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31
Jul 07
Continuamos com o relato do Capitão Mário C. Fernandes Esteves que, relembramos, foi Comandante do “Gil Eannes” durante doze anos.
 
 
Para que seja possível fazer-se uma ideia do que significava e dos números envolvidos em cada uma das múltiplas actividades que o “Gil Eannes” desenvolvia, permitam-me muito sucintamente que diga o seguinte:
 
Como Navio Hospital
Sendo efectuadas, por época de pesca, cerca de 4000 a 4500 consultas, ficavam internados a bordo, aproximadamente e por campanha, 400 doentes acidentados ou com doenças de menos gravidade.
Executavam-se por época cerca de seis a sete dezenas de intervenções de grande cirurgia, cerca de duas centenas de extracções dentárias, inúmeros exames radioscópicos, um sem número de análises e, variadíssimas intervenções diárias de pequena cirurgia.
Nesta faceta de Navio Hospital, talvez a mais importante de todas as desempenhadas ao longo de uma época de pesca, permitam-me que destaque duas acções que servirão para ilustrar a que extremos se chegava na ânsia de salvar vidas ...
Decorria um dia normal de assistência nos bancos da Groenlândia e, quando estávamos a entregar isco a um dos navios, fomos subitamente alertados pelo “Sernache” que necessitava urgente assistência para um pescador que tinha sofrido um acidente e estava em muito más condições. O “Sernache” não se poderia deslocar ao nosso encontro por ter todos os botes na água. Imediatamente paramos a assistência que estávamos a prestar e rumámos para a posição do “Sernache”.
Resumindo, o acidente poderá descrever-se assim: o N/m “Sernache” estava a fundear em águas muito profundas com um ferro mais leve, suspenso de um cabo de arame que, por sua vez, estava enrolado num sarilho de ferro.
Ao cair em queda livre, a âncora esticou subitamente o arame o qual movimentou com muita rapidez o sarilho, fazendo saltar um braço deste que, por infelicidade, acertara com violência no temporal direito de um pescador. Fractura de crânio evidente, com derrame de massa encefálica, que vinha agarrada à sonda quando se pesquisava o ferimento.
A operação era muito melindrosa dada a proximidade do local atingido dos nervos óptico e auditivo. O Navio teria de estar o mais estável possível e isso era impossível de conseguir no mar aberto do estreito de Davies.
Para auxiliar os médicos o mais possível, dentro do meu campo de actuação e responsabilidade, conduzi o navio para largas milhas no interior do fjord de Amerdlock onde o mar estava calmo como um espelho e onde, também mandei parar todos os motores de bordo para acabar com todas as trepidações. A operação decorreu à luz de baterias durante cerca de seis horas.
O objectivo foi totalmente atingido e o Homem foi salvo graças à competência dos Drs. Boffa Molinar e Abílio B. Canhão e, também, ao espírito de missão que nos acompanhava a todos e que, sem esforço aparente, nos levava aos maiores esforços e sacrifícios.

 
Permitam-me apenas um outro apontamento de um enorme leque que guardo para sempre. Trata-se do Junipero, um pescador da Nazaré que apareceu a bordo do “Gil Eannes” aparentando um adiantado estado de Tp. Penso que é correcto que se diga nesta altura que eu sou apenas um Comandante da Marinha Mercante e não um médico.
Peço pois a todos os médicos que lerem este apontamento a máxima benevolência para qualquer imprecisão. O Navio estava também na Groenlândia em plena faina de distribuir isco para a pesca.
Os hospitais de terra não aceitavam doentes com aquela sintomatologia por medo de contágio e, por consequência, tínhamos de manter vivo o doente a bordo até à nossa chegada um porto da Terra Nova que distava cerca de dois mil quilómetros (mil e trezentas milhas marítimas para quem sabe de coisas naúticas).
Para mantermos o Junipero vivo foi necessário consumirmos todo o oxigénio medicinal que havia a bordo, os hospitais de terra não nos valeram porque tinham as suas reservas muito baixas, e, a única solução de que pudemos dispôr para manter aquela vida, foi utilizar o oxigénio da casa da máquina ou seja o oxigénio impuro que, normalmente é usado nas soldaduras.
E com ele vivo (depois de várias extremas unções que o Padre lhe deu) chegamos a St. John’s da Terra Nova onde foi internado num hospital especial para doenças contagiosas e onde recuperou o suficiente para mais tarde ser repatriado para Portugal. Não há muitos anos ainda o soube fazendo a sua vida normal lá para os lados da Nazaré.
Neste caso, o mérito não pode ser dado na totalidade aos médicos ou a quem com eles colaborou pois, muito sinceramente, creio que Deus também foi um óptimo colaborador.
Nesses tempos, até Deus fazia parte da nossa Equipa, e a prova disso, apesar de todas as competências é que, durante doze anos, nunca nenhum doente faleceu a bordo do Navio. Aliás, no caso de falecimento de alguém, num qualquer navio, era também o N/m “Gil Eannes” que ia ao encontro desse navio, recolhia o corpo do defunto, fazia a bordo o seu caixão, eram-lhe prestadas cerimónias a bordo, e depois a urna era depositada no talhão dos portugueses nos cemitérios de St. John’s, na Terra Nova, ou Hollsteinborg (porto da costa Oeste da Groenlândia), onde ainda hoje estão aqueles que pereceram e a quem a tripulação do “Gil Eannes” cuidava das suas sepulturas, sempre que aportávamos a tais locais.
Também na morte, a acção humanitária do “Gil Eannes” não foi nunca desprezada.
Quantos familiares das comunidades de Homens do Mar de Ílhavo, Aveiro, Lisboa, Porto, Setúbal, Nazaré, Peniche, Ericeira, Matosinhos, Âncora, Portimão, São Miguel (Açores) e outras localidades, por não terem junto a si os seus mortos, os não choram, ainda, sabendo-os longe?

 
Como Navio Capitania
Na pesca do bacalhau de então, espalhados por cerca de setenta navios, encontravam-se convivendo e trabalhando durante aproximadamente meio ano cerca de 6500 a 7000 indivíduos.
Era absolutamente natural, como não deixarão de pensar, que alguns casos de disciplina ou outros pudessem ocorrer durante esse longo período. Para que todos os casos de ordem disciplinar ou outros pudessem ser rapidamente atendidos minimizando os seus efeitos, quer de ordem humana, quer de ordem económica, havia a bordo do “Gil Eannes”, um oficial da Marinha de Guerra que desempenhava funções de Capitão do Porto, nos Mares da Terra Nova e Groenlândia.
Desempenharam as funções de Capitães do Porto a bordo do “Gil Eannes”, durante a vigência do meu Comando, os Senhores Capitão Mar e Guerra, Tavares de Almeida, infelizmente já falecido, Capitão Tenente Limpo Toscano, Capitão de Fragata, hoje um distinto Almirante, Mário Simões Teles, e, por último o Capitão Tenente António dos Santos Gaspar. Qualquer um destes distintos Oficiais da nossa Armada, excepto o saudoso Comandante Tavares de Almeida, poderá testemunhar o que de magnífico se teria passado durante o exercício da sua Capitania.
 
Como Navio Correio
No Mar Alto, as funções de recepção e distribuição de encomendas e correio, eram totalmente desempenhadas pelo “Gil Eannes”.
Assim, eram manuseadas a bordo cerca de um milhar de encomendas recebidas em Lisboa para os navios e suas tripulações e recebidas e/ou distribuídas cerca de setenta a oitenta mil cartas trocadas entre os pescadores e os seus familiares.
Por vezes juntavam-se a bordo, para selar, cerca de três a quatro mil cartas e, não é fácil imaginar quantos voluntários eram necessários para ajudar o tripulante encarregado desse serviço.
Ainda que possa haver quem pense que este serviço de correio não teria grandes dificuldades, independentemente dos pescadores com o mesmo nome e em navios diferentes, reparem neste envelope recebido no “Gil Eannes” em plenos bancos da Groenlândia:
 
Ex.mo Senhor
 
Navio Bilas
Ferreira Grave
Terra dos Cronos - Onde se vai meter o isco
 
Isto “traduzido” significava:
Ex.mo Senhor
 
N/m Allan Villiers
Faeringhehavn
A terra dos cronos era a terra onde a moeda era o “crown” dinamarquês e, Faeringherhavn era, de facto, a terra onde alguns veleiros se abasteciam de isco.

 
Como Navio Abastecedor
Todos os serviços de abastecimento aos navios da frota eram efectuados no Mar sob as mais variadas condições de tempo e mar e, também, de temperatura ambiente.
Este último factor, aparentemente de pouca importância, assume uma outra dimensão quando sabemos que a meio do Verão e, num dia sem nuvens e com um bonito Sol, a temperatura do ar poucas vezes atinge os seis graus positivos. Além de que a temperatura no interior dos porões frigoríficos onde se armazenava o isco para distribuir pelos navios de pesca era normalmente de vinte graus negativos.
Durante a campanha, distribuiam-se pelos navios da frota, cerca de 1800 a 2200 toneladas de isco congelado recebidas pelo N/m “Gil Eannes”, para que os navios de pesca não perdessem tempo, nos portos de North Sydney na Nova Scotia e Faeringherhavn, na Groenlândia.
Também se forneciam à frota, por campanha, cerca de 400 toneladas de água potável e aproximadamente 250 toneladas de combustível. Recebiam-se em terra e entregavam-se aos navios nos seus locais de pesca cerca de noventa toneladas de mantimentos de toda a espécie e largas centenas de redes de e malhas recebidas na Terra Nova.
Aos arrastões, que também eram assistidos diversas vezes por época, era distribuído todo o material de pesca recebido em Lisboa desde portas de arrasto de cerca de mil quilos cada, até redes e esferas de arraçal recebidas quer em Lisboa quer na Terra Nova. Desde equipamentos a farmácias, desde reparações eléctricas até reparações electrónicas de tudo se fazia para facilitar a vida aos nossos pescadores.

 
Como Navio Rebocador
Tanto alguns navios de frota à linha, como alguns arrastões beneficiaram do facto do “Gil Eannes” estar preparado para ser utilizado como navio rebocador, para resolução de alguns dos seus mais graves problemas. As mais de três mil milhas com navios a reboque, representaram, sem dúvida, um grande contributo a favor da economia, não só dos Armadores, mas também Nacional.
A título de exemplo, e sem de forma alguma esgotar o assunto, posso mencionar que, gozaram deste tipo de assistência - reboque - os seguintes navios:
Lugre Coimbra - dos bancos da Terra Nova para St. John's com avaria no motor principal.
Arrastão Invicta - dos bancos da costa do Labrador para St. John's com avaria numa pá do hélice reversível.
Arrastão Lutador - dos bancos do Sul da Groenlândia para o porto de Hollsteinborg, no Norte, com uma rede de pesca a imobilizar o motor e o leme.
Lugre Gazela I - de Noroeste dos Açores para o porto de St. John's, no início da sua campanha de pesca, com avaria no motor propulsor;
N/m Celeste Maria - do Norte dos Açores para o porto de St. John's no fim da sua campanha de pesca, com avaria irreparável no mar no motor propulsor;
Outras assistências do mesmo tipo de reboque se cumpriram, como por exemplo ao arrastão Álvaro Martins Homem, ao “Inácio Cunha” por exemplo mas, para não tornar demasiadamente extenso este apontamento escuso-me de as enumerar. Além de que, a precisa memória dos factos também já vai falhando.
 
Como Navio Quebra Gelos
Neste campo além da assistência prestada a arrastões dentro de campos de gelo há a destacar principalmente a assistência prestada ao “Rio Antuã” que lhe permitiu, com água aberta na proa, demandar o porto de St. John's, navegando durante catorze horas, através de um compacto campo de gelo, aproveitando a esteira aberta pelo N/m “Gil Eannes”, que navegava cerca de umas poucas centenas de metros na sua proa.
Esta navegação praticamente livre de obstáculos para o Rio Antuã, foi extraordinariamente difícil e penosa para o “Gil Eannes” que, muitas vezes, apenas com as suas duas máquinas a toda a força a vante conseguia romper a muralha de gelo à sua frente.
O exemplo anterior creio ser bastante elucidativo do que o “Gil Eannes” estava pronto a fazer, em socorro e para salvação de, todos aqueles que, de uma forma ou de outra, sentiam em perigo as suas vidas.
 
 
 
Mário C. Fernandes Esteves
(Comandante)
publicado por Brito Ribeiro às 10:16
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29
Jul 07
 
O navio hospital “Gil Eannes” foi uma bandeira de Portugal nos mares do norte. Não havia pescador português ou de qualquer outra nacionalidade que não o conhecesse, que não o citasse com profundo respeito e reconhecimento.
No fim de vida, este navio salvou-se, por pouco, de ser desmantelado para sucata, graças ao empenho de alguns vianenses que nunca o esqueceram.
Agora flutua no antigo cais comercial de Viana do Castelo, transformado numa pousada da juventude e aberto a quem o quiser visitar, depois de obras de recuperação levada a cabo nos Estaleiro Navais de Viana do Castelo, os mesmos que o construíram há mais de cinquenta anos.
Por haver muitos pescadores ancorenses que conheceram de perto o “Gil Eannes”, alguns foram assistidos dos seus achaques, outros lá trabalharam, que decidi reunir alguns textos que nos ajudam a conhecer melhor este ícone dos mares.
 
 
Texto conforme o original do Capitão Mário C. Fernandes Esteves, comandante do “Gil Eannes” durante doze anos (1959-1971).
 
Ao ser-me solicitado, inesperadamente, que fizesse uma pequena resenha histórica do “Gil Eannes” e explicasse sem grandes pormenores o que foi a actividade deste navio no período compreendido entre os anos de 1955 e 1971 durante o qual fui seu Comandante em doze anos consecutivos, confesso que fiquei perplexo pensando qual o facto, ou factos, que estivessem mais especialmente gravados na minha memória.
A escolha não foi fácil mas, entre outros, há dois aspectos que me parecem dignos de uma primeiríssima abordagem.
O primeiro é, sem dúvida, a magnífica assistência, multifacetada, que se exercia a favor de todos aqueles que tinham necessidade de recorrer aos serviços do navio apoio; o segundo, o carácter internacional e totalmente gratuito da assistência prestada a navios e tripulações de navios estrangeiros.
Efectivamente será muito difícil encontrarmos uma assistência onde o doente goze de uma situação tão vantajosa pois, além de receber os cuidados permanentes que a sua saúde necessitava, se se tratasse de um pescador de um navio de pesca à linha, ainda recebia como pagamento, durante todo o período da sua doença, a média da totalidade do bacalhau pescado pelos restantes pescadores do navio a que pertencia.
Para os menos conhecedores do assunto esclareço que num navio de pesca à linha, contrariamente ao que se verificava nos navios de arrasto, todos os pescadores recebiam de acordo com as capturas que fizessem durante o período da pesca o que, consequentemente, se o problema não estivesse cuidado e humanamente tratado, significava que um pescador que tivesse a infelicidade de passar a maior parte do seu tempo internado no “Gil Eannes”, chegaria a Portugal mais pobre do que quando tinha partido para a campanha e, nesse caso, com que proventos é que ele faria face às necessidades económicas da sua Família durante o Inverno?
O segundo destaque, que me parece justo realçar, é o facto de exactamente os mesmos cuidados humanitários, serem gratuitamente dispensados aos pescadores e demais tripulantes de qualquer navio, de qualquer das nacionalidades que pescavam nos mares da Terra Nova e Groenlândia fossem eles, espanhóis, franceses, italianos, alemães, russos, ingleses ou das Ilhas Faroé! É evidente, que a estes não era paga qualquer indemnização por pesca perdida.
Creio que, os dois destaques apontados foram, sem dúvida, os mais marcantes da história das actividades do “Gil Eannes” não só no período sobre o qual me foi pedido este apontamento mas, durante toda a sua existência.

 
Com efeito, o “Gil Eannes” que fora criado predominantemente como o navio apoio da frota bacalhoeira, com uma vertente muito forte virada para o campo da saúde, durante o período de defeso também foi muitas vezes utilizado na salvaguarda dos sagrados interesses da Nação, e não só, quer como transportador de bananas ajudando muito eficazmente a resolver os graves problemas dos bananeiros de Angola quer como navio transporte de peixe congelado capturado por pescadores portugueses nos mares da África do Sul. Nesta região também o “Gil Eannes” desempenhou um magnífico papel de embaixador e representante da Nação Lusíada.
Após os apontamentos anteriores, façamos então uma breve introdução histórica do “Gil Eannes” desde o seu aparecimento na Marinha Portuguesa.
Este “Gil Eannes” dos nossos dias, é o segundo da sua geração. Foi lançado ao mar, ou melhor, foi posto a flutuar no dia 19 de Março de 1955 nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo tendo sido ordenada a sua construção, pelo Grémio de Armadores de Navios da Pesca do Bacalhau.
Esta unidade veio substituir um antigo cargueiro a vapor, alemão, construído em 1914, que ficara retido num porto nacional logo no princípio da sua existência devido ao conflito mundial e que, dois anos mais tarde, devido à declaração de guerra da Alemanha a Portugal, foi apresado e sofreu substituição de bandeira.
Esse navio, denominado ”Lahneck”, passou então a chamar-se “Gil Eannes” e ficou sob a jurisdição da Marinha de Guerra Portuguesa. Este primeiro navio a vapor Gil Eannes, fez a sua primeira assistência aos navios de pesca nos mares da Terra Nova no ano de 1927 totalmente equipado e tripulado pelos nossos distintos Oficiais e Marinheiros da Marinha de Guerra.
Esta situação manteve-se até ao ano de 1942 em que transitou para a jurisdição da Marinha Mercante sendo o seu primeiro Comandante o Sr. Capitão Cândido da Silva devidamente acreditado para o efeito pela Sociedade Nacional dos Armadores do Bacalhau.
Manteve-se este primeiro Gil Eannes ao serviço da frota de pesca, desempenhando as suas funções com inúmeras dificuldades devido às suas limitações e ao muito que lhe era solicitado, até ao ano de 1954, ano em que pela última vez prestou assistência aos navios de pesca.
Era nessa altura seu comandante o Capitão João Pereira Ramalheira que, em 1945, tinha substituído o Comandante Cândido da Silva.
A nova unidade, que entrou ao serviço em 1955, herdou do seu antecessor não só o espírito mas também o nome de Gil Eannes, o comandante e o sino de proa que suponho ainda lá existir.
 
Começou então, nessa longínqua primavera de 55, a vida do “Gil Eannes” dos nossos dias, construído propositadamente para a assistência e apoio à frota da pesca do bacalhau e que, por assim ser, estava muito razoavelmente equipado para bem desempenhar as funções a que era destinado.
Durante o período de 1955/1958 foi comandando pelo Sr. Capitão João Ramalheira (habitualmente conhecido por razões que desconheço por Comandante Vitorino Ramalheira) e, em 1959 assumiu o comando o Capitão Mário C. Fernandes Esteves que nessa função se manteve até ao ano de 1971 data em que, a seu pedido, foi substituído pelo Sr. Comandante António Papão Chinita.
 
Durante o período de 1959/1971, que vivi muito intensamente e do qual muito me orgulho, posso afirmar que o “Gil Eannes” fez tudo o que era possível fazer-se em benefício da Economia Nacional, em benefício dos Armadores da Pesca do Bacalhau e, finalmente mas não menos importante, em benefício dos nossos navios da frota da pesca do bacalhau e, muito especialmente, das suas tripulações.
Pode dizer-se que, nessa época, o “Gil Eannes” era o suporte de toda a frota nos seus mais variados aspectos desempenhando simultaneamente funções de "Embaixador" representante dos portugueses e de Portugal em diversas regiões do globo e em locais tão distantes como o são a Groenlândia e a África do Sul por exemplo como anteriormente tive oportunidade de citar.
 
 
Conforme disse ao princípio deste apontamento, a acção do “Gil Eannes” também se fazia notar de uma maneira bem acentuada no campo das relações públicas e de, enaltecimento não só das obras, mas também do nome de Portugal.
Dentro de muitas e variadas acções, algumas das quais já, naturalmente, se me varreram da memoria, ainda recordo muito vivamente as seguintes: recepção no porto de St. John's aos representantes de todas as Nações que faziam parte da Icnaf (International Comittee Northwest Atlantic Fisheries); recepção oferecida pelo Sr. Embaixador de Portugal em Ottawa, em St. John's, ao Ex.mo Governador e demais Autoridades da Terra Nova, na altura da oferta da estátua do navegador Gaspar Corte Real, pelo Governo Português, ao Governo da Terra Nova; recepção no “Gil Eannes” a Sir Humphrey Gilbert em preito de gratidão e homenagem aos trabalhadores portugueses na Terra Nova, devido a um antigo Capitão pescador português, ter salvo um seu antepassado, em décimo grau em linha directa, que andava perdido sem água, nos mares da Terra Nova; visita do “Gil Eannes” no fim da sua época de serviço na Groenlândia, ao porto de Gronnedal onde se encontrava instalada a base da Nato, no Noroeste do Atlântico e, onde eram considerados dias de especial convívio os dois dias de permanência do “Gil Eannes” no porto; visita anual, por cortesia, do N/m “Gil Eannes” ao porto de Godthaab - capital da Groenlândia - a fim de homenagear e receber a bordo, não só as autoridades mais representativas da província, como as pessoas mais importantes da terra e, especialmente o corpo clínico do hospital local; facilidade do “Gil Eannes” em pôr à disposição dos hospitais groenlandeses o corpo clínico do navio para ajudarem em algumas intervenções clínicas feitas em terra e a naturais da Groenlândia.
 
Foi ainda no “Gil Eannes” que, por maiores ou menores espaços de tempo, embarcaram entre outros: o escritor Allain Villiers, que tornou o Lugre Argus mundialmente famoso, não só através do seu livro “The Quest of the Scooner Argus” como também através do seu artigo, publicado no National Geograhic Magazine “I Sailed With The Portuguese Brave Captains” o escritor alemão Max Stantze, que com uma equipa de filmagens e de som, realizou um documentário para o Departamento de Pescas do Governo Alemão; o artista fotográfico Leonard McComb, que ao serviço da revista Life, foi tirar fotografias da actividade dos portugueses nos bancos da Terra Nova, para ilustrarem uma edição especial totalmente dedicada ao Mar e seus Trabalhadores; os cineastas holandeses Aanton e Bert van Munster que, com uma equipa de cinco elementos, estiveram a bordo do “Gil Eannes” para fazer um documentário encomendado pelo National Geographic Magazine sobre a pesca dos portugueses na Terra Nova, e, muito especialmente, os navios de linha; o jornalista e escritor americano John Pickwick que, também para o National Geographic Magazine, foi escrever um artigo sobre a pesca dos portugueses para lançamento do documentário feito pelos irmãos van Munster; os artistas fotográficos Dante Vacchi e Anne Gauzes que foram colher material para publicação de um livro fotográfico sobre a pesca do bacalhau dos portugueses e que, acabou por não ser editado em Portugal porque algumas das nossas Autoridades não concordaram com o título "Pão Amargo" que os autores pretendiam dar à sua obra.
 
Muito já disse, e muitíssimo mais poderia ainda dizer mas, creio, que já vai sendo tempo de terminar pois o relatado deverá ser mais do que suficiente para demonstrar o que pretendi dizer, ao afirmar que o “Gil Eannes” honrava permanentemente o nome de Portugal e, muito especialmente, os seus Marinheiros.

 
A partir dos fins de 1963, por dificuldades económicas para a exploração do navio, foi permitido ao “Gil Eannes” - por decreto publicado no Diário do Governo - fazer viagens de comércio como navio frigorifico e de passageiros, entre as campanhas de pesca.
No decorrer dessas viagens para angariação de fundos para suporte da unidade o navio visitou, em anos consecutivos, vários portos tais como; Luanda e Lobito para transporte de passageiros nas ida para Sul e transporte de bananas na viagem para o Norte; Cape Town na África do Sul para transporte de peixe congelado pescado na região por arrastões portugueses; Aalesund, na Noruega, para transporte de isco congelado para a frota de pesca e bacalhau seco para o mercado nacional; Bridgetown, no Canadá, para carregar comida congelada para mink (animal também conhecido como vison) que foi descarregada no porto de Hals na Dinamarca; Prince Edward Island, no Canadá, onde carregamos batatas e legumes congelados, destinados ao porto de Grimsby na Grã-Bretanha; Alicante, na Espanha, para descarga de bacalhau em barricas, carregado na Terra Nova; Harbour Grace; Catalina; North Sydney, etc., etc., foram outros portos demandados pelo N/m “Gil Eannes” apenas em operações de comércio marítimo mas, apesar disso, em cada um deles, pelos convites que fazíamos e pelas recepções dadas a bordo, não só aos Agentes, mas também às autoridades e aos principais das diversas terras, deixávamos altamente colocado o nome de Portugal e bem explicada qual a nossa função principal no Mar.
Das estadias em serviço no Lobito e em Cape Town tenho recordações muito especiais pela admiração que o navio causou e por todas as inúmeras provas de gentileza com que fomos distinguidos e que, oportunamente, transmiti a quem de direito.
Era tanto o prestígio que o “Gil Eannes” gozava nos portos da Terra Nova e, em especial, no porto de St. John's que nos era atribuído um estatuto muito especial de que, mais nenhum navio gozava.
Assim, em emergência, ao serviço da frota era-nos permitido sair do porto de St. John's sem tratar de qualquer documentação para a saída e regresso ao cais de partida - que entretanto ficara reservado - sem qualquer documentação de entrada a não ser dois simples telefonemas para o Capitão do porto e para a Alfândega.
Ainda nesse porto, apenas ao “Gil Eannes” era permitido trocar material directamente com qualquer navio de pesca português sem a mínima interferência ou fiscalização das autoridades alfandegárias que, naturalmente, recebiam a nossa comunicação prévia do que pretendíamos fazer e quando.
Se estas atitudes, que sabia nunca terem sido concedidas a outro qualquer navio, não representavam prestígio e motivo de orgulho então não sei o que essas palavras significam.   
 Em linhas muito gerais creio ter deixado uma clara ideia de qual foi a actividade do navio apoio “Gil Eannes” - ou como os canadianos chamavam "The Mother Ship of the White Fleet" - durante o período de 1959 a 1971 conforme me tinha sido solicitado. 
Em suma, por todas as acções realizadas, em prol de todos, este N/m “Gil Eannes” é único no Mundo! 
As minhas desculpas pelo meu fraco poder de síntese e pelo tempo que, por certo, vos ocuparei.
 
Mário C. Fernandes Esteves
(Comandante)
 
 
Lisboa, 18 de Janeiro de 1996
publicado por Brito Ribeiro às 15:57
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Jul 07
Estávamos em Julho de 1976 e as aulas já tinham terminado. Para juntar algum dinheiro, a malta costumava ir à ribeira apanhar percebes, mexilhões, musgo e sargaço para vender.
Era um biscate duro, pois andávamos dentro de água horas seguidas a carregar sacos pesados, a escorrer água para tirar o sargaço e levá-lo praia acima até às dunas, para ser estendido e seco. Trinta ou quarenta quilos ao sair da água, que depois de seco ficava em um ou dois quilos, uma miséria!
E os percebes eram vendidos nos cafés entre os trinta e quarenta escudos para de seguida serem postos à venda por oitenta ou cem escudos, outra roubalheira, pois nós é que lixávamos as mãos, nós é que ficávamos dentro de água enregelados, pois naquele tempo não havia fatos de neoprene para ninguém. Isso foi uma modernice que apareceu muito depois!
Estávamos divididos por equipas de três ou quatro elementos, pois era mais fácil assim do que individualmente e os meus parceiros eram o Nelson e o Zé da Linha, ambos da Laje. Trabalhávamos habitualmente entre Penedim e o Quintino, apenas íamos a Afife para os percebes.
Ainda hoje acho que fazíamos uma boa equipa, pois alem de nos entendermos bem, tínhamos genica suficiente para deixar os outros a bufar de raiva. Éramos os primeiros a chegar e os últimos a sair da água. Também era verdade que saíamos mais mortos que vivos de tão demolhados estarmos.
Isto vem a propósito de ganharmos algum dinheiro para as nossas “coboiadas” pois os nossos pais não eram ricos e o dinheiro era espremido.

Nesse ano de 1976 decidimos ir acampar uma semana para as Azenhas em Vilar de Mouros e por isso precisávamos de “massa”, apesar de fazermos os abastecimentos principais por descarga directa das despensas das nossas casas.
Depois de algumas hesitações, com desistências à mistura, partimos cinco à aventura. Eu, o Nelson, o Mac, o Tone do Talho e o João. O Nelson já o apresentei, o Mac (quase a minha alma gémea) que é filho da D. Amélia professora, o Tone filho do Sr. Ernesto do Talho e o João que era de Lisboa e que vinha passar férias a Âncora todos os anos.
Ele ainda é parente da mulher do meu primo Fernando Meira e foi assim que nos conhecemos e ficamos amigos.
Já não me lembro bem mas parece-me que eu e o Mac fomos de bicicleta e os outros apanharam boleia com do irmão do Tone, o Ernesto que foi levar as tralhas no seu reluzente Fiat 128, que ainda possui.
Tínhamos três tendas canadianas que eram ocupadas pelo Nelson e por mim, noutra ficava o Mac e o Tone e na última ficava o João, que adorava o estatuto de ter uma tenda só para ele. Pudera, ninguém queria ficar com ele pois ressonava muito e cheirava a chulé que empestava. Deixem-me dizer que nenhum de nós era muito melhor, mas o João era o que tinha pior fama.
Em 1976 as Azenhas eram um local muito mais recatado que hoje, os carros só com muita dificuldade lá chegavam e praticamente só para lá ia banhar-se a malta da zona, nada de forasteiros.
Nós éramos uma excepção, mas éramos bem aceites pela fauna local, pois conhecíamos a malta toda que estudava no Externato de Santa Rita em Caminha ou no Liceu em Viana. E além disso já tínhamos acampado lá nos anos anteriores, pelo que já éramos quase da casa!
Instalámos as tendas no terreno do fundo, que hoje está cheio de silvas e nessa altura era todo relvado, as tendas em linha com o “rabo” virado ao rio; ao lado da nossa tenda havia (e ainda lá está) um enorme eucalipto, no qual penduramos um pequeno espelho para as nossas vaidades.
Um dia foi preciso fazer arroz (de feijão) para acompanhar umas bifanas que o Tone trouxera e fui o encarregado de preparar o tal arroz. Depois de muitas invenções, o arroz estava como o cimento e só eu e o Mac, por solidariedade, o conseguimos comer. Os outros acabaram por embrulhar as bifanas no pão que sempre era mais macio. Nunca mais me pediram para fazer mais nenhum cozinhado, apenas me cabiam tarefas menores como descascar batatas, ir buscar água ou lavar a louça.
Durante o dia preguiçávamos ali pelas azenhas entre o areal, as tendas e a água, fazíamos (algum) sucesso entre as raparigas (ah, ah) e ao anoitecer íamos até à aldeia por um estreito carreiro entre os campos de milho e o rio Coura.
Hoje passa lá um caminho calcetado e no espaço onde se cultivava o milho realiza-se o Festival de Vilar de Mouros. Mas naquele tempo o caminho era estreito e só por lá se circulava a pé ou de bicicleta com as devidas cautelas.
Na aldeia íamos sempre para um estabelecimento do qual não me recordo o nome e onde também nos abastecíamos, pois no rés-do-chão era a mercearia e o café no andar superior.
Decorria um acontecimento que nos empolgava e nos prendia a atenção durante horas ao televisor, fosse no único canal português, quer na “espanhola”, canal com melhor captação, muito mais nítido e com melhor informação.
Eram os Jogos Olímpicos de 76 em Montreal no Canadá e na ginástica Nadia Comaneci dava cartas e arrasava a concorrência. Todos gostávamos destas emissões, particularmente o João que era um verdadeiro fanático e que não nos deixava arredar pé enquanto na televisão desse alguma coisa sobre isso. Acho que a partir daí, fiquei um bocado enjoado com os jogos olímpicos…
Bebíamos uns finos, roíam-se uns amendoins e jogava-se às cartas entre uma e outra olhadela à televisão, até a proprietária do café nos “chutar” porta fora, já depois da meia-noite.
E lá vínhamos nós para as azenhas, primeiro até à ponte medieval que, permitam-me um parêntesis, precisa urgentemente de ser consolidada, senão qualquer dia passa a ser a ex-ponte medieval e iremos ver uma quantidade de hipócritas a carpir a sua morte.

Mas, dizia eu, que atravessávamos a ponte e virávamos à esquerda pelo tal “carreiro” de que vos falei, todos em fila indiana, o primeiro com um foco e outro, lá para o meio, com outro foco.
Naquele tempo não haviam focos com “leds”, nem pilhas alcalinas, nem focos recarregáveis e muito menos lojas dos chineses para comprar essas “merdas”.
Por isso a luz era escassa e muito poupada. Cedo reparamos que o João, que todos sabíamos medricas, queria ir sempre entalado entre os dois focos e nunca ficava para trás, por motivo algum.
Uma bela noite combinamos pregar-lhe uma partida para lhe meter um “cagaço”. Era uma coisa simples, quando à noite estivéssemos de regresso às tendas, o da frente que habitualmente era o Nelson, apagava a lanterna e todos fugíamos para o meio do milho às escuras e a berrar que nem desalmados.
O nosso amigo sentou-se no chão a tremer e só não chorou porque o medo lhe gelou o sangue e as lágrimas. Quando regressamos ao seu convívio, a rir, todos prazenteiros, o João “pintou-nos a manta” de tão zangado que estava.
Mas esse problema de ser medricas ainda havia de causar outra “cena”, como se diz agora, pois uma noite, às tantas da madrugada, já estávamos a dormir, apareceram uns gajos com várias motorizadas a fazer um cagaçal tremendo, com as motas ali perto das tendas.
Na verdade ninguém se aproximou de nós, nem nos provocou, mas uns rapazes enfiados às escuras dentro de umas frágeis tendas num local recôndito, por muito valentes que sejam ou queiram mostrar que são, acabam sempre por se borrar todos de susto.
Foi o que nos aconteceu; eu e o Nelson tínhamos dentro da tenda uma espingarda de caça submarina (acho que era do Mac), esticamos os elásticos e armamos o arpão, por "causa das moscas". Na tenda seguinte o Tone e o Mac chamaram baixinho por nós e estabelecemos algum diálogo de vizinhos. Da tenda do João é que nem pio.
A certa altura os gajos lá se foram embora e após algum tempo de expectativa e de sossego, decidimos sair das tendas, até porque o João continuava sem dar acordo de si.
Verificamos com espanto que a tenda dele estava aberta e que ele tinha desaparecido. Foi em vão que o chamamos e como o sono já tinha ido, fizemos uma fogueira à volta da qual nos sentamos.
Muito tempo depois, pelo menos assim nos pareceu, surge o João do meio de um campo de milho que havia na banda de cima do nosso acampamento. Vinha com um ar tranquilo e explicou-nos que tinha ido dar uma volta. É preciso ter lata! Então tinha ido dar uma volta, heim? O gajo tinha-se pirado e certamente ficou encolhido entre espigas e pondões, até ter a certeza que o sobressalto tinha partido para não mais voltar. E ainda por cima vinha tentar meter-nos os dedos nos olhos!
É claro que ninguém mais voltou para a cama, até porque o dia já nascia e havia muito que vadiar.
Um dia assistimos à chegada de mais uns campistas, vários casais com várias tendas, já não me lembro, três ou quatro, que as montaram um pouco mais para o interior do terreno. Ali junto ao rio, só nós! Traziam um belo cão Pastor Alemão que rapidamente acamaradou connosco e logo passou a cirandar por entre as tendas sem que ninguém se sentisse incomodado.
O problema foi quando o descobrimos a mastigar regaladamente um dos frangos que iria ser o nosso jantar. Pelos vistos o ar do campo tinha-lhe aberto o apetite… Ora nós tínhamos dois frangos, o que até nem era muito para aqueles cinco galifões; se o cão tinha comido um deles, estão a ver o problema, ia ser uma barrigada de fome. Lá tínhamos nós de fazer um reforço com mais um par de trigos secos.
O Nelson ficou danado e foi ter com o dono do animal que não acreditou que ele tivesse feito uma maldade dessas. Não acreditou até ver os poucos despojos que sobraram, depois ficou de orelha murcha, pediu desculpas e não teve outro remédio que ir comprar outro frango para nos compensar as perdas. Vá lá que o homem foi consciencioso e trouxe um frango bem maior que o “desaparecido”.
O desgraçado do cão é que passou a ficar amarrado a uma árvore como castigo para tamanha gulodice. Ficou preso, mas pelo menos, estava de barriga cheia!
Um sábado à noite recusamo-nos a ir ver a estopada dos jogos olímpicos e fomos todos ao cinema. Sim, ao cinema em Vilar de Mouros, em 1976.
Havia uma casa, junto ao cruzamento com a estrada que vai para Covas, que hoje está em ruínas, um tipo de Centro Cultural ou Recreativo e que passava uma “fita” aos sábados à noite, sentando-se os espectadores em bancos corridos e cadeiras avulso, tendo como tela um simples lençol branco. Foi daquelas idas ao cinema que nunca mais esqueci, uma maravilha.
Sei que os meus pais ainda foram lá uma vez abastecer-me de mercearia e o Ernesto passou por lá várias vezes descarregando carne para o irmão (e para os amigos esfomeados).
Nunca esta equipa voltou a acampar juntos, apenas eu e o Mac continuamos por mais alguns anos a vadiar, nesta espécie de turismo selvagem, em que tínhamos uma tenda, um saco cama e pouco mais. Claro que as tendas eram canadianas, daquelas baixinhas em que se entra de gatas. Era o que havia!
Apesar que termos deixado de ser parceiros de acampamentos, a amizade ficou e hoje tenho muito gosto em contar estas simples peripécias, que marcaram uma fase da minha, da nossa juventude.
publicado por Brito Ribeiro às 18:06
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22
Jul 07

Soubemos que o sr. Presidente da Junta já desenvolveu esforços junto da EDP no sentido de substituirem este poste. 

O director de operações da empresa de electricidade respondeu, dizendo que não tem em stock meios postes (já não se usam), aconselhando o autarca a colocar uma placa de "perigo de colisão" até se encontrar uma solução definitiva.

 

 

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 16:04
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18
Jul 07
 
 
Designação
Convento de São João de Cabanas, incluindo a sua mata e os terrenos circundantes
 
Localização
Viana do Castelo, Afife, Lugar de Cabanas
   
Protecção
IIP, Dec. nº 67/97, DR 301 de Dezembro 1997
 
Enquadramento
Rural, implantação harmónica. Implanta-se numa quebrada da encosta, junto à margem direita do Rio Afife e integrado na Quinta de Cabanas; tem fronteiro cruzeiro e nas proximidades vários moinhos.
Junto ao muro alto que fecha o pátio do frontespício, ergue-se velha magnólia de largas tradições.
 

Descrição
Planta composta por igreja longitudinal com torre sineira quadrangular, capela-mor rectangular e dependências conventuais de planta quadrangular, adossadas em ângulo recto a S. Volumes articulados com coberturas diferenciadas, em telhados de 2 e 4 águas.
Igreja com frontespício enquadrado por pilastras, rasgado por portal de verga recta, encimado por frontão interrompido e que, através de enrolamentos vegetais, se liga a nicho, decorado com volutas e enrolamentos, com abóbada de concha e imagem de São João; é enquadrado por 2 janelas, as quais existem 2 cartelas ovais.
Sobre a cornija, frontão contracurvado, com brasão no tímpano e ladeado por pináculos. Torre sineira, adossada a N. e um pouco recuada também com cunhais de cantaria e com cobertura cónica enquadrada por pináculos. Interior de uma só nave, com abóbada de berço sobre cornija saliente; coro-alto, 4 altares colaterais, com retábulos de talha, separados por teia de balaústres e púlpitos quadrangulares sobre mísulas e encimados por janelas, 2 altares laterais com retábulos de talha.
Arco triunfal de volta perfeita, sobre dupla cornija e capela-mor com retábulo de talha polícroma e abóbada de berço. Das dependências conventuais destacamos o claustro, de reduzidas dimensões, 2 registos, separados por friso, tendo no 1º arcada de arcos plenos sobre colunas toscanas e o 2º fechado, com janelas envidraçadas separadas por colunelos de cantaria.
No centro da quadra, fonte com grupo escultórico e tanque decorado exteriormente por volutões.
 
Utilização Inicial
Cultual e devocional: Mosteiro Beneditino masculino
 
Utilização Actual
Residencial / cultual
 
Propriedade
Privada: pessoa singular
 
 
Época Construção
Séc. 13 / 17 / 18
 
Arquitecto | Construtor | Autor
ENTALHADOR: Joaquim José de Sampaio (1779).
 

Cronologia
570 - edificação por S. Martinho de Dume, segundo Pinho Leal;
746 - destruído pelos árabes e logo reedificado; 1382 - na posse de comendatários, mas logo passou a ser dos frades beneditinos com a condição de pagarem aos frades "cartuchos" de Nossa Senhora do Vale, de Lisboa, certa pensão que o Rei lhe impôs; chegou a ter 75 religiosos; 1779, 20 Agosto - feitura de tribuna e seis castiçais por Joaquim José de Sampaio, por 240$000;
1834 - extinção das ordens religiosas, passando a propriedade e edifício para a posse da Fazenda Nacional; tinha então apenas o abade e dois monges; 30 Março - Inventário dos bens móveis e imóveis do mosteiro; foi vendido em hasta pública ao Gen. Luis do Rego, Visconde do Geraz de Lima; por sua morte, o mosteiro passou para a filha, D. Maria Emília Rêgo; por morte desta, ficou para o seu segundo marido, Dr. Tomáz de Aquino Martins da Cruz que, depois de viúvo, casou com D. Januária do Nascimento da Cunha e Silva, natural de Penafiel;
1897, 15 de Março - esta vendeu ao Conselheiro Dr. Adolfo da Cunha Pimentel Homem de Vasconcelos, antigo Governador Civil do Porto, e esposa D. Maria Cardina da Fonseca e Gouveia da Cunha Lima Pimentel, os quais fizeram importantes obras de restauro e construiram os muros; posteriormente transitou para a filha, que o voltou a vender;
1984, Abril - Despacho do Secretário de Estado da Cultura determinando a classificação do Convento como Imóvel de Interesse Público.
 
Tipologia
Arquitectura religiosa, maneirista. Mosteiro beneditino de fundação bastante antiga, mas com feição actual maneirista devido às obras do século XVII.
De pequenas dimensões e planimetria irregular, é constituído por igreja de planta longitudinal e nave única, uma torre sineira e dependências conventuais com pequeno claustro. Predominam as linhas sóbrias, características do Maneirismo.
 
Características Particulares
Alguma da talha dos altares é já barroca e o da capela-mor, deve já datar de fins do Século XIX.
 

Bibliografia
RAMOS, Ilídio Eurico Gomes, Monumentos e Solares de Viana. Quinta do Mosteiro de Cabanas em Afife. Capela de S. Bernardo em Viana in Vianense, Viana do Castelo, 5 Out. 1984; ALMEIDA, Carlos Alberto Ferreira de, Alto Minho, Lisboa, 1987; FARIA, Horácio, O Mosteiro de S.João de Cabanas e o Moinho da devesa no Sec. XVIII in Cadernos Vianenses, vol. 13, Viana do Castelo, 1989, p. 15 - 28; CARDONA, Paula Cristina Machado, A actividade mecenática das confrarias nas Matrizes do Vale do Lima nos séc. XVII a XIX, Tese de Doutoramento, vol. 3, Porto (Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Departamento de Ciências e Técnicas do Património), 2004.
   
Intervenção Realizada
Proprietário: 1992 - Obras de restauro na Igreja.
  
Observações
Segundo a tradição, antes da fundação do Convento existia no local uma ermida, com algumas cabanas, covas ou grutas na serra ao redor, onde viviam os frades que S. Martinho congregou e aos quais deu a Regra de São Bento, daí se ter tomado o nome para o Convento.
 
 
 
publicado por Brito Ribeiro às 18:38

12
Jul 07
O nome Ramos Pereira é por demais conhecido em Vila Praia de Âncora, embora os mais novos apenas tenham uma vaga ideia de um almirante que possui um busto na Praça da Republica e o nome em duas ruas.
Só que deliberadamente escrevi dois erros na frase anterior, erros que muitos tomam como verdade. Em primeiro lugar Jorge Maia Ramos Pereira teve como ultima patente militar o posto de contra-almirante e emprestou o seu nome à rua que liga o Largo do Sol Posto ao alto de Vilarinho, pelo Mercado Municipal.
Então e a avenida junto à praia? Essa é a Avenida Dr. Ramos Pereira, pai do ilustre militar anteriormente referido e que está quase totalmente esquecido dos ancorenses. É uma pequena nota biográfica deste homem, que vou tentar transmitir-vos.

Luís Inocêncio Ramos Pereira nasceu no Porto a 18 de Setembro de 1870 e formou-se em medicina e cirurgia na escola Médico-Cirurgica do Porto em 1897 com a tese “a cocaína na cirurgia”, mas tinha as suas raízes em Riba d`Âncora, terra natal de seu pai José Bento Ramos Pereira, comendador e benemérito, que fez fortuna no Brasil. Do casamento de José Bento com Maria Gertrudes da Silva Pereira nasceram, alem de Luís Inocêncio, mais sete filhos.
Desde muito novo que o Dr. Luís Ramos Pereira se apaixonou pelo ambiente marinho, pela náutica e pelos homens que dia a dia tiravam o sustento do mar, muitas vezes à custa da própria vida.
Casou jovem, ainda estudante com D. Cecília e deste casamento nasceram cinco filhos: a Maria Amália, o Jorge, o Guilherme, a Irene e a Dulce.
A Maria Amália casou com um oficial do exército, do qual se divorciou para casar em segundas núpcias com um cidadão inglês de apelido Lloyd, a Irene casou com um oficial do exército (coronel) de apelido Santa Clara e a Dulce permaneceu solteira.
O Guilherme nasceu com uma deficiência mental e era, mesmo em adulto, muito querido e estimado em Âncora, herdando do pai a mesma paixão pelo mar e por tudo a ele ligado.
O Jorge, ao qual me referi no inicio deste texto, seguiu a carreira náutica, atingiu o almirantado e continuou o trabalho de beneficência dos seus antepassados. 

Fosse em trabalho ou apenas a passar alguns breves momentos de descanso, era junto à praia, junto ao portinho, que o Dr. Luís podia ser encontrado, rodeado dos homens e mulheres que ele sempre ajudou até ao limite das suas forças e dos seus conhecimentos.
Naquele tempo, ainda sem o recurso dos modernos fármacos como os antibióticos, o Dr. Luís recorria muitas vezes à farmácia Brito para, com o auxílio do proprietário, fazerem os remédios possíveis. Estes remédios eram normalmente pagos do seu bolso, dados aos doentes pobres que ele visitava graciosamente e que cuidava zelosamente até estarem curados, sem necessidade de o chamarem.
Militante do Partido Republicano Português, era Presidente da Comissão Municipal de Caminha deste partido desde a época do Ulti­mato britânico em 1890.
Até à implantação da república o Dr. Luís Ramos Pereira viveu na região, deslocava-se no seu cavalo “o Peralta” e tinha avenças, quer dizer que as famílias pagavam-lhe uma importância determinada e em contrapartida tinham cuidados médicos todo o ano. Essa avença tinha o valor de 1$20 (um tostão por mês) e quando foi viver para Lisboa passou as avenças aos doutores Couto de Cerveira e ao seu amigo Laureano Brito.
A sua ida para Lisboa no início de 1911 teve a ver com a eleição de senador pelo circulo de Viana do Castelo, passando a também a exercer as funções de médico dos Caminhos de Ferro do Sul e Sudeste e, a partir de Novembro de 1910 exercer as funções de adminis­trador, por parte do governo, junto da Companhia do Niassa. Mesmo com todos estes afazeres políticos e profissionais, continuava a visitar com frequência Gontinhães, aproveitando o facto de nada pagar na viagem de comboio.
Era durante estas permanências no norte que, em vez de descansar, percorria infatigavelmente as casas dos seus doentes ou acorria lesto a uma qualquer chamada mais urgente.
Luís Ramos Pereira republicano, agnóstico e democrata convicto, exerceu o cargo de senador para o qual foi sucessivamente eleito até ao 28 de Maio de 1926, excepto durante o advento de Sidónio Pais. Apesar de ser agnóstico mantinha relações de amizade com vários clérigos e tinha uma posição de total tolerância perante os credos religiosos.
Foi durante breve período de tempo, médico municipal em Coimbra, em Paredes de Coura (1903-1904) e inspector da Procuradoria Central de Lisboa. 

Em 1918 com o surto da gripe pneumónica o Dr. Luís ao saber que a epidemia alastrava perigosamente no Vale do Âncora, abandonou Lisboa, hospedou-se na casa do Ramos dentista e durante meses, voluntariamente e à sua custa, prestou a assistência possível aos doentes que diariamente eram infectados com tão gravosa doença e que tantas mortes causou.
Alem dos doentes da zona teve ainda que socorrer outros que ficaram sem assistência devido aos médicos que os tratavam terem contraído, também eles, a pneumónica. Foi o caso das freguesias de Afife, Carreço, Moledo e até Caminha, às quais ele ia de bicicleta ou de comboio, sem horas para comer ou para regressar.
São conhecidas histórias deste abnegado médico nas quais ele ao entrar em casa de algum doente, pede um copo de leite e um pouco de pão para lhe aliviar a fome e lhe dar forças para mais algumas visitas.
Durante a pneumónica um dos tratamentos que prescrevia com frequência, quando haviam febres altas, consistia em embrulhar o doente numa manta encharcada de água fria, para de seguida o abafar em cobertores até suar.
Fosse do tratamento, fosse do ânimo que incutia aos doentes, fosse dos remédios que oferecia aqueles que nem dinheiro tinham para o pão, o certo é que muita gente lhe ficou a dever a vida, apesar das inúmeras mortes que a pneumónica causou nesta região.
 
Enquanto senador da República teve sempre um papel de influência junto das instâncias governamentais e foi graças a ele e a perseverança de mais alguns ancorense como o Dr. Laureano Brito e Pinheiro de Azevedo que se conseguiu financiamento para construir a avenida marginal que mais tarde teria o seu nome.
Mas outras obras e melhoramentos foram conseguidos com a sua influência junto do governo da república como a abertura da delegação marítima, o salva vidas e o serviço de socorros a náufragos, o posto da GNR e a elevação de Gontinhães a vila.
Não foi só para o Vale do Âncora que ele conseguiu influenciar as vontades políticas de Lisboa. Conseguiu importantes financiamentos para o Hospital da Misericórdia e para a Congregação da Caridade de Viana entre muitas outras iniciativas, sendo distinguido como benemérito destas instituições e figurando nas respectivas galerias de honra ao lado nomes como Rocha Paris, Manuel e José Espregueira ou Ernesto Júlio Goes Pinto.
Foi sócio (nº 1) fundador do Clube Afifense, percursor do actual Casino Afifense e médico desta associação até se radicar em Lisboa (1911) onde também exerceu de forma gratuita e por comissão, o cargo de Provedor da Assistência de Lisboa.
Tal como o seu pai, também o Dr. Luís Ramos Pereira foi agraciado com a Comenda da Ordem de Cristo. 

Faleceu em Lisboa a 24 de Julho de 1938 e foi sepultado por sua expressa vontade em Vila Praia de Âncora. O féretro viajou para norte de comboio e foi testemunha de grandes manifestações de pesar, ao passar nas freguesias de Carreço e Afife.
Em Vila Praia de Âncora as bandeiras baixaram a meia haste e os candeeiros de iluminação pública foram decorados com crepes negros, sendo a urna transportada em ombros por muitos daqueles que ele tinha tratado e ajudado em vida.
No cemitério local, a lápide tumular do seu jazigo de família, diz apenas, “Ramos Pereira entre amigos”.
 
publicado por Brito Ribeiro às 20:06
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11
Jul 07

Acompanhamos o treino dos "marines" antes da invasão do Iraque

Após a invasão os americanos, como sempre, continuaram a fazer figuras tristes

E ainda há gente que se admira de eles andarem a levar no "pêlo" todos os dias 

publicado por Brito Ribeiro às 14:12
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09
Jul 07
- D. Júlia, logo, depois do almoço venho mais tarde. Lembra-se do que lhe falei a semana passada?
- Ah… Isso da carta. Claro que me lembro.
- Carta, então sempre vais tirar a carta? – intromete-se a Tia Joaquina, que deita sempre atenção a tudo.
- É, preciso da carta para o meu futuro. Conduzir já eu conduzo, falta é o papelinho.
- Eu sei que tu conduzes bem, mas diz ao homem da escola de condução que te leve para fora da Vila, não vá o diabo tecê-las.
- Oh Tia Joaquina, você é terrível. Dizer-me uma barbaridade dessas, nem a brincar!
A Júlia que atendia uma freguesa no outro lado da loja, virou-se de costas para rir à sucapa. Quando lhe passou o ataque de riso, disse com falso ar sério:
- Então Tia Joaquina, não é por causa daquele azar com o carro da polícia que o moço vai ser gozado toda a vida.
- Eu sei, estava a brincar com ele, mas ainda não me esqueci que no dia em que virou a ambulância eu também era para aproveitar a boleia e ir ao hospital marcar uma consulta. Olha do eu me safei! Para não falar no teu homem, que quase ia “para o maneta”.
- Afinal já está aviada ou ainda falta mais alguma coisa, Tia Joaquina? – Corta o Bertinho com o ar carregado.
 
 - Não sei, mas aqueles gajos andam a preparar alguma, e das boas! – Exclamou o Quim Tita.
- Será por causa do clube de futebol? – Interrogava-se o Gonçalves.
- Não. Aí quem manda é o homem da Suzete e ninguém lhe cobiça o lugar.
- Então? Que será?
- Olha, aqui há interesses com o empreiteiro, o Tijolo. Será que estão a preparar algum negócio dos grandes?
- Alguma urbanização? – Pergunta o “Adesivo”.
- Não me parece, senão eu sabia logo. Não te esqueças que eu também estou no ramo. Deve ser outra coisa.
- E não haverá formas de conseguirmos informações?
- Já estou a tratar disso. Não te preocupes, entendido? – remata o Titã, sem descobrir demasiado o jogo.
 
 - Schiuu…. Pouco barulho! Ninguém sai daqui enquanto não souber de cor o Pai Nosso. Carolina, toma conta deles, enquanto vou falar com o sr. Padre Esteves – diz a Júlia, levantando-se e observando cada um dos catraios, vestidos com a farda da catequese – Ricardo, pára de tirar macacos do nariz e limpar os dedos à farda!
Sai apressada do Centro Paroquial, entre a Igreja e o paçal, dirige-se para a porta da sacristia que estava aberta. Sentado a uma mesa o Padre Esteves lia o jornal. Já fazia calor, a primavera chegara em força e dentro da sacristia o ar fresco acariciava as faces afogueadas da Júlia.
- Bom dia sr. Padre Esteves. Posso entrar?
- Entra, entra minha filha. Então não estás a dar catequese?
- E estou, só vim aqui para lhe dizer que já temos o dinheiro.
- Ah… Deixaste-os sair mais cedo. Fizeste bem, assim ainda vão brincar um bocado.
- Já temos o dinheiro – grita a Júlia.
- Já temos o quê?
- O dinheiiiro!
- Ah! Já temos o dinheiro? Que bom. Então podemos começar a obra. Agora é que vou falar com o Quim Tita para…
- Não vai não, quem trata disso sou eu.
- Mas tu disseste que depois…
- O Padre Esteves é que não percebeu. Eu já tenho empreiteiro.
- Já sei que tens o dinheiro!
- Não é o dinheiro, é o empreiteiiiiro – Berrou a Júlia.
- Não estou a perceber, tu tens ou não tens, o dinheiro para o caminho?
- Tenho, sr. Padre, tenho o dinheiro e tenho o empreiteiro para fazer a obra.
- Ah… Já falaste com algum empreiteiro?
- Já. O Tijolo vai fazer o caminho e só pagamos o material e a mão-de-obra, sem lucro para ele.
- O Tijolo, tens a certeza minha filha? Olha que ele é um bocado aldrabão.
- Não diga isso, o homem veio oferecer-se, cheio de boas intenções.
- O que é que ele deu?
- Ele é que se ofereceuuu!
- Ah, tu lá sabes, mas tem cuidado, ofertas do Tijolo são de desconfiar.
 
- Então Bertinho, amanhã vais ao tribunal por causa do julgamento? – Pergunta a tia Vicencia, enquanto remexia a bacia atulhada de couves galegas.
- Vou sim senhora, amanhã às onze horas tenho de me apresentar no tribunal.
 - Às onze? Mas o julgamento começa às nove.
- Pois é, mas eu pedi ao juiz para me dispensar até às onze…
- Para vires ajudar a Júlia, não?
- Não, é que tenho aula de condução e não queria faltar.
- E o juiz autorizou? Muito me contas, agora percebo porque é que a justiça está de rastos…
 
Enquanto isso, a Júlia e a Suzete, a um canto da leitaria falavam em voz baixa e com as cabeças próximas uma da outra. Pelos semblantes sérios percebia-se que discutiam algo importante.
- Já disse ao Zé Bastos que é preciso ter uma conversa com o Bertinho. Isto não pode continuar assim. Temos de o trazer para o nosso lado quanto antes, pois esse velho mafioso do Quim Tita anda sempre em cima dele.
- Eu ainda tenho algumas duvidas, mas se tu dizes que ele é de confiança! Pelo menos conhece-lo melhor que eu.
- Eu confiar, confiar, não confio…
- Mau, mau!!!
- Não confio a cem por cento, mas quase. Sabes que eu dou-lhe a volta. Ele não é mal rapaz, gosta é de dar nas vistas.
- Se tu o dizes! Vamos lá a saber, se o metermos nisto o que lhe vamos dar para fazer?
- Eu pensei em pô-lo, para já, na direcção dos bombeiros e se ele fizesse boa figura depois se veria.
- Nos bombeiros? Achas? Não seria melhor ficar na direcção do clube com o meu homem durante uns tempos? Vai haver agora eleições e ele podia ajudar com as camadas jovens ou lá que é isso dos putos.
- Pois… - diz a Júlia pensando qual a melhor solução – Já sei, fica para já no clube de futebol e depois vai para os bombeiros. Se quer, quer. Se não quer, que diga. Amanhã falo com ele.
- E o Zé Bastos, está de acordo?
- Se não está, passa a estar. Já lhe falei nisso várias vezes e anda a empatar, a dizer que fala com os de Barcelos, que vai pensar, que fala com o irmão, olha… nem ata, nem desata. Assim, resolvo eu.
- Assim é que é falar. Estes homens são uns empatas!
- Amanhã falo com ele e com o Bertinho e ficam as coisas alinhavadas. Com o teu homem no futebol mais o Bertinho, os bombeiros controlados, a banda de musica também, eu na igreja controlo a catequese, os escuteiros e a Fabriqueira… Só nos falta gente para tomar conta do lar dos velhos.
- Deixa estar que havemos de arranjar. Viste como conseguimos com a Misericórdia.
- Nem me fales desses tipos, que aquilo ainda vai acabar mal. A ver se eles se aguentam.
- Nisso tens razão, podem estar do nosso lado agora, mas não são nada de confiança, só querem é mamar. Temos é de ir falar com uma senhora, dizem que é perto de Melgaço, que lê nos búzios e nas pedrinhas.
- E isso resulta? – Pergunta a Júlia com ar de dúvida.
- Olha a Ivone tinha problemas lá em casa com a filha e com o marido, já tinha corrido tudo e nada. Foi lá e em três sessões resolveu a vidinha dela. A filha anda outra vez a estudar e o Gomes diz que nunca mais voltou a ir para as brasileiras de Valença.
- Ah!!! Então vamos lá na próxima semana. É preciso marcar ou como é?
- É preciso ir cedinho para ganhar a vez, só isso.
 
 
 
 
 
publicado por Brito Ribeiro às 16:10
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06
Jul 07

Se há alguma coisa em que nós somos bons é a queixarmo-nos da classe política, sem contudo deixar de agitar as respectivas bandeirinhas quando há eleições.

É comum ouvir-se desabafos do género "o 25 de Abril foi bom, mas..." ou " antigamente havia respeito e seriedade, agora..." ou ainda "são uma cambada de incompetentes, querem é encher o saco".

Curiosamente em meados do século dezanove ouviam-se ditos identicos, em contexto temporal diferente, com a distancia de cento e cinquenta anos. Este "recado" de Eça de Queiróz é ilustrativo do pensar e do desencanto do escritor perante a classe política então no poder. Se fosse hoje, será que Eça de Queiróz voltaria a escrever o mesmo?

publicado por Brito Ribeiro às 19:42
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05
Jul 07
 
  
Designação
Igreja Paroquial de São Lourenço da Montaria
 
Localização
Viana do Castelo, São Lourenço da Montaria, Lugar da Igreja
   
Protecção
Inexistente
 

Enquadramento
Rural e isolado. Situa-se no centro de um adro, limitado por um muro de alvenaria rebocada e marcado por pináculos nos cunhais, pavimentado com lajeado de granito e com espaços relvados.
O acesso efectua-se por 3 entradas, situadas axial e lateralmente, marcadas por cunhais rematados com esferas sobre pedestal.
 

Tipologia
Arquitectura religiosa, maneirista e barroca. Igreja maneirista de planta longitudinal e nave única, com frontispício marcado por duplas pilastras coroadas com pináculos e terminada em frontão triangular, com nicho no tímpano, no alinhamento do portal, emoldurado por pilastras e entablamento, e janelão, coroado por frontão de volutas; Interior de características barrocas, com retábulos em talha dourada, de estilo nacional, azulejos da nave de albarradas, e da capela-mor, figurativos, do chamado ciclo dos Mestres, telas dos Evangelistas com molduras de talha, etc.
 

Características Particulares
Igreja de transição do maneirismo para o barroco, com nave flanqueda por 2 sacristias, colocadas simetricamente e fachada principal maneirista marcada por eixo central de nítida verticalidade.
No interior, destaca-se: na nave, as capelas colaterais, de arco pleno pintado com elementos fitomórficos e retábulos de talha dourada com igual estrutura arquitectónica, mas variando em alguns elementos decorativos; na capela-mor, o sistema de iluminação indirecto, com janelas de rampa, bastante pronunciado, com mísulas em volutas integradas no capialço; e a pintura do tecto, barroca, com profunda influência maneirista nos "ferronerie" envolvendo cartela central.
Na sacristia do lado do Evangelho, conserva lambril de azulejos em ponta de diamante.
 

Descrição Complementar
Sobre o lintel do portal encontra-se a inscrição: "Ignº de Guizenro indignissimo Abbe desta Igrª mudou para este citio no anno de 1714"; sobre o friso colocado sobre o lintel encontra-se a inscrição "Semper Dom dilexi decoremdo mustuae locum habitationis glrue".
Sobre o cunhal NE. da torre está um relógio de sol, em granito. No interior, os retábulos colaterais, do lado do Evangelho, são dedicados a São Miguel Arcanjo e à Sagrada Família; do lado da Epístola, a Nossa Senhora do Rosário e ao Sagrado Coração de Jesus. No supedâneo da capela-mor, teia de madeira decorada com ferragens de metal amarelo.
   
Utilização inicial e actual
Cultual
 
Propriedade
Privada: Igreja Católica
   

Época Construção
Séc. XVIII
 
Arquitecto | Construtor | Autor
Carpinteiro: Francisco Gonçalves Balinha (1713).
 
Cronologia
1713, 31 Outubro - execução do forro da igreja por 117$000 pelo carpinteiro Francisco Gonçalves Balinha;
1714 - data sobre o lintel do portal indicando a data de construção da igreja;
1960 - Comissão Fabriqueira pede à Fundação Calouste Gulbenkian subsídio para obras de restauro.
  

 
Bibliografia
CARDONA, Paula Cristina Machado, A actividade mecenática das confrarias nas Matrizes do Vale do Lima nos séc. XVII a XIX, Tese de Doutoramento, vol. 3, Porto (Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Departamento de Ciências e Técnicas do Património), 2004.
   
Intervenção Realizada
Comissão Fabriqueira: 1990 - inauguração das obras de restauro do edifício com a presença do Bispo de Viana, D. Armindo Lopes Coelho, sendo pároco Alexandrino Cardoso.
 
 
 

 

 

 

 

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 16:56

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