Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

05
Jan 08
Há pouco tempo, mais concretamente em Agosto último, insurgi-me contra o estado de limpeza da zona litoral entre Vila Praia de Âncora e Moledo, uma zona conhecida por Caído e mais a norte por Santo Isidoro.
O Caído pertence à freguesia de V. P. de Âncora e Santo Isidoro já faz parte da freguesia vizinha de Moledo. É uma zona de beleza natural insuperável, mas tem sido muito mal tratada ao longo dos tempos, não só pelo estado degradante motivado pela porcaria espalhada e nunca retirada, mas essencialmente pelos repetidos atentados de que tem sido alvo.

Lixo, depuradora/restaurante e pedreiras

É no Lugar do Caído que se encontram com frequência vestígios do Paleolítico, nomeadamente “picos ancorenses”, raspadores e pesos de rede. Também nesta zona que se encontram pequenas salinas que podem ter origem no século III ou no século XI.

Antigamente o Caído era conhecido por ser um sitio ermo que até servia de porto natural de descarga do contrabando e por ser um local onde o sargaço dava à costa, tendo os sargaceiros construído umas pequenas casinhas para guardar os aprestos. Ainda hoje existem, embora já não tenham essa utilidade, mas também não agridem a paisagem pois estão perfeitamente integradas.
 
No entanto sobram aspectos negativos com fartura e que passo a descrever:
 
  • Construção de um armazém de depuração de bivalves e mais tarde um restaurante no piso superior;
  • Abertura de estrada calcetada até ao armazém de depuração;
  • Existência da lixeira municipal durante mais de uma década;
  • Construção clandestina de um curral de ovinos e caprinos;
  • Construção clandestina de um canil;
  • Exploração de duas pedreiras no monte sobranceiro;
  • Descarga das águas das pedreiras directamente para o Caído sem qualquer bacia de retenção ou tratamento;
  • Ausência total de recolha de lixo e de detritos numa zona eminentemente turística;
  • Nenhuma referencia, informação ou estudo aos vestígios arqueológicos;
 
O armazém de depuração de bivalves é um edifício sem qualquer cuidado na integração paisagística, espampanante e que foi aprovado ainda no tempo do presidente Pita Guerreiro, curiosamente, numa reunião em que ele não estava presente; já na altura foi pública a oposição a este licenciamento por parte do NUCEARTES, tanto mais que cheirava a “esturro” uma depuradora com dois andares.
Anos mais tarde, o proprietário abriu uma marisqueira no piso superior. Este foi, para mim, um dos casos mais graves, em matéria de licenciamentos, dos anos oitenta, pois foi violado deliberadamente um conjunto de legislação de protecção da orla costeira. A depuradora até podia existir sem ferir a paisagem e agredir o meio ambiente, tanto mais que esta zona está integrada na Rede Natura 2000 e no Biótopo Corine.

Capela de Santo Izidoro

 
A abertura da estrada calcetada foi uma consequência da construção e exploração da depuradora, outro erro tremendo pois alterou a morfologia do terreno numa zona supratidal ou seja, na linha máxima de praia mar. Onde existia um pequeno caminho térreo foi rasgada uma estrada de duas vias e há quem diga que o calcetamento foi pago pelo proprietário da depuradora, pelo menos acaba à sua porta.
 Mais a norte, durante os anos oitenta e princípios do anos noventa era depositado todo o lixo recolhido pelas equipas camarárias num terrenos confrontante com o mar, sendo a eliminação dos resíduos obtida por incineração, causando fumos e odores que com ventos de norte atingiam a própria vila, ainda distante alguns quilómetros.

 

Felizmente a lixeira foi encerrada e os resíduos são agora depositados em aterro municipal, embora o terreno tenha sido limpo, nunca foi devidamente recuperado e encontra-se abandonado. Esporadicamente encontram-se deposições clandestinas de lixos e entulhos de obras nas margens do caminho que lhe dá acesso.
 
Há alguns anos, um indivíduo que se dedica à criação de ovinos e caprinos começou por construir uns barracos para abrigar os animais e ao longo dos tempos tem vindo a aumentar a exploração e consequentemente a aumentar o número de barracos construídos num terreno particular.
Embora a pequena exploração pecuária não traga por si só qualquer mal, as condições visuais de tal aglomerado de barracas dá um aspecto degradante ao local e não sei até que ponto as condições higieno-sanitárias da exploração estão ou não, a ser controladas pelas autoridades competentes.
 
Ao lado nasceu um canil que vem suprir a falta de um canil municipal e que é da iniciativa de alguns entusiastas na defesa dos animais. Apesar da intenção ser muito positiva, o resultado é francamente degradante em termos visuais e os animais não tem as condições necessárias à sua permanência no local.
 
Quem visita aquela zona, por muito que não queira, tem forçosamente de encarar as pedreiras que esventraram (e continuam) os montes sobranceiros, rasgando enormes feridas de recuperação impossível, tal o estado de exploração que aquele terreno sofreu.
É realmente um crime ambiental, um atentado paisagístico que foi crescendo ano após ano, sem que se arranjasse meio e disposição para o travar. Hoje é tarde e um dia, quando aquilo deixar de ser rentável, os proprietários limitam-se a virar costas e ir escavar para outro lado ou, quem sabe, a urbanizar os terrenos. Nunca mais ficará no seu estado original.
 
Também as águas que provem destas pedreiras acabam por ser lançadas ao mar na enseada do Caído, sem qualquer decantação ou tratamento, originando perturbações na turvação da água devido às lamas arrastadas. Também aqui não é feito qualquer controle pelas autoridades de saúde e desconhece-se se vêm arrastadas algumas substâncias nocivas junto com estas águas.

Estradão entre Santo Izidoro e a Meia Légua

 

 Outra ameaça foi criada recentemente com o rasgar de um estradão desde a antiga lixeira, até à última urbanização de Moledo, no Lugar da Meia Légua, sempre junto à linha do caminho-de-ferro. Este acesso, que já permite o trânsito automóvel, vem substituir um antigo caminho de serventia agrícola e suspeito que sirva no futuro próximo para dar capacidade construtiva aos terrenos confrontantes. Acho até que nem é nada difícil prever que há aqui interesses imobiliários e dos grandes. Com a cobertura de quem, pergunto eu? Deixem sair o novo PDM, que depois falamos!

 

 
Por tudo isto é difícil acreditar que temos a governar-nos autoridades atentas aos interesses colectivos e que lutam para que Vila Praia de Âncora e Moledo sejam um destino turístico com qualidade aceitável.
Ao longo dos tempos fizeram-se algumas asneiras, mas não é legítimo deixar essas asneiras perpetuarem-se, agravarem-se ou multiplicarem-se.
Já é tempo mais que suficiente de se inverter a situação de degradação e elaborar um plano de pormenor para a zona do Caído e Santo Isidoro, eventualmente até à praia de Moledo, sempre norteados pela defesa do ambiente e pela preservação paisagística, não pela cultura do betão ou pela especulação fundiária, que acaba por enriquecer meia dúzia e deixar mais pobre toda a restante comunidade. 
publicado por Brito Ribeiro às 13:03
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