Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

31
Mai 07
A vida voltava lentamente à normalidade. O Bertinho retomara o trabalho na mercearia, o Gonçalves “Adesivo” continuava a dar e a ter sempre com a língua afiada como uma navalha, o Zé Bastos ia e vinha afadigado com as caixas da fruta e dos legumes.
A Júlia recuperara do susto, o Simplício fora à sucata entregar o maltratado Fiat 127 e lá mesmo lhe indicaram um carro “jeitoso”, que estava à venda no stand da avenida, por detrás da Câmara, um Ford Fiesta, já com uns anitos, mas em bom estado de chapa e de motor.
Pelo menos foi o que lhe garantiram e foi já no seu Fiesta verde escuro, que se apresentou em frente da loja, buzinou duas vezes e esperou que a Júlia viesse à porta. Mas quem apareceu foi o Bertinho, que se baixou para ver melhor, quem estava ao volante.
- D. Júlia, venha cá depressa, que está aqui alguém a chamá-la – diz o Bertinho, virado para dentro da loja.
- Então que se…Simplício, filho onde foste buscar esse cangalho?
- Cangalho? Ora essa, de mecânica está como novo e pelo preço não podia pedir mais.
- Ora! Tu não tinhas necessidade… Tens lá na garagem o Mercedes, que nunca usas.
- Sabes bem que queria era trocá-lo por um Volkswagen Passat, destes novos…
- Passat!!! Nem penses, para andares com um carro igual ao dessa besta do “Adesivo”! Nunca! Troca pelo tu quiseres, mas Passats é que não.
- Está bem, está bem, depois falamos nisso, para já estou remediado com o Fiesta. Até logo, vou ao Libório e depois ainda passo por aqui, antes de ir para casa.
 
O Bertinho que assistira à conversa da porta da mercearia, logo comentou:
- É um carrito engraçado e para as voltas do Sr. Simplício serve bem, desde que não dê problemas.
- Continuo na minha, tem o Mercedes parado, só pega nele uma ou duas vezes por mês ou quando eu vou a Espanha. Até parece mal, uma pessoa como ele, andar naquela carripana.
Pára uma carrinha em frente à porta, sai o Zé Bastos, abre a porta lateral e começa a descarregar, caixas de alface e de repolhos. A seguir, saem dois sacos de cebola e pergunta à Júlia:
- Oh Júlia, também queres cenouras? Olha, tenho aqui uns abacaxis, que são um luxo.
- Deixa um saco de cenoura, se forem grandes. Sabes que só gosto delas grandes e lisinhas; mostra lá esses abacaxis para ver se valem alguma coisa. A propósito, diz lá ao teu irmão, que aquele doutor do Porto a quem ele vendeu a moradia, lá no monte, está furioso, porque diz que a obra está uma porcaria.
- Não pode ser! Como é que soubeste disso?
- Foi a mulher dele, que esteve aqui a fazer compras no sábado passado e contou a quem quis ouvir.
- Olha que o meu irmão é muito consciencioso, tu conhece-lo.
- Pois, por conhecê-lo é que te aviso que se calhar é melhor ele lá ir e remediar as asneiras que fez antes que seja tarde. Ainda fazem queixa dele na Câmara.
- Por aí estou eu sossegado. – Baixou a voz e segredou quase ao ouvido da Júlia - Sabes que ele manobra aquilo tudo lá dentro. Tem o engenheiro e os fiscais na mão, sabes como é! Estava aqui muita gente quando a mulher dele falou da casa?
- Estava cheia a loja, era sábado de manhã. Mas, pelos vistos, não falou disso só aqui.
- O quê? Não me digas!
- Ai digo, digo! A Suzete peixeira já me veio com esse conto. Estás a ver que já está espalhado.
- Estafermo da mulher… Vou telefonar ao meu irmão.
- Isso, sabes bem que a partir de agora, nada dessas coisas podem acontecer. Pode deitar tudo a perder – diz a Júlia.
- Ora, também não exageres.
 
O Bertinho cortava fiambre na charcutaria e esticava o pescoço em direcção ao canto das hortaliças. Por pouco não tirou uma fatia a um dedo, que ainda roçou a lâmina.
- Livra, quase dava cabo da mão…
- Se estivesses com atenção ao que estás a fazer, em vez de olhar para o que vai…- diz-lhe o Zé Bastos.
O Bertinho muito vermelho, não lhe deu a confiança de uma resposta e virou-lhe ostensivamente o traseiro.
 
- Oh Sr. Tita, aqui há mistério. Eles falam baixo, mas nota-se perfeitamente que estão combinados e o assunto é conhecido por ambos.
- Mas falam de quê? Isso é que me trás intrigado.
- Isso também eu queria saber! E agora junta-se a cada passo, a peixeira, essa também sabe do esquema deles.
- Peixeira, que peixeira?
- A Suzete, Sr. Tita, você conhece, não conhece?
- Conheço, de ginjeira… Arranjei-lhe muita caixa de carapau que trazia de Espanha e lhas passava sem lucro, só para a ajudar e agora passa por mim e faz de conta que não conhece.
- Ai a Suzete também andava no contrabando? Muito me conta.
- Nem mais um pio sobre isso, entendido? Quero é que descubras o que andam eles a tramar.
- Só sei que o Zé Bastos anda sempre a correr para Barcelos e só vem à noite.
- Bertinho, abre bem os olhos e os ouvidos, para ver se descobres algo. Lembra-te que o teu futuro pode depender disso. Entendido?
 
“Ora muito boa tarde, senhores “óbintes”. Sintoniza a Rádio Estrela, com Agostinho Moravitch ao microfone, para lhe dar as ultimas notícias. Segundo apuramos, vai iniciar-se na próxima semana, o julgamento dos assaltantes do posto dos correios. A rádio Estrela vai, naturalmente fazer amplas reportagens deste julgamento e vamos até tentar fazer um directo, na leitura da sentença. Tudo para que os nossos “óbintes” estejam informados, em cima da hora.”
 
- Quando tu acabares, vou eu também fazer o mesmo. Temos de aproveitar agora, porque é uma oportunidade única –diz a Júlia ao Zé Bastos.
- Já podias estar como eu, tu é que não quiseste começar este ano.
- Dava muito nas vistas, irmos os dois para Barcelos.
- Isso é verdade, viste há bocado, o safado do teu empregado a tentar escutar a nossa conversa.
- Vi, vi e temos de falar disso. Não podemos mais continuar a tê-lo a coscuvilhar. Mais vale trazê-lo para o nosso lado, que sempre o controlamos melhor.
- Não sei, não… Eu não confio nele, tu já sabes – dizia o Zé Bastos de cenho franzido.
- Mas eu controlo-o, só preciso que concordes, como fizeste com a Suzete.
- Oh mulher, isso é diferente. A Suzete é de confiança e o homem dela também. Agora o Bertinho, não sei. Ainda ontem o vi a falar com o contrabandista.
- Quem, o Quim Tita?
- Sim…
- Mais uma razão para trazermos o Bertinho para o nosso lado. Esse velho mafioso anda a ver se lhe dá a volta e tirar-lhe nabos da púcara.
- Deixa-me pensar, também quero falar com o meu irmão e com os de Barcelos, a ver o que eles dizem.
- Mas vê lá como lhes explicas as coisas!
 
 
 
publicado por Brito Ribeiro às 08:10
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28
Mai 07
O Pincho situa-se na freguesia de S. Lourenço da Montaria, embora seja consideravelmente mais fácil aceder-lhe pela vizinha freguesia do Amonde.
Outrora era um local de difícil acesso apenas servido por um estreito caminho de monte que eu e os meus amigos, na adolescência, percorríamos a pé, pois nem as bicicletas conseguiam passar.
 
 

 
Era um dos locais preferidos da malta de Âncora para passar uma tarde de verão, principalmente quando a nortada nos afugentava da praia. De bicicleta íamos até ao Amonde e deixávamos as “pasteleiras” numa quinta que, simpaticamente, a proprietária nos permitia a entrada.
- Ah… são os moços de Âncora? Ponham aí as bicicletas, ao pé do portão, que ninguém lhes mexe!
Ouvi estas frases vezes sem conta. Depois eram vinte minutos a pé por um caminho que mal se distinguia do resto do monte, ora a subir, ora a descer, até atingirmos aquele local paradisíaco só ao alcance de alguns, sim de alguns, porque havia muita gente que ia lá uma vez e não tornava, devido à dificuldade do acesso. Mas valia a pena, pelo silêncio, pelo isolamento e principalmente pela piscina natural e as suas águas cristalinas, sempre frias mas convidativas.
 
 

 
Anos depois, algum autarca cioso de divulgar aquele tesouro e de mostrar serviço a qualquer preço, decidiu abrir uma estrada calcetada até às suas imediações.
Toda a gente podia ir ao Pincho de automóvel. E foram e continuam a ir. De verão juntam-se inúmeros carros que provocam verdadeiros engarrafamentos, fazem-se piqueniques e acampamentos. Os automóveis são levados o mais perto possível da água, liga-se a música em altos berros, o lixo fica atirado pelos cantos. Acabou o sossego, já não há silêncio, já não há isolamento.
Um domingo de Maio, tarde encoberta, fresca e ventosa, fui (de carro) até ao Pincho com o objectivo de tirar umas fotografias e matar saudades.
Deixei o carro no fim da estrada empedrada e já lá estavam mais três, percorri uns duzentos metros e mais quatro automóveis estacionados na última descida até à água.
 
 

 
Vislumbrei um acampamento com duas tendas, mais à frente outro grupo de jovens conversava animadamente junto à água. O local estava sofrivelmente limpo, mas continuam a faltar os recipientes para o lixo. O monte ardido nos últimos verões está pelado, apresenta um ar desolado, tristonho mesmo.
A beleza natural da cascata e da piscina continua lá, as fotografias estão aí para prová-lo, mas este já não é o “meu” Pincho.
 
publicado por Brito Ribeiro às 12:05

23
Mai 07
O Porfírio encostou-se à parede e começou a tocar um tango na sua concertina. Era sábado à tarde, já tinham feito contas, as pescas eram poucas, mas sempre dava para o caldo.
Desde que chegara da Argentina, mesmo depois de casado com a Maria tinha por habito fazer-se acompanhar da concertina que trouxera das pampas. Não só tocava os viras minhotos, como se apaixonara pelos tangos de sabor ultramarino.
O Porfírio sabia que não demorava nada, para o povo se aproximar e dançar. Já era costume. Das ruas dos Pescadores e da 13 de Fevereiro, gente assomava às portas, as crianças corriam alvoroçadas em direcção ao músico. Com um acorde final, encolheu o fole da concertina, sorriu para a plateia e preparou um cigarro.
Da porta da loja do Anacleto, alguém o chamou, em voz alta.
- Porfírio, anda beber uma malga, para afinar essa garganta!
- Já lá vou, deixai-me primeiro tocar mais uma.
E recomeçou a tocar com a beata no canto da boca, a boina atirada para trás. Que saudades que tinha da Argentina, aquilo é que era uma terra! Curioso, quando lá trabalhava, tinha saudade da sua terra, Gontinhães onde deixara a namorada, onde estavam os amigos e os pais. Agora que tinha regressado, apertava-se o peito cada vez que pensava nas terras que deixara do outro lado do mar.
Lá tinham ficado os seus irmãos, o Justino, mais novo, quase uma criança e o mais velho, o Armindo que era como um pai para ele. Se tudo corresse bem, ainda havia de lá voltar. Trabalho não lhe faltaria, na serralharia do Armindo.
 
Já se dançava no largo, a maior parte eram mulheres, que dançavam umas, com as outras, os homens ainda estavam pelas lojas a conversar e a beber. Aos poucos eles iam chegando. A ver se aparecia alguém que quisesse cantar ao desafio. Talvez mais logo, quando o vinho já fizesse sentir os seus efeitos.
- Oh Porfírio, toca a Laurindinha!
- Agora vou molhar a palavra, depois toco – aproxima-se da moça e diz-lhe em voz baixa – para ti, até toco o que tu quiseres.
- Olha para ele! Tem juízo, lembra-te da tua Maria!
Com uma gargalhada, pôs a concertina ao ombro e caminhou com passos largos para a loja, com o balcão cheio de homens a conversarem animadamente.
- Dai lugar ao tocador – diz um deles, desviando-se.
O Anacleto apresentou-lhe uma malga encardida, onde sobressaíam uns desenhos vistosos e verteu o líquido escuro, contido na caneca de riscas azuis.
- Este é do bom – explica o taberneiro – foi buscá-lo a Outeiro o meu irmão, a semana passada.
- É uma boa pinga, sim senhor – diz o Firola que estava ao lado.
- Vá, bebe a malga e toca uma modinha aqui para a gente.
- Oh Tio João, hoje não, só toco ali em baixo, senão tenho que aturar as mulheres. Vinde comigo, não há aqui ninguém para cantar ao desafio?
Perante o silêncio que se seguiu, desabafa:
- Parece que tendes medo!...
 
Saiu e logo se ouviu o som da concertina e os primeiros versos da Laurindinha, o bailarico estava para durar, iria até ao escurecer. Ora, tristezas não pagam dívidas!
Aquelas sessões de concertina eram habituais, assim como era costume, quando não estava no mar ou a tratar das redes, ir até à fonte tocar um bocado.
A fonte da rua das árvores juntava o povo das redondezas, era abastecida pela água que vinha do Rego do Forno e ao lado, as peixeiras usavam as bancas de granito para fazerem os seus negócios.
À noite, essas bancas serviam muitas vezes de cama à Maria Amélia “do Tostão Branco”, uma pedinte, sem eira nem beira, que nunca largava sua caixinha de rapé. Triste consolo.
Era aqui que o Porfírio gostava de tocar e de fazer “olhinhos” às raparigas solteiras e não só, como a Ciana, uma mulheraça morena, bonita, quase cigana, casada e com filhos pequenos, mas que, diziam alguns, permitia algumas liberdades pela calada da noite, quando o homem estava para o mar.
O Porfírio por várias vezes a tentou seduzir, com o olhar, com músicas e quadras apropriadas, chegou a mandar-lhe uns bilhetinhos, mas a Ciana sempre o rechaçara de mau modo.
“Está a fazer-se esquisita” pensava o Porfírio, sem perder a esperança.
 
Um dia, na loja da Tilde da Curraca, alguém falou no nome da Ciana e o Porfírio que já tinha um copo a mais, a língua destravada e a mente embotada, exclamou:
- Essa é muito fina, não lhe serve qualquer um!
Ninguém reparou no miúdo franzino, com uns quinze anos, que estava à porta a ver os homens a jogar as cartas, que silenciosamente se retirou.
Mais tarde, já homem feito, seria conhecido pelo “Fica Firme”, era irmão da Ciana e foi à procura dela que correu, para lhe contar o que ouvira na taberna.
Quando estava mais animado ou bebia de mais, o Porfírio costumava cantar umas quadras que tinha aprendido na Argentina e que falavam da liberdade, dos pobres e dos oprimidos, dos miseráveis que tinham de labutar de sol a sol, para ganhar uma côdea de pão.
Vários companheiros já o tinham avisado:
- Oh homem, não cantes essas coisas, um dia ainda tens problemas.
- Problemas, eu? Vós tendes é medo. A mim não há quem me cale, eu canto o que quiser.
Um dia, estava no café de cima, o café Central, do Ferraz, tinham-se juntado lá para merendar umas iscas de fígado e umas pataniscas, quando o Porfírio pegou na concertina e começou a tocar. Primeiro umas canções da nossa terra e depois aquelas quadras que ele tanto gostava e que os fregueses do Ferraz ouviam em silêncio.
De súbito, entram dois “praças” da GNR, a concertina cala-se, faz-se um silêncio opressivo.
- Você, acompanhe-nos ao posto – diz um deles, para o tocador.
- Eu, porquê?
- O nosso comandante quer falar consigo.
- Mas porquê?
- Não sei, nem me interessa, vamos, à nossa frente.
 
O Porfírio lá arrancou à frente dos guardas, com a concertina ao ombro. Chegado ao posto, ali a cinquenta metros, se tanto, na Rua 31 de Janeiro, pediram-lhe a identificação, tiraram-lhe o instrumento e meteram-no numa cela gradeada que havia nas traseiras.
No dia seguinte acordaram-no cedo, deram-lhe um gole de café e meia carcaça, mandaram-no ir à retrete e de seguida foi para o gabinete do comandante onde, alem deste, estavam mais dois tipos à civil.
- Então este é que é o tocador de concertina? Onde aprendeste a tocar?
- Foi na Argentina, quando estive a trabalhar.
- Hum, na Argentina, muito bemmm… Terra de comunistas… e de filhos da puta!
O outro civil vira-se para o comandante e diz-lhe:
- Nosso cabo, prepare os papéis que este “pássaro” vai connosco. Vamos pô-lo a cantar para nós, já que tanto gosta.
- Sim senhor, senhor inspector. É para já! – Responde de forma serviçal o comandante, que tinha a cara picadas das bexigas e fama de aplicar castigos corporais a quem lhe caísse nas mãos. Nunca saía do posto sem um “cavalo marinho” que batia negligentemente, mas de forma ostensiva, contra a bota de cano alto.
 
Na rua ninguém se atrevia a aproximar-se do posto, até porque, desde a noite anterior que um guarda passeava ininterruptamente entre a esquina do Portela e a travessa do Teatro, com a espingarda a tiracolo. Porque tinham prendido o Porfírio todos sabiam, não percebiam é como os guardas tinham aparecido assim, de repente. Talvez algum bufo que estivesse no café do Ferraz, ou alguém que ia a passar e ouvisse as quadras, sabe-se lá.
Quem seriam aqueles dois homens que tinham chegados ao posto, manhã cedo, naquele carro negro e aos quais o plantão tinha “batido a pala” em sentido, seriam da secreta?
Coitado do Porfírio, em que trabalhos estaria ele metido, por causa de umas canções sem importância.
A meio da manhã, saiu do posto agarrado por um braço e meteram-no rapidamente no carro, que esperava do outro lado da rua. No Porto, já na sede da PVDE, antecessora da PIDE, deram-lhe um prato de sopa e começaram-no a interrogar.
Queriam saber tudo, onde tinha estado, quem lhe ensinara a tocar, com quem tinha aprendido os versos, quem é que lhe pedira para os tocar e por ai fora. Perguntaram-lhe a mesma coisa vezes sem conta, durante tanto tempo, que perdeu a noção. Mantinham-no de pé em frente de uma secretária, com um candeeiro virado para si, onde estavam sentados dois tipos aos quais não distinguia as feições, um fazia as perguntas o outro tomava notas num papel.
Uma das vezes que cambaleou e se lhe dobraram as pernas, um dos polícias levantou-se pegou numa cana que estava encostada à parede e bateu-lhe nas pernas. Foi como um choque eléctrico.
De vez em quando revezavam-se, saíam uns, entravam outros; uma vez deixaram-no ir à retrete, deram-lhe um prato com arroz e carne, tudo frio e com mau aspecto. Mesmo assim engoliu algumas garfadas, já não comia há tanto tempo. “Que será feito da Maria e do bebé, espero que não os tenham incomodado, já basta a aflição de me saberem preso” pensava o Porfírio, angustiado pela sorte dos seus.
 
Regressado ao interrogatório, voltavam as mesmas perguntas, um dos polícias tinha puxado da pistola e brincava descuidadamente com o cano da arma virado para o detido. Não lhe tinham voltado a bater, mas várias vezes o ameaçaram, se não dissesse com quem falava do Partido Comunista. Já lhes tinha dito, vezes sem conta, que nem sequer sabia que partido era esse, nem para que servia, mas eles voltavam uma e outra vez ao mesmo.
“Se quiserem bater que batam, estou tão cansado que até nem me importo”; não deu pela entrada de outro polícia na sala, que lhe pegou num braço e o conduziu pelos corredores fora, até à escadaria íngreme.
No fundo, um pequeno átrio iluminado por uma lâmpada amarelada e outro guarda que abriu uma porta chapeada a metal. Passada a porta, seguia-se um corredor ainda pior iluminado para o qual abriam mais de uma dúzia de portas, talvez mais de vinte. Abriram-lhe uma delas, reparou que tinha o número 18 gravado junto à fechadura, foi empurrado sem violência e sentiu uma volta da chave e o correr de uma tranca.
 
“Então isto é que é estar preso”, olhou em volta, não havia nenhuma janela, distinguiu na penumbra, um catre de madeira com duas mantas e um balde a um canto. Estendeu-se lentamente, nem sentia as pernas, os socos pesavam-lhe nos pés inchados. Fechou os olhos, não conseguia pensar, a cabeça andava-lhe à roda com os acontecimentos. As lágrimas corriam em fio pela cara até às tábuas duras do catre, deixá-lo, ele não tinha feito nada de mal. Mais tarde ou mais cedo haviam de o pôr na rua, haviam de ficar convencidos que ele gostava de tocar e cantar, nada mais.
Horas depois foi novamente interrogado, sempre as mesmas questões, agora acusavam-no de ser o contacto de um tal Armando e queriam à viva força saber do Bento Gonçalves, do Pável e de Álvaro Cunhal.
“Quem serão?” – Pensava para si o Porfírio. Perguntavam também por uns espanhóis, que eles acusavam de trazer armas para os comunistas. Repetia sempre o mesmo, dizia-lhes a verdade, eles é que não acreditavam. Quando o interrogatório terminou, sabe-se lá depois de quantas horas, levaram-no por um corredor diferente, meteram-no numa cela onde estavam mais três homens. O mais velho, homem para uns sessenta anos, perguntou-lhe:
- Trataram-te mal, camarada? Há quantos dias estás aqui?
- Estou cansado, não me deixaram sentar, doem-me as pernas.
- Há quanto tempo estás a ser interrogado?
- Não sei, acho que começaram ontem ou anteontem, já não sei.
Os outros três entreolharam-se, não precisavam de falar para compreender que aquele desgraçado estivera, pelo menos, quatro ou cinco dias a ser interrogado impiedosamente.
Ajudaram-no a deitar-se num dos beliches, taparam-no com uma manta e recomendaram-lhe que dormisse. Em princípio, tão cedo não seria novamente interrogado. Eles já sabiam como os polícias se comportavam, já não era o primeiro contacto que tinham com aqueles torcionários.
 
Na Lagarteira nada se sabia do Porfírio, a única informação viera pelo tenente da capitania, que foi ao posto da GNR saber o porquê daquela inesperada prisão.
O comandante contou-lhe que fora uma mulher que ao ir para a missa vespertina, ouvira aqueles versos subversivos e fora informar a guarda, que tinha capturado o agitador em flagrante, tendo de seguida dado parte do acontecimento ao agente da PVDE de Caminha; este imediatamente oficiou para o Porto, de onde se deslocaram, no dia seguinte, dois agentes para custodiar o detido, a fim de ser interrogado convenientemente.
Claro que o tenente não contou estes pormenores todos à família, limitou-se a dizer:
- O Porfírio está no Porto a ser interrogado, se estiver inocente, não tarda a aparecer por aí. Tenham calma, que tudo se há-de arranjar.
Afinal acabou por estar preso quase três meses, ainda foi interrogado mais um par de vezes, chegaram a mostrar-lhe umas fotografias, mas ele não reconheceu ninguém. Quando chegou à terra vinha mais magro, tinha perdido mais de dez quilos, notava-se principalmente na cara e nos olhos tinha desaparecido aquela alegria, que todos lhe admiravam.
Durante muito tempo a concertina esteve calada, com o tempo voltou a tocar uns “viras” e uns tangos, sem o entusiasmo de outrora.
Anos mais tarde, veio a saber por um marinheiro da capitania, a quem o tenente confidenciara a verdade sobre a prisão do Porfírio, que a denunciante tinha sido a Ciana, como vingança do que ele dissera na taberna da Curraca.
publicado por Brito Ribeiro às 17:52
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21
Mai 07
Mais uma vez estamos às portas de novo período estival, com as almejadas e merecidas férias. Vila Praia de Âncora como destino turístico que é há muitos anos, espera as enchentes costumeiras, com a praia a abarrotar, os estacionamentos sempre difíceis, os restaurantes cheios, as casas mais ou menos alugadas, o bulício do costume.
 
Bem, espero que não seja tudo como o costume e vocês já sabem porquê! Esta “marmelada” da poluição no rio tem de acabar, tem de ser obra do passado, tantas vezes repetido.
No ano passado foi uma desgraça com a praia a ser interditada e com um cenário, no mínimo surrealista, de se saber onde era ou deixava de ser a praia das crianças. Que isso é coisa que até nem me importa.
 
O essencial é não ter poluição do rio até ao final da época balnear, sem as escandaleiras acostumadas há mais de dez anos. E a situação em vez de melhorar, piora a cada ano que passa, apesar das intenções e das promessas dos nossos autarcas.
Se calhar estou a ser profeta da desgraça e o ano até vai correr bem. Oxalá que assim aconteça, mas nada me garante que neste ano e no próximo ano e por aí adiante o problema está definitivamente resolvido, que não vão haver mais mentiras, mais desculpas idiotas e tolas, mais vergonha para a nossa terra, mais prejuízos para Vila Praia de Âncora.
 

 

Ainda não vi qualquer obra estruturante que me permita ficar sossegado a este respeito, apenas vi um pequeno levantamento de anomalias numa linha de água executada por um técnico, acção que é nitidamente insuficiente para colmatar de vez a conspurcação do rio Âncora. Aliás, estudos não resolvem problemas, apenas fazem diagnósticos para aplicação de medidas correctoras.
Toda esta prosa vem apenas para lembrar que estão a iniciar-se as colheitas de amostras das águas balneares e em breve teremos resultados qualitativos, espero eu que desmintam o meu pessimismo.
 
Deixem-me já agora partilhar convosco outra preocupação e que se prende com a limpeza das áreas dunares, onde se acumula lixo que chega a estar lá anos. É aborrecido e desvaloriza o resto do trabalho se apenas se limpar por onde “passa a procissão” deixando todo o tipo de detritos espalhados por zonas mais remotas. Se passarem pelos passadiços das dunas, que precisam de uma boa revisão, vêem do que estou a falar.
publicado por Brito Ribeiro às 20:43
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18
Mai 07
Já aqui contei que a minha infância passou-se entre a rua 5 de Outubro e o Largo do Sol Posto. No tempo em que ainda não havia televisão, nem computadores, nem consolas, nem sequer bicicletas para nos entreter, as nossas brincadeiras variavam conforme as temporadas e nunca percebi quem ditava ou quem comandava essas mudanças.
Por exemplo, quando começava a escola, em Outubro, era tempo do pião, semanas depois, passava toda a rapaziada a jogar ao eixo, ao espeto, ao botão ou à bilharda, já não me lembro, como era a sequencia.
Havia no entanto alguns jogos que eram universais e que os utilizávamos a qualquer momento, dependia dos parceiros, se éramos muitos, jogávamos à bola, se éramos poucos, podia-se “andar” às escondidas ou aos “cóbois”.
 

Os desafios de futebol do Sol Posto eram famosos e às vezes até tinham assistência. Os do Sol Posto desafiavam ou eram desafiados pelos rapazes dos outros lugares. As balizas eram o portão preto da quinta ao norte e o portão da oficina do Zé Ferreiro ao sul.
Estes desafios só se realizavam depois da oficina fechar ou quando o Zé Ferreiro não estava, pois ele não queria ver a malta a chutar em direcção à oficina e os automóveis que lá estavam, a servir de guarda-redes. Desde que não lhe mandássemos a bola para dentro da oficina estava tudo bem. O que ele não sabia, é que às vezes, eram os seus empregados que nos pediam para lhes passarmos a bola, de forma a eles também darem uns toques.
Mas também havia rapazes, que embora não morassem naquele zona, estavam sempre por ali e já quase eram do nosso grupo, já não eram estranhos. Lembro-me que o Luís, filho do Zé Ferreiro, mais conhecido pelo “Didon”, estava habitualmente acompanhado pelo Luís Gomes, o “La Rache”, o Ernesto do talho, o Esteves, e mais alguns que agora não recordo. O Dimas também fazia parte desse grupo, mas esse morava ali em cima.
Na oficina dos automóveis, trabalhavam o Silvestre e o Berto que eram os mais velhos, recordo-me do “Zotopec” e o Vasco, irmão do Dimas, que moravam a escassos cem metros e eram filhos do tenente Ribeiro. Acho que era o Berto que tinha uma moto pesada, um daqueles modelos ingleses e que era o encanto da miudagem.
Mais tarde, saiu com o Silvestre e estabeleceram-se por conta própria, no fundo da Rua 31 de Janeiro, em frente ao matadouro. Antes deles já tinham saído, também para se estabelecerem por conta própria o Zé Rocha e o Armando, mas disso não me lembro, já não foi no meu tempo.
 
Quando não dava para um jogo ou outra brincadeira, íamos até ao Juca, vê-lo trabalhar e até nos deixava ajudar. Trabalhava de latoeiro ou funileiro, num barraquito ao lado da casa e era aí que fabricava as caleiras ou algerozes, os cântaros, as bacias e punha uns pingos de solda para vedar qualquer panela furada.
Uma das expressões favoritas do Jucas era: “Também queres que te ponha um pingo”? Perguntava ele com o seu ar malandreco!
Nunca vi aquele homem chateado ou a fazer má cara, fosse para quem fosse, muito menos para os miúdos. É muito conhecida a história do porco do Juca que estava tão farto, que já nem queria comer mais farinha, quase tão conhecida como a história do Portela.
 
Mas este homem tem muitas mais histórias, como por exemplo quando lhe deram uma camisa que estava como nova, excepto nas costas que estava toda rota. Ora o Juca e a Bonança, a mulher, foram ao baile à Sociedade e ele levou a dita camisa, por baixo do casaco. Só que nos bailes da Sociedade, ao fim de pouco tempo fazia um calor infernal. A sala era pequena, muita gente e mesmo com as janelas abertas fazia muito calor e o Juca a escorrer água.
- Oh Juca, não tens calor? Tira o casaco, homem!
- Deixa estar, estou bem assim.
 
Mas deixem-me contar-vos a cena do porco, porque ainda há quem não a conheça. O Juca dizia que tinha um porco que comia tanto, que até estava enjoado de farinha, já nem a queria. Claro que ninguém acreditava, porque a farinha era cara e o Juca um pobre, que mal tinha para si e para a família, quanto mais para o porco. Mas ele não desarmava, insistia e até demonstrava:
- Queres ver? Anda daí. – E entrava na corte do porco, tirava um punhado de farinha de um saco e deitava na pia. O porco avançava para a pia, metia o focinho na farinha, fungava e virava costas.
- Estás a ver, eu não te dizia? Já nem quer farinha!
O porco estava com uma “larica” desgraçada, mas ainda não se habituara a comer o serrim de madeira, que o Juca lhe deitava. Pois é, a farinha era serrim…
 
Uma vez, engataram o Juca para ser da Legião Portuguesa. Foi o “Nequinha” Sottomayor que o “convidou” e o Juca não teve como dizer que não. Naquela época era assim! Como a Legião era uma estrutura muito pouco eficiente e muito desleixada, o Juca também nunca se importou, porque não lhe dava canseira nenhuma e ainda recebia algumas ajudas lá para casa, até que foi nomeado encarregado do fardamento da quina ou lá como se chamava o agrupamento da Legião ancorense.
Já não me lembro como era o fardamento da legião, mas ainda vi uma ou duas vezes no campado, os “nossos” legionários a marcharem. Um dia, alguém foi dizer ao chefe da quina ou do terno, que o Juca vestia as camisas da legião para trabalhar, foi-lhe instaurado um processo disciplinar e acabou mesmo ali a sua brilhante carreira de legionário. Foi expulso da Legião e só lhe restou um cinto ao qual laboriosamente alterou a fivela para não ser reconhecida, senão ainda lhe dava mais chatices.
 
Anos depois, o Juca chegou a emigrar para França, mas pouco tempo lá esteve, regressou e construiu uma casita na Vista Alegre, onde passou a trabalhar. A Bonança, uma mulher calada e que tinha um coração enorme para aturar as maluqueiras do Juca quer estivesse sóbrio, quer estivesse com os copos, faleceu ainda nova, embora os filhos já estivessem criados.
O mais velho, o Zé, abalou para a França onde ainda vive, o Toninho que saiu ao pai, amigo do copo, da brincadeira e da palhaçada, depois de trabalhar muitos anos no Hotel Meira, emigrou para Andorra, mas vem até Âncora duas ou três vezes por ano.
Este “melro” andou na escola comigo e era o meu parceiro para tudo. Como era mais velho que eu, safou-me de algumas enrascadas nas quais eu me metia com “demasiada” facilidade na escola. O Toninho era uma espécie de meu segurança privado, que eu recompensava, ajudando na resolução dos problemas da aritmética.
Acho que lhe paguei tudo o que fez por mim, no dia em que o tirei nas águas dos “Caldeirões” onde ele se ía afogando e todos pensávamos que estava na brincadeira. Todos não, eu achei que não era brincadeira, e não era mesmo. O gajo estava a afogar-se mesmo à nossa frente! Os amigos são para as ocasiões!
 
Havia aqui em Âncora um homem a quem chamavam o “Cristo” e como o apelido de Juca era Jesus, cada vez que o encontrava, ajoelhava-se e dizia-lhe: - Cristo, dá a tua bênção a Jesus. E o “Cristo” entrava no jogo e respondia – Eu te abençoo-o, Jesus. Vamos beber um copo, hoje pago eu.
Por mera casualidade, a minha mulher abriu uma pequena mercearia na Vista Alegre, em frente da casa do Juca. Às vezes era um cinema, bastava o Juca estar bem disposto ou bem bebido, para haver uma “matiné”, em que ele se metia com todos e era um fartote de tanto rir. Uma ocasião, combinado com a minha mulher, ele chegava à loja e da porta perguntava muito sério:
- Paula, já chegaram as chiolas?
- Ainda não, tio Juca.
- Então, não disseste que chegavam hoje? Estão a fazer-me tanta falta…
Nesta altura havia sempre alguém, alguma freguesa, que se metia na conversa e perguntava:
- Que é isso das chiolas, Juca?
- É um pau com duas bolas.
- Ah… Ai o ordinário…
E o Juca regressava a casa, bastava-lhe atravessar a rua, a rir-se à gargalhada.
 
Certo dia, o Juca foi à farmácia comprar “camisas”, esperou um momento que não estivesse ninguém, entrou acelerado quando viu a oportunidade e disse para o Durval Brito:
- Arranje-me aí umas “camisas”, sr. Brito.
- Das do costume ou queres umas novas, que são mais baratas.
- E são boas, à mesma?
- É a mesma coisa, só muda a marca – explica o farmacêutico.
- Então dê-me uma dúzia dessas mais baratas.
O Juca lá saiu da farmácia todo contente com o embrulhinho no bolso e quando usou a primeira teve uma surpresa, pois o preservativo era tamanho XXL, quero dizer era grande e saia com muita facilidade. Vou abrir um parêntesis para explicar que esta história, contou-ma ele próprio. Então dizia-me ele:
- Oh Brito, as “camisas” pareciam sacos de fazer o café!
- Você é que não punha aquilo direito.
- Punha! Aquilo dava é para um cavalo, tu havias de ver. Mas eu fui lá reclamar à farmácia e quase me chateava com ele.
- Chateava porque? – Perguntava eu que quase chorava de tanto me rir.
- Quando lhe disse que aquilo era muito grande e que se desenfiava, aquele filho da puta disse-me que eram camisas para a piça dum homem. Tu estás a ver?
- Estou, estou… E você, que lhe disse?
- Eu disse-lhe que, se não fosse educado, lhe respondia. Virei as costas e saí.
- Mas afinal, se lhe respondesse o que é que lhe dizia?
- Dizia-lhe que a mulher dele é que ia ver quem tinha p… de homem. Mas não disse nada, só pensei.
 
Quando enviuvou o Juca passou a viver só, apesar de ter arranjado, tempos depois, uma amiga, a Rosa, que o visitava, mas cada um vivia em sua casa.
Todos os sábados de manhã ia ao cemitério, lavar a campa e pôr flores à “sua” Bonança. Havia mulheres, que também iam ao cemitério e esperavam que ele passasse para o acompanharem, pois parece que eram um pagode aquelas viagens. Imaginem o Juca, só, no meio dum rancho de mulheres. Todas a puxarem por ele, o “paleio” havia de ser bonito!
Uma das expressões que recordo dele, a propósito de mulheres: - Porque é que Deus nos tira a força e não nos tira a ideia?
Outra coisa que achava piada, era quando lhe perguntavam.
- Então Juca, o que comeste hoje?
- Uma lampreia cozida, com hortaliça e umas batatas.
Ou outro disparate qualquer, que lhe viesse à cabeça. Adoeceu, passou a comer dieta, deixou de beber e eu pensei cá para mim, “isto vai arrumar o Juca”. Ainda arribou, durou pouco mais de um ano e foi-se.
Revi o Zé, o seu filho mais velho que já não via há muitos anos. Chorei silenciosamente a morte daquele homem. Tinha perdido um amigo.
 
 
 
 
 
 
 
 
publicado por Brito Ribeiro às 18:06
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16
Mai 07
Como os gajos bestiais passam a bestas
Uma segunda-feira, peguei no Clio comercial que me estava distribuído e arranquei para o sul, onde me esperava a Maria Paula, nossa agente em Lisboa e que estava encarregue de não deixar parar a máquina, que recolhia as encomendas nas lojas, recepcionava as mercadorias vindas da fábrica e as entregava nas melhores condições aos clientes. Isto duas vezes por semana. Esta mulher nem tempo tinha para se coçar.
Originalmente o agente tinha sido o pai dela, o sr. Manuel Maria Silva com quem ainda aprendi algumas coisas, pois era um comercial de primeira divisão, adepto ferrenho do Belenenses, tinha-lhe dado um AVC, resistiu uma semana e finou-se.
Ficou a filha em seu lugar, que tinha trabalhado num semanário qualquer, como administrativa. Tinha a dinâmica e a disponibilidade do pai, faltava-lhe a experiência, que ganhou em pouco tempo.
 
Apesar de saber como a zona estava trabalhada e confiar no trabalho do meu antecessor, o Camilo, decidi que iria levar as coisas a eito, analisar e decidir tudo de novo. Nesse momento, a Agros já nos cortava fornecimento de leite, devido a atraso nos pagamentos e era preciso ir buscá-lo às Astúrias em camião cisterna.
As encomendas eram rateadas à nossa inteira responsabilidade, por falta de produto. O cliente pedia dez caixas de isto, cinco de aquilo, mais vinte de outro produto qualquer, e nós tínhamos que saber as disponibilidades da fábrica, saber quanto é que tocava àquela zona e depois ratear; em vez de dez, vamos mandar três, aí a Maria Paula insurgia-se e reclamava “ não pode ser, depois eu é que os aturo, tem de vir pelo menos sete caixas” e eu escrevia quatro…
Angustiava-me saber que podia vender, vender, vender e estava pendurado, estava dependente das quantidades que o Manuel de Sousa ou o Chico Santos me disponibilizavam. A empresa que eu conhecera há meia dúzia de anos, que tinha uma reputação invejável, já não existia. A empresa na qual eu ingressara, que era sinónimo de gente séria e boas contas, estava endividada até ao pescoço, eu duvidava das contas e até de alguma gente, pretensamente séria.
 
Uma manhã recebo um telefonema do Chico Santos, nós tínhamos uns telemóveis Ericsson que pesavam mais que um quilo de broa, a dizer-me, todo misterioso, todo segredeiro, que queria falar comigo: - Está bem pá, desembucha!
- Não pode ser aqui, passa no sábado pela minha casa.
- Então, eu na sexta à tarde, estou aí na fabrica…
- Não, não, nem penses nisso, na minha casa, mas não digas nada a ninguém…
Cá para mim pensei, “o Chico arranjou uma encrenca de papéis, com algum cliente, agora quer que eu safe a enrascada em Lisboa”. Já não era a primeira vez…
Sábado ao fim da tarde, peguei no carro (no meu), atravessei a Ponte de Abadim, entrei na Aspra e buzinei em frente à casa do Chico. Em vez de sair de casa, apareceu vindo da tasca do Viso, que fica paredes-meias com a sua residência, ainda com as cartas da sueca na mão.
Levou-me para a casa, para a cozinha e entregou-me um molho de papéis que foi buscar lá dentro. Comecei a ler e devo ter ficado branco, pelo menos sem pinga de sangue, eu que já estava vacinado contra todas as espécies de raiva.
O que ele me mostrou, eram cópias de relatórios semanais, da direcção comercial para a gerência, onde era analisado o desempenho de cada um dos comerciais. O que chamava mais a atenção eram os meus relatórios, melhor, eram os relatórios sobre mim, que eram demolidores. Já se passaram oito anos, desde que vi alguns desses relatórios e ainda hoje não consigo compreender o motivo de tais falsidades e de tais mentiras.
Não interessa o que lá se dizia, mas era escrito por um gajo que eu considerava quase como um irmão, fui eu que o meti na Empresa e esses relatórios eram visados pelo director que eu ajudei até ao limite, só faltou andar com ele ao colo.
Esses relatórios eram passados ao computador pela Sandra, que embora não tendo a coragem de me dizer nada, aquilo que ela escrevia e que sabia ser mentira, revoltou-a tanto, que pediu ao Chico Santos para me alertar. Aos dois, tenho essa imensa dívida de gratidão.
Não fiquei (não quis ficar) com nenhum desses relatórios, mas o Chico e a Sandra estão bem vivos e sabem a verdade sobre a pulhice que me fizeram, a mim e ao Camilo, pois também era visado, embora de uma forma mais subtil. Acho que o Chico ainda tem esses papéis.
 
Cerca de dois meses depois de ter sido despachado em grande velocidade para Lisboa, deram-me ordem de regressar à empresa, o dr. Tiago, aquela sumidade, levou sumiço, nunca mais o vimos e a coisa estava negra.
O Manuel de Sousa e o Armindo deram-me como tarefa, na fábrica, conferir as contas correntes e encontrar solução para débitos antigos. Era preciso encontrar duplicados de facturas, guias de remessa recepcionadas e assinadas e mais não sei quê.
Apesar de estar fortemente endividada, a Empresa tinha na rua cerca de meio milhão de contos, muitos deles de difícil ou nula possibilidade de recuperação, porque nunca puseram a trabalhar um advogado de Caminha que tinha uma avença há não sei quantos anos. Aquilo não era uma avença, era uma “mama” e das grandes! As duas funcionárias da tesouraria também deviam ter muito que fazer!
Algumas semanas depois, fui chamado ao gabinete do Francisco Presa, que depois de alguma conversa de circunstância, me propôs rescindir o contrato de trabalho. Até nem fiquei admirado. Acho que até já esperava!
Claro que lhe disse que estava disponível para negociar, desde que as condições fossem aceitáveis. Esclareceu-me que não era possível a empresa me indemnizar, devido às dificuldades financeiras, ao que respondi (delicadamente) que da minha parte, também não era possível andar a fazer favores desses. E lá continuei entre o arquivo e um gabinete interior, sombrio e desabitado, a pesquisar papéis velhos. Ninguém me chateava, se não fosse pelo burlesco da situação, quase podia dizer que nunca estivera melhor!
No mesmo dia, o Camilo também foi convidado a despedir-se e a resposta foi a mesma, só que mais à bruta, não fosse o Camilo um bocado destravado de língua.
O terceiro e último dos funcionários da Empresa de Lacticínios Âncora a ser convidado a “dar de frosques” foi o dr. Patrick Keating que apesar da idade, já tinha setenta e tais, sabia muito bem pôr o dedo na ferida, apontar em voz alta e português correcto, onde estavam os erros e quem eram os culpados daquelas aflições.
Aparentemente seriam estes os três funcionários, que estavam a levar a fábrica à ruína. Não só parecia anedota, como era uma verdadeira anedota.
Três dos funcionários que mais tinham lutado, sem desprimor para muitos outros, contra o estado de decadência da empresa, que analisavam e apontavam com imparcialidade as deficiências de funcionamento, eram agora, ou melhor, queriam que fossem o bode expiatório, a desculpa de mal pagador. Ainda não disse que o dr. Patrick foi o criador do queijo Serra D`Arga, o produto com mais sucesso da Empresa e que dava mais dinheiro, excepto quando era mal fabricado e vinha devolvido às toneladas.
 
 
Foi por esses dias que rebentou outro escândalo que virou tudo de pernas para o ar. Soube-se que havia um conjunto de funcionários que estavam, há muito, a trabalhar na sombra para fundar outra empresa.
Aqueles que eram bestiais, passaram a bestas, do dia para a noite. Os sentimentos eram contraditórios e chocavam entre si. Uns estavam indignados com a traição dos colegas, outros estavam lixados com a descoberta (da traição) e de se lhes acabar a "mama", outros estavam indiferentes ou simplesmente divertidos. Eu era dos indiferentes, até porque já tinha fortes suspeitas, praticamente certezas. Não estão a perceber? Vamos por partes!
Quem fez rebentar a “bomba” foi o Elias Presa; descobriu que havia uma quantidade de gajos, capitaneados pelo António Dias, um fulano que trabalhava na contabilidade, que estariam a preparar o terreno para abrir uma nova empresa de lacticínios, com o apoio do sogro desse “comandante”, um tipo qualquer de Porto Rico, Honduras ou desses lados. É pá, não me perguntem de onde veio a massa, já agora!
Quem estava na jogada era o Manuel de Sousa, o Armindo e o Vítor, todos do departamento comercial, mais meia dúzia de elementos, escolhidos a dedo em diversos sectores, desde motoristas a técnicos de fabrico, técnicos de manutenção e até uma engenheira da qualidade.
 
Eu tinha sido alertado, algumas semanas antes, pelo Natalino Ramos, um grande cliente de Moreira de Cónegos, perto de Guimarães, que tinha um apartamento de férias na Av. Ramos Pereira, a cinquenta metros da minha casa; num fim-de-semana que ele veio passar a Âncora, encontrou-me e às tantas, no meio da conversa, disse-me que tinha sido sondado, em grande segredo, pelo ainda director comercial da Âncora, para comercializar os novos iogurtes e demais produtos que iriam ter.
Por sua vez, o Camilo também tinha sido contactado por um cliente amigo, o Domingos Silva, de Guimarães, com a mesma conversa. Ligar as pontas da história e montar o filme, foi apenas um instante e nisso éramos bons. Só não conhecíamos a extensão da equipa…
Aí é que começamos a compreender os cuidados que tiveram para nos afastar da zona do Minho, de nos empurrar para longe, na tentativa de nos afastar da manobra traiçoeira que preparavam, enquanto funcionários da Âncora. Tudo isso, enquanto a gerência dormia o sono dos justos… e dos nabos!
 
Reúne a Assembleia-geral dos sócios, decidem contratar um gestor com experiência na recuperação de empresas em situação difícil, o sr. Mendes Carvalho, que fumava cigarrilhas turcas, uma pestilência e um horror quando tínhamos de ir ao seu gabinete, devido ao “smog” que lá pairava. O novo gestor não foi em cantigas e cortou a direito, nomeadamente nos privilégios dos antigos gerentes e outros directores. O homem era duro e sabia onde actuar.
Entretanto, depois da barraca ter sido descoberta, todos os envolvidos pediram a demissão, o que causou mais uma grave perturbação, principalmente a nível comercial, já que o Camilo também se tinha despedido, para ir tratar de vida noutro lado.
De repente fiquei eu e o César sozinhos! O Mendes Carvalho nunca tinha falado comigo sobre o serviço e eu também estava mudo e quedo. Uma tarde apanhou-me na sala de convívio a tomar um café, ele também tirou um da máquina, virou-se e perguntou-me de chofre o que se passava na fabrica, porque é que um tipo como eu, que tinha o cargo de adjunto do director comercial, estava a escarafunchar no arquivo e nas teias de aranha.
E eu contei, contei o que sabia, expus o que pensava, contei a minha verdade. Contei-lhe a minha versão da verdade. Ele ouviu, fumou mais uma “broca”, no final disse-me que a partir daquele momento, só responderia perante ele e que podia continuar tranquilamente a fazer o serviço que me tinham destinado.
 
Um ou dois dias depois, pediu-me para ir ao gabinete do Francisco Presa e os dois convidaram-me para assumir o cargo de director comercial da Empresa de Lacticínios Âncora.
Eu aceitei, como a advertência de ter intenção de me por a andar brevemente, o que aconteceu ao fim de pouco mais de um mês. Por isso meus amigos, não se preocupem quando passarem de bestiais a bestas, porque mais tarde ou mais cedo, voltam a ser bestiais.
Fiz asneira e hoje lamento não ter ficado na Âncora até ao seu encerramento, também por motivos financeiros, mas principalmente porque gostei de trabalhar, embora pouco tempo, com um individuo que fazia gestão em tempo real, que não perdia tempo com reuniões de treta, que aceitava a opinião dos que estavam por dentro e que acima de tudo era rigoroso com os objectivos. Tudo o que os anteriores não tinham sido!
 
A minha história na Empresa de Lacticínios Âncora termina aqui. A empresa encerrou pouco mais de um ano depois, abriu falência, foi a leilão, foi esventrada, apareceram uns espanhóis, que tem aproveitado a fabrica, mais para entreposto, do que propriamente para produzir. Trabalham lá meia dúzia de pessoas, a maior parte delas sem vínculo laboral de espécie alguma. Nem sequer uma sombra da antiga, prestigiada e lucrativa fabrica de outrora.
Não saí zangado com ninguém, mas saí triste, triste por ter razão e não ter sido escutado, triste por ter sido injustiçado e até maltratado com base em mentiras, triste por ver acabar, sem brilho, nem glória, uma fabrica com mais de cinquenta anos de vida, uma fábrica que representou, para muitos, a própria vida. Eu só lá deixei dez anos!
publicado por Brito Ribeiro às 17:47
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15
Mai 07
Mais um caso arrepiante passado com crianças tem entrado diariamente em nossas casas, pelas televisões e pelos jornais.
Refiro-me à criança inglesa que desapareceu no Algarve, da cama de um quarto, situado num aldeamento de luxo, que se supunha tranquilo e seguro. Acho que ninguém no seu juízo perfeito não é solidário com aqueles pobres pais e não apoia os esforços dos nossos polícias.
Mas é notório que houve e continua a haver um tratamento diferenciado neste caso. Se fosse uma criança portuguesa filha de uns “desgraçados” quaisquer, fazia-se uma investigação com meia dúzia de agentes e quando os meios de comunicação perdessem o interesse, por haver algum acontecimento ainda mais suculento, o caso ia lentamente morrendo na poeira do esquecimento. Pelo menos desta vez não foi assim e é, apesar de tudo, de louvar.
Só que dez dias depois do desaparecimento os resultados são nulos e parece que a menina se desvaneceu no ar. Ninguém a viu, os cães não detectaram qualquer rasto, a área foi passada conscienciosamente a pente fino, foram interrogadas centenas de pessoas e nada.
Certamente que há indícios, quiçá pistas, que a polícia não divulga, para não prejudicar as investigações, digo eu.
Mas há várias coisas que me metem confusão, como o facto de os meios de comunicação não terem qualquer trabalho de investigação própria. Em dez dias, ninguém avançou com dados de investigação jornalística, nem portugueses nem ingleses, nem televisões, nem jornais. Porquê?
Será que esta cobertura perfeitamente medíocre do caso, apenas acontece por recomendação da própria polícia ou estamos perante uma brutal e generalizada falta de qualidade dos meios de comunicação envolvidos? Acredito que seja a primeira hipótese e, a ser verdade, significa que a polícia acredita que a criança está perto, provavelmente na região e eventualmente viva.
Por outro lado, tenho visto um criminalista, Barra da Costa, no telejornal, a tecer críticas e a levantar suspeitas direccionadas à polícia inglesa e à comunidade inglesa residente em Portugal, baseado em informações de “fonte segura” como costuma dizer. E é curioso que ainda não foi desmentido, nem contrariado por ninguém.
Será esta uma forma da polícia portuguesa dizer indirectamente aquilo que não pode dizer oficialmente? Não sei, mas o comentador que refiro, já foi da Judiciária e aparentemente sabe do ofício.
Uma coisa é certa, uma menina de quatro anos desapareceu, parece não existirem duvidas que foi rapto, as nossas fronteiras não foram encerradas em tempo útil e de forma categórica e eficaz, quem fez este “trabalho” fê-lo com premeditação, com intencionalidade e com meios de dissimulação e encobrimento eficazes. As motivações continuamos a desconhecê-las, vingança, dinheiro, adopção, pedofilia ou alguma tara ainda mais esquisita, não sei, não sabemos.
Apenas temos a certeza que a menina desapareceu, acho que estamos todos revoltados e angustiados com a sorte, com o futuro desta criança. Todos nós já fomos crianças, muitos de nós somos pais ou avós, sabemos como é. Por favor, deixem as crianças crescer em paz!
 
                                                                                          
 
publicado por Brito Ribeiro às 12:42
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14
Mai 07
A 4.000 metros de altitude o instrutor de pára-quedismo faz as ultimas recomendações aos novos alunos:
- Já sabem, após o salto, contam até dez, puxam a argola e abre-se o pára-quedas.
Pouco depois, após todos terem saltado, o piloto do avião repara que apenas um dos alunos desce vertiginosamente, ainda sem o pára-quedas aberto e diz para o instrutor:
-Olha, lá vai o gago...
publicado por Brito Ribeiro às 12:42
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10
Mai 07
 
 
Localização
Vila Praia de Âncora, Pç. da República
 
Protecção
Inexistente
 
Enquadramento
Urbano, flanqueado, implantação harmónica. Integrado no tecido urbano, com frontaria voltada para um largo em dois níveis, unidos por escadaria, que constituem o seu adro, calcetamento em laje de granito. Portal com acesso por escadaria de cinco degraus semicirculares.
 

Descrição
Planta longitudinal composta, por nave e capela-mor mais baixa e ligeiramente mais estreita, com sala anexa, baixa e poligonal, de dois pisos, e torre sineira quadrangular a Sul, adossada à fachada principal. Coberturas escalonadas com telhados de duas águas na nave e capela-mor, de três na sacristia e coruchéu piramidal na torre.
Frontaria, orientada a Oeste, com embasamento saliente e rematada em empena recortada, coroada por cruz latina, alta. Portal axial de pés-direitos ressaltados sobrepujado por frontão curvo que abriga o símbolo das iniciais da família Medeiros; encima-o janelão rematado em arco pleno, assente em ornatos vegetalistas. Nos cunhais pilastras jónicas suportam um entablamento clássico, com cornija em denticulado, rematados por fogaréus.
A fachada Norte rematada por friso e entablamento, tendo uma porta, simples rectangular. A fachada Este, apresenta cornija moldurada, tendo os cunhais com pilastras toscanas, sobrepujados por fogaréus e no remate da empena uma cruz latina, alta, com remates em ponta de diamante.

No interior da nave e capela-mor, os paramentos têm silhar de azulejos, e reboco na restante área. Sobre a entrada principal coro-alto, resguardado por balaustrada, com acesso pela torre sineira. No topo da nave, dois retábulos colaterais, em talha pintada e dourada, postos de ângulo. Arco triunfal de volta perfeita, liso, com aduela de fecho sobreposta por pedra de armas da família Medeiros, assente em pilastras toscanas. Na capela-mor, retábulo-mor em talha pintada e dourada, com acesso através de três degraus.
Tecto de masseira com painéis figurando os Mistérios do Terço, enquadrando, na nave, a imagem de Nossa Senhora da Bonança e os símbolos de Vila Praia de Âncora. A sala anexa, correspondendo a um aumento da área da nave, está em comunicação com esta pela abertura de metade da sua parede Sul, assim como por parte da mesma parede da capela-mor e fazendo o seu eixo com o desta um ângulo de 90°, albergando no extremo E. a sacristia e no piso superior um salão paroquial.
 
Descrição Complementar
A torre sineira adossada à parede Sul, com acesso por quatro degraus que conduzem a uma porta, simples de vão rectangular, tem três registos separados por cornija, com cunhais em pilastras toscanas, apresentando no andar superior uma sineira de quatro janelas, com remate frontal em frontão curvo e com fogaréus sobrepostos aos cunhais.

O interior é iluminado pelo janelão implantado sobre o pórtico principal e por duas janelas altas, de vão rectangular, gradeadas e envidraçadas, colocadas nas paredes laterais da nave e capela-mor, complementadas por janelas mais baixas e alongadas que iluminam a sala anexa à nave.
Os altares laterais são dedicados a Nossa Senhora da Bonança, do lado do Evangelho, com a inscrição no ático: "ALTAR / DE N. S. / DA BONANÇA. / OFFERTADO / PELOS PES/CADORES / 1893.", e ao Sagrado Coração de Jesus, do lado da Epístola.
 
Propriedade
Privada: Igreja Católica
   
Cronologia
1890 - início da construção da capela com a configuração actual, no lugar da antiga capela oitocentista da Senhora das Necessidades;
séc. 20 - década de 20 - acabamento da torre sineira; década de 70 - pinturas do tecto da nave e capela-mor; 1987 - construção da sala anexa à nave.
 

Tipologia
Arquitectura religiosa, neoclássica. Igreja neoclássica de planta longitudinal composta por nave e capela-mor rectangular, mais baixa e estreita, com frontispício terminado em empena recortada, portal de verga recta encimada por frontão e nicho, e tendo adossado a torre sineira quadrangular.
Fachadas laterais percorridas por cornija e rasgadas por uma janela na nave e capela-mor e por um portal na lateral esquerda. Interior um pouco adulterado, ostentando retábulos em talha pintada e dourada neoclássicos.
 
Características Particulares
Brasão de armas da família Medeiros sobre a aduela de fecho do triunfal.
   
Materiais
Estrutura em granito e cimento, altares em madeira, cobertura interior em estuque e exterior em madeira telhada, pavimento em mosaico, paramentos rebocados e com azulejos, portas de madeira, balaustrada em madeira, janelas gradeadas e envidraçadas.
 
Fontes: Direcção Geral dos Monumentos Nacionais
 
 
 
publicado por Brito Ribeiro às 17:28

09
Mai 07
O vento chegava em rajadas, era vento de norte, o frio cortava e a rua não oferecia abrigo aos raros peões que se atreviam a sair.
O Domingos Verde aconchegou o grosso sobretudo regulamentar, que vestia sobre o blusão azul-escuro, quase negro, da farda policial. Pesava-lhe o cinturão largo, que suportava a pistola e o casse-tete, doíam-lhe os pés, depois de ter passado quase todo o turno de giro em Leça, desde a praia, até ao quartel dos bombeiros, ziguezagueando por uma infinidade de ruas. Fez esse percurso várias vezes, só tinha parado ao início da manhã para entrar na leitaria do Esteves e tomar um galão e um pão com manteiga, não esteve parado mais de dez minutos, nunca se sabe quem está a observar, para mais, ele ainda era novo na corporação.
Ao passar junto ao gradeamento do quartel, um carro vem em sentido contrário, afrouxa e pára a meia dúzia de metros. O condutor baixa o vidro e chama o jovem polícia de turno:
- Senhor agente, uma informação. Onde fica a pensão Godinho?
- A pensão Godinho é aqui em Leça, mas, do outro lado. O senhor dá a volta e vai até à rua onde está a farmácia, sabe onde é?
- Não, eu conheço mal esta zona.
- Se seguir por aquela rua vai ter a um jardim; depois de o passar vira à sua esquerda. Essa é a rua da Farmácia. Tem uma loja de ferragens logo à esquina. Quando lá chegar, vira na… deixe-me ver, na tercei…, não, na quarta rua à sua direita, a pensão Godinho é a cinquenta metros. Não tem que se enganar, no início da rua há uma carvoaria.
- Obrigado senhor agente…, mas, eu não o conheço? Você não trabalhou no Lindoso?
- Eu também o estou a conhecer, senhor engenheiro. Trabalhei sim senhor, na barragem.
- Eu bem me parecia, quando vejo uma cara, não costumo enganar-me! Então agora está na polícia?
- É verdade, quando comecei a trabalhar na barragem, já tinha metido os papeis para a polícia, mas como nunca mais me chamavam, aproveitei e ainda lá trabalhei quase nove meses.
- O senhor agente é que me podia fazer um grande favor.
- Se puder, diga senhor engenheiro.
- Você lembra-se do Euclides, o técnico das máquinas?
- Lembro-me perfeitamente.
- O Euclides foi preso e está aqui no Porto.
- Que fez o senhor Euclides para ser preso, ele que era tão boa pessoa?
- Olhe azares da vida, não teve culpa, mas está a ser chateado pela PIDE.
- Oh diabo, então mete a PIDE? Que quer o senhor engenheiro que eu faça?
- Senhor agente, venha comigo à pensão, que eu vou lá ficar com os meus filhos e lá conversamos.
- Não posso ir já, senhor engenheiro. Só termino o serviço à uma da tarde, se quiser encontramo-nos lá às duas, duas e pouco.
- Muito bem, eu fico na pensão à espera. Até logo senhor agente… desculpe mas esqueci-me do seu nome…
- Verde, agente Verde, ao seu dispor, senhor engenheiro.
O Chevrolet negro com o engenheiro Ogando e os dois filhos, arrancou suavemente, contornou o pequeno canteiro em frente aos bombeiros e perdeu-se pela rua em direcção ao jardim. O frio continuava a apertar e por ter estado parado aquele tempo todo a conversar, tinham-lhe arrefecido ainda mais os pés. Lembrava-se que o pai do eng. Ogando, também formado em engenheiria civil, fora o responsável técnico pela construção do Casino da Póvoa do Varzim.
Já passava do meio-dia e eram horas de se dirigir calmamente para a esquadra que ainda ficava longe, fazer o relatório e consultar a ordem do próximo serviço, que devia começar à uma da próxima madrugada.
Quando saiu da esquadra foi directo à casa de pasto do Aníbal, um transmontano de Carrazeda de Ansiães, com porta aberta há mais de vinte anos, uma casa muito asseada, onde comiam a maior parte dos agentes da esquadra de Matosinhos, funcionários das casas comerciais das redondezas e estivadores da doca de Leixões.
Depois de ter engolido uma jardineira fumegante, que a Laurinda lhe apresentou, dirigiu-se para a pensão Godinho, onde o esperava o engenheiro Ogando, que sem mais delongas lhe explicou.
- Pois o nosso amigo Euclides está metido em trabalhos. Tudo começou quando apareceram uns panfletos do Partido Comunista afixados numas árvores, a caminho da barragem. A PIDE foi chamada pela Guarda Republicana, andaram para lá a investigar e encontraram um desses papéis no armário do Euclides. Nem quiseram saber de mais nada. Trouxeram-no para Ponte da Barca e daí transferiram-no para o Porto, desconfio que para a sede da PIDE, você sabe onde é?
- Sei, é na Rua do Heroísmo, perto de Campanhã.
- Pois era isso que eu queria que fizesse, ia comigo à PIDE, ver se me deixavam visitar o Euclides, para lhe perguntar algumas coisas do serviço, que estavam pela mão dele. Como você é polícia, se calhar, é mais fácil deixarem-me vê-lo.
- Se é só isso, não vejo problema, eu vou consigo – diz o jovem agente, convencido do poder persuasor da farda que envergava.
- Então vamos no meu carro, que chegamos lá num instante.
Quando chegaram à Rua do Heroísmo, no Porto, o Domingos apeou-se e dirigiu-se à portaria do edifício, sendo interpelado de imediato, por um plantão da PIDE.
- Que deseja?
- Eu venho saber se está aqui um tipo de Ponte da Barca chamado Euclides, que trabalhava na barragem do Lindoso.
- E para que quer saber?
- Está ali fora o antigo chefe dele, um engenheiro, que queria falar-lhe por causa do serviço lá da barragem.
- Um momento, que vou saber. – Dirigiu-se a um telefone pendurado na parede ao fundo da salinha que fazia de recepção e falou baixo durante breves instantes. Depois de desligar, dirigiu-se ao Domingos, dizendo-lhe para entrar e aguardar na primeira sala do corredor à esquerda.
Não esperou mais de dez minutos, até que um sujeito de meia idade, com o escasso cabelo empastado de brilhantina, fato negro e voz nasalada entrou na sala e lhe disse à laia de cumprimento:
- Então é você que quer ver o Euclides? Que é que tem a ver com ele, hein? Conhece-o de onde? Vamos lá a identificar-se.
O agente Verde puxa da carteira, tira o cartão da PSP, entrega-o ao PIDE e repete-lhe a história.
- Há quanto tempo está na polícia, hein?
- Fiz a escola e estou em Matosinhos há seis meses.
- Seis meses, hein! Sente-se aí e aguarde.
O tempo ia passando e ninguém mais se aproximou da sala onde o Domingos, só esperava que lhe dissessem alguma coisa. Lá fora o engenheiro devia estar ansioso por novidades. Ainda ninguém lhe tinha confirmado que o Euclides estava lá preso, mas também lhe tinham dito o contrário.
A sala estava aquecida e o tempo de espera dava-lhe sono. Com sorte, hoje ainda podia dormir algumas horas, até entrar outra vez de serviço. O raio do homem é que nunca mais vinha, se calhar estava a consultar o processo ou a pedir instruções a algum superior.
Quase duas horas depois, entrou novamente o PIDE na sala, entregou o cartão de identificação ao Domingos dizendo-lhe:
- Tome lá isto, desapareça e não volte a pôr os pés aqui na directoria a não ser que o chamem. Diga lá ao engenheiro, que o comunista que trabalhou na barragem está aqui e que na cela dele, ainda cabem mais um ou dois, hein. Se quiserem?...
Dito isto, virou costas e saiu tão silenciosamente como tinha chegado. O Domingos sentia-se ruborizado pela forma arrogante como tinha sido tratado, ele que também era uma autoridade e só ali estava para fazer um favor. Saiu do edifício, deixando para trás o sorriso zombeteiro do plantão, que certamente ouvira a conversa, atravessou a rua e entrou no Chevrolet do engenheiro Ogando.
- Então senhor agente que novas me conta.
- Novas?... Eles têm lá o Euclides, fizeram-me esperar este tempo todo, mandaram-me desaparecer e ainda me ameaçaram que na cela dele havia lugar para nós, para mim e para si.
- Então não se pode fazer nada.
- Pois não senhor engenheiro, com estes tipos não se brinca…Vamos embora, que eu preciso de ir dormir e pouco falta para as seis da tarde.
  
publicado por Brito Ribeiro às 17:38
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