Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

25
Jun 09

Os sames de bacalhau fazem parte do baú das recordações dos antigos pescadores do bacalhau nos mares da Terra Nova.

Os sames (bexiga natatória do bacalhau), assim como as línguas ou as caras eram salgados à parte e constituíam um dos raros pitéus a que os pescadores tinham acesso durante o tempo de faina.

Já aqui falei sobre a “Chora”, um prato confeccionado com as caras de bacalhau. Agora vou falar sobre os sames que habitualmente se fazem em feijoada ou com grão-de-bico.

Encontramos os sames à venda em algumas mercearias populares das zonas piscatórias ou nas cidades em casas especializadas na venda de bacalhau.
Em Vila Praia de Âncora, pelo menos, não é difícil encontrar este acepipe pouco conhecido fora da classe piscatória.
 
Põe-se os sames de molho, assim como o feijão branco. Pode-se usar feijão de lata, mas não é a mesma coisa!
Limpam-se os sames retirando a pele escura, cartilagens e alguma impureza. Dependendo do tamanho pode-se (ou não) cortar cada same em bocados mais pequenos.
 
 
 
Coze-se o feijão adicionando apenas um fio de azeite. Faz-se um refogado com azeite, cebola e alho picados ao qual se acrescenta cenoura às rodelas, uma folha de louro e tomate picado depois de retirar a pele. Temperar com sal, pimenta, salsa e deixar apurar um pouco. Pode também incorporar, se gostar, uma pitada de cominhos e noz moscada.
Acrescentar os sames de bacalhau envolver tudo e deixar cozinhar, após o que se junta o feijão.
Deixar apurar em lume brando, rectificar os temperos e está pronto a servir.
Os sames também podem ser confeccionados com esparguete ou macarrão. 
 
 

 

publicado por Brito Ribeiro às 19:07

22
Jun 09

Fiz referencia em posts anteriores à lancha fluvial "Rio Minho", que desempenhou durante décadas o brioso papel de fiscalização ao longo do troço internacional deste rio. Recentemente, o amigo Rui Amaro, grande entusiasta de tudo o que esteja ligado à navegação, publicou um magnífico post sobre todas as lanchas, portuguesas e espanholas que operaram no Rio Minho. Com o devido agradecimento ao autor, decidi transcrever a parte respeitante à:

 

RIO MINHO – Lancha canhoneira de fiscalização fluvial de aço, 24,60m pp/38tons, 0,70m calado, lançada água a 02/11/1905 no velho Arsenal de Marinha de Lisboa, baptizada de INFANTE D. MANUEL.

 

 
Desenho de Luís Filipe Silva
 
Estava equipada com uma máquina a vapor de 64cv, que accionava duas rodas de pás posicionadas lateralmente a meio-navio que lhe dava 7,5nós, 49 tripulantes incluindo um primeiro-tenente como comandante, uma peça Hotchkiss com o calibre de 37mm, montada em caça.
 
A sua construção foi parcialmente paga com o que sobrara da subscrição aberta entre os emigrados portugueses no Brasil, como resultado do ultimato inglês, e de cujo produto se construíram cinco outros navios de guerra.
 
 
 
Com a mudança do regime político em Portugal em 05 de Outubro de 1910, a INFANTE D. MANUEL teve o seu nome alterado para RIO MINHO.
 
Foi abatida ao efectivo dos navios da armada, por obsoleta, em 14/12/1948.
 
publicado por Brito Ribeiro às 15:36
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19
Jun 09

Publicou a revista “FOCUS” no seu nº 505 um artigo sob o tema “Costa Verde, praias azuis”. Porque no referido artigo são cometidas diversas incorrecções sobre Vila Praia de Âncora importa corrigi-las. Fiquei com a ideia que a articulista de uma forma leviana escreveu sobre algo que desconhece e apenas terá vertido alguns dados para as páginas da revista, copiados sabe-se lá de onde.

A intenção até podia ser louvável, mas o resultado foi medíocre, o que não abona nada em favor de uma profissão que tem tanto de influente, como se pretende rigorosa e credível. O que neste caso, notoriamente não aconteceu.
 Vamos a factos:
“… a aldeia ascendeu à categoria de cidade de Vila Praia de Âncora em 1924.” Na realidade Gontinhães ascendeu a vila e tomou a designação de Vila Praia de Âncora em Julho de 1924, mas nunca foi cidade.
 
“… já no século XVIII existia o porto de abrigo na Lagarteira.” É falso, não havia qualquer porto. Existia um portinho natural que apenas permitia, durante o verão, que pequenas embarcações de Caminha e de La Guardia descarregassem aí o pescado. Os molhes, que ainda hoje existem, são do século XIX.
 
“Era aí, ao largo desse antigo porto, que se situava a fortaleza de D. Pedro III, também conhecida por forte da Lagarteira. Actualmente este lugar ainda tem uma série de impressionantes peças de artilharia.” Ao largo do porto não existe coisa nenhuma, excepto mar. Em segundo lugar, o Forte da Lagarteira nunca foi conhecido pela “fortaleza de D. Pedro III”. A confusão deve ser com D. Pedro II, pois foi durante o seu reinado que o fortim foi construído (cerca de 1690). Aliás, D. Pedro III foi um rei “não reinante” pois era o consorte de D. Maria I (casaram em 1760, já o fortim tinha 70 anos de existência). Por fim, o Forte da Lagarteira não tem nenhuma colecção impressionante de peças de artilharia, nem nos seus melhores tempos, quando era guarnecida por dois soldados e um cabo artilheiro. A não ser que se esteja a referir às duas pequenas peças de artilharia que datam do século vinte e que ornamentam a porta de armas.
 
“Em Caminha o mais conhecido dos pratos é o eiróz cozido e o sargo”. Fiquei com dúvidas e apurei que a palavra “eiróz” nem sequer existe e o mais aproximado que encontrei foi “eiró” que significa enguia, que não é, de todo, um prato típico da nossa gastronomia. Se queria dizer congro também não me parece correcto, pois o congro, nestas bandas, é maioritariamente confeccionado em caldeirada ou frito. Sobre o sargo também não acertou, pois o que é tradicional é a choupa que sendo da mesma família é diferente no seu aspecto físico e no sabor.
 
Por fim, não posso deixar de criticar a ausência de referências a Vila Praia de Âncora no capítulo “onde ficar” e “onde comer”, preferindo a autora divagar por restaurantes de Vila Nova de Gaia que, como todos sabemos, é uma “grande” referência gastronómica na Costa Verde.
 
Sinceramente, acho o artigo da “Focus” muito fraco e totalmente injustificada essa falta de qualidade, pois hoje em dia é fácil obter informações sérias e rigorosas sobre a nossa região.
 
Promoção turística desta forma? Não, obrigado.
publicado por Brito Ribeiro às 16:21
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17
Jun 09

Encerrou no passado dia 14 a Festa do Mar e da Sardinha que decorreu no Campo do Castelo em Vila Praia de Âncora. Para o efeito foi montada uma tenda gigante que alojou um conjunto de artesãos e de empresas da região, assim como diversos restaurantes.

No exterior, uma marca automóvel promoveu um feirão e estavam expostos diversos modelos de barcos de recreio e autocaravanas.
Os dois primeiros dias foram desastrosos em termos atmosféricos pois choveu “a cântaros” tornando o terreno lamacento e pouco próprio para a circulação pedonal.
Mas o S. Pedro acabou por colaborar e nos dias seguintes a afluência ultrapassou as expectativas, com enchentes sucessivas de turistas, demandando a nossa saborosa sardinha.
Penso que a aposta foi ganha, o modelo funcionou e para isso também contribuiu uma correcta e afincada promoção do evento.
Não só os comerciantes que apostaram no aluguer de espaços dentro do recinto se mostravam satisfeitos, como a generalidade dos restaurantes da Vila tiveram casa cheia durante o evento. A animação no interior da tenda foi satisfatória e pelos arredores ainda se poderiam acompanhar diversos espectáculos interessantes.
A sardinha esgotou muitas vezes mas ninguém ficou de barriga vazia, sendo a fome mitigada com polvo, cabrito, robalo ou arroz de marisco, especialidades sabiamente confeccionadas.
Não sei se foi cumprida a anunciada meta de oito toneladas, nem isso interessa, importa é reter a ideia que, finalmente, se apostou num evento de algum impacto e mobilização.
Importa também fazer um balanço por parte dos promotores de forma a evoluir em futuras edições.
Como aspectos menos positivos, não gostei de ver a entrada do pavilhão completamente “tapada” pelos expositores exteriores. Penso que podia ser dado um arranjo exterior que formasse uma alameda ao longo do recinto, usando arcos festivos tão tradicionais das romarias minhotas.
A ventilação interior do pavilhão também me merece reparos pois era nitidamente insuficiente e os dias nem sequer estiveram muito quentes.
Quanto à exposição de faróis patente no Forte da Lagarteira considero-a um êxito, embora pudesse ser complementada com mais “qualquer coisa” relacionada com a sardinha, ao fim ao cabo a rainha da festa.
O aspecto gastronómico e empresarial da festa tem de ser potenciado, mas o aspecto cultural e sociológico relacionado com o tema (mar e sardinha) não pode ser esquecido ou mesmo anulado, pelo contrário, deve ser cada vez mais, o núcleo gerador deste evento.
publicado por Brito Ribeiro às 12:34
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15
Jun 09

Organizado pela Junta de Freguesia de Vilarelho, os passeios pedonais tendo como centro nevrálgico o Monte de Santo Antão, são já uma referência nas iniciativas deste género, que nos últimos anos se tem multiplicado (felizmente) um pouco por todo o lado.

Concentração matinal; os autocarros esperavam

 

Ontem, 14 de Junho, o dia nasceu sombrio, as nuvens baixas tapavam o céu e a ameaça de algumas pingas pairava no ar. Durante o dia verificamos que o S. Pedro acabou por ajudar, pois nem o calor apertou, nem a chuva passou de uma remota ameaça matinal.
Concentrados às oito e meia da manhã na urbanização da Selminho, depois de umas bolachas e o Vinho do Porto a fazer de “mata bicho”, todos foram acomodados nos autocarros até Santa Luzia onde, quiçá pombos correios, fomos largados em direcção a casa, melhor ao Monte de Santo Antão, termo deste exigente passeio pedonal.
Jardins de Santa Luzia
 
A coluna estende-se
 
Os grupos formam-se
 
 
Tambem fui apanhado pela objectiva atenta do Abílio
 
Como é habitual, cada um adoptou o seu ritmo de marcha e a coluna com cento e trinta participantes logo se alongou para de seguida se fraccionar em diversos grupos.
Panorâmica de Vana da Foz do Lima
 
Estes vem nas calmas
 
As paisagens sucediam-se deslumbrantes apesar do tempo enevoado, os caminhos mais ou menos degradados, mais ou menos tapados de infestantes eram alvo dos mais variados comentários dos caminheiros que aproveitavam para pôr a conversa em dia em ambiente de franca camaradagem, mesmo entre pessoas que se tinham conhecido uma ou duas horas antes.
Primeiro abastecimento
 
Assim está a florestal de Santa Luzia
 
Uma das muitas quedas de água que apreciamos pelo caminho
 
No primeiro ponto de abastecimento, em pleno parque eólico de Afife, uma garrafa de água ou uma laranja refrescaram as gargantas mais sequiosas e continuou-se em direcção à Senhora da Cabeça onde seria servido o tardio pequeno almoço.
Abastecimento na Senhora da Cabeça com o Serafim a comandar as operações
 
Todos tratam do físico, uns por fora, outros por dentro
 
Logo de seguida as subidas de Riba D’Âncora faziam estragos e poucos devem ter sido os que as ultrapassaram sem porem os “bofes à boca”. Por esta altura já um grupo se tinha perdido e foi necessário reencaminhá-los para o percurso algo complexo, mas razoavelmente sinalizado.
O Rio Âncora foi atravessado na Alhada
 
Mais um caminho tapado pelas austrálias; reparem no pormenor do rail de protecção onde nem uma bicicleta passa
 
Em breve avistamos o Vale do Minho e os geradores eólicos do parque de Santo Antão estavam agora próximos.
Rio Minho e Galiza por fundo; do lado direito o Monte de Goios
 
Torres eólicas do Monte de Santo Antão
 
À nossa espera estava um farto merendeiro e muitas bebidas gostosamente consumidas por todos os que conseguiram resistir a cerca de trinta quilómetros de caminhada.
Merendeiro e convívio final
 
Parabéns à organização, em especial ao amigo Serafim Cubal, Presidente da Junta de Freguesia de Vilarelho por mais esta iniciativa.
publicado por Brito Ribeiro às 16:48
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09
Jun 09

O farol tornou-se visível mais cedo que as contas feitas pelo capitão, que atribuiu este desfasamento a um amainar do vento e da ondulação, com consequente aumento da velocidade do barco.

- Ilhas Cies à vista, rumo 075, máquina devagar à vante…
- Não se vê nada, senhor. Não seria melhor esperar pela manhã?
- Quantas vezes entrou no porto de Vigo, imediato?
- É a segunda vez…
- Pois eu já aqui entrei mais de vinte… mais de trinta vezes. Quando se atinge aquele farol, o das ilhas Cies, muda-se de rumo, cruzamos devagar e fundeamos aqui – bateu com dedo grosso sobre o mapa – e esperamos piloto para atracar. Menos máquina… menos máquina, pode estar outro barco aí à frente…
O cargueiro deu de bordo à luz encarnada do pequeno farol e avançou decidido a entrar nas águas remansosas da Ria de Vigo.
- Marinheiro, largue a sonda… só para verificar…
- Senhor capitão, só temos quatro braças…
- Você está bêbado… meça outra vez.
- A diminuir para três… vamos encalhar.
- Não pode ser… máquina à ré, toda a força – berra o capitão, branco como a cal.
- Máquina à ré… tudo à ré…
A máquina calou-se por instantes e logo se voltaram a ouvir as bielas e cambotas empurradas violentamente pelo vapor que silvava nos escapes.
Outro barulho despontava, primeiro distante, surdo, como se alguém estivesse a arranhar uma chapa para os lados da proa. Em crescendo, o barulho era agora seguido do estremecer de toda a estrutura. Os homens calaram-se, pararam o trabalho para melhor perceberem o que acontecia. Alguém gritou “encalhamos” e todos se atropelavam para subir ao convés.
- Mais máquina à ré – berrava o capitão.
Ninguém lhe fez caso, todos estavam mais preocupados com as condições do encalhe e o perigo que daí advinha do que nas tentativas desesperadas do capitão em safar o barco. Todos sabiam que um navio quando encalha não sai pelos próprios meios e mesmo com ajuda, raramente se salva.
O “Antinous” estava agora imóvel e da ponte podiam apreciar o mar que rebentava de ambos os bordos do navio. Tinham encalhado sobre um seco de areia, não tinham encontrado pedra, não se ouvira o barulho aterrador da chapa a ser retalhada pelos dentes de granito, o terror, o pesadelo de qualquer marinheiro.
Sentiam-se encurralados mas conscientes que não corriam perigo imediato. As vagas começavam agora a fustigar a popa do navio imóvel. A bombordo continuavam a ver a pequena luz do farol que o capitão Jones tinha tomado por as Ilhas Cies.
Da asa da ponte um dos marinheiros disparou um very light alaranjado que bailou agitado ao vendaval de sudoeste. Ao segundo foguete de sinalização pareceu-lhes ver uma barreira de areia baixa pela proa do vapor.
- Costa Galega não é - resmungou o capitão, que transpirava abundantemente apesar do frio que se fazia sentir.
- Estamos certamente na barra do Rio Lima…
- Não pode ser, senhor Sullivan. Aquele farol é o de uma ilhota, a Ínsua, à entrada do Rio Minho… à nossa frente temos uma praia… temos de esperar auxílio.
Pequenas lanternas bruxuleantes viam-se em movimento pela praia, certamente gente que se tinha apercebido do naufrágio e que, movidos pela curiosidade, tinham descido desde as suas casas, indiferentes à invernia.
Quando o dia clareou surgiu do estuário do rio uma velha canhoneira vomitando fumo pela alta chaminé, chapinhando as rodas laterais nas águas ainda agitadas da foz. Várias manobras de aproximação foram ensaiadas e outras tantas abortadas pelo perigo de um segundo naufrágio. Já a manhã estava avançada quando se avistou a sul um rolo de fumo que rapidamente se aproximou e fácil foi distinguir a silhueta baixa e forte de um rebocador saído a toda a máquina do porto de Viana.
O “Antinous” continuava bem preso no banco de areia, perdido no extenso areal da praia de Moledo a cerca de cento e cinquenta metros da linha de praia mar. Cabos foram lançados pelo rebocador, as manobras duraram toda a tarde e os resultados foram nulos. Ao cair da noite aproveitando um período de acalmia e a viragem da maré, um dos escaleres do navio foi areado e parte da tripulação remou vigorosamente até à praia onde foi recebida com manifestações de carinho pelos populares, que os presenteavam com abundantes porções de bagaço retemperador de frios e emoções.
Durante a noite, o “Antinous” abriu água à ré e de manhã o capitão deu ordem de embarque aos tripulantes que tinham ficado a bordo, depois de desligarem a máquina e ter arrecadado as papeladas do cofre. Desta vez não remaram para terra, mas ao encontro do “Rio Minho” a canhoneira da marinha, representante da autoridade no local, que abrigada pela penedia da Ínsua se mantinha vigilante.
Nessa noite o mar cresceu e na manhã seguinte as águas tingiram-se de amarelo quando o milho arrecadado nos porões rebentados se soltou e vogou ao sabor das correntes.
A Guarda-fiscal ainda tentou impedir o povo de carregar o milho que em vagas sucessivas salpicava a fina areia de Moledo. Em breve a mancha amarela invadia outras praias, Âncora, Afife e Montedor. Destas freguesias surgiam carros de bois e grupos de mulheres que, de cesto de vime à cabeça, gratavam as pérolas douradas que o mar oferecia.
O “Antinous” não mais saiu de Moledo. Foi-se enterrando na areia sempre em movimento no canal entre a ilha da Ínsua e o Bico da Ruiva. Enterrou-se até ficar apenas com a chaminé fora da mortalha arenosa. Onde outrora saía fumo, passaram a viver mexilhões, indiferentes ao passado metálico do alojamento.
Os náufragos foram repatriados e poucas semanas depois já navegavam em outros navios, em outros mares, com mais uma história para contar aos novos camaradas.
O povo que diligentemente tinha recolhido tantas arrobas de milho, amaldiçoou a hora em que tinham encetado tão árdua tarefa, pois o milho grelou e apodreceu depois do contacto prolongado com a água do mar.
Hoje em dia a chaminé do “Antinous” continua erguida, despontando na areia durante a baixa-mar, testemunha solitária e silenciosa, respeitada por pescadores e outros navegantes que se esforçam todos os dias por não errarem o rumo.
 (Fim)
publicado por Brito Ribeiro às 10:25
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04
Jun 09

No mês passado publiquei uma breve nota histórica sobre o navio "Antinous" que encalhou na praia de Moledo a 22 de Janeiro de 1922.

Hoje publico a primeira parte de um conto onde a realidade se mistura com a ficção. Será que o capitão (chamemos-lhe Jones) confundiu os farois? Estaria tão mal tempo que o navio foi desviado do rumo? Se calhar nunca o saberemos... mas esta é (apenas) a forma como eu "vi" o desastre.

 

O barulho cadenciado da máquina a vapor de tripla expansão adormecia-lhes os sentidos. O barulho e os tragos de aguardente que tinham embarcado discretamente em Buenos Aires, no estuário do Rio da Prata onde tinham recebido os sacos de milho que enchiam os porões do cargueiro inglês.

A viagem começara com bom tempo, Janeiro era mês de Verão nos mares do sul e tinham apanhado uma verdadeira calmaria até à escala de reabastecimento na ilha do Sal, em Cabo Verde. Uma escala rápida, apenas vinte e quatro horas para encher as tulhas de carvão e os depósitos de água.
Já tinham deixado a Madeira para trás e passavam agora ao largo do Cabo de S. Vicente quando o barómetro começou a cair como uma pedra. O Capitão Jones resmungou uma praga e bateu com os nós dos dedos no mostrador redondo do aparelho, como que a certificar-se do seu bom funcionamento. A oeste, no horizonte, uma estreita faixa cinzenta reflectia sobre as águas azuis uma mancha baça que ia crescendo a cada hora que passava.
- Vamos apanhar borrasca na costa de Portugal, capitão? – pergunta o imediato Sullivan, um galês trigueiro, alto e magro que tinha de se curvar ao passar nas portas do navio.
- Parece que sim… Vá lá abaixo e diga ao chefe que dê o que puder na máquina… A ver se chegamos a Vigo sem levar muito…
Na sala da máquina o calor era infernal, os maquinistas de almotolia em punho lubrificavam bielas e chumaceiras, enquanto os fogueiros se afadigavam a alimentar a fornalha da caldeira. Ao escutar as novas ordens, o grego que superintendia a maquinaria encolheu os ombros e aumentou dois pontos à pressão da máquina, perante o olhar furibundo dos fogueiros que adivinharam um ritmo maior de trabalho. Um deles não se inibiu de escarrar e bater ostensivamente com um pé no chão metálico e fuliginoso como que a discordar da opção do chefe.
Durante a noite, empurrado pelo vento, o mar ia aumentando, tinha já vaga de quatro metros, nada que assustasse estes marinheiros confiantes na experiencia de muitas viagens, confiantes na robustez do “Antinous”, construído quinze anos antes nos estaleiros Thompson, R. de Southwick, na Inglaterra.
De manhã, o Capitão Jones tinha os olhos vermelhos da falta de descanso e dos inúmeros grogues feitos à base de aguardente argentina, bem melhor que a cachaça de cana brasileira.
Da máquina viera a informação que tinham de reduzir drasticamente o andamento porque uma válvula de retorno não funcionava convenientemente. Uma ladainha de pragas e mais um gole na caneca de alumínio foi a resposta eloquente do capitão, que deitou uma olhada ao mapa estendido sobre a mesa na salinha anexa à ponte de comando.
A meio da tarde a chuva que até aí se fizera sentir ligeira, aumentou de intensidade fustigando impiedosamente as chapas metálicas do “Antinous”. A visibilidade ficou reduzida a poucas dezenas de metros e um marinheiro foi guarnecer o sino de bronze que repicava a cada trinta segundos.
Os homens que não estavam de serviço deixavam-se ficar nos catres, acabrunhados com a tempestade que tanto elevava como afundava o navio nas ondas coroadas de alva espuma. As chapas rangiam e qualquer novato se atemorizaria com este som lugrebe. Mas não estes, que já tinham passado por muitas tempestades de meter medo. Apenas se aborreciam porque não conseguiam dormir com o balanço, com o barulho da máquina, da chuva e do sino, uma combinação infernal, mesmo para quem fazia do mar a sua casa.
O telegrafista entregou ao capitão uma mensagem proveniente do Comando Naval, a informar que as barras de Portugal estavam encerradas, excepto Lisboa e Setúbal. A mensagem terminava com a informação que o mau tempo se iria manter por mais vinte e quatro horas.
Amarrotou impaciente o bilhete e pensou que teria de seguir em frente até ao destino, abandonando em definitivo a ideia de se abrigar na barra do Douro, apesar do perigo que constituía a sua entrada com mar grosso.
- Vamos para as Rias… Merda de país, que nem um porto de abrigo tem…
Deixou-se cair exausto no seu cadeirão ainda com o aviso telegrafado na mão. O Imediato Sullivan pigarreou e quando o capitão levantou a cabeça disse-lhe:
- Porque é que não vai descansar uma ou duas horas, senhor? Eu fico aqui e se houver algum problema chamo-o…
- Não, Senhor Sullivan… é meu dever estar ao comando. Vou sentar-me aqui um bocado… isso basta-me. Envie um marinheiro à cozinha para me trazer alguma coisa de comer… e de beber.
As horas passaram, o mar continuava grosso e a chuva caía com abundância, como nunca se viu em terra firme. Entre períodos de modorra e momentos desperto, o Capitão Jones manteve-se no cadeirão de comando instalado na ponte mesmo ao lado da enorme roda do leme. A noite cerrou-se e um clarão fugaz adivinhava-se, mais do que se via, a leste, entre a cortina de chuva que nada fazia abrandar.
- Capitão… senhor – chamou o imediato – vê-se um clarão a estibordo… certamente um farol.
O Capitão Jones aguardou alguns minutos com a cabeça encostada ao vidro de uma janela lateral da ponte, com as mãos a fazerem uma concha junto aos olhos. Debruçou-se sobre o mapa e apontou para um ponto na costa portuguesa e correu o dedo até outro ponto. Abriu o compasso, mediu na escala, calculou mentalmente o tempo que demoraria a travessia e concluiu:
- Três horas… Daqui a três horas temos abrigo. Marinheiros, olhos bem abertos ao próximo farol… e quero o sineiro a tocar como um homem… parece um rabeta a fazer-lhe cócegas…
(continua)
publicado por Brito Ribeiro às 15:21
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03
Jun 09

... e para o jantar... huuummm, com fígado e verduras!

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 16:07
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