Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

26
Nov 07
   
Designação
Capela da Senhora da Cabeça
 
Localização
Viana do Castelo, Viana do Castelo, Freixieiro de Soutelo, Lugar de Grovas
   
Enquadramento
Rural, isolado, integração harmónica num outeiro, coberto com sobreiros e acácias, sobranceiro ao vale do Rio Âncora, na periferia de Freixieiro de Soutelo.
Possui adro definido por muro de alvenaria de granito, rebocado e caiado, com capeamento em lajes graníticas, pavimento calcetado a cubo granítico e passeio envolvente da capela em lajetas de granito; tem acesso principal a O., por amplo escadório pétreo de seis lanços de seis degraus, delimitado por muro em alvenaria de granito, com patamares pavimentado a calçada à portuguesa, apresentando cruzeiro pétreo em patamar intermédio.

No sector S. do adro implanta-se o edifício do Queimador e em patamar que rodeia o recinto, em plano inferior, também delimitado por muro de alvenaria de granito, rebocado e caiado, com capeamento em lajes graníticas, com pavimento calcetado a cubo granítico, instalam-se a Casa da Cera e a Casa de Exposição de Promessas.
 
Tipologia
Arquitectura religiosa maneirista. Capela de planta longitudinal, composta por alpendre, nave única e capela-mor, interiormente com tecto de madeira e abódada de berço, respectivamente, e bastante iluminada pelos vãos axiais e laterais, com sacristia rectangular adossada em eixo.
Fachadas rebocadas e pintadas com pilastras toscanas nos cunhais, coroadas por pináculos.

Fachada principal terminada em empena, rasgada por portal de verga recta encimada por cornija e nicho com imagem do orago, ladeado por duas janelas rectangulares, precedida por alpendre sustentado por colunas toscanas, assentes em muro, incorporando banco interior corrido, com aberturas axial e laterais.
Fachadas laterais com fresta de capialço no topo da nave e porta travessa na lateral direita. No interior, apresenta coro-alto, púlpito de bacia rectangular no lado do Evangelho e retábulo-mor maneirista, de planta recta e um eixo.
 
Características Particulares
Capela de romaria, de particular devoção dos habitantes do vale do Rio Âncora, possuindo como característica ímpar na região a abertura de vãos encimados por cruzes na parede posterior da capela-mor, nos quais os romeiros introduzem a cabeça para cumprimento das suas promessas.

Construída nos primeiros anos do séc. XVIII, possui alpendre bastante amplo, com arquitrave apoiada em colunas assente em muro e com elaborado tecto, em travejamento de madeira, estruturado por asnas e apresentando pendurais de remate inferior recortado.
Estruturalmente, caracteriza-se pela sobriedade, sendo o portal axial encimado por nicho envolvido por volutas. O vão em arco de volta perfeita sobre o alpendre deverá datar do séc. XIX e a sacristia, disposta em eixo, é de construção recente.
O retáblo-mor conserva a sua estrutura maneirista original, bem como as tábuas pintadas com santos, ainda que repintado. A nave apresenta, do lado da Epístola, dois interessantes "ex-votos" pintados sobre tela e sobre tábua.
 
Descrição Complementar
A sacristia, apresenta na fachada posterior da capela-mor, do lado do Evangelho, três vãos rectangulares, com moldura relevada, pintada a cinzento, encimada por cruz.
No patamar intermédio do escadório ergue-se cruzeiro composto por soco quadrangular de um degrau, sobre o qual assenta plinto paralelepipédico, de faces molduradas e ornadas com losangos relevados, com dado monolítico e cornija moldurada; coluna de fuste liso, alto e monolítico, de capitel coríntio, suportando cruz latina, de secção quadrangular, de faces frontais molduradas.
No sector S. do adro localiza-se o Queimador, de planta rectangular, com cobertura em telhado de quatro águas, com única abertura rasgando toda a fachada principal, resguardada por grade metálica articulada, precedida por alpendre sustentado por dois pilares, de betão, de secção quadrangular.

No patamar inferior à capela implantam-se, a N., o edifício da Casa da Cera, de planta rectangular, com um amplo alpendre no extremo E., sustentado por pilares pétreos de secção quadrangular, com cobertura homogénea em telhado de três águas, tendo fachadas em alvenaria irregular de granito e vãos em cantaria, sendo rasgadas por janelas e portas rectangulares.
No sector E. implanta-se Casa de Exposição de Promessas, rectangular, com cobertura em telhado de duas águas, fachadas rebocadas e pintadas de branco, rasgado, na fachada principal, por portas de verga recta e janela rectangular jacente.
Neste recinto inferior foi colocada uma sineira de metal num sobreiro e implanta-se um fontanário reaproveitando o vão de uma sineira em arco de volta perfeita, moldurado e decorado com volutas, encimado por cruz latina sobre acrotério, ao centro, tendo inscrita a data 1682.
 
Utilização inicial e actual
Cultual e devocional: Capela
 
Propriedade
Privada: Igreja Católica
   
Época Construção
Século XVIII
 
Arquitecto | Construtor | Autor
Desconhecido.

 

 
Cronologia
1682- data na sineira existente no monte;
1701 - data inscrita na verga do portal principal;
1703 - data inscrita em cartela sobre o arco triunfal, informando que a capela foi erecta sendo Abade Bernardo Pereira de Andrade;
1758 - referida nas Memórias Paroquiais como tendo romaria duas vezes por ano, na segunda feira do Espírito Santo e no dia de São Lourenço, a que acode muita gente, não só desta província do Reino, como também da Galiza;
séc. XIX - data provável da abertura do vão em arco sobre o alpendre da fachada principal;
1830 - data de em ex-voto;
1862 - data de um ex-voto pintado por milagre do P. José da Costa Lima.
     
Intervenção Realizada
Comissão Fabriqueira: 1976 - construção do escadório;
1977 - obras de reparação da cobertura exterior;
1985 - reparação dos vãos da capela-mor;
1993 - construção dos edifícios da Casa de Exposição de Promessas e do Queimador; 1995 - reparação da cobertura interior e restauro do retábulo-mor;
1998 - pavimentação do adro;
1999 - pavimentação do patamar dos edifícios anexos;
2001 - pintura das fachadas da capela.
 
Observações
*1 - A procissão dedicada a Nossa Senhora da Cabeça realiza-se anualmente na 2ª feira do Espírito Santo, com início na Igreja Matriz de Freixieiro de Soutelo e término nesta capela.
 
 
 
 
publicado por Brito Ribeiro às 16:10

21
Nov 07
 
O Estado Novo
 
O regime político instituído sob a direcção de António de Oliveira Salazar, vigorou em Portugal, sem interrupção, embora com alterações de forma e conteúdo, desde 1933 até 1974, nalguns aspectos semelhante aos regimes instituídos por Benito Mussolini na Itália e por Adolf Hitler na Alemanha, mas também com significativas diferenças em relação aos mesmos. Podem inventariar-se, sem preocupação de se ser exaustivo, as seguintes características essenciais do Estado Novo português:
  • O culto do Chefe, Salazar (e depois, sem grande êxito, Marcello Caetano), um chefe paternal, de falas mansas mas austero, eremita "casado com a Nação", sem as poses bombásticas e militaristas dos seus congéneres Franco, Mussolini ou Hitler;
  • Uma ideologia com forte componente católica, associando-se o regime à Igreja Católica através de uma Concordata, que a esta concede vastos privilégios, bem diferente do paganismo hitleriano;
  • Uma aversão declarada ao liberalismo político, apesar da existência de uma Assembleia Nacional e de uma Câmara Corporativa com alguma liberdade de palavra, mas representando apenas os sectores apoiantes do regime, organizados numa União Nacional, que Marcello Caetano mudará para Acção Nacional Popular. Com excepção do curto período em que nela esteve integrada uma "ala liberal", numa fase crítica de fim de regime, a unanimidade será a tónica destes órgãos;
  • Um serviço de censura prévia às publicações periódicas, emissões de rádio e de televisão, e de fiscalização de publicações não periódicas nacionais e estrangeiras, velando permanentemente pela pureza doutrinária das ideias expostas e pela defesa da moral e dos bons costumes;
  • Uma polícia política (PVDE, mais tarde PIDE e no final do regime DGS), omnipresente e detentora de grande poder, que reprime de acordo com critérios de selectividade, nunca se responsabilizando por crimes de massas, ao contrário das suas congéneres italiana e especialmente alemã;
  • Um projecto nacionalista e colonial que pretende manter à sombra da bandeira portuguesa vastos territórios dispersos por vários continentes, "do Minho a Timor", mas rejeitando a ideia da conquista de novos territórios (ao contrário do expansionismo do Eixo) e que é mesmo vítima da política de conquista alheia (caso de Timor) e no qual radica a manutenção de uma longa guerra colonial;
  • Um discurso e uma prática anticomunistas, não apenas na ordem interna como na externa, que leva Salazar, por um lado, a assinar um pacto com a vizinha Espanha franquista e, por outro, a hesitar longamente entre o Eixo e as democracias durante a Segunda Guerra Mundial;
  • Uma economia tutelada por cartéis constituídos à sombra do Governo, detentores de grandes privilégios, fechada ao exterior, receosa da inovação e do desenvolvimento, que só admitirá a entrada de capitais estrangeiros numa fase tardia da história do regime;
  • Uma forte tutela sobre o movimento sindical, apertado nas malhas de um sistema corporativo que procura conciliar “harmoniosamente” os interesses do operariado e do patronato.

 
O Estado Novo sofrerá diversos abalos provocados quer pelas tentações golpistas de forças de carácter abertamente fascista, à sua direita, quer pelas conspirações republicanos, repetidamente frustradas, quer pela acção das forças políticas que periodicamente se candidatam a eleições (nomeadamente em 1958, com o General Humberto Delgado), mas acabará por cair, já em fase agonizante, por acção de uma conspiração militar dirigida pelo Movimento das Forças Armadas, em 25 de Abril de 1974.
 
 
António de Oliveira Salazar
 
Nasceu em 1889 em Santa Comba Dão, de família de pequenos proprietários agrícolas, e, como muitos jovens da sua idade e condição social, fez a sua formação académica em ambiente fortemente marcado pelo Catolicismo, tendo frequentado o seminário durante vários anos. A influência religiosa assim adquirida na juventude nunca mais o abandonaria.
Estudante e depois docente na Universidade de Coimbra, teve como colega e grande amigo um sacerdote que viria a ser Cardeal Patriarca de Lisboa, Manuel Gonçalves Cerejeira, ele próprio também docente universitário.

O seu ingresso na política faz-se através do Centro Académico da Democracia Cristã (CADC) de Coimbra, que constituiu um dos veículos de oposição católica à República liberal. O primeiro marco significativo da carreira política de Salazar -que viria a revelar-se excepcionalmente longa - é justamente a sua eleição como deputado católico para o Parlamento republicano, em 1921; compareceu apenas a uma sessão da Câmara dos Deputados, sem fazer qualquer intervenção, e afastou-se em definitivo da cena parlamentar.
Proclamada a Ditadura Militar, na sequência do golpe militar de 28 de Maio de 1926, Salazar exerce por poucos dias o cargo de ministro das Finanças, que prontamente abandona por divergências de fundo com os generais. Regressará em 1928, para as mesmas funções, mas nas suas próprias condições: é, na realidade, um superministro com poderes para desenvolver uma política rigorosa de controle da máquina do Estado, condição indispensável para o combate à crónica crise financeira nacional. O seu êxito neste campo solidifica a sua posição, de tal modo que ascende em 1932 à chefia do Governo, onde se manterá até 1968.
Em 1933, após fazer plebiscitar uma nova Constituição, enceta a construção de um Estado autoritário (o Estado Novo), com semelhanças nalguns pontos com a Itália de Mussolini. Salazar será durante décadas o denominador comum de todos os governos constituídos em Portugal, reservando para si a chefia do Executivo e, em momentos de crise, assegurando a pasta da Guerra, do Interior ou dos Negócios Estrangeiros.
Alimentando uma imagem paternal de dirigente dedicado exclusivamente à governação, "casado com a Nação" (e é indesmentível que a sua vida privada deixa de ter significado), acompanha todos os aspectos da vida nacional, dirige ou condiciona fortemente todas as áreas do governo, arbitra conflitos entre os seus próprios apoiantes ou colaboradores mais directos e acaba por deter um poder político efectivo muito mais vasto e indiscutível que os presidentes da República que se vão sucedendo em Belém.
Manterá até ao fim da sua vida política a hostilidade ao parlamentarismo, a confiança nas elites iluminadas, nunca alterando um discurso fortemente marcado pelo Catolicismo e pelo anticomunismo; simultaneamente, permanece arreigado a conceitos imperiais na defesa de um Portugal do Minho a Timor, mesmo quando o quadro político internacional sofre transformações radicais e o País se encontra envolvido numa guerra colonial em três frentes.
A sua figura simbolizará o regime por ele idealizado, criado e gerido durante décadas - será mesmo a sua figura tutelar, obsessivamente presente, um dos maiores obstáculos à consolidação do seu sucessor, Marcello Caetano.
O Estado Novo criado por Salazar iria sobreviver, com numerosos sobressaltos, à sua morte política (ocorrida num vulgar acidente doméstico que terá como consequência a incapacidade física para continuar no exercício de funções e a perda da noção das realidades) e à sua morte física que teve lugar em 1970.
 
 
Cardeal Cerejeira
 
Manuel Gonçalves Cerejeira (1888-1976), sacerdote e docente universitário, terminou a sua formação académica em Coimbra em plena República (1916), da qual era adversário implacável dado o peso que nela tinham, a seu ver, a Maçonaria e o anticlericalismo.
Enveredará, por esse motivo, pela acção política de contestação ao poder republicano, para o que reanima o Centro Académico de Democracia Cristã, onde encontra como colaborador Oliveira Salazar, ao mesmo tempo que, na imprensa católica, defende as suas opiniões anti-republicanas.

 Parte da sua obra historiográfica é igualmente imbuída de um espírito de cruzada ideológica: contrariando teses positivistas e racionalistas caras aos republicanos, defende (entre outras) a tese de que a civilização ocidental tudo deve ao Cristianismo e procura dissociar a Inquisição da histórica decadência nacional.
Instituído o Estado Novo sob a direcção do seu amigo, colega e correligionário António de Oliveira Salazar, o sacerdote, que entretanto ascende a Cardeal Patriarca de Lisboa (1929) é um dos artífices da longa aproximação e colaboração entre a Igreja e o Estado, lutando para recuperar o espaço de manobra perdido pela instituição religiosa durante o período republicano e para inverter a tendência para a fuga de devoção criada pelo anticlericalismo militante republicano.
Será também Cerejeira o interlocutor privilegiado entre o Governo de Portugal e a Santa Sé quando esta manifesta afastamento em relação a teses oficiais portuguesas em política colonial, particularmente quando o Papa recebe em audiência representantes de movimentos da guerrilha guineense, angolana e moçambicana.
 
 
publicado por Brito Ribeiro às 18:52
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18
Nov 07
Este texto chegou-me por e-mail e não podia passar sem o partilhar convosco, pois acho que vale a pena ser lido.
 
 
A Medicina é - diz quem a pratica - a mais bela das profissões. Quem a exerce sabe que cada vez mais deve estar atento à qualidade da comunicação que mantém com o paciente como parte primordial de todo o projecto terapêutico: saber escutar o doente, entender as suas formas de expressão e saber transmitir em termos simples e directos aquilo que pensa e aquilo que pretende que o doente assimile e ponha em prática, sem recorrer ao linguajar hermético e técnico que caracteriza alguns sectores da classe médica, é para o clínico muito mais de meio caminho andado para o sucesso...
 
"O doente que tem que contar em minutos os males de um "maldito corpo que não corresponde aos desejos da alma" está sujeito a lapsus linguae, frutos da atrapalhação, da timidez, do incómodo de ali estar perante o médico. Compreendamo-lo pois com bom humor!"
 
Carlos Barreira da Costa, médico Otorrinolaringologista da mui nobre e Invicta cidade do Porto, decidiu compilar no seu livro "A Medicina na Voz do Povo", com o inestimável contributo de muitos colegas de profissão, trinta anos de histórias, crenças e dizeres ouvidos durante o exercício desta peculiar forma de apostolado que é a prática da medicina. E dele não resisti a extrair verdadeiras jóias deste tão pouco conhecido léxico que decidi compartilhar convosco.
 
O diálogo com um paciente com patologia da boca, olhos, ouvidos, nariz e garganta é sempre um desafio para o clínico:
 
"A minha expectoração é limpa, assim branquinha, parece com sua licença espermatozóides".
 
"Quando me assoo dou um traque pelo ouvido, e enquanto não puxar pelo corpo, suar, ou o caralho, o nariz não se destapa".
 
"Não sei se isto que tenho no ouvido é cera ou caruncho".
 
"Isto deu-me de ter metido a cabeça no frigorífico. Um mês depois fui ao Hospital e disseram-me que tinha bolhas de ar no ouvido".
 
"Ouço mal, vejo mal, tenho a mente descaída".
 
"Fui ao Ftalmologista, meteu-me uns parafusinhos nos olhos a ver se as lágrimas saíam".
 
"Tenho a língua cheia de Áfricas".
 
"Gostava que as papilas gustativas se manifestassem a meu favor".
 
"O dente arrecolhia pus e na altura em que arrecolhia às imidulas infeccionava-as".
 
"A garganta traqueia-me, dá-me aqueles estalinhos e depois fica melhor".
 
 
 As perturbações da fala impacientam o doente:
 
"Na voz sinto aquilo tudo embuzinado".
 
"Não tenho dores, a voz é que está muito fosforenta".
 
"Tenho humidade gordurosa nas cordas vocais".
 
"O meu pai morreu de tísica na laringe".
 
 
 Os "problemas da cabeça" são muito frequentes:
 
"Há dias fiz um exame ao capacete no Hospital de S. João".
 
"Andei num Neurologista que disse que parti o penedo, o rochedo ou lá o que é...".
 
"Fui a um desses médicos que não consultam a gente, só falam pra nós".
 
"Vem-me muitos palpites ruins, assim de baixo para cima...".
 
"A minha cabecinha começa assim a ferver e fico com ela húmida, assim aos tombos, a trabalhar".
 
"Ou caiu da burra ou foi um ataque cardeal".
 
 
Os aparelhos genital e urinário são objecto de queixas sui generis:
 
"Venho aqui mostrar a parreca".
 
"A minha pardalona está a mudar de cor".
 
"Às vezes prega-se-me umas comichões nas barbatanas".
 
"Tenho esta comichão na perseguida porque o meu marido tem uma infecção na ponta da natureza".
 
"Fazem aqui o Papa Micau (Papanicolau)?"
 
"Quantos filhos teve?" - pergunta o médico. "Para a retrete foram quatro, senhor doutor, e à pia baptismal levei três".
 
"Apareceu-me uma ferida, não sei se de infecção se de uma foda mal dada".
 
"Tenho de ser operado ao stick. Já fui operado aos estículos".
 
"Quando estou de pau feito... a puta verga".
 
"O Médico mandou-me lavar a montadeira logo de manhã".
 
 
 As dores da coluna e do aparelho muscular e esquelético são difíceis de suportar:
 
"Metade das minhas doenças é desfalsificação dos ossos e intendência para a tensão alta".
 
"O pouco cálcio que tenho acumula-se na fractura".
 
"Já tenho os ossos desclassificados".
 
"Alem das itroses tenho classificação ossal".
 
"O meu reumatismo é climático".
 
"É uma dor insepulcrável".
 
"Tenho artroses remodeladas e de densidade forte".
 
"Estou desconfiado que tenho uma hérnia de escala".
 
 
 O português bebe e fuma muito e desculpa-se com frequência:
 
"Tomo um vinho que não me assobe à cabeça".
 
 "Eu abuso um pouco da água do Luso".
 
"Não era ébrio nato mas abusava um pouco do álcool"
 
"Fujo dos antibióticos por causa do estômago. Prefiro remédios caseiros, a aguardente queimada faz-me muito bem".
 
"Eu sou um fumador invertebrado".
 
 
 O aparelho digestivo origina sempre muitas queixas:
 
"Fui operado ao panquecas".
 
 "Tive três úlceras: uma macho, uma fêmea e uma de gastrina".
 
"Ando com o fígado elevado. Já o tive a 40, mas agora está mais baixo".
 
"Eu era muito encharcado a essa coisa da azia".
 
"Senhor Doutor a minha mulher tem umas almorródias que com a sua licença nem dá um peido".
 
"Tenho pedra na basílica".
 
"O meu marido está internado porque sangra pela via da frente e pinga pela via de trás".
 
"Fizeram-me um exame que era uma televisão a trabalhar e eu a comer papa".
 
"Fiz uma mamografia ao intestino".
 
"O meu filho foi operado ao pence (apêndice) mas não lhe puseram os trenos (drenos), encheu o pipo e teve que pôr o soma (sonda)".
 
 
Os medicamentos e os seus efeitos prestam-se às maiores confusões:
 
"Ando a tomar o Esperma Canulado"- Espasmo Canulase
 
"Tenho cataratas na vista e ando a tomar o Simião" - Sermion
 
"Andei a tomar umas injecções de Esferovite" - Parenterovit
 
"Era um antibiótico perlim pim pim mas não me fez nada" - Piprilim
 
"Agora estou melhor, tomo o Bate Certo" - Betaserc
 
"Tomo o Sigerom e o Chico Bem" - Stugeron e Gincoben
 
"Ando a tomar o Castro Leão" - Castilium
 
"Tomei Sexovir" - Isovir
 
"Tomo uma cábulas à noite".
 
"Tomei uns comprimidos "jaunes", assim amarelados".
 
"Tomo uns comprimidos a modos de umas aboborinhas".
 
"Receitou-me uns comprimidos que me põem um pouco tonha".
 
"Estava a ficar com os abéticos no sangue".
 
"Diz lá no papel que o medicamento podia dar muitas complicações e alienações".
 
"Quando acordo mais descaída tomo comprimidos de alta potência e fico logo melhor".
 
"Ó Sra. Enfermeira, ele tem o cu como um véu. O líquido entra e nem actua".
 
"Na minha opinião sinto-me com melhores sintomas".
 
 
 O que os doentes pensam do médico:
 
"Também desculpe, aquela médica não tinha modinhos nenhuns".
 
"Especialista, médico, mas entendido!".
 
"Não sou muito afluente de vir aos médicos".
 
"Quando eu estou mal, os senhores são Deus, mas se me vejo de saúde acho-vos uns estapores".
 
"Gosto do Senhor Doutor! Diz logo o que tem a dizer, não anda a engasular ninguém".
 
"Não há melhor doente que eu! Faço tudo o que me mandam, com aquela coisa de não morrer".
 
 
 Em relação ao doente, o humor deve sempre prevalecer sobre a sisudez e o distanciamento. Senão atentem neste "clássico":
 
"Ó Senhor Doutor, e eu posso tomar estes comprimidos com a menstruação?
Ao que o médico retorque: "Claro que pode. Mas se os tomar com água é capaz de não ser pior ideia. Pelo menos sabe melhor."
 
publicado por Brito Ribeiro às 15:08
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15
Nov 07
Enquanto a Júlia despachava ao balcão, o Bertinho dava treta às velhotas que estavam à volta da hortaliça.
- Oh tia Joaquina, olhe para estes repolhos, são um luxo, chegaram agora mesmo, acabadinhos de serem colhidos no campo. Sim D. Celeste, só um momento, que já peso a sua encomenda, deixe-me só pôr a etiqueta neste saco…
E por aí adiante, o Bertinho desdobrava-se em amabilidades e simpatia com as freguesas, que até nem ficavam muito admiradas pois já lhe conheciam a léria de ginjeira. A Júlia é que estava radiante pois o negócio corria bem e, combinada com a Suzete, começou mentalmente a fazer uma lista das pessoas que poderiam votar nela. Não havia duvida que o Bertinho seria uma ajuda preciosa, desde que não se metesse em complicações.
Tudo corria de feição, o caminho para a Igreja já estava em obras, embora ainda não houvesse dinheiro suficiente para tudo. O Bastos que aguentasse porque também ia ganhar, se as coisas corressem bem.
O presidente da Junta, o Domingos, é que ficou desconfiado com tanto voluntarismo do empreiteiro que até tinha fama de não dar ponto sem nó, mas não estava na mão dele recusar tal benesse. Se tivesse recusado a oferta do caminho, era mais que garantido que ia ter toda a freguesia contra ele.
 
O padre Esteves estava radiante e já fazia planos de inauguração com a presença do bispo da diocese. Uma tarde apanhou o Bastos a fiscalizar a obra e aproveitou para lhe perguntar:
- Quando é que podemos marcar a inauguração?
- Ainda é cedo, sr. Padre. Ainda a procissão vai no adro…
- No adro, quê? Você quer mexer no adro? Não está nada previsto.
- Eu não quero mexer no adro. Disse que ainda é cedo para prever o fim das obras.
- Já?... No fim do mês!!! Não é muito cedo?
- Pôrra… Ainda não sei quando acabam as oooobrasss. Ouviu?
- Agora ouvi bem, mas sabe, queria convidar o nosso bispo para a inauguração e é preciso dizer-lhe com tempo. Ele tem sempre tanto que fazer…
- Deve ter, deve… Se tiver que aturar muitos padres moucos, está tramado!
- Ah? Fala mais alto, senão não ouço.
- Estava a dizer que só daqui a dois ou três meses. E é preciso mais dinheiro.
- Boa ideia vender uns pinheiros para arranjar o dinheirinho que falta. E de quem são os pinheiros?
- Pinheiros, que pinheiros? Olhe, não sei, isso é com a Júlia, fale com ela – berrou o Bastos.
 
O Gonçalves na reunião semanal da jogatina, habito com mais de uma dúzia de anos, partilhado com meia dúzia de amigos que se reúnem para comer uns petiscos, jogar as cartas, falar de gajas e discutir política, tinha dito alto e bom som:
- Aquele estafermo da Júlia está para a pregar. Não sei o que lhe vai na cabeça, mas aquela amizade com a Suzete, trás água no bico.
- Oh homem, são coisas de mulheres, estão sempre na igreja. Olha, se o padre fosse novo até desconfiava, mas como é velho e surdo não sai coelho daquela toca.
- Se fosse só na igreja! Já vistes que andam a meter-se em tudo quanto é sítio, até nos bombeiros. O Zé Bastos agora é o comandante e já…
- Espera aí, isso é que eu não percebo. Então ele nunca foi bombeiro na vida e foi nomeado comandante. Então isso é assim?
- Claro, o gajo tem o curso. Tirou-o em Barcelos, lá na escola dos bombeiros.
- Mas então eu se fosse lá, entrava por ali dentro e dizia “quero ser comandante dos bombeiros da minha terra, preciso fazer o curso”. Achas que me deixavam fazer o tal curso com essa facilidade toda?
- O mais certo era levares um pontapé no cu, isso era. Segundo me disseram o Zé Bastos só fez esse curso porque alguém de lá mexeu os cordelinhos.
- E quem foi esse alguém?
- Isso não sei, mas foi alguém de peso e nem o Chico que é o presidente dos nossos bombeiros soube de nada.
- Esse também anda a dormir…
- Antigamente ainda se safava com umas comezainas, mas agora também anda lixado…
- Ides ver que ainda lhe vão fazer alguma e arredá-lo da direcção. O Zé Bastos a comandante, hum… não sei.
- Pois é meus amigos – diz o “Adesivo” – tenho-vos estado a ouvir e já vi que sabeis umas coisas, mas falta-vos o essencial, falta-vos o conhecimento do motivo. Como todos sabemos para cada comportamento tem de haver um motivo e por iss…
- Desculpa lá Gonçalves, mas não estás a pensar dar-nos uma seca com só tu sabes dar, pois não?
- Não, e se me deixasses falar já sabias um pouco mais do que o sabes agora. Dizia eu que a Júlia está metida em algo realmente grande e nós ainda não sabemos de todos os pormenores, mas estamos a tratar disso.
- Nós, quem?
- Eu e mais um ou dois elementos, sabes que isto tem contornos políticos e por isso temos de estar atentos.
- Oh pá, tu não bebes mais! Contornos políticos a Júlia e a Suzete? Nãaaao, não acredito.
- Daqui a algum tempo se verá. Quem é que quer jogar uma suecada? Eu e o Barros desafiamos dois, vamos lá, parecem um grupo de velhas à volta da lareira, pôrra!
 
- Bertinho, hoje tenho de sair de tarde, por isso vai ficar só mas espero ainda chegar antes da hora de fechar.
- Pode ir descansada, D. Júlia que eu trato de tudo.
- Vou com o Simplício ver uns carros para ele escolher um. Se o deixo ir sozinho ainda me aparece o primeiro calhambeque que lhe impingirem, como da outra vez.
- Realmente é melhor ir a senhora para o aconselhar, porque o sr. Simplício não tem muito jeito para isso.
- Pois é, tem em casa um carro tão bom, mas não se ajeita para estas voltas, quer um pequenino. A ver se tem mais sorte, de contrário não ganhamos para os carros nem para os sustos.
- Hum… hum… Pois, realmente foi muito azar – concede o Bertinho algo embatucado.
- E você quando recomeça a tirar a carta?
- Estou à espera.
- À espera de quê?
- Que a escola arranje um instrutor, porque os que lá trabalham recusam-se a dar-me aulas, não sei porquê. Nunca os tratei mal, pelo contrário, procurei ser sempre simpático.
- Mas o sr. Ferreira esteve mais de um mês de baixa e ainda hoje está muito abalado com o choque.
- Ele assustou-se foi com aquela polícia toda a apontar-nos as armas.
- E se você não tivesse entrado pelo Mercedes dentro a toda a pressa, a esta hora já tinha a carta, o sr. Ferreira anda todo contente e tinha poupado uma série de chatices.
- Mas eu tinha prioridade, D. Júlia. Eles é que tinham de parar.
- Então acha que um preso evadido, a fugir à polícia, vai respeitar as regras de transito?
- Acho que sim, regras são regras! Não cumpriu, lixou-se! Comigo é assim…
 
 
publicado por Brito Ribeiro às 17:26
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13
Nov 07
A guerra dentro do banco Millenium BCP tem prendido as atenções devido à singularidade da questão. É inédito em Portugal uma luta pelo poder dentro de uma instituição financeira ser do domínio publico, com abundância de pormenores que afinal nada esclarecem.
Como é que Paulo Teixeira Pinto se incompatibilizou com Jardim Gonçalves, sabendo-se que foi durante muito tempo o seu delfim? O que esteve por detrás desta zanga?
 
Importa então esclarecer que tanto Jardim Gonçalves, como Paulo Teixeira Pinto são, alegadamente, membros supra numerários da Opus Dei, uma instituição religiosa alojada na Igreja Católica e que durante este tempo todo foi o principal factor de coesão do banco. Embora pouco transpirasse para o exterior, a imagem que passava era a de uma instituição financeira conduzida por pessoas de intelecto superior à média, com um único objectivo: vencer. Tudo superiormente ajudado pela ligação à Opus Dei.
 
Com as primeiras divergências dentro da Opus Dei, surgiram as desavenças no Banco Popular em Espanha e no Millenium BCP em Portugal. Embora pouco se saiba, fica no ar a eminente cisão na Obra, nome pelo qual também é conhecida a Opus Dei.
Entretanto Paulo Teixeira Pinto é afastado e correm notícias (não desmentidas) que irá desligar-se formalmente da Opus Dei até ao final de 2007.
 
Mas a vingança serve-se fria e a vitória de Jardim Gonçalves começa a saber-lhe a amargo, porque recentemente foram descobertos uns perdões de dívidas (ao banco) mais que suspeitos, um deles ao filho mais novo de Jardim Gonçalves no valor de 12,5 milhões de euros.
O pai defendeu-se dizendo que não tinha conhecimento de nada, mas acabou por pagar a dívida perdoada, dando implicitamente razão aos que defendiam a ilicitude e o favorecimento do perdão.
 
O outro caso diz respeito ao perdão de uma dívida de 15 milhões de euros a um dos maiores accionistas individuais do banco, de nome Goês Ferreira e que detêm 1,52% do capital do Millenium BCP.
Alegadamente, este accionista terá contraído o empréstimo para comprar mais acções do banco, uma operação que se revelou ruinosa porque as acções desvalorizaram fortemente pouco depois de as ter adquirido.
Ambos os perdões de dívida aparecem visados por Filipe Pinhal, actual Presidente do Conselho de Administração do banco e sucessor de Paulo Teixeira Pinto.
 
Assim vai o nosso país, assim se comportam aqueles que deviam ser o exemplo, não fossem activistas de uma organização religiosa que prega a fraternidade, a caridade, o amor ao próximo e outras coisa do género.
publicado por Brito Ribeiro às 19:49
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09
Nov 07
A noite estava abafada e a lua já se tinha escondido há muito. No portinho as sombras moviam-se silenciosamente, aqui e ali a ponta vermelha de um cigarro brilhava no escuro.
Uma masseira deslizava pesadamente sobre os rolos, empurrada à força dos braços da companha em direcção à água. Os pescadores de calças arregaçadas chapinhavam à borda da água, quase sem ondulação. Estava uma calmaria podre que os ia impedir de navegar à vela.
Lentamente, como num ritual, as masseiras foram metidas à água e flutuavam agora na pequena enseada de abrigo. No pequeno mastro do “Senhor na Cruz” tremelicava a luz da candeia, que pouco ou nada alumiava.
- Então para onde vai hoje, tio Tone?
- Vou dar um lance a Afife, como ontem. Não me correu mal a vida, não senhor. E tu Manel, também vais para o sul?
- Não! Eu vou rumar a oeste, aqui em frente. Tenho cá uma fé… não sei explicar.
- Vai com Deus Manel, vai com Deus. Vamos lá armar os remos que se faz tarde e ainda temos muito que andar.
A masseira do tio Tone avançou com cautela por entre os outros barcos em direcção ao largo. Ao passar o Sabugo já o segundo par de remos golpeava a água em perfeita sincronia. Era admirável a forma como, em plena escuridão, os quatro remos se moviam em uníssono, fazendo deslizar a velha masseira, negra de alcatrão.
 
Sentado no banco da ré, uma mão sobre a cana do leme, outra apoiada sobre a borda, uma beata entre os dedos rudes, o Tone da Vista Alegre, patrão da embarcação sardinheira, mantinha-se atento a tudo o que o rodeava. Contrariamente ao que esperava, ao largo o calor não diminuira e o tempo continuava abafado.
- Vamos lá a ver se não cai uma trovoada – resmunga entre dentes, mas suficientemente alto para ser ouvido pelos seus homens.
- Deus nos livre – diz o seu irmão Rodrigo que remava no banco da proa, a bombordo.
- O céu continua limpo, pode ser que se aguente. Se ao menos corresse uma aragem para içar a vela…
Pelas bandas da Gelfa, puxou um pouco o leme e a agulha de marear, pousada ao seu lado sobre o banco, passou a apontar para sudoeste. Já não faltava muito e a espaços pressentiam-se pequenos cardumes de peixe, certamente sardinha, que rebolhavam à tona.
 
Cada vez se afastavam mais da costa e o Tone tinha-se levantado para tentar distinguir na penumbra da costa as marcas do pesqueiro. As luzes da ponte de Afife tinham de alinhar pela casa branca do padeiro, que se distinguia perfeitamente pelo fumo que saia toda a noite pela chaminé.
- Vamos lá rapaziada! Toca de preparar a rede para largar. Areosa, tu continua a remar. Rodrigo não largues já, só quando eu disser.
De súbito, uma aragem de vento quente acaricia-lhes o rosto, seguida de uma rajada forte e ainda mais quente.
- Mas que raio… Jesus, que é aquilo? Parece uma parede!
- Armai outra vez os remos e tapai-me essa rede – grita o tio Tone sobre o barulho do vento que soprava cada vez mais forte.
As rajadas já não eram tão quentes e encapelavam o mar que minutos antes estava manso e liso como a palma da mão. Cachões de espuma esvoaçavam e pequenas ondas embatiam com violência crescente na masseira.
- Aproai ao vento, aproai ao vento, depressa rapazes.
E uma vaga, felizmente pequena, entrou de través na masseira encharcando os dois homens da proa, o Rodrigo e o Daniel, o mais novo da companha, ainda um rapazinho, que a lide do mar fizera teso. Apesar dos seus dezasseis anos feitos pelo Natal, era o melhor remador daquela embarcação, o “Senhor na Cruz” e já tinha sido admitido para tripulante do salva vidas, por vontade do mestre Manuel Catalão, que via naquele rapaz calmo e pouco dado a folias, o filho que ele nunca tivera. Quis a sina que tivessem sido quatro raparigas que a Rosinda lhe dera, antes de ter apanhado aquela fraqueza nos pulmões à qual não tinha resistido.
 
O mar era cada vez mais, empurrado por rajadas de vento que pareciam chegar de várias direcções.
A velha candeia presa na ponta do mastro tinha-se partido quando uma vaga mais forte sacudiu a masseira, como de uma casca de noz se tratasse.
Apesar da madrugada ir alta e pouco faltar para nascer o dia, o céu estava agora ainda mais escuro e tapado de nuvens, que deixavam cair as primeiras pingas.
Em breve chovia a cântaros ofuscando a vista dos homens que não conseguiam distinguir nada à sua frente. Relâmpagos cruzavam o céu em todas as direcções e os trovões eram ensurdecedores.
- Daniel, pega na cunha e escoa-me essa água. Ó Senhora da Bonança, valei-nos nesta aflição. Ave-maria cheia de graça… – e continuou para si a oração com a devoção que só o perigo de vida dá significado.
Não conseguia distinguir as feições dos seus homens apesar de estarem a um ou dois metros dele, mas adivinhava-lhes o pânico e o desespero, face a um naufrágio mais que provável.
 
O dia amanheceu sem que a tempestade desse mostras de amainar. Talvez o vento não fosse tão forte, não era de certeza, mas o mar embalava em ondas que ora os engolia, ora os suspendia na sua crista. Viam-se os clarões difusos de relâmpagos mas nem se ouviam os trovões, sinal que a trovoada estava muito longe e que para já não oferecia perigo.
O vento de sudoeste obrigava-os a manter o barco com a proa para esse rumo e não mais conseguiram avistar terra, tal era a cortina que a chuva formava. O rapaz ainda não tinha parado de escoar água e o Gaspar tinha-se lhe juntado com outra cunha. Mesmo assim, no fundo do barco a água não baixava e teimava em manter uma mão-travessa onde os baús com o comer e outros pertences da companha flutuavam.
O mestre tinha levantado o leme e pegara num dos remos para que os outros folgassem um pouco.
A meio do dia apenas tinham conseguido roer uns bocados de broa encharcada e beber uns golos de vinho que cada um tinha trazido nos seus baús.
Molhados até aos ossos, apesar dos oleados que traziam vestidos, corpos doridos de mais de quinze horas sentados a remar e a lutar contra o mar, a chuva e o vento.
 
- Já nem sinto os braços – queixa-se o Rodrigo – só me apetecia fumar um cigarro.
- Eu pego no remo, Tio Rodrigo. – Responde prontamente o Daniel que, de cócoras continuava a trabalhar com a cunha – Posso ir para o remo, tio Tone?
- Vai lá, para o Rodrigo descansar um pouco. E tu Areosa?
- Vamos andando, vamos andando, mas um cigarrinho também me apetecia. Raio de tempo…
- A seguir descansas tu. Quem diria que vinha um andaço destes. Se soubesse, nem da cama tinha saído.
- O mar parece menos e o vento está a cair. Só a chuva é que não pára.
- Tende calma, o pior já passou e a Senhora da Bonança não nos abandonou. Ah, só queria saber onde estamos. Vamos esperar mais um bocado e se o mar acalmar aproveitamos para levantar a vela e navegar para leste até vermos terra. Se formos sempre para leste temos de encontrar terra!
Uma hora depois, desfraldaram a vela e o Tone retomou o seu lugar habitual à popa da masseira. Agora a agulha apontava para leste e todos se afadigavam a perscrutar o horizonte com ansiedade. Já a tarde ia passada quando o Areosa, de súbito, exclama:
- Cheira-me a terra. Já não estamos longe.
- Ó homem de Deus, como é que tu sentes o cheiro?
- Sinto, pronto, sinto…
Pouco depois vislumbraram ainda muito longe as cumeadas de vários montes, que procuravam identificar.
- Aquilo é Espanha e ali parece Santa Tecla.
- Tens razão, aquele é o monte de Santa Tecla, – confirma o tio Tone – Deus seja louvado, estamos perto de casa e havemos de lá chegar sãos e salvos.
- Que dirão de nós? Se calhar julgam-nos perdidos.
- Ai julgam, julgam! Deve haver já muito choro no portinho.
- E os outros barcos, tio Tone? Também passariam aflições? – pergunta o Daniel que continua à proa da masseira.
- Não sei meu rapaz. Oxalá não tenha havido nenhuma desgraça… Talvez tenham tido tempo de se recolher. Só nós é que estávamos tão a sul e a tempestade apanhou-nos de repente. Os outros estavam mais para oeste e muitos tinham vindo para o norte, mais ou menos onde nós estamos agora.
 
Em breve a escuridão voltou a rodeá-los. Com a noite, o vento amainou, a vela folgou e não houve outro remédio que colhê-la, dada a sua inutilidade.
Do fundo do baú do Gaspar saíram umas pataniscas e umas batatas cozidas que foram repartidas entre todos, pobre manjar que não aplacou a fome que agora sentiam, passada a angustia que a tempestade lhes causara. Dos restantes baús nada se aproveitava pois a água salgada tudo estragara.
Voltaram à faina dos remos, sempre para sudeste, cada vez mais perto de terra e mais perto do porto que os viu partir. Dois dias perdidos, um susto que nunca mais esqueceriam, a preocupação e a dor que certamente causaram às suas famílias, raio de vida.
Silenciosos, os homens remavam e matutavam nas agruras da vida do mar, a incerteza do ganho, o risco de vida.
À volta do “Senhor na Cruz” o mar já não era o do dia anterior. Apesar de ainda haver alguma ondulação, a ausência do vento tinha-lhe dado um tom de prata velha, reflectindo à parca luz do minguante. O silencio que só no mar é possível, apenas quebrado pelo chapinhar dos remos e o ranger de alguma tábua.
 
- Parem de remar – ordena o mestre, levantando-se para melhor observar as águas à volta do barco.
- Que se passa tio Tone?
- Temos sardinha à nossa volta. Rápido, preparem a rede, vamos dar um lance. Areosa, já sabes, tu continuas aos remos. Rodrigo, podes largar!
A rede castanha de fio de algodão, encascada há meia dúzia de dias, começou a sair borda fora, arrastando a cortiçada que havia de a manter à superfície. Com o leme virado a estibordo, a masseira ia largado lentamente a rede sardinheira em arco ligeiro. Agora distinguia-se perfeitamente o cardume perto da superfície, que fazia agitar as águas, como se fervessem. Mal tinham acabado de largar toda a rede, logo o mestre ordenou que a recolhessem sem demora.
- Já? Ainda agora largamos, tio Tone.
- Vamos alar que a rede já está pesada. Força aí na polé, Rodrigo.
Lentamente o pescador retira da água, braça a braça, unindo a cortiçada aos pandulhos, deixando cair a rede serpenteante no fundo da masseira. Não tardou a brilhar no escuro o dorso prateado das sardinhas emalhadas.
- Gaspar, ajuda-o que a rede está carregada. Com jeito para não melar a sardinha. Temos de ir desmalhar a terra…
Cada vez mais sardinha subia a bordo presa àquela armadilha, agonizando em estertores inúteis, logo coberta por outras braçadas de rede e mais sardinha agonizante.
Quando acabaram, o barco tinha apenas um palmo de borda fora de água, tal a carga que recolhera e a aurora já se anunciava.
- Vamos rapazes, hoje a Senhora da Bonança está connosco e também tem direito a quinhão, não seja eu homem de palavra. Já vejo a luz da Ínsua, daqui a nada estamos no portinho.
 
As noites eram curtas, faltavam duas semanas para o S. João, já era dia alto quando a masseira carregada passou ao largo da Ponta das Medas e entrou no portinho, esgotando as poucas forças que restavam àqueles esforçados remadores.
Um silencio respeitoso fez-se em terra e foram muitos os que se benzeram ao verem aquela embarcação e a companha que já tinham dado como perdida.
Quando o fundo tocou suavemente na areia, foram muitas as mãos que os ajudaram a saltar em terra. O silêncio quebrou-se com o choro da mulher do Gaspar que se lhe pendurou ao pescoço. Aquele pobre ainda tentou resistir, mas a comoção foi mais forte e duas grossas lágrimas rolaram preguiçosamente pela cara abaixo, marcando um trilho pela barba de três ou quatro dias.
- Ah Tone, que te julgamos perdido. Por onde andaste? Onde te abrigaste? – Pergunta o Manuel Catalão, dando uma forte palmada de amizade nas costas do Tone da Vista Alegre.
- Não me abriguei tio Manel. Mantivemo-nos ao largo e fomos arribados para Espanha, lá para o norte de La Guardia.
- Pois olha que aqui já ninguém dava nada por vós, as vossas mulheres puseram luto e até mandaram rezar missa.
- Ainda não foi desta e com a graça da Senhora da Bonança regressamos vivos e com a rede cheia de sardinha. Vamos começar a desmalhar que já se faz tarde e é preciso levá-la para a venda. Vamos a isso rapazes!
publicado por Brito Ribeiro às 23:22
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04
Nov 07
 
Localização
Viana do Castelo, Caminha, Vila Praia de Âncora
 
Acesso
Avª Dr. Ramos Pereira
 
Protecção
IIP, Dec. nº 47 508, DG 20 de 24 Janeiro 1967 e Dec. nº 47 508, DG 59 de 10 Março 1967
 
Enquadramento
Borda d'água. Ergue-se na margem direita do rio Âncora sobre maciço rochoso, junto ao porto, e no lugar designado de Lagarteira.
 
 

 
Descrição
Planta estrelada formada por 4 baluartes laterais e bateria ressaltada, de 3 faces encimadas por eirado, na fachada posterior, voltado ao rio.
Muros em talude, corridos em toda a sua extensão por moldura curva encimada por parapeito, interrompido nos cunhais por guaritas, facetadas e coroadas por bola sobre plinto, e por canhoeiras na bateria.
No baluarte virado a N. sobressai da muralha balcão fechado sobre 3 modilhões e com bueiros. Ao centro da face recta do frontespício, portal de arco pleno, de aduelas marcadas e sobre pés direitos, encimada pelas armas de Portugal, coroadas e com volutões laterais.
No interior, pequena praça de armas enquadrada por 3 construções com cobertura a 1 água e 2 rampas de acesso ao adarve e eirado. Quartéis abobadados e com lareira.
 
 

 
Utilização Inicial
Militar: Fortaleza para defesa da costa
 
Utilização Actual
Não tem. Até há três anos funcionou no Forte a delegação marítima da Capitania do Porto de Caminha
 
Propriedade
Pública: Estatal
 
Época Construção
Séc. 17 (conjectural)
 
Arquitecto | Construtor | Autor
Não definido
 
Cronologia
1640 / 1668 - Época provável da sua construção, durante a Guerra da Restauração; 1690 - data apontada pelo Engº Bastos Moreira para a sua edificação, sob ordem de D. Pedro II.
 
Tipologia
Arquitectura militar, seiscentista. Dada a sua planimetria, integra-se no grupo de fortalezas seiscentistas de planta estrelada, de pequenas dimensões e alçado simples.
 
 

 
Características Particulares
Persistência de formas de carácter medieval, observável no balcão fechado, e sua conciliação com 1 concepção planimétrica e militar completamente distinta e de cariz seiscentista.
 
Dados Técnicos
Estrutura mista em cantaria com aparelho "mixtum vittatum" e "vittatum".
 
Materiais
Granito. Cobertura de telha.
 
Intervenção Realizada
DGEMN: 1955-Execução de obras de conservação pela Direcção dos Serviços de Construção e Conservação; 1980 / 1981 - obras de consolidação; 1982 / 1983 - beneficiação do muro interior; 1984 - trabalhos de beneficiação; 1997 - conservação dos paramentos exteriores, caminho e ronda e beneficiação do adarve; revisão da instalação eléctrica; iluminação do caminho de ronda.
 
 

 
Observações
Este imóvel foi classificado como Forte da Lagarteira pelo Despacho de Maio de 1973. Foi uma das fortalezas construídas no séc. 17, durante o reinado de D. Pedro II, para o reforço da costa portuguesa perante a ameaça espanhola, integrando-se na linha defensiva estrategicamente colocada nas margens do rio Minho e ao longo da Costa atlântica.
A sua planta estrelada com baluartes faz deste imóvel uma verdadeira fortaleza, tornando-se, portanto, incorrecta a designação de forte.
Segundo Nuñez (1987), este imóvel, bem como outras fortificações levantadas no século 17 na costa portuguesa entre Vila Praia de Âncora e Esposende, reúnem as mesmas características constituindo na prática um modelo, representam um avanço no sistema de defesa e vigia e possivelmente resultam da elaboração do mesmo arquitecto ou projectista.
O autor não exclui a hipótese deste sistema se estender até ao Guadiana, como plano integrado de uma política de defesa da costa definida a partir da capital do reino.
 
publicado por Brito Ribeiro às 15:38

02
Nov 07
 
A Ditadura Militar
 
Inicia-se com o golpe militar de 28 de Maio de 1926, que põe termo ao regime democrático parlamentarista (por ordem dos militares chegados ao poder, o Parlamento é encerrado a 31 de Maio). Trata-se de um período conturbado, onde continua a instabilidade política, típica dos últimos anos da I República (1910-1926).
Podemos considerar a existência de três fases distintas nestes sete anos de vida política nacional:
 
1ª Fase - O biénio 1926-1928, em que os militares ocupam as posições-chave nos órgãos de governação, envolvendo-se por vezes em conflitos de maior ou menor gravidade (a destituição do general Gomes da Costa é seguramente o sinal mais gritante de desinteligência internas entre os militares), surgindo o discreto general Óscar Carmona como factor de equilíbrio, enquanto árbitro entre facções e interesses e elemento unificador do Exército. 
Às dificuldades económicas herdadas da República somam-se as que uma administração incompetente vai produzindo, o que leva o Governo a encarar a necessidade de obter um vultoso empréstimo externo, que vem a ser rejeitado por duas ordens de razões: por um lado, porque as condições impostas para a sua concretização foram tidas por vexatórias; por outro, porque se avolumou o receio de perda das colónias para satisfação das dívidas acumuladas.
Este problema financeiro virá a tomar grande importância política, obrigando a substituir a gestão financeira de militares incompetentes por uma figura de técnico competente e dotado de autoridade: será António de Oliveira Salazar a preencher essas condições.
Mas não só no seio dos militares no poder surgiam dificuldades e crises. A Oposição, alguma da qual continuava a mover-se na legalidade, movimentou-se tanto no exterior (movendo as suas influências políticas para obstar ao empréstimo, desde logo) como no interior (desencadeando a revolta de Fevereiro de 1927, que redundou numa curta mas mortífera guerra civil, tendo falhado pela acção conjugada da iniciativa do ministro da Guerra e da deficiente organização da revolta, mal liderada e descoordenada).
 
2 º Fase - Um novo biénio (1928-1930), quase exclusivamente marcado pela actuação de Salazar ao leme do poderoso Ministério das Finanças, através do qual exerce um severo controle sobre todo o aparelho de Estado.

No fim deste biénio, é-lhe creditado o saneamento das finanças públicas; efectivamente, consegue estabilizar a moeda e os preços, equilibrar o orçamento do Estado e reduzir a dramática dívida externa (antes dele, na República, apenas Afonso Costa conseguira semelhantes resultados). Este sucesso, apesar da controvérsia que suscitou, colocou Salazar na posição de líder indiscutível do regime.
 
3 º Fase - Segue-se mais um período conturbado, em que o regime tem de enfrentar um recrudescimento das conspirações e revoltas dos oposicionistas (na Madeira, em 1931, por exemplo), com um pesado saldo de mortos e feridos, seguidos de deportações e prisões, a que se juntam manifestações de tendências autonomistas nas colónias (Angola, 1930) e o receio de que a proclamação da República na vizinha Espanha (1931) venha dar novo ânimo aos oposicionistas ou conduza mesmo à perda da independência.
Dentro do Governo, o poder de Salazar vai crescendo (junta o Ministério das Colónias ao das Finanças). Para consolidar os apoios ao Governo e ao regime e evitar um recrudescimento das tentativas de restauracionismo monárquico, é criada em 1931 a União Nacional.
Sob a direcção cada vez mais forte de Salazar, que ascende à cadeira de primeiro-ministro (mas não sem oposição interna e externa), o regime desmilitariza-se progressivamente e vai sendo criado um regime centralizado, nacionalista e colonialista. O coroamento desta configuração política é a aprovação por plebiscito da Constituição de 1933, que institucionaliza o Estado Novo, e a aprovação do Estatuto do Trabalho Nacional, que corporativiza os sindicatos.
 
 
Manuel Gomes da Costa
 
Manuel de Oliveira Gomes da Costa nasce em 1863. Oficial do Exército, é nas colónias que decorre parte significativa da sua carreira militar, vindo mais tarde a publicar obras de História militar fundamentadas quer no estudo do passado quer na sua experiência pessoal.

Participou em operações militares primeiro na Índia, depois em Moçambique, neste último caso sob as ordens de Mouzinho de Albuquerque, de quem se afirmará discípulo e admirador. É ainda naquela colónia que assume funções de carácter político-administrativo, durante o período de governo de Freire de Andrade.
Implantada a República, continua a sua carreira de militar colonial em postos de chefia em Angola e São Tomé e Príncipe. Após o desencadear do conflito mundial, em que Portugal se verá envolvido, regressa à metrópole e incorpora-se, como voluntário, no Corpo Expedicionário que irá combater na frente europeia, sendo-lhe atribuído o comando da 1.a Divisão daquele Corpo.
Nesta sua decisão de avançar para a frente de combate será motivado por uma razão em que comungam os republicanos e os seus adversários: a intenção de preservar a integridade do Império.
Terminada a guerra, já com a patente de general a que fora promovido pelo seu comportamento exemplar na Flandres, envolve-se em actividades políticas conspirativas contra a República, a que na realidade nunca aderira, dadas as suas convicções monárquicas.
Associa-se a políticos de tendências diversas, contando-se entre eles desde adversários declarados do regime, como os Integralistas Lusitanos, a republicanos desiludidos, como Machado Santos, o herói da Rotunda, um dos símbolos da revolta vitoriosa do 5 de Outubro de 1910.
Militar prestigiado e condecorado ao mais alto nível, a sua irrequietude política fá-lo entrar em choque com as autoridades, o que lhe vale a prisão por mais de uma vez e uma espécie de exílio disfarçado (missão de inspecção às forças militares no Oriente, o que se traduz no seu afastamento dos centros de decisão e dos ambientes conspirativos).
Depois do seu regresso, a ligação a movimentos conspirativos não esmorece, envolvendo-se na preparação do movimento político e militar que iria traduzir-se no golpe de 28 de Maio de 1926 e na consequente instauração da Ditadura Militar.
Vitorioso o golpe, os vencedores envolvem-se em disputas internas: Gomes da Costa dirige um golpe que derruba Mendes Cabeçadas e é por sua vez deposto num novo golpe encabeçado pelo General Sinel de Cordes, numa vertiginosa sucessão de conflitos.
A 9 de Julho triunfa o golpe de Sinel de Cordes, e apenas dois dias depois, a 11, Gomes da Costa, que recusara a opção de permanecer como Presidente da República e renunciar ao poder executivo, parte para o exílio nos Açores, onde receberá a promoção a marechal (o governo restabelece aquele grau honorífico expressamente para o homenagear) ainda no mesmo ano.
Ainda exercerá algumas funções de natureza política, mas com valor protocolar apenas. Morrerá em grande pobreza, totalmente desligado do poder.
 
 
 
publicado por Brito Ribeiro às 11:01
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