, a semana pareceu-lhe um mês. Voltou à sala de interrogatório, os camaradas das celas vizinhas disseram palavras de alento “Aguenta-te rapaz que eles não valem nada”.
Aguentou-se, também não tinha nada para contar, disse-lhes tantas vezes “vocês prenderam-me por engano”, riram-se, não acreditavam. Os pés, as pernas, os joelhos estavam novamente inchados, quase não conseguia andar no regresso à cela. Teve de ser amparado pelo guarda que o levou para outra cela, a 157. Já lá estavam três prisioneiros que o olharam com desconfiança.
- De onde és, pá?
- De Âncora.
- Onde fica isso?
- No norte, perto de Viana.
- Aquela é a tua cama. Vai-te deitar que tens essas pernas uma miséria. Cambada de filhos da puta. Não adiantou nada o velho ter caído da cadeira, o Marcelo é a mesma merda!
Não regressou aos interrogatórios, parecia que se tinham esquecido dele. O irmão visitou-o duas vezes enquanto o barco esteve atracado em Lisboa. As semanas passaram, aprendeu muito de política nesses dias, em conversa com os seus companheiros.
“Senhor Álvaro, pegue nas suas coisas e venha comigo” dissera-lhe o guarda que o conduziu à portaria sul onde o esperavam para o meter, junto com a mala que trouxera da Bélgica, na malfadada carrinha fechada.
Mais voltas pela cidade, pára a viatura, abre-se a porta traseira, é-lhe dito para sair. A carrinha arranca novamente, o Álvaro vê-se só na rua de prédios antigos, ao fundo o rio, muito ao fundo.
Passa um táxi, faz-lhe sinal, manda-o seguir para Santa Apolónia. Era noite quando chegou a casa, os amigos vieram visitá-lo, logo que souberam da sua chegada. Não lhe apetecia sair, não queria sair de casa, passava horas deitado sobre a cama a olhar para o tecto, vendo as espirais de fumo do cigarro perderem-se no ar.
Ainda voltou a ser ameaçado pelo agente da PIDE de Caminha, o Mendes que lhe disse com ar de superioridade, “veja lá senhor Álvaro, veja lá, é melhor não se meter mais em problemas”.
Devolveram-lhe o passaporte, no dia seguinte meteu-se no comboio em direcção a Bruxelas. Voltou a Portugal em Agosto de 1974, quando os PIDES já estavam presos ou em fuga.
publicado por Brito Ribeiro às 11:45
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