Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

29
Mai 09

Não costumo fazer citações de outros blogs, mas desta vez abro uma excepção, porque o tema é importante e o artigo tem valor, pelo menos para mim, que vejo com apreensão o estado a que chegou o ensino em Portugal.

 

http://ic1.monblog.branchez-vous.com/

 

publicado por Brito Ribeiro às 16:36
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27
Mai 09

Em complemento ao artigo anterior, junto alguns dados sobre a origem desta Igreja. Lamentavelmente as diversas modificações e requalificações que sofreu ao longo dos séculos, apagaram-lhe qualquer marca distintiva da sua origem, ao que se supõe, anterior a fundação da nacionalidade.

 

 

Sobre a origem da Igreja de S. Marinha de Gontinhães (Igreja Matriz), anterior designação de Vila Praia de Âncora, o historiador Almeida Fernandes diz o seguinte:

“Na obscuridade dos princípios da igreja de Santa Marinha de Gontinhães, apenas há a opinião já dita: trata-se do templo fundado pelo organizador e pelos povoadores da “villa Guntilanis”, na segunda metade do século IX, ao tempo da presúria do Conde de Tui, Paio Vermudes e dos “forciore” de sua estirpe. (…) E assim se explica o estado de honramento, embora não de calúnia em que toda a freguesia aparece em meados do século XIII ainda. (…) Da igreja primitiva, mais que milenária, nada resta na actual cujo assento é o mesmo, nem já restava quando se fez a última restauração (1864), devido a outras restaurações no passado”.
 
Foto de 1931
 
Também Pinho Leal referindo-se a este templo escrevia o seguinte:
“O que é verdade e o que eu vi é que esta igreja denota muita mais antiguidade. Era de três naves, de arquitectura simples e estava quase a cair. O povo da freguesia se propor reedificá-la à sua custa e principiaram as obras em 1864, terminando em 1866. Ficou pouco do antigo templo, sendo feita de novo a capela-mor, o arco cruzeiro e a frente. As colunas toscas e desengraçadas das suas três naves foram completamente desmanchadas. Tornou a ficar de três naves, mas elegante e de boa arquitectura e esta igreja é uma das mais bonitas do Minho”.
 
Ao contrário do que parece pensar Pinho Leal a igreja substituída em 1864-1866 já não era a inicial, erigida uns anos antes, mas sim uma, talvez infeliz e grosseira substituição, devido ao progresso populacional, ao tempo e às ruínas. Tal humildade arquitectónica parece incompatível com a inegável importância e riqueza desta igreja no tempo ainda de D. Dinis, pois que o arrolamento paroquial cita a igreja de Santa Marinha de Guntinhães com a taxa de 260 libras, proporcional ao seu dote e importância, o que a coloca entre as primeiras de todo o país.
 
Fontes: Lourenço Alves in Monografia do Concelho de Caminha
            
publicado por Brito Ribeiro às 15:52
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21
Mai 09

Designação

Igreja Paroquial de Vila Praia de Âncora / Igreja de Santa Marinha
 
Localização
Viana do Castelo, Caminha, Vila Praia de Âncora, Lugar da Igreja
   
Protecção
Inexistente
 
Enquadramento
Rural, isolado, na periferia da Vila Praia de Âncora, junto ao cemitério e residência paroquial, integração harmónica em face de um arruamento do aglomerado, com adro, frontal, pavimentado com lajes de granito.
   
Utilização Inicial
Religiosa: igreja paroquial
 
Utilização Actual
Religiosa: igreja paroquial
 
 
Propriedade
Privada: Igreja Católica
   
Época Construção
Século XVIII (conjectural) / XIX
 
Arquitecto | Construtor | Autor
Não definido
 
Cronologia
Obras de renovação da igreja entre 1864 e 1866;
 2008 Renovação da cobertura
 
Tipologia
Arquitectura religiosa.
  
Características Particulares
Esta igreja passou por obras de ampliação e de restauro no século XIX que lhe modificaram substancialmente a estrutura anterior. E dizemos anterior, porque esta igreja, ainda que não revele grande aproveitamento de elementos do templo pré-existente, sugere um esquema arquitectónico bem entrosado nos cânones das igrejas quinhentistas da região, de inspiração gótico-mendicante.
A planta actual é formada por dois elementos principais – corpo da igreja e capela-mor – unidos por um arco triunfal de meio ponto, assente em pés direitos. Do lado norte, como aliás do lado sul, adossaram-lhe dois corpos, servindo um de sacristia e outro de dependência de arrumos.
A fachada, certamente oitocentista, com um porta adintelada, um óculo a meio pano e um frontão clássico no remate, sobrepujado por uma cruz simples, assente numa base setecentista, que se repete nas empenas da cabeceira e do arco cruzeiro, ostenta algumas molduras talhadas em granito da região por mãos expeditas de alvenéis de Gontinhães.
O tecto das naves laterais é mais baixo, vendo-se por cima do telhado seis janelões que projectam a luz na nave central. Em todos os ângulos do templo, existem urnas de vários feitios, desde as piramidais, às emboladas e às clássicas.
Do lado norte da fronte, há uma torre de dois andares, vendo-se no inferior um mostrador de relógio e no superior quatro sineiras. O remate é formado por uma pirâmide prismática, ladeada por um corrimão com urnas cónicas, nos ângulos.
No interior, apresenta três naves separadas por arcos formeiros, assentes em quatro séries de pilares.
O tecto é de estuque com pinturas bastante perfeitas, alusivas à vida de Cristo e da Virgem.
O altar da capela-mor é neo-clássico, de fraco valor escultório, guardando as imagens da padroeira, Santa Marinha, Coração de Maria, Senhora de Fátima e Coração de Jesus.
No altar de topo da nave esquerda, muito simples, existem as imagens do Senhor dos Passos de roca e da Senhora do rosário do século XVIII. Junto a este altar encontra-se o retábulo das Almas, em baixo relevo, com figurado muito variado, renascentista, como aliás toda a guarnição exterior, em tudo semelhante ao retábulo das Almas da Igreja de Moledo.
O altar de topo da nave sul exibe colunas salomónicas que se prolongam no ático. Contem apenas a imagem de Santo António. Ao lado deste, existe um altar muito interessante, de talha rocaille, com as imagens de S. Roque na edícula central e as de S. Gonçalo e de S. Francisco nas edículas laterais.
 
Igreja e casa paroquial em 1909. Note-se que ainda não havia relógio na torre
 
Dados Técnicos
Paredes autoportantes.
 
Materiais
Estrutura em cantaria, com paramentos rebocados e caiados, com vãos e cunhais em cantaria, paramentos interiores rebocados e pintados e revestidos com azulejos, janela sineira em cantaria, cobertura em madeira telhada, coro-alto em madeira, púlpito em granito com guarda em ferro, altares em madeira, pavimentos em mosaico cerâmico e em lajes graníticas, portas de madeira, janelas gradeadas e envidraçadas, catavento em ferro.
 
Bibliografia
ALVES, Lourenço, Caminha e o seu concelho. Monografia, Caminha, 1985 
 
publicado por Brito Ribeiro às 22:20

17
Mai 09

Navio a vapor inglês de 3682 toneladas, 105,6 metros de comprimento, construído em 1907 e lançado à água a 26 de Julho nos estaleiros de Thompson, R. em Southwick. Pertencia à Companhia Egypt & Levans Slandshing Co Ltd de Londres que mais tarde o venderam a T.Bowen Rees & Co.

 

 

No dia 22 de Janeiro de 1922, provinha da Argentina com um carregamento de 90 000 sacos de milho pesando 5 700 toneladas, das quais 1 500 eram destinadas a diversos comerciantes de Vigo e o resto a Avilés e Bilbao, tudo com um valor aproximado de 125 000 pesetas.
Então, devido a erro de rumo do capitão e também do mau tempo, o navio foi encalhar no banco de areia da praia do Camarido na parte sul da barra do Minho em frente ao castelo da Ilha da Ínsua.
Acudiram ao salvamento a canhoneira da Marinha Portuguesa “Rio Minho”, o rebocador “Tritão” e diversas Corporações de Bombeiros (Caminha e Vila Praia de Âncora) que não conseguiram salvar o navio.
A tripulação constituída por 27 homens na sua maioria de nacionalidade grega e inglesa, desembarcou em Moledo.
A mercadoria encontrava-se segura em diversas companhias londrinas.
 Ainda se pode ver na baixa mar uma pequena parte (Talvez a chaminé ou a ponta de um mastro) deste barco no canal sul de acesso à barra do Rio Minho.
Há fontes que indicam o dia 29 de Janeiro de 1922 como data do encalhe e a foto que publiquei suscita-me algumas dúvidas, pois existiam vários navios com o mesmo nome, construidos mais ou menos no mesmo período e com caracteristicas relativamente semelhantes.
publicado por Brito Ribeiro às 17:04
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13
Mai 09

Há pouca informação histórica sobre esta ponte. Segundo Américo Costa, no "Dicionário Corográfico de Portugal Continental e Insular", esta ponte, tambem chamada "Ponte Rasa" era a ligação entre as duas margens do Rio Âncora na antiga estrada de Viana, substituida no século XIX pela Estrada Real.

 

 

A Ponte da Torre situa-se a leste da Igreja Paroquial de Âncora e perto da Capela de S. Brás, local onde se supõe que tenha existido a primeira Igreja Matriz de Vila Praia de Âncora.

 

 

Esta ponte foi construida com lajes de granito, apoiadas em grandes maciços graníticos meio trabalhados.

 

 

Na margem esquerda (Freguesia de Âncora), alguns metros a montante, existe um moinho do final do século XVIII que foi adaptado a habitação há cerca de vinte e cinco anos.

 

 

Fontes: "Roteiro do Vale do Âncora" de Joaquim Vasconcelos

publicado por Brito Ribeiro às 19:24

12
Mai 09

Montam a tenda e depois de uma boa refeição e uma garrafa de vinho (para cada um), deitam-se para dormir.

Algumas horas depois, Holmes acorda e diz para o seu fiel amigo:
- Meu caro Watson, olhe para cima e diga-me o que vê.
Watson responde:
- Vejo milhares e milhares de estrelas.
Holmes, então, pergunta:
- E o que isso significa?
Watson pondera por um minuto, depois enumera:
 
 1. Astronomicamente, significa que há milhares e milhares de galáxias, e potencialmente, biliões de planetas.
 2. Astrologicamente, observo que Saturno está em Leão e teremos um dia de sorte.
 3. Temporalmente, deduzo que são aproximadamente 03 horas e 15 minutos pela altura em que se encontra a Estrela Polar.
 4. Teologicamente, posso ver que Deus é todo-poderoso e somos pequenos e insignificantes.
 5. Meteorologicamente, suspeito que teremos um lindo dia. Correcto?
 
Holmes fica um minuto em silêncio e diz:
- Vá-se lixar Watson, não vê que nos gamaram a tenda?
 
Moral da história: A vida é simples, nós é que a complicamos.
 
publicado por Brito Ribeiro às 16:38
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10
Mai 09

A Câmara Municipal de Portimão homenageou no passado dia 5 de Maio os ex-bacalhoeiros do município, num jantar que teve lugar no Museu de Portimão e que reuniu cerca de 50 homens do mar, acompanhados pelos seus familiares.

 
O presidente da Câmara de Portimão justificou a iniciativa sublinhando que se tratou do “reconhecimento da comunidade aos corajosos homens cujo sofrimento tem sido esquecido e que prestaram ao país um inestimável serviço, em condições de vida gravosas”.
 
Manuel da Luz aproveitou a ocasião para lançar uma ideia, bem acolhida pelos presentes: “Uma vez que o Museu de Portimão é uma casa de cultura ligada ao povo, reflectindo a nossa rica memória da pesca e das conservas, seria muito interessante que promovesse encontros entre os bacalhoeiros e as escolas, para que seja transmitida a aventura do bacalhau, que vale bem a pena conhecer”.
 
Durante a entrega aos bacalhoeiros de um dvd com um documentário produzido pela RTP sobre a pesca do bacalhau, António Figueiras Jacques, de 70 anos, sintetizou publicamente a opinião geral: “Pensávamos que o nosso labor tinha sido completamente esquecido, mas ainda bem que alguém se lembrou de nós e esta iniciativa da Câmara de Portimão em muito nos sensibiliza”.
 
A exposição “Caixa da Memória – Bacalhoeiros do Barlavento Algarvio”, que recentemente esteve patente no Museu de Portimão numa colaboração com o Museu Marítimo de Ílhavo, foi o primeiro acto de reconhecimento para com os pescadores locais que andaram na chamada “faina maior” no período compreendido entre 1935 e 1974.
 
Esta informação foi retirada do diário digital “Região Sul” e serve apenas para dar um singelo exemplo de uma actividade cultural de iniciativa municipal com consistência e entrosamento no tecido social da região.
 
Por cá enquanto uns inauguram bares e retretes, outros entretem-se com museus que nunca serão...
 
publicado por Brito Ribeiro às 16:24
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05
Mai 09

 

Rua 31 de Janeiro em 1950. Entre campos de lavradio destaca-se a Quinta da Sobreira.

 

 

Rua dos Banhos em 1908, actual Rua Candido dos Reis. Distinguem-se pormenores das cancelas da passagem de nivel e de prédios do Largo da Lagarteira, hoje Praça da República.

 

 

Rua Laureano Brito cerca de 1950. Ao fundo a confluencia com a Rua Candido dos Reis e passagem de nivel com guarda.

 

publicado por Brito Ribeiro às 10:41

01
Mai 09

Depois de sair da Empresa de Lacticínios Âncora e iniciar um trabalho por conta própria, passei a gerir o tempo com mais alguma liberdade e dediquei-me mais à pesca do que anteriormente, quando tinha horários rígidos a cumprir.

Ao final da tarde, se o mar estava de feição, preparava os apetrechos e arrancava para uma das zonas de pesca que por aqui abundam. Não é por falta de pesqueiros que não se pesca! Ou na areia, nas praias de Moledo, Âncora e Afife ou nas rochas, onde existem uma infinidade de pesqueiros.
Mas ao fim da tarde e à noite, pesca-se na areia, tenta-se a sorte de apanhar algum robalo mais atrevido, que vem até à rebentação mariscar. Outras espécies que também se podem pescar nestas circunstâncias são os sargos e choupas, solhas, linguados e rodovalhos. De verão, com o mar chão, podem aparecer as fanecas, geralmente miúdas. Eu digo que se pode pescar estas espécies, mas não pensem que estão ali, ao dobrar da esquina, à nossa espera. É cada vez mais difícil, por nítida escassez destas espécies, que têm sido dizimadas na nossa costa, desde que começaram a permitir a pesca de arrasto.
Se o mar estava picado, a solução era Moledo, que é o local mais abrigado, devido à ilha da Ínsua. Aí chegados teríamos de escolher onde pescar, no Portinho do Senhor, em Fornelos, na pedra do Cavaleiro, no Moinho ou na Ruiva.
Se mesmo assim ainda o mar fosse muito, o recurso seria avançar para norte e pescar entre o bico da Ruiva, mesmo no enfiamento da Ínsua e a Ponta Grossa na foz do Rio Minho. Confesso que durante muito tempo fui “cliente” do Moinho, mas com a influência de alguns amigos e com outras tantas pescarias de categoria, passei a ser mais adepto da Ruiva, só é pena que fique tão longe.
De Inverno, um gajo com botas altas, casaco contra o frio, e às vezes a chuva, mais a cana, o zote e o ferro de espetar, chega lá a suar. Então com a maré em cima, tem de ir-se pela areia seca, nem vos conto…
Se o mar estiver mais tranquilo, pode-se pescar no praial de Âncora, entre o molhe do Portinho e as Primeiras Pedras, perto do Forte do Cão. Antigamente, antes de construírem os novos molhes do Portinho, havia um pesqueiro fantástico entre o referido molhe sul e a foz do rio Âncora, chamado Moreiro, que fica mesmo em frente à minha casa. Hoje esse pesqueiro não é tão bom, nem por sombras, pois está assoreado.
Quase a meio do praial, há umas pedras, quase sempre submersas, só se descobre uma, em marés muito grandes, chamada Pedra do Tesal, um bom pesqueiro, dependendo, ainda assim, da forma como estão os secos, as coroas de areia, que se movimentam continuamente.
Quando o mar está mesmo calmo, é hora de ir para Afife, que tem um praial com muitos secos e muitas correntes. Se o mar puxa um bocadinho não há quem aguente as linhas na água. No entanto, acho que em Afife, o peixe é na generalidade maior que nos outros locais, nomeadamente, em Moledo onde é raro tirar-se peixe grande em quantidade que se veja.
O ano passado por terem apanhado meia dúzia de peixes grandes, até fizeram uma reportagem no Jornal de Notícias. Em Afife isso acontece com mais frequência, tem o problema que é mais difícil lá pescar. A mim já me aconteceu de fazer dois ou três lançamentos, concluir que não vale a pena pois a água corre muito, desmontar tudo e vir embora.
Esta praia tem duas entradas, a norte pelo Carvalho e a sul pela Mariana, local muito conhecido da malta do surf; eu utilizo ambas, mas prefiro ir pelo Carvalho pois é um local mais frequentado, tem o restaurante e fico mais tranquilo, no que respeita ao carro.
 
Eu ia contar-vos uma pescaria, mas entretanto perdi-me e estou para aqui a divagar sobre pesqueiros, como se vocês não os conhecessem.
Dizia eu, que numa determinada fase da minha vida, tinha alguma disponibilidade acrescida para me dedicar à pesca. Normalmente preparava as coisas e saía no final da tarde para fazer o pôr-do-sol e uma ou duas horas depois de anoitecer.
Quem não achava muita piada a esta actividade era a minha mulher, que embirrava com o facto de eu sair, mais ou menos quando ela chegava do trabalho. Não gostava, mas comia o peixe!
Estávamos no Outono, o mês de Novembro tinha começado chuvoso e o mar era uma ressaca constante. Os barcos não saíam para o mar há mais de um mês, não havia forma de amainar o sudoeste. A chuva e o vento já tinham feito estragos, todos os dias se via na televisão, ora inundava aqui, ora caía qualquer coisa ali.
De súbito, o vento vira a noroeste e começa a limpar, o mar cai bastante, o sol brilha a espaços e divide o céu com as nuvens, ainda ameaçadoras.
Quando cheguei a casa a meio da tarde, olhei para o praial e vi dois ou três a pescar na Pedra do Tesal. Pensei cá para mim, “a água está escura e parece que não corre, não está nada mal”, à distância, não reconheci quem lá estava.
Pousei a pasta, calcei umas sapatilhas e percorri a avenida até ao posto de turismo, atravessei a ponte e desci à areia, em direcção ao mar. Fui nas calmas por ali fora e reconheci o Camilo da Bezunza, o Rafael e o Arturinho mais a sul. Ainda mais a sul estava um tipo da Laje que conheço de vista, mas não sei o nome.
O Camilo já tinha uns robaliços, cachiços como nós lhes chamamos, o Rafael também tinha uns cachiços e umas chincaronas que são choupas ou sargos pequenos e dirigi-me para o Arturinho que estava mais distanciado. Quando cheguei à beira dele, estava sentado em cima do zote que era um balde de vinte litros de tinta, daqueles redondos em plástico. Eu também tenho um desses, mas é raro usá-lo.
- Então tio Artur, que tal?
- Já tenho um par deles, mas são pequenos.
Olhou à volta como a certificar-se que estávamos sós, levantou o traseiro do balde e tirou a tampa.
Lá dentro, misturados com os tarecos da pesca estavam uma meia dúzia de robalotes jeitosos, umas chincaronas e um sargo que seguramente tinha perto de um quilo.
- Pôrra, ainda diz você que são pequenos!
O Arturinho arreganhou um sorriso e pôr à mostra a fila dos dentes de ouro, que brilharam ao sol, daquele final de tarde.
- Mais dois lançamentos e vou-me embora, antes que caia a noite – dizia o Arturinho.
Eu é que não esperei mais e pus-me a andar dali para fora, com os olhos em bico.
“Amanhã, se estiver como hoje, também venho pescar, mas de manhã tenho que ir à isca”.
Assim foi, no dia seguinte fui à isca da “barrenha”, porque a maré descia pouco para apanhar sintética, envolvi-a em serrim, coloquei-a no frigorífico e de seguida tive que ouvir a “patroa” dizer:
- Esta porcaria cheira mal. Vai ficar aqui muito tempo?
- Não, logo já sai e o que cheira mal é essa hortaliça cozida, que já aí está há dois dias.
Meti a tralha no carro e a meio da tarde decidi ir bastante mais para sul que o Arturinho no dia anterior. Por isso levei o carro até ao Sanatório da Gelfa e vim a pé pelo praial. A minha ideia era ficar mais ou menos a quatrocentos ou quinhentos metros mais a sul, onde tinha visto o mar a virar muito certinho, pelo menos a água não deveria correr.
Ao passar pelas Primeiras Pedras vi logo que estava um gajo no sítio onde eu tencionava ficar. “Não faz mal, fico ao lado” e continuei em direcção ao pesqueiro.
Escolhi o sítio, pousei a cana, o zote e o ferro de espetar, apurei a vista e reconheci o Dinis do “Côto”, que às vezes pescava comigo, normalmente em Moledo. Fui ter com ele e perguntei-lhe que tal estava a correr a pesca.
- Ó pá, tenho duas choupas jeitosas, mas estou com uma isca fraca, estou a pescar com isca mansa.
Isca mansa é minhoca do rio, há muita gente que a usa apenas em ultimo recurso e acha-a uma isca fraca. Eu tenho um entendimento diferente, pois já fiz boas pescarias com esta isca, tem o defeito de ser frágil e problemática se lançarmos para muito longe, pois pode desfazer-se, se não for espetada nos anzóis, com o máximo cuidado.
Mostrou-me duas belas choupas o que me animou bastante, mas logo de seguida disse algo que me refreou o entusiasmo.
- Estou aqui desde o fim do almoço, apanhei-as logo nos primeiros lançamentos e mais nada. Daqui a pouco, vou-me embora.
Preparei a cana, afinei o meu Shimano Ultegra 10.000, recentemente adquirido, linha Fire Line, chumbada de 150 gramas de cruzeta e dois anzóis Gamakatsu Aberdeen 1/0.
Lançamento feito, liguei o meu rádio, pus os auscultadores e sintonizei a RFM. Nessa época, só admitia ouvir esta estação. Hoje partilho-a com a Comercial e a Antena 3, são gostos.
O Dinis ainda veio ter comigo uma vez, só para me dizer que se ia embora e em breve só me restava olhar para o mar ou adivinhar o que estariam a pescar os tipos que estavam mais a norte, que deviam ser os mesmos do dia anterior.
O sol estava a pôr-se no horizonte, mesmo à minha frente e não havia maneira de sentir um toque.”Está na hora” pensava eu, num exercício de auto convencimento, que parecia não resultar.
Já estava completamente escuro quando senti um toque na cana, levantei-me ansioso, na expectativa. Novo toque, dou a enferrada, sinto o peixe. Começo a alar a linha e ponho em seco uma choupa pequena, não teria sequer meio quilo.
Isco e lanço de novo tentando lembrar-me se, no lançamento anterior, tinha puxado muito para fora ou não. Não demorou muito e sinto um puxão forte e continuado, que dispensou qualquer acção de enferrar.
Foi só afinar a embraiagem e pôr o gajo a marchar para terra. Estava com medo da rebentação porque apesar de não estar muito forte, era mais que suficiente para soltar um peixe que venha mal engatado e logo aquele que era grande. Quando o senti arrojado em seco, fui ao encontro dele sempre com a cana na mão e a colher a linha. Vi uma mancha branca na areia molhada, acendi o foco que tinha na testa e admirei o belo robalo que tinha apanhado.
“Depressa, depressa, ali há mais”, meti-lhe os dedos nas guelras e recuei até onde tinha o zote com a isca. Desprendi o peixe do anzol, reparei que vinha bem ferrado, não houvera perigo de fugir. Isquei e lancei, com o coração ainda aos pulos. É curioso como um pescador pode apanhar milhares de peixes, mas nunca deixa de ficar excitado sempre que tira um da água.
Senti outro, mas de forma diferente, “que raio, vai a fugir para o lado… hum, isto é choupa”, de facto sentia-se o toque violento e seguido dos peixes da família da choupa, do sargo e da dourada. Era uma bela choupa maior que a anterior, que tinha engolido o enorme anzol que eu usava.
Demorei tempo precioso a desengata-la, roguei-lhe um par de pragas e quando lancei novamente, nem tive tempo de esticar a linha, pois apercebi-me que já tinha peixe, outro robalo, que se revelou um pouco maior que o primeiro.
Eu nem queria acreditar, que era o meu dia ou a minha hora. Novo lançamento e pouco depois uma “stikada” a sério. O gajo era uma besta e não tinha maneiras. Não tive outro remédio senão afrouxar a embraiagem e deixá-lo correr à vontade, até que o consegui suster. Devagarinho comecei a trabalhá-lo para o trazer para terra, o que aconteceu sem grande alarido. Difícil foi quando lhe começou a faltar água e o bicho ficou outra vez bravo. Por momentos um tipo pensa em tudo e mais alguma coisa, será que está bem preso, que peso terá, ainda estará longe e se rebenta a linha ou parte o anzol…
“O gajo não tem marcha-atrás, foda-se, há-de vir para terra!” E veio, contra vontade, mas veio. Era um peixe!!!
 
Cá estão os bichos
 
Peguei nele, fui pô-lo na companhia dos outros que estavam estendidos numa cavidade que tinha feito na areia seca.
Voltei a lançar e aguardei, novo toque, nova aventura. Mas aguardei em vão; um lançamento, outro lançamento, mais outro e nada, o peixe tinha desandado.
Excitado como estava não tive paciência para mais, meti os peixes no saco de rede, arrumei as tralhas e meti pés ao caminho. Ao fim de duzentos ou trezentos metros já bufava e mudei o saco do peixe para a outra mão. Pouco depois já levava o saco a rasto pela areia e foi assim, andando e descansando para retomar o fôlego, que cheguei ao carro. Fui directo à casa dos meus sogros e, quando entrei de peito feito, diz-me a minha mulher:
- Grandes peixes, quem é que os apanhou?
Apeteceu-me logo mandá-la para aquela banda…
Não tiveram outro remédio senão convencer-se que tinham sido pescados por mim. Eu até os compreendo, muitas vezes chegava a casa sem peixe, algumas vezes com uns “charabanecos” pequenos e uma vez por festa, com um peixe que se podia apreciar. De repente, apareço com um saco deles, até desconfiaram. É como diz o ditado, “ quando a esmola é grande, até o pobre desconfia”.
A choupa maior enviei-a para a minha mãe e guardei o resto peixe no congelador, a pensar que no dia seguinte voltava lá ao mesmo sítio.
Durante o dia encontrei-me casualmente com o Dinis, contei-lhe o sucedido e combinamos manter a boca calada e aparecermos ao pôr-do-sol, no local do crime. Nesse dia voltei a tirar um robalo com cerca de dois quilos e o Dinis apanhou um ligeiramente mais pequeno. No terceiro dia, eu não apanhei nada e ele apanhou o irmão gémeo do dia anterior. No dia seguinte virou o tempo a sul, o mar metia medo, chovia e ventava forte. A pesca estava feita… e bem feita!
publicado por Brito Ribeiro às 19:26
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