Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

28
Mar 08

Toda a noite tremeu de frio. De inicio ainda tentou movimentar os braços na tentativa de não arrefecer, mas chegou à conclusão que não adiantava. Manteve-se sentado no banco do meio com a samarra e o casaco de oleado bem apertados, tapou-se com a vela, mas o frio era cortante. Por mais de uma vez pareceu-lhe ouvir barulho, sustinha a respiração, virava a cabeça na direcção de onde lhe parecia que vinha o som. Pegava no búzio e soprava, soprava até até lhe faltar o fôlego.

O barco do Raposo chapinhava a meia dúzia de braças do seu, unidos pela amarra e pelo destino. Na madrugada dos mares do norte o Chico esperava estoicamente a ajuda que os seus camaradas não lhe regateariam.

- Quando a névoa levantar vou encontrá-los. Até pode ser que aviste outro barco, um dos muitos que pescam nestas águas.

O Chico não era muito dado à Igreja, nem a rezas, mas deu por si a pensar no Senhor dos Aflitos, aquele santo que estava no nicho junto ao farol, no Portinho de Âncora.

Amanheceu com a mesma névoa pousada sobre as águas e com a visibilidade reduzida a meia dúzia de metros em redor. Abriu o baú da merenda, comeu as duas postas de peixe frito, metade do pão e um punhado de azeitonas. Rematou a refeição com uns golos de água. Agora estava arrependido de não ter trazido o termos com chá quente, como faziam muitos dos seus camaradas.

Ao cair da tarde comeu o resto da merenda e preparou-se para passar outra noite gélida. De repente levantou-se e puxou a amarra do doris do Raposo. Saltou para o outro barco e tentou levantar o cadáver sem resultado.


O Raposo não se mexeu e o Chico puxou-lhe por um braço mas articulações não funcionavam, o corpo do Raposo estava rijo, parecia de madeira. Desistiu da intenção de tirar a samarra do Raposo, que já não precisava dela e a ele fazia-lhe muita falta. Regressou à sua pequena embarcação levando consigo um bocado de oleado que o Raposo tinha dobrado sob um dos bancos. Sempre lhe daria para se embrulhar nele.

A segunda noite pareceu-lhe mais curta, tendo concluído que tinha dormido alguns bocados, o cansaço era muito. O nascer do novo dia trouxe algo de diferente. O mar tinha já alguma ondulação e corria uma brisa fraca que ao fim de algumas horas varrera o maldito nevoeiro. Em vão perscrutou o horizonte, o vazio era imenso, o silencio oprimia, nem pássaros se viam. A sua água tinha acabado e fora buscar as provisões do Raposo. Tinha de as poupar, nunca se sabia o tempo que ainda tinha de esperar.

 

Alguns dias depois, o Chico continuava sentado no banco central do seu doris. A barba começava a cerrar-se em volta dos olhos, da boca e dos lábios gretados pelo frio e pelo ambiente salgado. Há muito que a água tinha acabado, durante a noite conseguia recolher algumas gotas no oleado, mas eram insuficientes para lhe matar a sede.

O barco do Raposo continuava a baloiçar no mar ondulante, tinha-lhe dado mais cabo de forma a afastá-lo, pois o corpo do Raposo já exalava um cheiro terrível, à mistura com os bacalhaus pescados, que acabaram por ser devolvidos à água.

Para matar a fome, tinha pescado um bacalhau, prontamente escalado e ao qual lhe devorou os lombos. Agora rezava várias vezes por dia, ao Senhor dos Aflitos e à Senhora de Fátima, uma prece para o livrarem daquela aflição. Lembrava-se muitas vezes dos pais, lá em Âncora e dos irmãos espalhados um pouco por todo o lado. Dois deles em Lisboa, outro também no bacalhau, a irmã a servir em Viana, o mais novo andava ao mar com o pai, à sardinha e à lagosta. Já os teriam avisado pelo rádio que ele estava desaparecido? Provavelmente não, só faziam isso ao fim de uma semana.

- Há quanto tempo ando eu perdido? Quatro, cinco… não, seis dias. Seis dias? Seis dias?... Onde andará o nosso barco?

E o desânimo era cada vez maior, alternava com momentos de esperança e momentos de raiva, uma raiva contra os elementos, o nevoeiro, o mar imenso. Mas uma raiva infinita contra as miseráveis condições de vida dos pescadores do bacalhau. “Ah, se em terra fizessem ideia dos martírios da Terra Nova”, pensava enquanto procurava no horizonte um mastro ou uma chaminé.

Que saudades que tinha da “chora” do cozinheiro, quando antigamente preferia comer um bocado de pão seco ou uma batata cozida, sem mais acompanhamento. Mas a sede é que o agoniava. Fechava os olhos e via a levada do Paredão no Rio Âncora, via a água a cair em cachão e via-se a ele próprio encostado à levada a brincar com a água, a beber a água pura do rio que o viu nascer.

No sobe e desce da ondulação pareceu-lhe ver a oeste um vulto branco, uma alucinação, já não era a primeira. Julgava ver um barco, mas acabava por reconhecer ser apenas espuma branca na crista da onda.

- Não, não estou a sonhar, é um barco.

Levantou-se a custo e acenou na sua direcção. A distância era muita, o mais provável era passar despercebido. Tinha de lhes chamar a atenção. Pegou no oleado do Raposo em que habitualmente se embrulhava à noite, amarrou-o ao mastro e subiu-o o mais alto que pôde. Como era amarelo podia ser visto. Durante muito tempo observou com angustia o barco que seguia imperturbável o seu rumo para, após ter perdido toda a esperança, vê-lo mudar de direcção e vir ao seu encontro, depois de um largo rodeio.


O Chico caiu de joelhos a chorar, um chorar convulsivo, sem lágrimas, que lhe tirava o fôlego. Quando se levantou apreciou o barco próximo, um vapor de carga que arreou um escaler onde tomaram lugar meia dúzia de marinheiros, remos empunhados, remadas decididas levaram a embarcação ao encontro dos pequenos doris. Falaram-lhe numa língua estranha, não percebeu nada.

- Água, por favor – pediu com a voz num sopro.

Um marinheiro prendeu o doris com o croque e outro saltou a bordo. Voltou a dizer-lhe algo e apontou para o outro doris e para o vulto do Raposo.

- Morreu, era bom homem. Dê-me água…

O marinheiro agarrou o cabo que os seus companheiros lhe lançaram e em breve fizeram-no subir a bordo do vapor onde bebeu com avidez longos golos de água, até lhe arrancarem a garrafa das mãos.

O vapor vinha de Boston e ia para Galway, na costa da Irlanda e fôra encontrado a mais de trezentas milhas a sul do pesqueiro. No mesmo dia fizeram o funeral ao Raposo, lançaram-no ao mar com toda as exéquias, já que o vapor não tinha condições para manter mais tempo o cadáver a bordo e a viagem ainda ia durar mais alguns dias.

Pela rádio avisaram o Comando Naval do acontecimento e quando atracaram, o Chico tinha à sua espera um representante consular de Portugal. Depois de vários dias à espera para lhe tratarem dos papéis, tomou lugar num cargueiro que o desembarcou em Lisboa, uma semana depois.

No fatídico dia do nevoeiro desapareceram mais dois doris, alem do seu e do Raposo. Esses nunca mais apareceram.

Regressou a Âncora de comboio, descansou uns dias, meteu no saco alguma roupa e passou a salto, primeiro para Espanha, depois para França, onde começou a trabalhar nas obras.

Cinquenta anos depois, já reformado, mantêm-se fiel à promessa de nunca mais desafiar o mar.

Fim

 
 
publicado por Brito Ribeiro às 15:09
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25
Mar 08
Designação
Farol de Montedor
 
Localização
Viana do Castelo, Freguesia de Carreço, Lugar de Montedor
 
Protecção
Inexistente
 
Enquadramento
Rural, isolado, integração harmónica na periferia do aglomerado, no topo de colina destacada, sobranceira à orla costeira, coberta de mato e pinhal, estando ladeado por duas antenas de telecomunicações. O edifício do Farol está inserido em amplo terreno murado, de contorno rectangular irregular, delimitado por muro de alvenaria de granito, rebocado e pintado de branco na frontaria, apresentando a envolver os edifícios espaços de uso dos faroleiros; estes, encontram-se relvados e ajardinados, com hortas, capoeiras, lavadouro, cisternas, um pequeno parque infantil, instalações oficinais e garagens, com áreas de circulação em terra batida e pontuado por algumas árvores.
 
Descrição
Edifício de planta em U invertido, fechado, integrando, ao centro e avançado da ala S., torre de farol, quadrangular. Volumes articulados horizontalmente, com coberturas de duas, três e quatro águas, e torre com cobertura em telhado semicircular, metálico, rematado por catavento metálico sobre acrotério esférico.
Fachadas das alas de um piso e a torre de quatro registos, em cantaria, de fiadas pseudo-isódomas, envoltas por passeio de lajes graníticas, percorridas por soco avançado, embasamento ressaltado, com cunhais em cantaria fendida e terminadas em duplo friso e cornija, as alas do U rematadas por platibanda plena, com friso e superiormente capeadas a cantaria.

Fachada principal virada a N.-NE., com os topos das alas do U, rasgados por duas janelas de peitoril, de verga abatida, moldurada, encimadas por silhares de cantaria dispostos em cunha; o pátio do U, rectangular, é cerrado a N. por muro de alvenaria de granito, encimado por gradeamento de ferro, intercalado por pilares de aparelho almofadado e cornija saliente, com portão central, de ferro forjado, enquadrado por pilares iguais, mas mais altos, ornados, frontalmente, por motivo circular, ressaltado, e com remate prismático, ostentando, a do lado esquerdo, cartela, em mármore, com a inscrição PATRIMÓNIO DO ESTADO.
As alas viradas ao pátio são rasgadas regularmente por janelas de peitoril e portas, ambas com verga abatida, molduradas, integrando bandeira, rasgando-se na face frontal do U, com pano central mais avançado, porta entre duas janelas de igual modinatura, mas mais estreitas. As restantes fachadas são rasgadas por vãos semelhantes, mas num compasso irregular.
Torre em cantaria, formando alambor, com cunhais salientes, em falsa alheta, em silhares almofadados, de aresta viva e junta alargada; apresenta soco avançado, embasamento em silhares almofadados, definido superiormente por friso de perfil curvo, e termina em múltiplos frisos encimados por cornija escalonada e balançada, sobrepujada por platibanda plena de cantaria; é rasgada no 1º, 2º e 3º registo de todas as fachadas por janelas rectangulares rematadas em arco de volta perfeita, molduradas, e no último registo por janelas de idêntico formato, na fachada S., e por janelas rectangulares jacentes, molduradas, nas restantes.
O aparelho óptico está instalado a cerca de 25 metros de altura do solo, no interior de cúpula cilíndrica, metálica e pintada de vermelho, de dois registos, sendo o inferior rasgado por porta rectangular, metálica, e o superior envidraçado e rasgado por porta rectangular de acesso ao varandim que a rodeia, sendo este sustentado por prumos, com pavimento em chapa metálica e guarda em ferro forjado.
INTERIOR com vestíbulo, de pavimento em marmorite, de motivo enxaquetado branco e rosa, moldurado, paredes rebocadas e pintadas de bege, com silhar de azulejos de estampilha verde e branca e friso verde, e tecto de gesso, de tramos arqueados, entre perfis de ferro. A partir do vestíbulo desenvolvem-se, simetricamente, em eixo, compartimentos de trabalho *1, servidos por corredores que, partindo de portas de verga recta, confrontantes, correm junto da fachada N. da ala S., e em cujas extremidades se abrem portas de verga recta conduzindo às alas E. e O., onde se instalam as residências dos faroleiros.
Ainda no vestíbulo rasga-se, axialmente e confrontante com a porta principal, amplo vão pétreo, em arco de volta perfeita, com fecho saliente, sobre pilastras, que abre para pequeno vestíbulo, com pavimento e silhar idênticos aos do espaço precedente, que conduz a vão confrontante, de igual estrutura, mas menor dimensão, cerrado por porta de madeira envidraçada que dá acesso à caixa de escada da torre.
A caixa de escadas da torre tem pavimento em marmorite, rosa e branco, decorado com a rosa-dos-ventos entre dois círculos, paredes revestidas a azulejos monocromos brancos, com escada helicoidal, pontualmente marcada por pequenos patamares, de degraus pétreos com cobertor de rebordo boleado, guardas em balaústres metálicos e corrimão em cobre.
 

 
Cúpula com piso inferior de pavimento em chapa metálica e paredes revestidas a reguado de madeira envernizada, albergando motores de rotação e aparelhagem de incandescência, com escada metálica, de um lanço, de acesso ao piso superior, de pavimento e paredes em chapa metálica e com ampla vidraça em todo o seu perímetro; tecto metálico, abobadado, sobre estrutura de perfis metálicos em I, arqueados, albergando aparelho óptico em cristal direccional rotativo, sobre base metálica.
 
Descrição Complementar
Pátio empedrado, com cisterna central, coberta por volume rectangular, pintado de branco e com porta de visita, frontal, em chapa metálica. A porta principal do átrio inscreve-se em corpo ligeiramente saliente do restante pano da fachada, tendo, sobre a cornija, mastro de bandeira, em ferro. A fachada N. da torre apresenta, sob a janela do primeiro registo, painel de azulejos, branco com orla fitomórfica a azul e inscrição: FAROL DE MONTEDOR.
Os compartimentos de trabalho da ala S. possuem pavimentos em mosaico cerâmico, paredes rebocadas e pintadas, com silhar de azulejos monocromos branco e tectos de gesso formando tramos, arqueados, entre perfis de ferro, tendo os corredores desta ala solução semelhante, excepto nos azulejos que apresentam estampilha azul e branca.
 
 
Os compartimentos das residências do faroleiros apresentam portas de verga recta, molduradas e portas de madeira, pavimentos em taco de madeira e em mosaico cerâmico, paredes rebocadas e pintadas e com silhar de azulejos e tectos em gesso e pintados. O registo superior da torre do farol apresenta piso com pavimento em mosaico cerâmico, e, encastrado na parede, armário, em madeira envernizada, tendo remate superior do paramento em cantaria, de contorno circular e aresta boleada, processando-se a comunicação com a cúpula por intermédio de escada metálica, de um lanço.
 
Utilização Inicial
Equipamento: Farol
 
Utilização Actual
Equipamento: Farol
 
Propriedade
Pública: estatal
 
 

 

 
 
Época Construção
Século XX
 
Arquitecto | Construtor | Autor
CASA: Barbier, Bénard & Turrene. ENGENHEIRO: José Ribeiro de Almeida (1908).
 
Cronologia
1758, 1 Fevereiro - alvará da Junta Geral da Fazenda manda construir este farol, juntamente com mais seis (Berlengas, Nossa Senhora da Guia, São Lourenço, São Julião da Barra, barra do Porto e costa de Viana); apesar disso, nem o farol de Montedor nem os outros foram construídos;
1826, 12 Dezembro - novo decreto ordenando mais uma vez a construção do farol;
1882, 21 Janeiro - a Comissão de Faróis e Balizas deu a sua aprovação ao parecer da subcomissão encarregada de elaborar o plano geral de iluminação da costa de Portugal, em que era incluído o de Montedor;
1884, 28 Janeiro - a Comissão de Faróis e Balizas voltou a debruçar-se sobre o farol de Montedor;
1902 - Nomeação de comissão, presidida pelo Capitão Mg. Joaquim Patrício Gouveia e de fazia parte o capitão-de-fragata. Júlio Zeferino Schultz Xavier e o 1º tenente Francisco Aníbal Oliver, que a secretariava, para definição da localização do farol e execução do respectivo projecto; 1903, 9 Julho - em sessão, determina-se a localização e o equipamento a instalar em Montedor;
1908 - Conclusão do projecto do farol pelo Engenheiro José Ribeiro de Almeida;
1910, 20 Março - início do funcionamento do farol, tendo a sua construção orçado em 22 contos de réis; o primitivo aparelho óptico, adquirido à casa Barbier, Bénard & Turrene, por 35977 francos franceses, proveio do farol de São Vicente, sendo constituído por um candeeiro a petróleo de nível constante, de 4 torcidas, com um alcance médio de 26 milhas;
1917 - Um furacão provocou profundos danos nos edifícios;
1919 - Instalação de equipamento sonoro;
1926 - Redução no sistema óptico de 3 para 2 relâmpagos;
1936 - Alteração do sistema iluminante para incandescência pelo vapor de petróleo;
1939 - Construção de uma casa para o rádio farol;
1942 - Instalação de um rádio farol;
1947 - Ligação à rede eléctrica de distribuição pública, passando a utilizar uma lâmpada de 3000 W e vedação dos terrenos do farol com muro perimetral;
1952 - Desmontagem do sinal sonoro a ar comprimido e montagem de uma sereia eléctrica; 1959 - conclusão da construção da torre destinada ao sinal sonoro;
1983 - Utilização de uma lâmpada de quartzine de 1000 W;
1987 - Remodelação do sistema eléctrico com montagem de sistema automatizado, modelo DF de 2 relâmpagos brancos e alcance luminoso de 22 milhas, e o correspondente sinal sonoro é um modelo CEFA 1000;
1998 - Construção da garagem para os faroleiros;
2001 - Desactivação do rádio farol.
 
Tipologia
Arquitectura civil de equipamento, novecentista. Farol costeiro, com torre de planta quadrangular, fachadas em alambor e de quatro registos, com cunhais em alheta e terminada em friso, cornija e platibanda plena, com cúpula cilíndrica, de dois andares, onde tem sistema de iluminação de óptica em cristal direccional rotativa, colocada ao centro e avançado de edifício de planta em U invertido, fechado, com fachadas de um piso em cantaria, cunhais em cantaria fendida, terminadas em duplo friso, cornija e platibanda plena e rasgada regularmente por vãos de verga abatida, moldurados.
 
 
 
Características Particulares
O Farol de Montedor é o farol mais setentrional da costa do continente português e constitui um dos mais interessantes exemplares nacionais deste tipo de edifícios, representando uma marca significativa da orla costeira do litoral minhoto, não só pelas elegantes características arquitectónicas da massa construída, bem como pela exuberante cenografia proporcionada pela sua extraordinária envolvente paisagística.
No interior, destacam-se alguns aspectos decorativos, de excelente qualidade, como a porta de acesso à caixa de escadas da torre patente nas molduras e almofadas entalhadas e ferragens em cobre, gravadas com motivos fitomórficos, no armário, em madeira envernizada, encastrado numa das paredes do registo superior da torre, com portas, gavetas, prateleiras, orlas e remates decoradas com entalhados de fino recorte.
Refira-se ainda a própria escada e guarda da torre, em balaústres metálicos e corrimão em cobre, com pavimento na caixa das escadas em mármores rosa e branco, formando uma rosa dos ventos.
 
Dados Técnicos
Estrutura mista e paredes autoportantes.
 
Materiais
Estrutura em cantaria de granito; paredes interiores rebocadas e estucadas; molduras dos vãos em granito; silhar de azulejos; portas e janelas de madeira envidraçadas e em chapa matálica; gradeamento e portão em ferro forjado; pavimento em marmorite, mosaico cerâmico, taco de madeira e em chapa metálica; tectos em estrutura metálica e gesso; escadas metálicas e de pedra com guardas metálicas; cobertura exterior em placas de fibrocimento e metálica, cúpula em ferro forjado, envidraçado; varandim e cata-vento em ferro.
 
Bibliografia
Ministério das Obras Públicas, Relatório da Actividade do Ministério nos anos de 1957 e 1958, 1º Volume, Lisboa, 1959; Ministério das Obras Públicas, Relatório da Actividade do Ministério nos Anos de 1959, 2º Volume, Lisboa, 1960; VILHENA, Francisco João, e LOURO, Maria Regina, Faróis de Portugal, Lisboa, 1995, p. 33; AGUIAR; J. Teixeira de, NASCIMENTO, J. Carlos, e SANTANDREU, Roberto, Onde a terra acaba. História dos faróis portugueses, Lisboa, 1998, p. 20-27
 
Intervenção Realizada
DGEMN: 1957 - Obras de conservação pelos Serviços de Construção e Conservação; Comissão Administrativa das Novas Instalações para a Marinha: 1959 - abastecimento de água às residências anexas ao Farol; vedação do muro à volta do farol com rede.
 
Observações
*1 - Estes compartimentos destinavam-se a área funcionais necessárias ao quotidiano do farol, estando, actualmente, uma delas ocupada com pequena mostra museológica onde se expõem antigos equipamentos.
 

 

publicado por Brito Ribeiro às 15:10

22
Mar 08
Ao pegar num jornal, encontra-se frequentemente qualquer coisa mal impressa ou equívoca. No entanto, estes enganos podem tornar os jornais muito mais divertidos...
Alguns exemplos:
"O acidente aconteceu na Rua da Colina e na Av. Sta. Bárbara quando o morto estava a atravessar o cruzamento."
"No discurso, a Drª Maria do Rosário contou episódios divertidos mostrando slides com o seu gorila de estimação. Ela disse que, embora muitas senhoras se pudessem sentir assustadas vivendo com um animal tão grande, ela não sentiu dificuldades quando passou 20 anos na selva com o seu marido."
"Estou certo de que vai haver muita gente a querer ver este filme uma segunda vez, especialmente se tiverem perdido a primeira."
"A D. Rosa, cujo marido trabalha na Portugal Telecom, tem dois filhos, um com quatro anos e meio e uma com nove, mas não são gémeos."
"O outro motorista declarou que o Sr. Silva cheirava a vinho. Um polícia também."
"Lamentamos verificar que o Sr. João Araújo está a recuperar de um acidente de viação grave."
"Embrulhe os frascos de veneno com lixa e aperte com uma tira de borracha. Se tem filhos, feche-os numa caixa de metal."
"Os homens formaram uma corrente e tentaram atear o fogo com baldes de água."
"Pedimos desculpa pelo erro no jornal da semana passada onde era dito que os Sr. António Dias era um defectivo na força policial. Queríamos dizer, claro, que o Sr. Dias é um detective na farsa policial, e lamentamos qualquer embaraço causado."
"Por causa da dificuldade dos idosos em subir a colina, a Câmara Municipal concordou em colocar um banco no topo."
"O senhor Sousa responde a todas as cartas anónimas que recebe, certificando-se de que toda a gente que lhe envia cartas tem resposta."
"Cíntia Barros, a famosa soprano, sofreu um grave acidente de viação no mês passado. É com alegria que informamos que ela pôde comparecer esta tarde em quatro peças."
"O director recusou-se a comentar a situação mas admitiu que «algumas crianças têm-se portado como crianças»."
"O Sr. Carlos Honório tocava trompete a solo e foi galardoado com a medalha do melhor tocador de trombone."
"As senhoras da Legião da Boa Vontade passaram uma boa tarde de Sexta numa festa de trocas social. Todas levaram coisas de que já não precisavam mais. Algumas senhoras levaram os seus maridos."
"O criminoso escapou ontem da prisão por helicóptero. A Polícia diz que montou barreiras na estrada e que não percebe como ele conseguiu fugir."
"As novas camisas são listadas como zebras, em preto, vermelho, azul, verde e amarelo."
"Se perguntares a seis amigos qual é o pássaro mais comum em Portugal, nove em dez responderão o pardal."
"O desemprego caiu sensivelmente esta semana, apesar do número de pessoas sem trabalho ter aumentado."
"Um semáforo foi roubado de um cruzamento. Um polícia disse: «Alguns ladrões não param perante nada.»"
 
publicado por Brito Ribeiro às 17:55
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18
Mar 08
Movimento das Forças Armadas (MFA)
O nascimento do Movimento dos Capitães encontra-se ligado à publicação dos Decretos-Leis n.os 353, de 13 de Julho de 1973, e 409, de 20 de Agosto do mesmo ano, por meio dos quais se pretendia resolver o problema da falta de oficiais com que o Exército se debatia perante a continuação da Guerra Colonial.
Contudo, a evolução do Movimento não deve ser entendida apenas numa perspectiva corporativista, já que a contestação ao Governo não abrandou com a suspensão dos dois diplomas. Pelo contrário, as reuniões destes militares continuaram e o movimento politizou-se.
A recusa de Marcello Caetano em aceitar uma solução política para a guerra levou a que os oficiais de nível intermédio, que suportavam realmente o combate no teatro de operações, percebessem que o fim do conflito passava pelo derrube do regime do Estado Novo.
Os capitães sabiam ser este também o sentimento geral da população. Sabiam ainda, após a publicação do livro de Spínola Portugal e o Futuro (Fevereiro de 1974), que podiam contar com o apoio dos seus chefes militares.
Assim, o Movimento dos Capitães começou a consolidar ligações e canais de divulgação de informação dentro dos quartéis (na metrópole e nas colónias). Foi eleita uma Comissão Coordenadora, que passou a liderar todo o processo de contestação.
Em Novembro de 1973, o Movimenta explicita que, além das reivindicações corporativas, estavam em causa outros objectivos, como o fim da Guerra Colonial e o restabelecimento da democracia.
Em Dezembro foi eleito um Secretariado Executivo constituído por Vasco Lourenço, Otelo Saraiva de Carvalho e Vítor Alves, e foram formadas as várias comissões que iniciaram o processo de preparação de um golpe militar.
A 5 de Março de 1974, o Movimento dos Capitães passou a designar-se Movimento das Forças Armadas e foram aprovadas as suas bases programáticas, que constam de um documento distribuído nos quartéis, O Movimento, as Forças Armadas e a Nação. O programa iria depois sintetizar-se em três palavras-lema: democratizar, descolonizar e desenvolver.
O ensaio geral para o derrube do regime deu-se a 16 de Março de 1974, quando o Regimento de Infantaria 5 das Caldas da Rainha tentou um golpe militar. Devido à falta de coordenação com outros sectores do movimento, a iniciativa não teve sucesso.
A conspiração que finalmente derrubou o Estado Novo envolveu cerca de trezentos oficiais das Forças Armadas e desenvolveu-se em menos de um ano. O golpe foi marcado para a semana de 20 a 27 de Abril de 1974. Acabou por ter lugar a 25, com Otelo Saraiva de Carvalho como principal comandante das operações. O regime caiu sem ter quase quem o defendesse.
Depois da revolução, o MFA sofreu várias transformações de estrutura. Primeiro através da Comissão Coordenadora, depois do Conselho dos Vinte, mais tarde ainda pelas Assembleias do MFA e finalmente pelo Conselho da Revolução, coube-lhe desempenhar o papel principal na recomposição das hierarquias das Forças Armadas Portuguesas até 1982.
publicado por Brito Ribeiro às 11:45
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16
Mar 08
Ainda era noite quando sentiu o arrastar dos tamancos e a cantilena dos “Louvados” que o homem de quarto usava para acordar os pescadores. Parecia que tinha acabado de se deitar. Levantou-se estremunhado, calçou as botas, vestiu a samarra e comeu um naco de pão da véspera e um púcaro de café que o novo “moço” da cozinha tinha pousado sobre a mesa.
Preparou o baú com a merenda, foi buscar a isca para ele e para o Raposo, subiu ao convés para ajudar a arrear os doris, primeiro os mais velhos, por último os “verdes”.
O céu estava encoberto e já se adivinhava alguma névoa. Com o nascer do dia iria levantar, era costume. O Capitão Maldonado tinha-os avisado: “Todos a pescar aqui perto, ninguém se afasta. Se tocar o sino, regressem de imediato”.
Nem era preciso avisar, mesmo os mais afoitos não gostavam de se afastar do navio quando havia névoa.
O Chico aproximou o seu doris da embarcação do Raposo que lhe comunicou a intenção de pescar para lá da popa do lugre. Em poucos minutos estavam em posição, prepararam a isca, as linhas, o bicheiro e largaram os aparelhos. Estavam a pescar a menos de cem braças e quando alavam um dos aparelhos, os bacalhaus subiam regularmente à superfície, presos na armadilha do anzol, acabando a estrebuchar no fundo das frágeis embarcações.
A ligeira névoa matinal mantinha-se, o mar estava raso, quase estanhado, salpicado de pequenos doris em redor do “Senhora da Ajuda”, como a galinha vigiando os seus pintainhos.
- Tio Raposo, no aparelho que larguei por último, deu-me peixe maior. Ó Tio Raposo, está a ouvir?...
O silêncio reinava sobre as águas.
- Tio Raposo, que raio está a fazer, assim, de rabo para o ar?
Do pequeno doris do Raposo, suavemente embalado, não vinha resposta. O Chico alou as linhas que tinha na água, armou os remos e transpôs rapidamente a distância que os separava. Só via as costas do Raposo debruçado sobre o banco, como se procurasse algo no fundo do barco.
Quando encostou de bordo as duas embarcações, pode apreciar que o Raposo não se mexia e tinha a cabeça no chão. Passou um cabo de amarração e saltou com agilidade para o outro barco.
-Tio Raposo, que lhe aconteceu? – E puxou-lhe pelo casaco de oleado de forma a endireitar o seu velho companheiro.
A cabeça do Raposo pendeu sobre o peito e quando o Chico lha levantou pôde ver uns olhos abertos, mas vidrados e um fio de espuma que lhe saía da boca para o queixo. Largou-o como se queimasse, saltou para trás, tropeçou na caixa da isca, indo estatelar-se de costas sobre os bacalhaus recem-capturados.

O Raposo, sem amparo, voltou a escorregar lentamente até apoiar a cabeça no fundo do barco. Levantou-se a custo daquele leito forrado a peixe, aproximou-se do companheiro, voltou a endireitá-lo e procurou algum sinal de vida.
Tomou-lhe o pulso mas como tinha as mãos geladas, desistiu e decidiu-se a desabotoar-lhe o oleado e a samarra que tinha vestido. Tirou o gorro e encostou a orelha ao peito do Raposo, à procura do bater do coração. Não sentiu nada, mudou de posição, voltou a tentar sem resultado.
Sentia-se afogueado apesar do frio cortante que fazia essa manhã. Endireitou-se para acenar ao lugre, para avisar a situação do Raposo, e ficou pasmado com o manto branco de nevoeiro, que tudo cobria. Uma pequena brisa, na qual não tinha reparado, arrastava consigo o maldito nevoeiro.
Distraído no auxílio ao Raposo tinha-se esquecido de vigiar o céu e o mar. Que fazer? Olhou em volta, nada se via. Não tinha ouvido o sino do lugre. Já deviam ter tocado a chamar os homens e a orientá-los para a sua posição.
Os minutos seguintes passou-os num crescendo de angústia, procurando descobrir alguma referência entre as baforadas de nevoeiro que passavam. Suspendeu várias vezes a respiração para melhor ouvir um qualquer ruído que o orientasse. Nada! Absolutamente nada! Não via, não ouvia nada fora dos barcos, amarrados um ao outro.
Saltou para o seu, pegou nos remos, orientou-se pela agulha de marear que o contra mestre Antunes lhe tinha confiado. Tinham-se posicionado a oeste do lugre, pela sua popa. Se remasse para este, teria de dar com ele, pelo menos aproximava-se e ouviria o sino. Provavelmente havia mais pescadores perdidos no nevoeiro. Ou só estariam eles fora? E o Raposo que estava morto, que lhe iam fazer? Continuou a remar lentamente, levando a reboque o outro doris.

Lembrou-se do búzio que tinha na caixa sob o banco, parou de remar, remexeu as tralhas, levou o búzio à boca e soprou com toda a força. O som cavo da concha ecoou no silêncio branco que o rodeava. Esperou a resposta em vão, tornou a tocar o búzio, esperou, tocou, repetiu durante muito tempo este ritual. De vez em quando olhava para o Raposo que repousava encostado ao banco com a cabeça inclinada de lado.
Tinha perdido a conta às horas, tinha sede, bebeu dois goles da garrafa da água, não conseguia comer nada, parecia que tinha a garganta apertada. O Chico pensava na desgraça do Raposo, um homem que vendia saúde e que caiu sem dar um ai. E se o lugre não os encontrasse, que seria feito dele? Para já o frio suportava-se, mas o dia já estava a cair e durante a noite devia ficar tudo gelado. Seria ele capaz de aguentar?
Tirou as luvas, enrolou com dificuldade um cigarro, acendeu-o e soprou o fumo para o ar, vendo-o misturar-se com o nevoeiro que passava.
(continua)
publicado por Brito Ribeiro às 15:10
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12
Mar 08

A praia de Vila Praia de Âncora é ainda hoje conhecida pela "praia das crianças" devido à segurança das suas águas balneares. Ao longo do século vinte cimentou o remome de estancia balnear, com famílias que ano após ano regressavam para mais um mês de férias. Mais tarde, muitas dessas famílias adquiriram aqui casa própria, enquanto outras rumaram para paragens mais tranquilas quando na decada de setenta e oitenta se assistiu a uma explosão urbanistica que descaracterizou profunda e irremediavelmente a vila piscatória a que estavam habituados.

 

Foto na qual se pode apreciar a torre da capela e os montes sobranceiros totalmente cobertos de pinheiros.

 

 

Av. Ramos Pereira ainda sem o "desenvolvimento" do betão

 

 

As barracas em 1915

 

 

Foto de 1915, ainda não se vê ninguem em fato de banho

 

 

Junto à zona de banhos, com o Forte da Lagarteira ao fundo. Década de sessenta.

 

 

As crianças brincam na foz do Rio Âncora, no mar os barcos fundeados no Sabugo

 

 

O Redondo ou Meia Laranja na década de setenta

publicado por Brito Ribeiro às 16:47

07
Mar 08
 
Após um período de seca que trouxe à memória de todos as dificuldades de 2005, vivemos recentemente mais um episódio de cheias, que ocorreram um pouco por todo o país, particularmente na zona de Lisboa, na sequência de uma pluviosidade intensa e concentrada. Os fenómenos climáticos extremos vieram para ficar, mas as estratégias de prevenção dos mesmos, ou a falta delas, parecem teimar em ignorar e repetir os erros do passado.
 
Apesar do Ministro do Ambiente afirmar categoricamente (???) que as cheias não derivam de problemas do ordenamento do território, mas sim da falta de limpeza dos cursos de água, a verdade é que os efeitos das cheias são, acima de tudo, uma consequência do mau ordenamento do território.
As cheias são um fenómeno natural, característico dos cursos de água de regiões com regimes climáticos torrenciais, como é o caso de Portugal, e historicamente foram encaradas pelo homem como uma benesse, uma vez que enriquecem de nutrientes as áreas inundadas, tornando os solos mais férteis. O florescimento da civilização egípcia ao longo das margens do Nilo, em grande parte pela produtividade dos terrenos alagados sazonalmente, é o exemplo mundial mais citado.
 
À escala nacional, podemos destacar a Lezíria do Tejo que, como o próprio nome indica, é uma zona sujeita a inundações periódicas, que contribuem para a grande produtividade agrícola desta zona do país. Logo, os problemas que derivam das cheias não estão relacionados com o fenómeno em si, mas sim com o facto de ocuparmos o espaço em que elas ocorrem naturalmente.
A desflorestação e o aumento da impermeabilização do solo, pela construção de habitações e outras infra-estruturas, reduz a superfície do solo disponível para realizar as suas funções, nomeadamente a absorção de águas pluviais, e altera os padrões de circulação da água.
As consequências vão desde a redução da recarga das águas subterrâneas, à eliminação dos solos agrícolas de qualidade, conservação dos ecossistemas ribeirinhos e suas funções naturais no controlo de cheias. Por isso mesmo, os chamados “leitos de cheias” são vedados à construção, por imposição de condicionantes do uso do território, tais como o domínio público hídrico e a reserva ecológica nacional (REN).
Estas zonas, quando devidamente preservada a sua vegetação natural, actuam como tampão relativamente à subida do nível das águas e, em simultâneo, filtram os poluentes trazidos pelas chuvas das zonas circundantes, preservando a qualidade da água.
Logo, as soluções facilitistas, frequentemente apontadas pelas entidades com competências na matéria, tais como a limpeza e desobstrução das linhas de água, não devem ser levadas à letra, mas sim devidamente analisadas para cada caso, sendo recomendadas, por exemplo, em cursos de água colmatados por espécies de plantas exóticas de crescimento rápido (Ex. canas, jacinto de água).
 
Ao contrário do que é frequentemente afirmado pelos responsáveis pelas obras de regularização dos cursos de água, a construção de barragens, o entulhamento ou canalização de pequenos cursos de água e a construção de muros e aterros, contribuem para o agravamento das cheias rápidas, como as que se verificaram no corrente mês, uma vez que a sua capacidade de retenção é largamente ultrapassada.
No entanto, a sua existência cria uma falsa sensação de segurança, levando à construção caótica nas zonas de potencial inundação, com as consequências devastadoras que tiveram as cheias de 1967 na zona de Cascais ou as cheias de 1997 no Alentejo.
Face a este cenário, torna-se incompreensível a intenção recentemente anunciada de transferir a responsabilidade de delimitação da REN para as autarquias, as mesmas que têm sido responsáveis pelo licenciamento indevido de construções em leito de cheia e, logo, pelas consequências danosas para a segurança de pessoas e bens.
Fontes: Liga para a Protecção da Natureza
publicado por Brito Ribeiro às 16:44
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05
Mar 08
 
Ala Liberal
 
Os deputados da chamada Ala Liberal constituíram uma jovem geração de políticos adeptos de uma forte liberalização do regime do Estado Novo. Das listas do partido único (a União Nacional) às eleições de 1969, faziam parte os deputados independentes António Pinto Leite, Francisco de Sá Carneiro, Francisco Pinto Balsemão, Magalhães Mota e Miller Guerra. Um total de 30 deputados formaram a "ala liberal" da futura Assembleia. Sá Carneiro iria afirmar-se como um dos mais activos elementos do grupo.
 
Entre 1970 e 1971, o número de detenções por motivos políticos voltou a aumentar, não só de militantes do PCP como de outras personalidades, entre elas Jaime Gama, Francisco Salgado Zenha e Raul Rego. Os ecos da violência e da ilegalidade dos métodos usados na instrução dos processos foram denunciados por apoiantes dos presos e chegaram à Assembleia Nacional pela voz de Sá Carneiro e de outros deputados "liberais".
O recuo no terreno das liberdades expressava uma clara travagem a nível político-institucional naquilo que a chamada Primavera Marcelista continha de promessa de renovação do regime.
Contra isto se insurgiram os deputados da Ala Liberal, que apresentaram várias iniciativas legislativas ao longo do ano de 1972: os projectos de lei de amnistia e de liberdade de associação (apresentados por Sá Carneiro) e de lei de imprensa (subscrito por Sá Carneiro e Pinto Balsemão).
 
A lei de imprensa, que o Governo acabou por fazer aprovar na Assembleia, praticamente só mudou a designação de "censura prévia" para "exame prévio", nada alterando de essencial. De resto, todos os projectos "liberais" foram derrotados pela maioria afecta ao Governo e aos sectores políticos mais conservadores.
Após sucessivas desilusões, os deputados da Ala Liberal foram abandonando a Assembleia. Sá Carneiro foi o primeiro, em 1973, seguindo-se-lhe vários outros.
Passaram à oposição, nomeadamente através de artigos publicados no jornal Expresso, fundado por Pinto Balsemão em Janeiro de 1973. Os esforços dos "liberais" terão tido o efeito de desacreditar a experiência marcelista junto de largos sectores das classes médias portuguesas.
 
 
D. António Ferreira Gomes (Bispo do Porto)
 
D. António Ferreira Gomes nasceu em 1906, em Penafiel, e faleceu em 1989. Concluiu os seus estudos eclesiásticos na Universidade Gregoriana, onde se formou em Filosofia, em 1928.
Ordenado sacerdote nesse mesmo ano, foi professor, prefeito, vice-reitor e reitor do Seminário de Vilar, na cidade do Porto. Foi nomeado coadjutor de Portalegre em 1948, passando a titular da diocese em 1949. Tornou-se bispo do Porto em 1952.

 

No exercício do magistério episcopal e em defesa da doutrina social da Igreja Católica, em 1958 (coincidindo, portanto, com a campanha presidencial de Humberto Delgado), dirigiu uma carta ao então chefe do Governo, António de Oliveira Salazar, crítica da situação política, social e religiosa da nação. Consequentemente, foi forçado ao exílio a 24 de Julho de 1959.
Residiu em Espanha, na República Federal da Alemanha e em França, sendo mais tarde nomeado membro da Comissão Pontifícia de Estudos Ecuménicos para a preparação do Concílio Vaticano II pelo Papa João XXIII.

 

Após a morte de Salazar, regressou a Portugal, em 1969, e retomou o governo da sua diocese. Sendo o fundador do semanário Voz Portucalense e do boletim Igreja Portucalense, foi também responsável pela criação, nos anos 70, da Secção Diocesana da Comissão Pontifícia "Justiça e Paz".
Apresentou o pedido de resignação da diocese em 1981, cessando funções no ano seguinte.
Publicou uma vasta obra de reflexão e ensaio. Foi alvo de várias homenagens e galardoado com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, em 1976, e a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo, em 1983.
 
 
Francisco de Sá Carneiro
 
Político e advogado português, nasceu no Porto a 19 de Julho de 1934 e morreu em Camarate, Loures, a 4 de Dezembro de 1980.
Foi um dos fundadores da Cooperativa Cultural Confronto e director da Revista dos Tribunais. Foi deputado independente da Ala Liberal entre 1969 e 1973. Após a Revolução de 25 de Abril de 1974, Sá Carneiro foi um dos fundadores do Partido Popular Democrático (PPD), ficando a presidir aos seus destinos. Fez parte do primeiro governo provisório entre Maio e Junho de 1974.

 

Sá Carneiro obteve a maioria absoluta nas eleições legislativas de 1980, vindo a falecer nas vésperas das eleições presidenciais, num desastre de aviação do qual ainda hoje subsistem dúvidas; uns defendem a tese de atentado, outros defendem a de acidente.
Desde a sua morte até aos dias de hoje várias comissões oficiais de inquérito ainda não conseguiram chegar a qualquer decisão peremptória sobre as causas da queda do avião, havendo indícios que apontam quer para o atentado, quer para o acidente.

 

Sá Carneiro publicou, entre outras, as obras “Uma Tentativa de Participação Política” (1971), “Ser ou não Ser Deputado” (1973), “Por uma Social-Democracia” (1975), “Autoridade Democrática e Social-Democracia” (1975) e “Uma Constituição para os Anos 80, Contributo para Um Projecto de Revisão” (1979).
 
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publicado por Brito Ribeiro às 15:03
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01
Mar 08
O Chico já andava ao bacalhau há quase três anos. Tinha embarcado como “moço”, com quinze anos e nas duas primeiras viagens foi ajudante do cozinheiro. Mas quando a cozinha estava fechada havia sempre qualquer coisa para fazer. “Ó Chico, vai buscar um novelo de fio ao porão”, “Ó Chico, vai carregar sal”, era assim todo o dia e parte da noite, restando umas magras horas para descansar na tarimba. O rapaz era magro, mas rijo e comida não lhe faltava na cozinha. Podia ser sempre a mesma coisa, mas nesse particular, era um dos poucos privilegiados a bordo.
Já fazia a “chora” tão bem ou melhor que o cozinheiro com quem tinha aprendido e não havia nada na cozinha que já não soubesse fazer.
 
Na terceira viagem o Capitão Maldonado, o “Ferreiro”, como lhe chamavam à boca pequena, debruçado no varandim da amurada, olhou-o com atenção quando cruzou o portaló, com o saco da roupa às costas.
- Vai arrumar isso e anda ter comigo à câmara.
- Sim, senhor Capitão – respondeu o Chico, embaraçado e sentindo-se corar, por aquela súbita chamada à presença do capitão, nenhum pescador gostava de ir, porque geralmente significava aborrecimentos.
De boina na mão apresentou-se ao Capitão Maldonado, um indivíduo franzino, muito moreno, da zona de Ílhavo, filho e neto de pescadores que se tinha alistado novo na Marinha. Estudou e foi aproveitando as oportunidades, chegou a comandar um draga-minas e quando saiu da Marinha de Guerra, tinha à sua espera o lugar de imediato num lugre, onde fez duas viagens à Terra Nova, para aprender os pesqueiros.
Daí para cá tinha comandado o “Senhora da Ajuda”, um lugre de três mastros que, com a graça de Deus e a habilidade dos pescadores, todos os anos, no inicio do Outono atracava carregado com 350 toneladas de bacalhau, nos Cais de Aveiro.

- Tu és o Francisco Gomes, de Âncora, não és? – e sem dar tempo de responder, continuou – Desta vez não vais para a cozinha. Esse borrachão do Sampaio vai ter de arranjar outro ajudante. Vai-te apresentar ao contra mestre Antunes, já tens idade e corpo para ires de “verde”.
O Chico saiu radiante em direcção à coberta da popa, onde o contra mestre dava as suas ordens. A azáfama na véspera da saída é sempre muita, tudo tinha de estar pronto antes da hora de zarparem. Os homens mais experientes passavam revista aos doris, já tinham sido calafetados e pintados, mas podia ter passado alguma deficiência. Os doris eram a principal ferramenta do pescador, o único garante da sua precária segurança, quando pescavam nas águas geladas do Atlântico Norte.
Nos paióis, as linhas, os anzóis e demais utensílios próprios da pesca à linha estavam já guardados e assim ficariam durante quinze dias, o tempo de viagem até ao primeiro banco de pesca.
 
Quando cruzaram a barra e deixaram para trás o cais salpicado de gente, os familiares e outros pescadores que se vieram despedir, enfrentaram um mar branco de espuma, empurrada pelo vento de sudoeste que rapidamente os afastou da costa. As primeiras horas de navegação não são de falas, todos se recolhem na saudade, na angústia de mais uma viagem, na certeza de uma vida dura e perigosa.
Como “verde”, o Chico passou a acompanhar o Raposo, um homem quase com idade para ser seu avô, que tinha por missão ensinar-lhe a conhecer o mar e os truques da pesca à linha. Quando arreavam os doris, para onde remava o Raposo, logo o Chico partia no seu encalço, sempre atento aos dizeres do velho pescador.
- Ala seguido, rapaz. Não dês puxões, que perdes o peixe. Isso, assim!
- Olhe para este Tio Raposo! É quase do meu tamanho…
- Vá, deixa-te de conversa e olha para o que fazes. Um olho no céu e outro no mar, nunca te esqueças.
(continua)
publicado por Brito Ribeiro às 23:01
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