Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

30
Abr 07
Cinco da manhã toca o despertador, tacteio a mesinha de cabeceira, encontro o relógio que emite o bip bip agudo, carrego no botão, regressa o silêncio. Escuto a "ronca" do nevoeiro, pergunto a mim próprio se não irei fazer uma madrugada, para nada.
Levanto-me às escuras, pego na roupa e vou vestir-me para a casa de banho, evitando fazer barulho. Engulo o pequeno-almoço, pão do dia anterior e um par de copos de leite saído do frigorífico, saio de casa e no escuro da noite, apenas um nevoeiro cerrado, cortado pelo clarão dos candeeiros acesos.
"Que pôrra, não se vê um palmo à frente do nariz"; mesmo assim, entro no carro e conduzo até ao portinho, duzentos metros mais à frente, onde já estavam outros madrugadores, que avaliavam a possibilidade de sair para a pesca. Já lá estava o Arturinho, quase sempre o primeiro a chegar, o Fernando Nelaço, o Ica, o cunhado e mais alguns.
- Isto levanta com o nascer do dia.
- Hum, não me parece, vai demorar, se levantar, é lá para o meio da manhã…
- E o mar que tal está? – Pergunto eu, que não conseguia ver nada.
- O mar está debaixo das pedras, tu nem o ouves - diz-me o Arturinho.
- Pois não!
O mar estava completamente chão, chega o meu parceiro, o Zé, que mora na Laje e diz que lá não está nevoeiro.
- Esta névoa só está pelo mar, ides ver que vai levantar.
E logo estala mais uma discussão sobre o nevoeiro, a meteorologia e a pesca do dia anterior.
- Ontem não deu para a gasolina, corri sete mares rapaziada, para trazer dois pequeninos – dizia o Arturinho.
- Mas para que és mentiroso? Ou pensas que não te vi a tirares o peixe do barco, depois do jantar. Até a tua mulher te veio ajudar, fostes de carro para baixo, se calhar foste ao Aires e estás para aí a cantar fados… - acusava o Nel do Cuco, que tem uma língua de palmo.
- Não foi nada, Nel. Fui ao barco buscar o bidão, para ir à gasolina…
- E ele a dar-lhe. É que eu não vi, tu a tirá-los do porão e a metê-los na saca, até te digo mais, tinhas um peixe, para aí de três ou quatro quilos.
O Arturinho, velhote sabido, manhoso e mentiroso como poucos, ria-se, deixando à vista os dentes de ouro, que brilhavam à luz do candeeiro da lota, onde estávamos encostados.
- Parece que já não está tão cerrado…
- Está a nascer o dia, é por isso que parece menos cerrado.
Os Churribas passam, dão os bons dias entre dentes e sem mais conversa, arreiam o barco pela rampa, carregam as tralhas e arrancam mar dentro. O Arturinho vai calçar as botas de borracha, mete as canas no barco e pede-nos ajuda para arrear.
Todos deitamos mãos à obra, a preparar cada barco. "Se eles vão, é porque é de ir", "Brito, tira os calços" e o barco do Zé, no qual eu pescava, começa a descer a rampa sobre o carrinho de transporte.
Quando chega à água, o barco flutua e eu puxo o carrinho para cima, até ficar em seco e sem estorvar os outros. Salto para dentro, armo os remos e coloco o barco no meio do porto, para o Zé ligar o motor e deixá-lo aquecer.
Puxa duas vezes o cabo de arranque, o motor tosse e fica a trabalhar ao ralenti, no silêncio do alvorecer. Recolhidos os remos, passamos a preparar as linhas de pesca ao corrico.
Costumavamos pescar com linhas de mão, uma de cada lado do barco e se não tivermos de dar muitas voltas, muitas mudanças de direcção, largamos mais uma ou duas linhas nas canas. Como tencionávamos ficar no nosso praial, pelo menos até ao nevoeiro levantar, preparamos apenas as linhas de mão.
-Já ligaste o GPS? – Pergunto eu, pois sabia que mal saíssemos do portinho, ficaríamos imediatamente desorientados e sem pontos de referência. Não era a primeira vez que saíamos com nevoeiro cerrado e sempre conseguimos navegar com segurança e tranquilidade, apoiado pelo GPS que é uma ajuda inestimável e que o Zé domina perfeitamente.
Lentamente, quase ao ralenti, começamos a navegar, contornamos o molhe sul do portinho, e largamos lentamente as linhas em frente ao Moreiro. À nossa volta um silêncio absoluto, apenas se ouvia o ronronar surdo do motor 9,9 hp, via-se peixe, aqui e ali, a rebolhar à superfície.
- Estás a ver? – Pergunta o Zé, em voz baixa.
- Estou, isto são robalos – respondi-lhe, olhando para todos os lados. À volta do barco cada vez se via mais peixe a vir à tona, a rebolhar agitados, razão pela qual subimos um pouco mais as linhas. Ainda não era dia, mas também a noite já ficara para trás. Com a ajuda do nevoeiro víamos tudo cinzento e com os contornos algo indefinidos.
O peixe não se atirava às nossas borrachas verdes, que habitualmente usamos com resultados animadores. Continuamos mais um pouco ao longo da costa, já tínhamos passado a foz do rio, estávamos a não mais de cem metros da areia, que conseguíamos vislumbrar uma ou outra vez, entre as vagas de nevoeiro.
Mais à frente a quantidade de peixe ainda era maior, decidimos parar o barco e corricar lançando com as canas, fazer spinnig, como se diz agora.
Assim evitávamos movimento com o barco e o barulho do motor, que podia a qualquer momento espantar o cardume. Como o mar estava completamente chão, não oferecia nenhum perigo para nós.

Montamos as canas e lançamos, eu à proa, meu lugar habitual e o Zé à popa, junto ao motor. Ao fim de alguns lançamentos para o meio do cardume, sem qualquer toque, começamos a mudar as borrachas.
-Mete azul, que vou pôr verde-claro.
Preparávamos rapidamente ao estralhos e lançávamos, carregados de esperança, à espera de uma enferrada violenta. Nada… Lança outra vez, agora para mais longe. O carreto chiava ligeiramente ao colher a tansa, registei mentalmente, que à tarde, tinha de o lubrificar. Nada…
Muda outra vez as borrachas. Às tantas, o Zé engata um robalo e diz-me: - Põe uma borracha branca.
- Branca?
- Sim, branca, não tens?
Tinha, só que nunca usava, pois das poucas vezes que experimentara, só apanhava "fodas".
Pois, vocês não sabem o que são "fodas". Não!!! Não é dessas… As "fodas" a que eu me refiro, são peixes-agulha, que costumamos deitar fora quando os engatamos e que deixam um cheiro pouco agradável nas mãos.
Enquanto eu preparava a borrachinha branca, o Zé tirou mais um ou dois robalos, bastava cair na água e era fatal. E tudo peixe acima do meio quilo! Boa!!!
Começamos a dar neles e em breve tínhamos já uma boa pesca, quando aparece o Ica mais o cunhado, no barquinho deles, o "Gaivota" e ficam pasmados com o que estávamos a fazer, com a velocidade a que metíamos o peixe a bordo.
O nevoeiro levantara um pouco e permitia, agora, ver terra com nitidez, onde estavam os Charrocos a corricar, em cima da pedra do Tesal.
São dois irmãos, ambos profissionais da pesca ao robalo, que tanto pescam à cana, como usam algumas artes ilegais (que todos usam) como os anzóis em estacas e as redes manjoeiras, que estendem nas coroas de areia ou nas rochas da ribeira.
Eles bem se esforçavam em pôr as borrachas ao alcance do cardume, o "nosso" cardume, mas estava demasiado afastado de terra. Quando viram que era impossível de chegar onde estava o peixe, pararam de pescar, sentaram-se em cima da pedra a observar-nos.
O Ica ainda tentou fazer como nós, mas faltava-lhe as borrachas brancas e nós não íamos parar de pescar para lhas ir levar. Quando há uma oportunidade destas, o que raro, é preciso ter mãos despachadas e não perder tempo com nada, excepto a segurança, pois estes momentos, nunca duram muito.
O Zé engata um peixe maior, pede-me para o ajudar com o ganapão, como aqui chamamos ao camaroeiro, e já perto do barco, o peixe rebenta-lhe a linha, levando a borracha cravada nos "queixos" e a bóia de lançamento a rasto. Nem queiram saber o que o Zé "pregou", imaginem!
Preparou novo material e continuamos a pescar até que vi a bóia perdida, a alguns metros do barco.
- Pá, liga o motor que vamos apanhar o gajo. – Digo-lhe eu, apontando para o local onde flutuava a bóia - Isso, mais para fora, sempre, sempre, devagar agora…está quase, merda… afundou!!!
Pois foi, eu estava debruçado na proa do barco, com a mão junto à água, a pouco mais de um palmo da bóia e o sacana do peixe, pressentiu-nos e foi para o fundo. Nunca mais vimos a bóia e pouco depois o cardume começou a desaparecer e deixamos de apanhar peixe naquele local.
Pusemos o motor em marcha, saímos mais para o largo e apreciamos brevemente o que conseguíramos. Devíamos ter vinte e tal cachiços jeitosos, todos eles um pouco acima do meio quilo. Haviam dois ou três, que deviam ser os "chefes", mas não passariam um quilo de peso.
O nevoeiro levantava lentamente, o sol nascia radioso, o mar estava estanhado, um espectáculo que muito aprecio, já fazia calor e rumamos para sul, até às "primeiras pedras", passamos o castelo (forte do Cão) e continuamos até Afife.
Cada vez fazia mais calor, ainda não eram oito da manhã, começamos a tirar camisolas, vimos também robalos rebolhar à tona, ainda engatamos dois ou três e ficamos sem saber se eram do mesmo cardume. Quem sabe!
Quando regressamos ao portinho no fim da manhã e nos preparamos para subir a rampa com o barco, apareceram mais ajudantes que habitualmente. O Ica e o cunhado, o Martinho, tinham desistido cedo, pudera, depois da "abada" que tinham levado e em terra, disseram a quem quis ouvir:
- O Zé da Tilde e o Brito é que os "escanaram", em frente à pedra do Tesal. Até lhes perdemos a conta, nós só os víamos a meter no barco…
Naquele dia fomos os campeões, tinha-me dado um certo gozo, ver os Charroços a "coar água" e nós a dar neles, nos robalos, bem entendido.
Deu-me ainda mais gozo, ver a cara de alguns, que tem mania que sabem tudo, quando chegaram a terra e lhes contaram que apanhamos uns quilos valentes de robalos, ao pé da porta.
Aprendi que as borrachas brancas funcionam bem para o robalo em condições de pouca luz, como ao nascer o dia ou com muito nevoeiro, de resto, só servem para apanhar aqueles peixes, que vocês pensavam ser outra coisa…Lembram-se?
 
 
publicado por Brito Ribeiro às 11:53
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27
Abr 07
Estávamos no ano de 1993 e a Empresa de Lacticínios Ancora patrocinava uma equipa de todo o terreno, em parceria com a Lada. Esta equipa era de Vila Nova de Famalicão, tinha dois carros de prova, um T1 ou seja um carro com poucas modificações, praticamente de série, apenas com alguns reforços de chassis, de carroçaria e equipamento de segurança, melhores amortecedores e pastilhas de travões mais robustas, que era conduzido pelo Jorge “Mabar”, um tipo ainda novo, bom condutor, mas que não poupava o material e muito amigo da borga.
O outro carro, o carro principal, era um protótipo, um T3 made in Famalicão, com um motor de dois litros da FIAT, o qual fora “puxado” até aos 180 cv e mais tarde com a adopção de uma injecção electrónica, subira para os 200 cv, o que até era pouco, mas tinha um binário fabuloso, era pilotado pelo José Abel Gomes da Costa, um fulano com boas “mãos”, mas sem meios financeiros para grandes voos. Tinha começado no pop-cross com os “dois cavalos”, fez rali cross e estava no todo o terreno há alguns anos.
 
Eu estava na equipa com a tarefa de assegurar o máximo retorno publicitário para cada escudo investido pela Âncora. E isso dava trabalho que se farta, perdiam-se os fins-de-semana, mas como quem corre por gosto não cansa, também nunca reclamei.
Ia-se disputar a prova principal do campeonato, a “Baja Portugal 1000”, organizada pelo Clube Aventura do José Megre, nesse ano havia um redobrado interesse, pois estaria presente a equipa oficial da Citroen, com os Zx Rally Raid, que tinham arrasado a concorrência no Paris-Dakar.
Para a Lada havia também o interesse de ver em acção a equipa oficial Russa, que tinha disputado uma prova na Sardenha e, em vez de regressar à fábrica, vieram até Portugal, disputar a nossa prova.
Dos dois carros previstos, veio apenas um, porque o outro sofreu um acidente na prova italiana e regressou mais cedo a casa. O piloto chamava-se Antonov qualquer coisa e era um individuo bastante conceituado no meio.
 
Fomos para Lisboa na quarta-feira, montamos quartel-general no hotel Íbis, na auto-estrada de Oeiras e começamos a trabalhar para a prova. Um canto do parque de estacionamento do hotel estava por nossa conta e depressa começamos com as habituais sessões de mecânica de ultima hora.
Foi preciso ir levar os carros às verificações técnicas que demoraram todo o dia, levantar a papelada, colocar a publicidade da organização e os números de prova, ir ao brieffing da organização ouvir as instruções do Megre, dar um bocado de treta aos conhecidos, mostrar os patrocínios nas roupas e estar sempre pronto para passar em frente de alguma câmara de filmar. Para os mais mediáticos, até havia a possibilidade de dar umas entrevistas, o que não era o nosso caso.
Mas o que realmente nos interessava era levantar o road book, para se poder planificar a prova. Quando nos deram o livrinho mágico, era um ver se te avias, pela porta fora, em direcção ao hotel. Não fiquei para ver, mas acho que em breve o Megre estava a pregar para os peixinhos.
Como carros ligeiros de apoio, tínhamos um Lada Samara 1500 e um Niva, que transportavam a rapaziada toda, de um lado para o outro. Para a assistência haviam duas Ford Transit, rodado duplo, com dois mecânicos, o Pinto e o “Topo Gijo” pela parecença das orelhas com o rato da televisão. Nunca soube o nome verdadeiro do Gijo.
Chegados ao hotel, reunimos numa sala e definimos os pontos de assistência nas diferentes ZA, os horários a que as carrinhas tinham de lá estar, para onde iriam depois dos carros de prova passarem, como é que lá chegariam, porque normalmente as estradas ficam entupidas com os carros dos espectadores e é sempre difícil rasparmo-nos, não esquecendo que temos de passar com Transits carregadas e não com jipes.
Depois era a vez de irmos às compras, havia sempre qualquer coisa que faltava além da comida e da bebida.
Nessa altura, os pilotos e os navegadores ficavam sós, a combinarem as melhores tácticas e a fazerem um reconhecimento pelo mapa, do traçado geral da prova.
Esta “Baja Portugal 1000” ia para o norte, desde o Estádio Nacional até à zona de Coruche, depois flectia para leste, dando uma grande volta até regressar às proximidades de V. F. de Xira, onde terminava a primeira etapa.
A segunda etapa, no mesmo dia, era feita em sentido contrário e no total, estavam contabilizados cerca de oitocentos quilómetros.

 
Voltando às compras, vocês nem fazem ideia do que aquela tropa comia durante a prova. Devia ser da adrenalina e do ar do monte! Carregávamos sempre um par de geleiras cheias de sandes e garrafas de água, porque só se bebia água, nem sumos, nem nada dessas porcarias enlatadas. Só água purinha!
No parque do hotel verificava-se o material suplente, arrumavam-se as ferramentas, preparava-se tudo para no dia seguinte arrancarmos cedo, para montar a assistência na mata do Vale do Jamor, onde ia decorrer o prólogo.
Eu seria o primeiro a chegar ao local, ainda o dia estava a nascer, tinha que delimitar o nosso espaço para a assistência, montar os painéis publicitários e comandar as coisas a partir dali.
As comunicações não eram fáceis, mas já dispúnhamos de três telefones móveis, que pesavam quase tanto como um garrafão de vinho (cheio, claro), e era preciso, muitas vezes, andar para um lado e para o outro, com a antena esticada, à procura de rede.
Dentro dos carros nem valia a pena tentar ligar, só se ouviam “toiiins, toiiins” e não se percebia sequer, quem estava do outro lado.
 
Quando cheguei ao Estádio com outro elemento da equipa, recordo que era tio do Zé Abel, mas não me lembro o nome, escolhemos um sítio disponível, um bom local, por acaso, praticamente ao lado da Citroen, que já estava instalada. Profissionais são assim!
Delimitei a área com fita publicitária, espetei os prumos metálicos que suportavam os painéis da Âncora e esperei pouco pelo Pinto e o “Gijo”, orientei a colocação das carrinhas, estenderam os oleados onde os carros de prova iriam estacionar, tiram-se para fora os pneus, os macacos, as preguiças, preparam-se os bidões do reabastecimento, fumam-se uns cigarros e espreita-se a vizinhança, começamos a dar ao publico o merchandising que levamos; bonés, autocolantes, esferográficas, porta-chaves e acho que tínhamos umas t-shirts.
Chegam umas carrinhas do nosso agente em Lisboa, indico-lhes a melhor colocação e começam a distribuir iogurtes pelo público. Nesse ano tivemos ainda o apoio de um camião publicitário, que nesse dia circulou sempre entre o Estádio Nacional e os principais hipermercados na Amadora, Alfragide e Cascais.
 
Toda a equipa estava vestida a rigor, com as camisolas brancas da Âncora, que em breve começavam a ficar com manchas de terra e de óleo. Mais logo, depois do trabalho feito, seriam trocadas por outras camisolas limpas, que eu tinha no carro.
Em frente ao nosso espaço, ficou uma equipa catalã da Land Rover, patrocinada pela Panama Jack, que tinham uns Defender soberbos.
Do parque fechado, recebo a informação que o Zé Abel acabava de partir, seguido pelo Arantes, que se transportava num Vitara.
O Arantes é um conhecido mecânico-preparador de Guimarães, que também faz competição e sempre que podia, vinha “dar uma mão”, à nossa equipa, pois era amigo de longa data, do Zé Abel. Era costume, o Arantes ou outro mecânico, seguir o carro de prova nas ligações, para a eventualidade de surgir algum problema e ser rapidamente resolvido, quando tinha resolução!
Só esperavamos o “Mabar” muito mais tarde, porque era dos últimos números e ao todo, a prova, tinha mais de quatrocentos participantes.
A certa altura, vem o Pinto dizer-me que estava um francês que queria falar com alguém da equipa, mas ele não o entendia e o melhor, se calhar, era eu ir lá ver o que queria.
Lá fui ter com o indivíduo, que era de uma equipa Suiça e não francesa, que me disse estar aflito porque precisava de espaço para um carro de assistência e não encontrava lugar; como nós estávamos à larga, pedia se lhe cedíamos um canto.
Por um momento, apeteceu-me dizer ao gajo que tinha de se levantar cedo como nós, mas em vez disso, concordei em dar-lhe o espaço suficiente para ele montar a “tenda” ao nosso lado, sem nos prejudicar minimamente.
Fiquei pasmado quando vi chegar um todo o terreno Mercedes, conduzido pelo Clay Regazzoni, uma lenda da formula 1, que estava paraplégico devido a um acidente, mas continuava a correr no todo o terreno. Transportava uma cadeira de rodas dentro do carro de prova e era ajudado pelo navegador, cada vez que precisava de entrar ou sair do veículo.
Pouco depois, o sr. Regazzoni veio pessoalmente agradecer-me e convidou-me a ver o carro dele, que estava adaptado à sua deficiência. O carro era um espectáculo de tecnologia e já tinha muitos elementos em fibra de carbono, isto em 1993!
Pareceu-me um indivíduo extraordinariamente simples e bem disposto, nos poucos minutos que conversamos. Soube que faleceu no final de 2006, num acidente de viação na Suiça, país onde residia há muitos anos.
 
Entretanto, os nossos vizinhos da Citroen, captavam a atenção de toda a gente e eram verdadeiras multidões, que se agrupavam em torno da sua enorme área de assistência para ver os carros, as estrelas que os conduziam e o bulício, que dezenas de elementos da equipa provocavam.
Deixem-me fazer aqui um parêntesis, para vos descrever os carros da Citroen que eram enormes, muito largos e altos, autênticos monstros que tinham de ser muito bem guiados, para passarem em algumas das nossas estreitas florestais, sem bater em nada.
Cada carro, tinha mais de uma dúzia de mecânicos e técnicos à sua volta, que nem se atrapalhavam e pareciam saber exactamente o que fazer. Já tinha visto isso, mas era na televisão e na fórmula 1. Agora estava a ver, os meus vizinhos, a fazerem exactamente igual!
Quando os vi em prova, percebi que o grande trunfo era a potencia, pois não era a curvar que eram mais rápidos que os outros, era nas rectas que eles “fugiam”, colocando no chão as centenas de cavalos, que aqueles motores em posição central debitavam.
Enquanto aguardávamos a hora dos nossos carros entrarem em acção para fazerem o prólogo, devido ao adiantado da hora, lá abrimos uma geleira e umas garrafas de água. O que mais nos custava, era ver os gajos da Citroen, que tinham uma tenda enorme, alcatifada de vermelho, um verdadeiro serviço de catering, com empregados vestidos de branco e tudo, a comer do bom e do melhor, enquanto nós empurrávamos umas sandes de fiambre bem frias, feitas no dia anterior, com uns golos de água.

 
Quando se aproximou a hora de partida do nosso Niva Proto, fui para perto da pista, sobre um morro, onde tinha uma visão privilegiada. Vejo o Niva arrancar ao longe, fazer uma série de ganchos esquerda, direita, passar uma vala larga, acelerar na pequena recta à minha frente e desaparecer no outro lado da pista, em direcção ao fim do troço, perto da entrada do Estádio.
Passaram mais alguns carros e regressei ao local da assistência que era a pouco mais de cem metros, para esperar o Zé Abel, que já devia ter acabado o prólogo e estar a chegar.
Pouco depois telefona o Arantes a avisar que tínhamos o carro parado em plena pista. Lá se foi o entusiasmo… Tinha aterrado mal ao sair de um salto e quebrado a rótula da suspensão do lado direito. Estávamos a começar bem!
O Zé Abel e o navegador, o António já estavam a mudá-la, mas não se livravam de apanhar uma penalização.
Quando o “Mabar” passou por eles na pista, ainda os desgraçados lá estavam, numa esforçada sessão de mecânica.
Finalmente saímos do Vale do Jamor já a meio da tarde e tínhamos de voltar a preparar tudo para a verdadeira prova, que se iniciava na madrugada do dia seguinte, sábado. Mais planificação, mais compras, reabastecer os carros, arrumar tudo, etc..
O Zé Abel não estava muito preocupado, pois ainda faltavam oitocentos quilómetros e aí é que iria ser a valer. O problema é que iria partir nos últimos, com os concorrentes mais lentos e teria forçosamente que os ultrapassar.
O estafermo da rótula era nova e só fez uns miseráveis dois ou três quilómetros e partiu-se, o que era de todo improvável. Nunca tinha acontecido, mas há sempre uma primeira vez para tudo.
Os russos estavam todos animados com o desempenho do carro deles, que até andou bem, sem dar muito nas vistas. O carro era um protótipo algo esquisito, pois tinha sido alongado cerca de vinte centímetros entre eixos e, como os russos tinham dificuldade em obter e trabalhar fibra de vidro, tinham resolvido o problema diminuindo a espessura da chapa da carroçaria. Conclusão, ninguém se podia encostar ao carro que ficava imediatamente amolgado. Parecia cartolina!...
 
No dia seguinte, arranquei ainda noite cerrada, para a primeira ZA (ZA quer dizer zona de assistência) em que iríamos ter assistência.
O Pinto à frente a impor o ritmo, com a pesada Transit e, quando chegamos ao destino, não muito longe de Porto Alto, no meio de eucaliptais de perder a vista e o norte, já lá estava um mar de assistências, que tinham sido mais lestos que nós, mas não havia problemas de espaço, chegava e sobrava.
O Gijo ia directo para duas ou três ZA mais à frente, pois a nossa táctica passava por parar o menor número de vezes possível, o que significava que partíamos com perto de duzentos litros de gasolina no depósito. Como o Niva Proto gastava normalmente menos de quarenta aos cem, contávamos abastecer apenas no fim da primeira etapa.
O carro do “Mabar” tinha o depósito de origem e tinha de ser abastecido com mais frequência, mas também não interessava muito, pois o objectivo desse carro era chegar ao fim, o que eu sinceramente duvidava, depois de ver aquele valente condutor, a ir de gatas para cama, com uma “cabra” monumental. Começam a passar os carros de prova, uns param outros passam na “broa”, comentamos as tácticas dos nossos adversários mais directos e chegou o “Mabar”, “enfiamos-lhe dois jerricans de gasolina, ele saiu do carro todo aflito, foi fazer um xixi encostado a uma árvore e voltou a partir; esperamos pacientemente pela nossa estrela da companhia, que tinha sido dos últimos a partir, devido ao problema no prólogo do dia anterior.
Afinal, passou mais cedo do que esperávamos, pelas nossas contas já devia ter ultrapassado cerca de quarenta carros, em pouco mais de cem quilómetros. O Zé Abel não parou, fez-nos sinal que estava tudo bem e vimos que o homem queria redimir-se do azar do dia anterior.
Lá avançamos mais um par de ZA, até montarmos outra vez a tenda. Era um rodopio repetitivo, estender o oleado, tirar os macacos, delimitar o espaço, etc.. Do ponto de assistência onde estava o Gijo, chega-nos a informação que vai tudo bem, o “Mabar” mais morto que vivo, jurava que tinha sido a ultima vez que bebia antes de uma prova, o Zé Abel continuava a ultrapassar os mais lentos, que no meio de uma florestal poeirenta é uma tarefa ciclópica, mesmo que o parceiro que vai ser ultrapassado colabore, o que nem sempre é o caso.
 
Na frente, os Citroen passeavam a sua superioridade, apenas acompanhados à distancia pelo Jean Louis Schelesser, no buggy mais horroroso que vi até hoje. Lá mais para trás, a uma distância considerável, apareciam uns buggys proto franceses, patrocinados por uns aviários!!! Não me recordo o nome da equipa, mas tinham material de primeira.
Dos portugueses recordo que a Nissan-Trident com umas pick-up, estavam bem colocados e havia uma grande quantidade de UMM em T1 e T2. O único UMM T3 era pilotado pelo Tucha que já tinha feito alguns Dakar e que eu achava que tinha um ar completamente alienado, bastava ver como conduzia.
Quando terminou a primeira etapa, almoçamos ao lado do parque fechado, em pleno descampado ribatejano, depois de se terem mudado os pneus, alinhado a direcção que estava toda aberta, atestado de gasolina, de óleo e afinado não sei que mais.
O carro tinha começado mal, mas não tinha dado mais problemas e estava a portar-se lindamente.
Do outro carro, também não se podia esperar mais e nós só pedíamos ao “Mabar” para se manter acordado, ter calma e levar a “lata” inteira até ao fim. Lá comemos as habituais sandes e uns frangos de churrasco que eu tinha comprado no dia anterior em Alcabideche, onde tínhamos ido jantar. Um verdadeiro piquenique em plena lezíria, com uns admirados touros, ao longe, que não percebiam certamente o motivo de tanto bulício.
Ainda tivemos tempo de limpar os carros, para ficarem apresentáveis nos primeiros quilómetros, os patrocinadores não podiam ser esquecidos e, para mais, eu representava um deles. Como já tinha dito, a segunda etapa, era corrida em sentido contrário.
 
Voltamos à faina das assistências e o cansaço já começava a dar os primeiros sinais. Imaginem, se nós estávamos a começar a ficar cansados, como estariam os pilotos e os navegadores ao fim de quatrocentos quilómetros, aos solavancos dentro dos carros…
Já estávamos numa ZA prontos para receber os carros, quando recebo um telefonema do Arantes, que estava com o seu Vitara algures no meio do troço, a dizer-me que o Zé Abel estava parado com avaria e ele ia ver o que se podia fazer.
Mais um balde de água, agora que as coisas pareciam estar a compôr-se! Raios partam o Arantes, que só dava más notícias, pensei eu.
Pouco depois chega o “Mabar” que já tinha sido ultrapassado pelo nosso Niva Proto e que, pouco depois, os encontrou parados com uma rótula da suspensão partida, agora do lado esquerdo. Era a desistência, porque não valia a pena tentar mudar e continuar em prova.
O Arantes não conseguiu chegar até ao Niva avariado e regressou à ZA, ficou com a Transit e eu acabei por ir com o Pinto no Lada Niva de apoio, depois de terem passado todos os concorrentes, socorrer o Zé Abel e o António; quando chegamos, estavam tranquilamente sentados na berma da florestal a fumar uns cigarros.
Quando conseguimos pôr o carro pronto a andar, era quase noite e não sabíamos nada do outro carro, não havia rede e decidimos regressar a Lisboa, ao nosso hotel em Oeiras.
Pelo caminho, consegui telefonar ao Arantes, que me deu a notícia da desistência do “Mabar”, por ter partido o diferencial central, ao passar uma vala larga, sem desacelerar.
 
À noite, foi tempo de contarmos uns aos outros as peripécias daquele dia tão aziago, daquela prova tão madrasta, para as nossas modestas aspirações.
O Lada dos russos também desistiu, não me recordo porquê e fomos convidados por eles a ir petiscar na motor home que traziam, um autocarro adaptado, que tinha sala com mesa para reuniões e tudo.
Comemos uns pratos típicos que eles prepararam, recordo uma salada com muita salsa e bebemos, algo contrafeitos, uns copos de vodka, a acompanhar o repasto.
O único que parece ter gostado do acompanhamento foi o Gijo que, mais tarde, teve de ser levado em “charola” para o quarto.
O chefe de equipa dos russos, um gajo barbudo com cerca de dois metros, cento e tal quilos que metiam respeito, ofereceu-nos um par de rótulas de suspensão especiais e uma protecção de cárter em kevlar e alumínio. Ora toma!
Ganharam os Citroen, que colocaram o Lartigue e o Salonen nos dois lugares cimeiros e o terceiro lugar sobrou para o buggy do Schlesser, que fizeram uma corrida completamente à parte, tal a diferença de preparação, para os demais concorrentes.
Eu tive um fim-de-semana sem resultados desportivos, mas ganhei uma experiência e um conhecimento naquela área desportiva, que hoje, catorze anos volvidos, ainda não esqueci. Foi por isso, que quis partilhá-la convosco.
publicado por Brito Ribeiro às 16:52
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Abr 07
Estou de acordo com o Presidente da República, isto não são maneiras de se comemorar o 25 de Abril, todos os anos a mesma treta e depois perguntam à rapaziada qualquer coisa sobre o acontecimento e não sabem nada. Parece impossível, mas foi para isso que D. Afonso Henriques fundou Portugal.
Mas a culpa é dos nossos políticos que não tem artes, nem engenhos para redescobrir o 25 de Abril, de forma mais moderna e inovadora. Os foguetes do costume, o bailarico, os cravos e o discurso sempre igual, sempre repetido, a puxarem ao sentimento dos antifascistas, dos pobrezinhos que foram torturados pela PIDE.
O que me chateia é ver alguns sacanas lerem estas coisas com ar compungido, quando sabemos que, se não houvesse 25 de Abril, eles próprios seriam Pides, legionários e membros da ANP. No entanto, quem quer pode ver, ei-los com ar grave, a falar das liberdades, das democracias, da fraternidade e de outros tantos chavões, que ficam bem em qualquer discurso comemorativo.
Por isso acho que se devia organizar uma base de dados nacional, com os discursos dos políticos, proferidos nas comemorações do 25 de Abril. Tal como há o vidrão e o papelão, podia haver o "discursão", onde eram depositados os discursos, que seriam reaproveitados nos anos seguintes, por outros políticos.
Poupava-se no papel e no tempo que os presidentes de câmaras, de Juntas e outras instituições, gastariam com estes discursos. Tempo que lhes é pago por todos (deixa-me rir) nós.
Por exemplo, o presidente da Câmara de Cascais, lia o discurso do ano anterior do presidente da Câmara de Reguengos, o de Viseu, lia o discurso de Sesimbra e por aí adiante. Só o Rui Rio é que não podia ler o do Filipe Meneses, senão ainda dava asneira!
Esta ideia foi-me sugerida pela prática de alguns partidos políticos e por alguns sindicatos, que ciclicamente regressam aos mesmos temas e dizem as coisas sempre da mesma maneira, lidos pelas mesmas pessoas, há mais de vinte anos. E depois ficam admirados por as criancinhas dizerem tantos disparates, quando lhes fazem perguntas sobre o 25 de Abril!
Agora a sério, penso que a evocação deste acontecimento histórico tem sido nitidamente insuficiente, aborrecida e desajustada aos dias de hoje e principalmente às mentalidades actuais.
A continuar assim, dentro de alguns anos, esta data estará enterrada, como está a ser enterrada a guerra colonial, ainda hoje um tabu incompreensível. Como alguém já disse, quem não guarda a memória do passado, não tem futuro.
publicado por Brito Ribeiro às 12:00
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24
Abr 07
A “Macaca” era um barco tipo poveiro, com quilha, de seis bancos e com uma tripulação de doze homens.
O Galinhaço era o arrais e um dos seus proprietários, em sociedade com a tia Ana Rosa, viúva do Domingos Verde, que após ter naufragado na entrada do portinho, pouco tempo durou.
Dizem que foi de estar muito tempo na água, mas o desgosto daquele lobo-do-mar, foi a sua principal doença, que o levou em pouco mais de dois meses. Deixou ao cargo da mulher criar os três filhos, duas raparigas e um rapaz, que a Tia Ana Rosa, que por sinal, de baptismo tinha o nome de Joaquina Malhão Verde, após ter esgotado as lágrimas salgadas como o mar, arregaçou as mangas e tratou de garantir o sustento dos seus.
Destemida e obstinada, como sempre fora, fizera sociedade com o tio Galinhaço, pai do Amílcar e do Plácido Silva, e exploravam a meias, um dos melhores barcos do nosso portinho.

 
Ao fim de algum tempo, a tia Ana Rosa que apontava todas as capturas e respectivas vendas, para mais tarde cobrar e no fim da semana fazerem contas, começou a desconfiar que nem tudo era feito às claras e com o seu conhecimento.
Com ou sem razão, desconfiava que havia peixe que era desviado para ser vendido por fora, manobra que era feita com o acordo do arrais. Seria assim? Não o sabemos, mas este foi o motivo porque decidiram acabar com a sociedade.
O Galinhaço dispôs-se a comprar a parte da Tia Ana Rosa, mas ela não queria ceder ao seu ex-sócio. Como tinha boas relações com o Galinhaço, o próprio tenente da capitania veio interceder, para que a recalcitrante Tia Ana Rosa reconsiderasse e vendesse a sua parte do barco ao Galinhaço.
- É para deixar aos seus filhos, mulher! – Argumentava o tenente
- Pois é sr. Tenente, mas eu também tenho um filho e quero-lhe deixar a ele o barco. Vender, não vendo, mas se o Galinhaço quiser, compro-lhe eu a ele, pode-lhe dizer isso da minha parte.
 
Mas o Galinhaço, desfeiteado por aquela mulher teimosa, também ele não cedeu e após muitas tentativas de acordo falhadas pela intransigência dos ex-socios desavindos, decidiram serrar o barco ao meio, operação efectuada no portinho, perante todo a gente que quis assistir.
Depois de sorteadas as partes, calhou ao Galinhaço a proa e à tia Ana a popa, bocados que, tempos depois, começaram a ser desfeitos para lenha do fogão.
Foi este o triste fim da “Macaca” que se consumiu nas entranhas de ferro dos fogões onde fervia o caldo e que aqueciam as pobres habitações durante o rigoroso e longo Inverno ancorense.
publicado por Brito Ribeiro às 17:35
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19
Abr 07
 
O assunto já estava combinado há muito. Faltava chegar o mês de Agosto, para na primeira semana fazermos mais um acampamento. Vai o Pedro e o João, que já fazem isto há vários anos, vou eu e a minha filha Joana, também já acostumada a estas aventuras.
O João só não vai mais vezes porque a mulher parece confiar pouco nele e ainda menos nos amigos dele. O homem anda todo o santo ano a prepará-la psicologicamente para o acontecimento, as férias de verão com a malta, mas é sempre uma fita das antigas, principalmente quando lhe telefona. E telefona-lhe um par de vezes por dia. Durante a primavera, disse-nos várias vezes, que estava a ficar gordo e que tinha de fazer dieta.
- Quando formos acampar, só vou comer sopas de hortaliça, que já aprendi a fazer e saladas, muitas saladas.
- Ainda te vão crescer asas, como os grilos – brincávamos nós.

Fomos, para variar, para o sítio do costume, a Galiza. Os dois “cromos” decidiram não levar automóvel e foram de bicicleta. Para isso estiveram várias semanas a treinar a musculatura e o traseiro, amolecidos durante o Inverno. Combinamos que eles iriam à frente, logo de manhã, para poderem ir nas calmas, e eu iria durante à tarde, no Ford Fiesta da minha mulher.
Como só ia eu e a Joana, levávamos pouca tralha e o Fiesta chegava e sobrava. Eles tinham engatado o pai do Pedro, o Celestino que às vezes também alinha numas escapadelas de fim-de-semana, para levar-lhes os “tarecos” e ajudá-los a montar a tenda. O Pedro deixou o habitual iglô em casa e trouxe uma confortável tenda familiar, algo antiga, mas espaçosa e ainda em bom estado.
Quando eu cheguei, estavam os três de volta da armação da tenda, a tentar encaixar os ferros. Claro que com a minha chegada o trabalho parou e começamos todos a dar à língua.
Contaram-me que tinham chegado cedo ao parque e foram de imediato até à piscina dar um mergulho. Só ao fim de largos minutos dentro de água, é que o Pedro se lembrou que tinha o telefone no bolso dos calções. E lembrou-se porque o desgraçado começou a vibrar. Estavamos a começar bem!
Mas a melhor, a melhor mesmo, é que o Pedro tinha arranjado uma admiradora, uma espanhola chamada Consuelo, que se derretia toda, cada vez que o via. Só havia um problema, é que a rapariga era um bocadinho forte, “un pouquito ancha”, pesava seguramente mais de cento e vinte quilos!!!
- É pá, não sabia que tinhas carta de pesados!
- Então, na tropa andaste em artilharia, não?
E continuamos com a brincadeira, até que o Celestino começou a impacientar-se:
- Vamos embora, vamos embora, senão nunca mais acabamos.


Relutantemente lá voltaram ao trabalho enquanto eu e a Joana começamos a descarregar o carro e a montar a nossa tenda, o iglô azul celeste, que já é mais conhecido que os tremoços, naquelas bandas.
Às tantas, ouvi um deles dar um sonoro “aiiii…”, olhei e vi o João agarrado a uma mão.
- Que foi, pá, aleijaste-te? Como é que arranjaste isso?
Vermelho como um tomate, ele nem piava, agarrado ao dedo, afinal tinha sido um dedo, um polegar que tinha levado uma martelada do Celestino que, como não conseguia unir os encaixes, decidira usar um maço de borracha para ajudar na tarefa. Como o João estava segurar um dos ferros acabou por levar uma “bordoada” do pai do seu amigo Pedro, que se atirou para o chão, sufocado com o riso. Com amigos destes…
Um agarrado ao dedo, outro à gargalhada, o Celestino muito sério, dizia: - Devias ter tirado o dedo, quando comecei a martelar.
- Vai meter isso dentro de água – aconselhei eu, que também me queria rir, não por ver o parceiro a sofrer, mas por saber que ele devia ter uma vontade maluca de mandar uns “carvalhos” e uns “coza-se”, que só não o fazia, por respeito pelo Celestino.
Acabaram por ir os dois pôr o dedo de molho, fiquei com o Celestino a ajudá-lo a montar a tenda. Calmamente, ele explicou-me: - Estás a ver, foi ao martelar aqui, ele tinha a mão assim e dei-lhe!
- Então porque é que não o avisaste para segurar mais atrás?
- Pensei que ele ia tirar a mão.
- Olha lá, se pegas no martelo, vou-me já embora – avisei-o eu.
Estávamos com a tarefa praticamente terminada, quando eles apareceram, um ainda a rir o outro com o polegar levantado como no sinal OK, meio arrocheado e inchado.
- Dói-te?
- Fogo…, nem queiras saber.
Se já pouco fazia, o novo incapacitado aproveitou para dar ares de capataz e comandar o resto da companhia.
- Vai buscar aquilo, leva para acolá, tira isso daí…
O Celestino acabou por nos deixar sozinhos e aí começou o gozo, pois o João confessou logo que o que mais lhe apeteceu foi mandar o Celestino àquela banda, principalmente quando ele se desculpou, dizendo que pensava que o outro ia tirar o dedo.
O telemóvel aquático do Pedro era outro dos motivos de chacota, até porque o nadador salvador da piscina, fez uma cara de espanto, quando viu o Pedro a tirar o telefone do bolso dos calções, dentro de água. O homem terá pensado que era uma nova tecnologia portuguesa de telefones submarinos!

- Deixa lá o dedo e vamos dar uma volta. No regresso temos de fazer compras. Vocês trouxeram alguma coisa de comer?
- Trouxemos batatas e cebolas.
- Olha estes! Então vindes carregados de Portugal com isso? Parece que não há batatas em Espanha. Nem uma garrafa de vinho, nem um chouricito? Que raio tendes na geleira que está tão pesada.
- São uns iogurtes e uns sumos que eu ando a tomar, são light, com poucas calorias – diz o João.
- Outra vez a merda da dieta? Estamos feitos.
- É pá, foi a minha mulher que comprou, tinha que trazer.
- Pois, e o que vamos comer logo?
- Podemos fazer uma feijoada, – diz o Pedro – que dizeis?
- Por mim está bem, e tu Joana?
A Joana que nunca diz não à comida, também assentiu. Viemos carregados do supermercado com latas de feijão, toucinho fumado, vários tipos de chouriças (huuum…), costela e sei lá que mais; e vinho, claro! Se calhar pensavam que ia comer feijoada, com os sumos sem calorias, que o outro gajo levou!
Primeira dificuldade foi arranjar um tacho à medida, acabando por ser eleita uma panela toda bonita, com uns remates dourados, de dimensões generosas, que o João surripiou lá em casa. Ai quando a mulher soubesse…

O Pedro é o habitual encarregado dos refogados, que tempera a preceito e aos quais junta um pouco de quase tudo. Leva cebola, alho, cenoura, às vezes pimentos, folhas de loureiro, sal, pimenta e azeite, nunca óleo. Acho que não esqueci nada.
Fomos cozinhando, petiscando, brincando com o dedo (ainda ao alto) do nosso infortunado amigo, acho que jogamos às cartas enquanto refogavam as carnes, a noite caía e já era hora de acender o nosso projector, um luxo que não dispensamos, quando “tocou o pau no balde”. Era uma panela e peras!!!
- Tanta comida, ainda vai sobrar para amanhã.
- E então, eu gosto de feijoada aquecida, do dia anterior. Ainda fica melhor.
Começamos a comer e conforme os pratos esvaziavam, voltavam a ser servidos.
- Então essa é que era a tua dieta? Só sopas de hortaliça e saladas – gozava o Pedro
- Aquela martelada abriu-me o apetite, amanhã, faço uns quilómetros de bicicleta e já recupero.
Depois de muito comermos, o Pedro espreita para dentro da panela e desabafa:
- Também só por isto, não vai ficar!
E toca de esvaziar o resto da feijoada no prato. Ainda hoje não sei onde meteu tanta feijoada…
Na hora de lavar a louça o João ficou isento, mas solidariamente acompanhou-nos aos lavadouros, enquanto o Pedro vaticinava: - Agora tenho de dar umas voltas para desgastar.
- Vais ter de ir até Âncora a pé, pelo que tu comeste.
- Comi bem, mas não foi nada de mais…
- Vá comer as guelras ao c… - dizíamos nós.

Aquele parque tem uma longa avenida central, de extremo a extremo, talvez uns trezentos ou quatrocentos metros, que foram percorridos muitas vezes, lentamente, em passo de passeio, a conversar, com algumas paragens, apenas para reabastecer, umas “bejecas” fresquinhas.
Estávamos em pleno exercício de caminhada quando nos cruzamos com a Consuelo que nos diz: “Lo mas guapo, es lo mas pequeno”. Claro que o mais pequeno é o Pedro que já não sabia onde se havia de meter e olhou para nós como a dizer “não me deixem só, por favor”.
Naquela noite, como habitualmente, decidiram dar um verdadeiro conserto de roncos que rivalizou com o canto dos grilos e das cigarras. Ora subia um de tom, ora subia o outro. Eles dizem que eu também ressonei mas é mentira, pura mentira!

No dia seguinte, a Joana acordou mal disposta, mas não nos preocupamos em demasia, devia ser passageiro, mas o certo é que o mal-estar persistiu durante o dia e nem sequer quis ir para a piscina, que ela adora. Preferiu ficar na tenda, quase todo o dia a ler.
Ainda de manhã, o Pedro e o João foram a Valença comprar um telemóvel novo, enquanto o aquático, estava com as tripas ao sol a secar, em cima de uma das tendas.
Ao almoço, comemos qualquer coisa ligeira e à noite decidimos jantar algo mais substancial, visto estarmos cada vez com mais apetite. Massa com carne, outra vez na mesma panela e em dose idêntica à feijoada. Também não sobrou, apesar da Joana praticamente não ter comido nada. Ainda a tentei convencer a regressarmos a casa, mas ela insistiu em ficar.
Entretanto, a Consuelo que aproveitava sempre que via o Pedro, para lhe acenar ou dizer um piropo, “acampava” à noite, na esplanada do bar com um casal de velhotes, se calhar os avós, para deitarem abaixo umas canecas de cerveja. O velhote que andava apoiado numa bengala, com passos algo incertos, quando tocava a despejar a cerveja não lhe davam os tremeliques. Era vê-lo a meter a caneca aos queixos e o nível da mesma a baixar.
- Ainda se vai afogar – dizia o João, maravilhado com aquele prodígio da hidráulica.

Das sopas de hortaliça, das saladas e dos passeios de bicicleta é que ainda não viramos nada. Quando queríamos ir a algum lado, todos se dirigiam para o Fiesta; as bicicletas estavam lá encostadas a uma árvore e só serviam para pendurarmos as toalhas molhadas da piscina.
Ao terceiro dia, a Joana acordou com febre, vomitou e tinha diarreia; decidi desmontar a tenda e regressar a casa imediatamente, pois era uma gastroenterite e não havia nada a fazer. Foi para a cama repousar, enquanto os nossos amigos, lá ficaram mais algum tempo.
O João foi-se embora um dia depois de mim, devia estar com saudades da “cara metade”, o Pedro recebeu a companhia do Celestino e da Quera e ficou mais uma semana.
Ah…! O telemóvel aquático, depois de seco, ficou a trabalhar lindamente e o Pedro, pelo que me contou, continuou a esquivar-se da Consuelo. Livra!!!
publicado por Brito Ribeiro às 10:26
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16
Abr 07
Um domingo logo de manhãzinha a Minda e o Tone, meteram-se no comboio em Valença, rumo ao Porto. Viajaram no “Flecha”, só parava nas estações, os apeadeiros eram para o comboio que vinha a seguir.
Chegados à tabela a S. Bento, tinham o Fernando Castilho à espera, com o nervoso miudinho que o caracterizava e que o impelia a percorrer para lá e para cá, vezes sem conta a gare à espera dos cunhados que iam à sua casa almoçar. Ao fim da tarde, retomariam o comboio em sentido inverso até Valença, onde moravam no cruzamento da estrada de Monção, para o Monte do Faro.
 
Depois dos cumprimentos, saíram da monumental estação ferroviária, atravessaram a rua em direcção à Avenida dos Aliados onde esperaram pelo 82, o autocarro que os levaria até à Avenida Fernão Magalhães, à casa do Fernando, a dois passos do Estádio da Antas, numa transversal ali próxima.
Enquanto o autocarro não chegava, ainda houve tempo para um cafezinho rápido ao balcão do “Embaixador”. Finalmente em casa, a Minda foi logo ajudar a irmã, a Letinha que se afadigava na cozinha, para ter o almoço pronto a horas, enquanto os cunhados se sentavam tranquilamente nos sofás do escritório.
- Fernando, você sempre arranjou os bilhetes?
- Claro, já os tenho há mais de uma semana.
Tinham combinado ir ao futebol, às Antas, ali ao lado. O Tone ligava pouco à bola, mas o Fernando era um doente pelo seu querido Futebol Club do Porto. Só via o Porto, fosse em que modalidade. O que interessava é que o Porto ganhasse.
 
Chegada a hora de almoçar, foram para a sala de jantar, saborear um arroz de cabidela, feito com esmero e para o qual tinha sido convidado um frango, que a Letinha havia comprado no Bolhão e que o mataram ali mesmo, na frente dela.
O almoço arrastou-se com a conversa, agora vem o arroz doce e mais logo está na hora do café, servido com uma aguardente, que o Fernando trouxera de Âncora, da última vez que lá tinha estado. Impaciente como era, olhou várias vezes para o relógio, não se conteve e disse:
- Eu vou para o estádio.
- Oh Fernando, não é ainda um bocado cedo? – Pergunta o Tone, que já nem se lembrava do futebol.
- É, mas eu vou para arranjar lugares para nós. Você depois vai lá ter comigo.
- E como é que o encontro no meio de tanta gente?
- Tome lá o seu bilhete. Quando chegar ao estádio, entre pela porta sete, aquela que está mesmo em frente. Você entra e eu estou ali à mão direita, à beira da entrada.
- Então está bem. – Concorda o Tone, acendendo mais um cigarro.
O Fernando sai quase a correr e a Letinha diz:
- Estais admirados? Muito aguentou ele hoje. Se não estivésseis cá, já tinha ido para o estádio há muito.
- Mas ainda falta quase hora e meia…
- Que quereis, ele é assim!
 
 Quando se aproximou a hora do jogo, o Tone levanta-se, dirige-se para o bengaleiro, à entrada e veste a gabardina que tinha trazido. Fez algum esforço para enfiar o segundo braço, olhou para si próprio, reparou nas mangas por meio do antebraço e chamou:
- Oh Minda, anda cá ver a gabardina. Parece que encolheu.
- Tu não estás bom, ainda há bocado a trazias vestida e estava bem, como…Ah, encolheu mesmo!
- Eu bem te disse! – dizia o Tone com a gabardina vestida, que apenas lhe chegava a meio das coxas.
- Essa gabardina é do Fernando – esclareceu a Letinha que saíra da sala para ver o que se passava.
- Então deve ter levado a minha gabardina, por engano.
- Deve ir com ela quase a arrastar pelo chão.
- Se a mim fica um bocado grande, que fará a ele. Não faz mal, nem sequer está frio, eu levo a gabardina dele no braço e chegando lá ao estádio trocamos.
 
E assim fez, encontrou com facilidade o cunhado, que, com a mania das pressas, ainda nem tinha reparado na “albarda” que trazia vestida.
Desfeito o engano, trocadas as gabardinas que eram do mesmo formato e da mesma cor, divergiam no tamanho, começou o desafio. Não sei quem ganhou, espero que tenha sido o Porto. Nisso, saio ao meu tio Fernando!
publicado por Brito Ribeiro às 17:35
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13
Abr 07
A gamela encostou suavemente à areia, no portinho. Os homens saltaram para terra descalços, calças arregaçadas, chapinhando no silencio da noite. Sem precisar de voz de comando, todos se esforçaram por guindar o barco para local seguro, onde o mar não lhe tocasse.
Os rolos, em cima dos varais, deslizavam sob o fundo chato daquela embarcação de origem galega, mas bem adaptada às rudes condições do portinho de Gontinhães.
Os bancos, ainda há pouco ocupados pelos homens que remavam, estavam agora vazios. A vela estava arrumada, não havia vento, tinham ido e vindo, a remos. As redes da lagosta tinham sido largadas perto, a sudoeste do Forte do Cão, já nos mares de Afife.
Cada um pegou nas suas coisas, nos seus baús e murmurando um “até amanhã”, rumou às suas casas, depois de calçar os socos em terra firme. Já passava da meia-noite, a luz eléctrica que alumiava as ruas, tinha sido apagada. Valia a lua, que ia alta, faltavam três dias para ficar cheia, sempre dava para ver o caminho.
 
O Manuel Verde, o Jeitoso, arrais da embarcação, enrolou o cigarro às escuras, sem hesitações, pela prática de muitas noites, acendeu-o no aconchego da samarra, tirou um longa fumaça e observou os seus camaradas que pesadamente se afastavam. Urinou à beira de uma pilha de caixas, que esperavam o verão e a sardinha, que tanta fartura trazia à terra.
Após uma última fumaça, atirou a beata para a areia, e inclinou-se para dentro do barco, junto ao testeiro da popa, para pegar no seu baú.
Era um velho e gasto baú de madeira, que usava há mais de vinte anos, cada dia que ia para o mar. Tinha sido a sua mãe, que Deus tenha, que o tinha encomendado a um marceneiro da freguesia quando, ainda solteiro, tinha começado a governar aquele barco.
No baú levava o comer, uma garrafa de vinho e uma garrafinha de aguardente, na qual raramente tocava. Umas das ultimas vezes que tinha sido aberta, foi para socorrer o tio Corisco, quando uma maregada batera de través na gamela e o velho pescador ficara encharcado até aos ossos, pelas águas geladas, daquele mês de Novembro.
A aguardente tinha sido uma bênção dos céus e tinham devolvido as cores e o ânimo àquele homem, que vestira roupa seca, prontamente emprestada pelo arrais e pelos seus camaradas, o Damião e o Tio Mala.
Dentro do baú, repousavam a agulha de marear, a sonda, os papéis do barco e uma lista dos pontos de alguns pesqueiros mais complicados, cuidadosamente embrulhados num pedaço de lona, para defesa contra a salitre e a humidade. A um canto estava uma pequena imagem da Senhora de Fátima, aquela que tinha aparecido aos pastorinhos e que invocava sempre que saia para o mar.
 
Ergueu o baú, pousou-o sobre a cabeça, não pesava muito, de qualquer forma a casa não era longe. Ficava no fim da Avenida, que tinha sido construída há poucos anos e que lhe dava muito jeito.
Agora já não tinha de caminhar sobre as dunas de areia, nem sobre as lajes, que apareciam aqui e ali. Pouco depois, chegou à entrada do corredor, que dava acesso à casa térrea, que fora do seu pai.
Na casa ao lado vivia a irmã, a Piedade e a entrada era comum às duas casas. Por isso, ao longo do corredor, tinham amontoado lenha para os fogões, do lado norte do Manuel, do sul, era da Piedade, deixando uma estreita passagem ao meio. O Manuel Verde abriu a cancela, deu um passo para dentro e sentiu um tropel aproximando-se e algo o forçou entre pernas.
O pânico invadiu este curtido homem do mar, que deu um berro de terror. O baú voou sobre os feixes de lenha empilhada, caindo com fragor, uns metros adiante.
Completamente atordoado, com o coração ao pé da boca, ainda viu o vulto do grande cão que fugia, também ele espavorido, pela cancela aberta.
Da sua casa, surgiu a luz bruxuleante de um candeeiro a petróleo, que a Joaquina, sua mulher segurava, enquanto apertava o xaile com a outra mão.
- És tu, Manel? Que foi isso, homem de Deus?
- Ah...Ah...Foi...foi um cão, foi um cão que me passou pelo meio das pernas...
- Cruzes diabo, que fazia um cão aqui dentro?
- Sei lá, deve ter entrado para o terreno e como fechaste a cancela, ficou cá dentro preso. Quando me viu a entrar, o bicho aproveitou para fugir. Raios o partam, que me pregou um susto de morte. E o pior, é que o baú caiu e está tudo espalhado.
- Deixa lá homem, vai para dentro e come uma malga de caldo, que a panela está no fogão, enquanto eu apanho as tuas coisas. Vá, vai-te aquecer, que deves estar gelado.
publicado por Brito Ribeiro às 17:38
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12
Abr 07
Com a sensação do "deja vu", assistimos dia após dia, ao desenrolar da trama e do drama da Universidade Independente. A "outra" chamava-se Moderna, esta chama-se Independente. Em ambas há acusações de gestão danosa, falsificação de documentos e mais alguns crimes do género.
Mais surpreendidos ficamos, quando se põe em causa a validação pedagógica, emitida por esta universidade privada. Parece já não haver muitas dúvidas da confusão administrativa que reina na Universidade, estando a ser analisada a suspeita de favorecimento em processos individuais de alunos.
Mas surpreendentes são também as declarações do Procurador-geral da Republica ao dizer que não há motivos para abertura de um inquérito patrocinado pelo ministério público. É surpreendente tanto mais que há já vários órgãos de comunicação que vinculam noticias, resultado de investigação jornalística, extraordinariamente preocupantes quanto à forma como a universidade era gerida em termos pedagógicos.
Como se não fosse pouco, ainda estava reservada mais uma surpresa, ao saber-se que o próprio diploma de licenciatura do primeiro-ministro José Sócrates estava sob suspeita.
Estou convencido que não passa de uma tentativa torpe de o fragilizar, mas não impede de se apurar o sucedido, não só com ele, mas com todos os outros, até se ter certeza absoluta na seriedade ou não dos procedimentos da Universidade Independente.
Muita água vai correr debaixo da ponte, muita tinta vai correr até se desvendar estes imbróglios. O ministro Mariano Gago fez aquilo que já se esperava, ao decretar o encerramento compulsivo da Universidade e dar um prazo para que a actual direcção, apresente provas que garantam o bom funcionamento no futuro e justifique cabalmente as incógnitas do passado.
O que o ministro Mariano Gago não explicou foi porque é que a Direcção Geral do Ensino Superior e as instâncias inspectivas do Ministério, não detectaram nada durante estes anos todos, principalmente depois do "aviso" da Moderna. Das duas uma, ou estiveram a dormir ou fizeram "vista grossa".
Não é possível que, de repente, apenas porque há uma luta de poder pela direcção da Universidade todo este lodo, toda esta porcaria, venha à tona da noite para o dia.
Que vão fazer agora os docentes e os funcionários da Independente com o encerramento da sua escola? E os alunos? Cerca de duas mil pessoas envolvidas e seriamente prejudicadas pela ganância, pela irresponsabilidade e estupidez de meia dúzia. Que vão fazer os alunos finalistas aos quais faltam duas ou três cadeiras e os outros, aos quais ainda faltam alguns anos para terminar? Vão ser transferidos? Com que custos?
Há crime e os culpados devem ser exemplarmente punidos, mas o estado também não está isento de culpas. Não pode simplesmente encerrar a Universidade, primeiro porque foi responsável pelo seu licenciamento, segundo porque não geriu o processo de fiscalização e monitorização da escola em tempo devido, como era sua obrigação.
Deve, a meu ver, assumir imediatamente, de forma clara e determinada, a gestão da Universidade até os alunos terminarem os seus cursos, não abdicando do papel tutelar do ensino, mesmo que isso traga custos financeiros ou outros.
É o que se espera de um estado (de facto) de direito.
publicado por Brito Ribeiro às 17:31
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11
Abr 07
Mais ou menos um ano depois de ter entrado para a Empresa de Lacticínios Âncora, a gerência propôs-me que ficasse responsável pela área do marketing, em acumulação com o trabalho de inspecção. Para o departamento comercial iriam ser contratados dois supervisores que, a prazo, fariam parte do meu trabalho de inspecção e contacto com os clientes. Cedo percebi que alem da inspecção e do marketing, ainda tinha a formação e o controle dos supervisores (o Armindo e o Hugo) a meu cargo, visto o director comercial, não parecer muito motivado, para essas tarefas "menores".
No ano de 1991 a ELA bateu todos os recordes de lucro, sendo-nos informado que havia um resultado positivo de noventa mil contos. Na altura acreditei nos números, rejubilei, mas hoje não acredito e mais à frente irei explicar porquê.
Organizar um departamento de marketing a partir do zero e sem experiência anterior não é pêra doce, mas com o auxílio do Francisco Presa, de alguns consultores que sucessivamente iam passando, com muito estudo e algumas formações, começamos a apresentar inovações, que já eram velhas lá fora, mas totalmente desconhecidas a nível interno.
Desde planos de marketing, estudos de opinião, estruturação de imagem e comunicação, animações no ponto de venda e participação em feiras, exposições e outros eventos promocionais. A Empresa de Lacticinios Âncora aumentou visivelmente a sua notoriedade e a sua implantação, facto provado pelos relatórios periódicos da Dun & Bradstreet.
 
A primeira feira que planeei e participei foi em Tuy, na Galiza, uma feira de actividades económicas, integrada nas festas de S. Telmo. Ao nosso lado ficou o stand da Adega Cooperativa de Monção e quem estava à frente desse stand, era o professor José Emílio Moreira, então presidente da cooperativa, hoje presidente da Câmara de Monção. Até ao final da feira, nunca lhe faltou queijo e nunca me faltou vinho. Ainda há pouco estive com ele e recordamos essa feira, pelo ambiente que criamos, pela empatia que ficou.
Mais tarde, iria participar em diversas feiras, com destaque para as "Alimentária" na FIL onde, de uma das vezes em que participamos, tivemos como animadora no stand, uma miúda linda e muito despachada, que sofria imenso com os sapatos de saltos altos, que usava durante todo o dia até que a dispensamos desse martírio. Chamava-se (e chama-se) Barbara Guimarães, poucos anos mais tarde era uma das caras mais conhecidas da televisão.

A feira mais extenuante foi a Ovibeja, uma feira agro-pecuária na qual participamos, porque estávamos a implantar os nossos produtos no Alentejo. O evento realizado em época quente, abria logo de manhã, só encerrava ao final da tarde e o nosso stand estava numa tenda gigante de oleado, onde fazia um calor tórrido. Imaginem aqui o moço (e os outros), todo engravatado, a destilar o dia inteiro!
Nós já estávamos preparados para algumas contingências e levávamos sempre alguns produtos para expor que colocávamos nas vitrines frigoríficas e outros produtos para embelezar ou decorar o stand. Em Beja tivemos que usar queijos de madeira, embalados como os verdadeiros, porque os queijos “a sério” derretiam ao fim de meia hora se não estivessem no frigorífico.
 
O meu companheiro nessa aventura alentejana foi o Armindo, um colega sempre bem disposto, que passou, como eu, uma fome de cão, pois praticamente não tínhamos tempo de almoçar, já que era pela hora do almoço, que havia mais afluência de público e não podíamos encerrar a “barraca”.
Estávamos hospedados em Serpa, na pousada, foi o único sítio que arranjamos. Estava tudo esgotado, nem residenciais, nem hotéis e todos os dias fazíamos trinta e tal quilómetros para cada lado, o que no Alentejo é perto, “é já ali” como eles dizem.
No primeiro jantar que fizemos na pousada, o empregado que nos serviu, ficou pasmado com a velocidade com que fazíamos desaparecer tudo o que nos punha na frente, mas não teve coragem de nos dizer nada.
No segundo dia, veio ter connosco o chefe de sala para nos perguntar, como é habitual, se estava tudo a nosso gosto e nos disse que era um prazer para ele, ver dois clientes a comer tão bem, sinal que a comida era boa. O Armindo, no seu jeito descontraído, respondeu de imediato que o repasto estava excelente, mas o nosso problema era não almoçarmos durante o dia.
O homem franziu as sobrancelhas, pigarreou embaraçado e fez um daqueles sorrisos amarelos face à resposta do Armindo. Continuo com a impressão que não acreditou nele, mas se éramos bem tratados até então, passamos a ser tratados como “lordes”.
Ainda nessa feira, aconteceu que uma manhã estávamos os dois no stand, quando o Armindo decidiu ir ao carro, buscar qualquer coisa que se tinha esquecido. Para chegar ao parque de estacionamento dos expositores, era preciso dar uma grande volta, o que nós solucionávamos, atalhando caminho, atravessando o pavilhão do gado bovino. Quando chegou o Armindo disse-me: - Brito, anda ali ao pavilhão ver uma coisa.
Lá fomos ao pavilhão do gado, que era dividido em várias boxes onde, por raças, estavam expostos belos exemplares de bois, vacas e vitelos. E havia “montes” de raças; Limousine, Barrosã, Charolês, Frísia, etc.. A coisa engraçada que ele me queria mostrar, era um pavilhão inteiro onde os animais estavam todos de pé, menos os exemplares da raça Alentejana, que estavam deitados. Os três belos touros Alentejanos, castanhos, de um castanho camurça fascinante, descansavam tranquilamente enquanto todos os seus “colegas” estavam assentes nas quatro patas, entretidos a dar aos queixos. Durante anos o Armindo contou esta piada e depois virava-se para mim e dizia: - Não foi, Brito?
 
Falando de coisas sérias, o Armindo faleceu há uns anos com uma doença terrível e deixou-me muitas recordações, umas boas, outras menos boas. Seja como for, há coisas que já estão perdoadas há muito e recordo-o com nostalgia.
Um certo dia, sou informado pelo Francisco Presa que iria ser contratada uma gestora de marketing, uma moça de Geráz do Lima, recém licenciada em marketing, que iria tomar conta do departamento que tinha criado, do “meu” departamento, transitando eu para adjunto do director comercial. Isto significava uma promoção, pelo menos assim o entendi e o certo é que fui recompensado financeiramente. Se soubesse o que sei hoje (esta é velha!), nunca teria aceite este presente que veio, muito mais tarde, a revelar-se envenenado.
A parceira que foi contratada, Dr. Elsa (não me lembro o apelido, talvez Barbosa) foi sempre simpática e excelente colega, que rapidamente aprendeu o suficiente para desempenhar minimamente a sua função. Faltava-lhe algo que não se aprende na faculdade, o “fealing”, a astúcia, experiência de negócio que eu já tinha alguma e o meu novo chefe o Manuel de Sousa também possuía bastante.
Mas também ela nunca se acanhou de perguntar ou pedir opinião, nem eu me “cortei” de lha dar, por isso tivemos um relacionamento impecável, até ela se incompatibilizar com o Francisco Presa e ter ido embora.
Mas voltando ao meu inicio de funções, como adjunto do director comercial, cargo pomposo que dava mais trabalho que o que valia, visto que o trabalho de campo era para mim, as glórias eram para o chefe. Desculpem a linguagem, mas as “fodas” eram sempre para o mesmo.
Quando havia algum problema a resolver, fosse em Chaves, fosse em Leiria, fosse onde fosse, lá ia o Brito armado em bombeiro apagar o incêndio, pelo menos deitar água na fervura, porque o chefe só para fazer negociações importantes em Lisboa. Bem, chefe é chefe, mais nada!
O que eu nunca suspeitei é que já me estavam a “fazer a cama” há muito, talvez porque nunca tive papas na língua e dizia algumas verdades incomodativas, fosse para quem fosse. Ou talvez porque o meu lugar era cobiçado por outros, como mais tarde se comprovou.
 
publicado por Brito Ribeiro às 14:32
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Abr 07
O assalto ao posto dos correios foi tema de abertura em dois telejornais, com grande profusão de pormenores, entrevistas com os mirones, os polícias e com os diversos intervenientes. A TVI foi mais longe e conseguiu até trocar breves palavras com um dos assaltantes, o gago que só pedia que o deixassem “fazer a folha” ao condutor do carro de fuga. Mas o que provocou o gáudio dos espectadores foram as imagens exclusivas da Rosete com a saia subida até ao pescoço e das suas mediáticas cuecas. Não iria faltar muito tempo para o vídeo estar disponível no “you tube”.
Outras imagens que arrancaram largas gargalhadas, foi o momento em que a multidão fugia espavorida à frente do BMW e quando a maquineta das pipocas do Valdemarcio levantou voo e aterrou toda espatifada em plena calçada.
 
Para a Júlia foi uma semana inesquecível. O Simplício na casa sem poder sair, ela sozinha na loja, a Inês quando saia da escola ainda ajudava, mas os seus préstimos eram poucos. O que lhe valeu foi a Suzete peixeira, que tinha uma banca no mercado e que todas as tardes vinha lhe dar uma mão a arrumar a loja e a encher as prateleiras.
- De manhã tenho as minhas freguesas lá no mercado e não te posso ajudar, mas de tarde tiro um bocadinho e dou-te uma mão.
- Não sei como te hei-de pagar este favor – dizia a Júlia, sensibilizada com o gesto da amiga.
- Ora, hoje eu por ti, amanhã tu por mim. Trata mas é de defumar a loja e lá a tua casa, que parece que tens mau-olhado. Tudo te acontece…
A Susete tinha a mania do espiritismo e andava sempre com essas coisas dos maus-olhados e das invejas.
Ao fim três dias, o Bertinho passou lá pela loja, muito direito, muito teso, a falar baixinho, mas com um ar de alguma superioridade, como se os acontecimentos lhe tivessem agradado.
- Pois é D. Júlia, ainda tenho muitas dores e mal me posso mexer. Tenho baixa, pelo menos, para quinze dias.
- Não sei como me hei-de desenrascar sozinha, ainda para mais o Simplício parece uma criança, não faz nada só, ficou muito traumatizado com o acidente. Você quase me pôs viúva!
-Nem a brincar diga uma coisa dessas! O sr. Simplício é que entrou na rotunda a vinte à hora e eu não me pude desviar. Não se esqueça que eles tinham armas e ameaçavam que me davam um tiro se não guiasse a toda a velocidade. Alem disso, eu tinha que os deter de alguma forma. E consegui, depois de tocar de raspão no carro do seu marido…
- De raspão, você acertou-lhe em cheio!
- Está enganada eu só lhe dei de raspão, depois é que o carro do seu marido fez um pião e foi bater naquela pedra enorme da rotunda, enquanto eu aproveitei para atirar o carro contra os rails de forma a neutralizar os assaltantes. E deu certo, foi um plano perfeito.
- Bertinho, escute-me com atenção. Você pensa que me engana com essa história de treta? Então atirou de propósito o carro para cima das macieiras do Gervásio? Está a fazer de mim parva?
- D. Júlia eu nunca quis engana-la, tanto mais…
- Eu sei, eu sei, isto vai ficar só entre nós e pode contar que eu não digo uma só palavra que ponha em dúvida a sua história, mas que você quase me punha viúva, é bem verdade.
- Sabe, hoje de manhã veio ter comigo um inspector dos correios e disse que estão a estudar um prémio para me atribuir, por ter criado as condições para apanhar os assaltantes.
- Ora essa! Deu cabo do carro do meu homem, desfez aquele BMW que devia ser quase novo, mandou não sei quantos para o hospital, ia atropelando mais de cinquenta pessoas, deu cabo do negócio do Valdemarcio, destruiu o pomar do outro e ainda vai receber um prémio. Eh... Está bonito, só neste país…
 
- Olá Bertinho, então já andas cá por fora? Estou a ver já estás pronto para outra…
- Nem pense nisso sr. Tita, nunca mais me apanham, como desta vez.
- Ah, ah, ah, tu tens o espírito da aventura no sangue. És como eu! – diz o velho contrabandista Quim Tita, uma lenda viva dos tempos duros do contrabando.
Desde muito novo Quim Tita foi lançado nas malhas furtivas do contrabando para Espanha, primeiro como simples carregador, depois como controlador e finalmente como organizador e financiador das operações clandestinas de importação e exportação. Não pensem que tinha sido um vulgar traficante, pois tinha um código de conduta muito próprio e gostava de escolher criteriosamente os seus colaboradores, pois tinha uma imagem a defender e lá no meio, tinha fama de honrar a palavra.
Tinha uma grande simpatia pelo Bertinho, que tinha idade para ser seu neto e já o tinha sondado para vir trabalhar na empresa de materiais de construção, que tinha aberto há uns anos, quando a entrada na CEE lhe estragou o negócio do café, das bananas, do tabaco e de tudo que levava e trazia. Dizia ele: - “Isto é uma grande pôrra; antigamente nem uma Coca-cola se podia trazer de Espanha. Hoje os espanhóis vem cá e montam logo uma fábrica. Agora não tem piada nenhuma, antigamente é que era. Todos ganhavam, todos comiam, todos se safavam”.
 
- Júlia, esse anormal do teu funcionário um dia ainda te deixa ficar mal. O gajo é maluco e…
- Mas é bom a atender. As freguesas gostam dele. Ele tem jeito.
- Pois tem. Pois tem – dizia o Zé Bastos – tem jeito é para se meter em complicações e para meter os outros em trabalhos. Quase matava aquela gente toda e o teu homem também. Ainda queria ver se tivesse acontecido o pior, se o estavas a defender. Júlia, esse tipo ainda nos dá cabo dos planos. Tu nunca lhe disseste nada, pois não?
- Não, não, podes estar descansado, mas eu preferia tê-lo connosco do que na ignorância.
- Deixa andar, pois ainda há muito tempo. Deixa-me contar-te como se passaram as coisas em Barcelos na semana passada. Quando lá cheguei, o Martinho já tinha começado…
E os dois cochichavam a um canto do balcão, ao fim de uma tarde cinzenta, com a loja às moscas. Até no negócio se sentia o efeito do tempo. Nunca mais chegava a primavera, tardavam os dias grandes e soalheiros, faltava o aconchego do calor, o canto dos passarinhos, o voo das primeiras andorinhas.
 
publicado por Brito Ribeiro às 17:36
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