Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

30
Mar 07
Encontrei meramente por acaso o teu blog, uma noite como hoje, em que fiquei a trabalhar e já chateado com o serviço, sem nada para fazer, mas com a obrigação de lá permanecer, comecei a dedilhar teclas, cheirar sites e mais sites, blogs e mais blogs, até que encontrei recordações de infância e adolescência. Li e reli, procurei, encontrei o nome do bloguista e resmunguei de forma idiota “ mas este é o meu primo, caraças”.
A história denunciante foi a da faca. “Oh Leta, traz-me a faca para matar o ladrão”. Essa, ouvi-a dúzias de vezes desde miúdo da boca da minha mãe, pois era uma piada repetida, vezes sem conta, em qualquer evocação de peripécias familiares.
Depois dessa noite de solitária pesquisa, outras houve que levado pela curiosidade, mas também pela convicção e surpresa da qualidade literária dos teus escritos, voltei às tuas loucuras, voltei à tua imaginação, às tuas histórias. Ainda não acabei, nem sequer vou a meio; sei lá onde vou, sem destino, lendo cada uma das tuas linhas com o prazer da partilha de emoções, lentamente digeridas pelos anos passados.
A minha mãe, tua madrinha, e com quem falas frequentemente ao telefone, apesar dos seus noventa e um anos, quase noventa e dois e o Parkinson que a incomoda ao ponto de lhe retirar toda a mobilidade, referiu-me uma aventura do seu Tone Castilho, teria ele quatro ou cinco anos, que se passou na nossa antiga casa, durante um qualquer dia do mês de Agosto.
A meio dessa longínqua tarde, o meu distinto e futuro primo (eu ainda não era nascido) desapareceu como o fumo. A ultima vez que tinha sido visto, estava no quintal a brincar tranquilamente e as entradas e saídas em casa, permitiam que os adultos presentes, minha mãe, alguma das minhas irmãs e a D. Laura, vizinha idosa e sabida, com uma rica experiência de vida, estivessem em tranquila cavaqueira sobre este e aquele assunto.

Como te recordarás, naquela época, o tempo parecia andar mais devagar, as brincadeiras dos putos eram menos buliçosas e também não haviam tantos perigos, como nos dias de hoje.
A certa altura deram por falta do Tone Castilho, que não estava no quintal, não estava na sala, não estava na cozinha, não aparecia em lado nenhum. “Toninho, Toninho”, chamavam a Quinhas e a D. Laura num crescendo de aflição, que o tempo inexoravelmente ampliava. Levantou-se a pesada tampa do poço, inspeccionou-se a corte do porco (um T0 com vista para o galinheiro), todos os quartos lá de casa e não eram poucos, sem deixar de mirar para baixo das camas e o Toninho de grilo, como se diz aqui em Âncora.
A Quinhas já chorava baba e ranho, pois tinham passado uns ciganos na estrada algum tempo antes, e o imaginário da minha pobre e apoquentada mãe, dizia-lhe que aqueles ciganos podiam ser os malfeitores, os raptores do meu infortunado primo Tone Castilho.
No meio daquela confusão, a D. Laura entrou no quarto da minha mãe e reparou que algo se movia entre o roupeiro a parede. A velha senhora, sem se aproximar, chamou em voz alta: “Menina, venha aqui ao seu quarto ver uma coisa. Que é que está ali por detrás?”
A minha mãe contorna o armário e depara com o seu querido afilhado, encolhido contra a parede, mas com o rabo de fora, única coisa que era visível. “Toninho, meu filho, que estás aqui a fazer”, perguntava entre soluços de angústia e de alegria.
Bem, o que aconteceu foi que a brincar no quintal tinhas molhado o bibe, uma espécie de bata, e com medo que te ralhassem, decidiste esconder-te até passar a borrasca.
A minha mãe diz que ninguém te ralhou, os ciganos foram perdoados por algo que não fizeram e ganhamos uma história para mais tarde (agora) contar.
Se calhar não te lembravas desta cena, mas asseguro-te que a mim, não mais me irá esquecer.
Já agora, os meus parabéns pelo teu blog e que estes dois anos se multipliquem por muitos.
 
Um abraço.
publicado por Brito Ribeiro às 14:15
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29
Mar 07
Dois amigos de longa data, o Pedro e o João, combinam sair um sábado à noite para dar uma volta e beber uns copos, pelos bares da zona. Ao início da madrugada, entram num bar, um dos poucos que ainda não conheciam. Ambiente acolhedor, boa música, encostam-se ao balcão e perguntam ao barman:
- Então, tendes alguma bebida especial?
- Claro, temos um “shot” especial, querem provar?
- Sim, põe dois.
As bebidas eram realmente estupendas e eles repetiram uma e outra vez. A certa altura chamaram o barman e perguntaram-lhe quais eram os ingredientes daquele “shot” especial.
- O normal, um pouco disto, uma gota daquilo. Apenas vos posso dizer que é feito à base de gasolina de avião. O resto é segredo do patrão e não estamos autorizados a revelar.
Saíram quando o bar encerrou, despediram-se e rumaram às suas casas para dormir.
Ao fim da manhã seguinte, o telemóvel do Pedro toca insistentemente na mesinha de cabeceira. Acordou estremunhado, atendeu e ouviu a voz do João que lhe perguntava:
- Já estás a pé?
- Não pá, ainda estava a dormir.
- Ainda não foste à casa de banho?
- Não, já te disse que estava a dormir. Porquê?
- Bem, quando fores à sanita, deves ter muito cuidado.
- Porquê?
- Porque te estou a telefonar de Marrocos, pôrra…
publicado por Brito Ribeiro às 16:49
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28
Mar 07
 


A origem
Esta capela fica na Freguesia de Vile, bem no centro do Vale do Âncora. O povoamento desta freguesia, que é uma parte da paróquia medieval de S. Pedro de Varais, é documentada arqueologicamente antes do séc. XII pelo “Castro do Medo”, o “Corucho do Mouro” e a “Anta do pinhal do Santo de Vile”.
No séc. IX, o local denominava-se “Villa” e no séc. XI “Villar de Villa”. Até 1641 Vile mantém-se ligada (com a freguesia de Azevedo) à Paróquia de S. Pedro de Varais.
A capela de S. Pedro de Varais, está situada numa área montanhosa dos contrafortes da Serra D`Arga e é desconhecida a data da sua construção, apontando-se como mais provável o final do séc. XII e o início do séc. XIII, sendo certo que já é referida numa Bula de 1320 do Papa João XXII, que concede a D. Dinis por três anos e para ajuda da guerra contra os mouros, a décima de todas as rendas eclesiásticas dos seus reinos, com excepção das igrejas, comendas e benefícios, que pertencessem à Ordem de Malta. Nessa Bula datada de Avinhão, a 23 de Maio de 1320, lá vem taxada em 180 libras a igreja de S. Pedro de Varais, ligada ao Bispado de Tui.
Nas “Memórias Paroquiais” do Padre Luís Cardoso, de 1758, faz-se menção da Igreja de S. Pedro de Varais nestes termos: « Tem esta freguesia (Vile) huma capela ou igreja quasi no alto do monte, que fica da parte do norte, muito antiga, que por tradição dizem que prmeyramente foi Mosteyro de Eremitas, e ao depois Prochia desta dita freguezia e da freguezia de Sam Miguel de Azevedo (...) e muito distante das ditas duas freguezias mencionadas se dividio nas ditas duas freguezias ou Parochias pelos anos mil seiscentos e corenta e hum...».
Durante muitos anos houve uma acérrima disputa entre as Freguesias de Vile e Azevedo pela sua posse, resolvida com a decisão de a empossar na Confraria de Santo Isidoro que a mandou reparar em 1850 e até meados do séc. XX ainda a mantinha, com o intuito de satisfazer um dos quinze clamores anuais do seu compromisso estatutário.


As características
A Capela de S. Pedro de Varais, apesar das suas pequenas dimensões, é um monumento românico de perfeita arquitectura e rara beleza. Diz a tradição tratar-se de um Mosteiro antigo e a sua situação assim o parece indicar pois, se não fora o destino cenobítico e o caracter procurado, de eremita, para o tempo, não se teria erguido tal igreja no seio de um monte difícil de subir de ambas as partes, tanto de Vile, como de Azevedo.
A Capela de S. Pedro de Varais é formada por dois quadriláteros desiguais, com uma discordância, pois a abside sofreu uma inclinação, deslocando-se do eixo transversal do templo. Coroando a fachada principal, na prumada dos pórticos, encontra-se o campanário. Sobre a porta está gravada a cruz de Malta e no cimo da nave com a abside existe uma cruz vazada equilátera, a Cruz dos Templários.
No interior vê-se um arco sólido tumular (arcossólio) em ogiva e na abertura do arco, em baixo, encontra-se um túmulo vazio, sem tampa.
O altar é em granito trabalhado estando pintado de várias cores, não havendo dúvidas que é de construção mais recente, nada tendo a ver com o estilo arquitectónico românico. No cimo deste altar está gravada a data de 1743.

Os alertas
Foi Marques Abreu, um editor do Porto que após visita ao local, chamou a atenção das autoridades para a necessidade da classificação do monumento e para a sua preservação.
Em 1950 entrou para a lista dos Monumentos Nacionais, classificada como Interesse Público pelo Decreto 37728, de 5 de Janeiro.
Mais recentemente, em 1982, o então Vereador do Pelouro da Cultura da Câmara de Caminha, José Luís Presa denuncia o estado de degradação em que se encontra este monumento.
Em 1988, o NUCEARTES e o NAAIA, Associações de Defesa do Ambiente e do Património, iniciam um processo de pressão sobre diversas entidades de forma a tornar possível a recuperação deste monumento.


A recuperação
Em 1989, dois técnicos do Instituto Português do Património Cultural (IPPC) inspeccionam o monumento, recolhendo elementos necessários para iniciarem o estudo de recuperação.
Em 1990, o NUCEARTES e a Junta de Freguesia de Vile estabelecem um acordo em que a Junta se comprometia a reparar o caminho para assegurar o transporte dos materiais necessários ao restauro e o NUCEARTES diligenciaria junto das entidades públicas e privadas no sentido de angariar fundos destinados a suportar os custos destas obras.
Assim, os membros daquela Associação de Defesa do Património saíram à rua para cantar as Janeiras (Janeiro de 1991) no sentido de angariar fundos e oficiaram a todas as entidades com responsabilidades na gestão do património, informando que as obras previstas estavam orçadas em 2.050 contos.
Pouco tempo depois chegavam as respostas, que invariavelmente reconheciam a necessidade das obras e a indisponibilidade financeira de as apoiar.
De forma resumida, os trabalhos de recuperação passavam pela substituição do travejamento e do telhado, substituição da porta, colocação do forro de tecto, eliminação das escorrências de água e limpeza geral no interior e exterior do monumento.
Os trabalhos decorreram com o acompanhamento de técnicos da Direcção Geral de Monumentos Nacionais e colaboraram entusiasticamente muitos populares da Freguesia de Vile, alem dos elementos do NUCEARTES, que em 1992 voltaram a cantar as Janeiras para obter fundos que garantissem a finalização das obras, sendo correspondidos pela população que colaborou generosamente.
Mais tarde, a Junta de Freguesia de Vile iniciou as obras de recuperação do espaço envolvente e do calcetamento do caminho de acesso, tornando fácil e cómoda a visita à Capela de S. Pedro de Varais, que hoje em dia tem uma ampla zona arborizada, dotada de parque de merendas e sanitários em excelentes condições de fruição.
Falta a Junta de Freguesia em colaboração com a Câmara Municipal, a Região de Turismo e outros parceiros interessados, darem a conhecer este belo e bem preservado monumento, incluindo-o nos Roteiros turísticos da região, com o destaque que merece.

Fontes: Roteiro do Vale do Âncora, Melro D`Água, Arquitectura religiosa do Alto Minho, DGEMN

publicado por Brito Ribeiro às 16:19

27
Mar 07
Desde pequeno que gosto de pescar, comecei no rio a apanhar mujos e enguias, só muito mais tarde aprendi a pescar no mar. O equipamento era rudimentar, as canas eram "da India", as linhas duravam anos e só eram trocadas quando estavam manifestamente podres.
O meu primeiro carreto de mar, foi um Sofi ao qual lhe perdi o rasto, se calhar emprestei-o a alguém e esqueci-me. As primeiras pescarias eram feitas à noite no praial de Âncora, em conjunto com outros colegas, que também tinham o gosto pela pesca. Apanhavam-se uns cachiços e umas chincaronas ou umas fanecas, de verão com o mar "chão".
Ainda sou do tempo de levar uma vela, que acendíamos dentro dum buraco cavado na areia, para termos luz para iscar e desensarilhar as tansas. Focos eléctricos eram luxos raros, os quais não estavam ao nosso alcance.
Aprendi umas coisas com o Cabuca, naquela altura um "ferrinho" da pesca e um conhecedor das condições do mar. "Hoje não vale a pena, porque o mar mexe muito por baixo" ou "é de ir, hoje é lua, mas só depois das nove, com a maré para cima".
Estas certezas ainda hoje funcionam, baseadas num conhecimento de muitos anos de experiência e de ouvir dizer os mais antigos. A minha experiência, porque eu agora também tenho (alguma) experiência, leva-me a concluir que nem todos estes conhecimentos são verdadeiros, pelo menos nunca os consegui provar. Mas que muitos funcionam, lá isso funcionam.
Outra coisa que aprendi com a pesca, foi a desconfiar da treta de alguns, que pescam sempre muito, mas quando estão sozinhos. Enfim, albarda-se o animal à vontade do freguês...
Também aprendi que só se contam as vitórias, as derrotas ficam no esquecimento, ninguém conta aventuras de pescarias, onde não se apanhou nada.
Com o tempo, conversando com outros pescadores, lendo uns artigos, fui evoluindo, fui adquirindo novo material, experimentando novas técnicas, fui aprendendo. Não apareci pescador feito, como outros, que começam a pescar hoje e na semana a seguir já discutem como se tivessem com eles o conhecimento de uma vida. Há gajos assim!

Foi realmente a pescar à noite, no praial de Âncora que comecei, aproveitando para ir para Afife ou Moledo quando arranjava boleia. Ainda cheguei a ir algumas vezes de bicicleta e motorizada, nomeadamente com o Cabuca que, em regra, apanhava mais peixe, que os outros todos juntos.
Costumávamos usar a "sintética" como isca, nome que damos à teagem. Entre Viana e Matosinhos é conhecida como "linhas", não tendo conhecimento de outra terra, sem ser Âncora, onde a teagem é conhecida por sintética, nem sei porquê.
Esta isca é muito fina, muito eficaz e um grande "pincel" para a apanhar. Apanhamo-la encostada às pedras, enterrada na areia, nos restos de conchas e de pequenos seixos, que tem de ser retiradas à mão. Quem quiser ter mãos e unhas apresentáveis não pode mesmo ir apanhar isca. Depois de lavada, a isca é metida em serrim de pinho e conservada em local fresco ou no frigorifico, aguenta viva dois dias.
Desde há meia dúzia de anos, tem sido introduzido o casulo e a coreana, que se compra em Viana, no Jaime Ferraz, para aqueles que não podem ou não querem "lixar" as mãos.
Estas iscas usam-se na areia, pois na pedra, durante o dia, usam-se iscas como o caranguejo de muda, a lula, a amêijoa, a sardinha ou a navalha. Mas se pescar na areia é para quem quer, na pedra é só para quem sabe e mesmo para esses não é fácil.
Muito mais tarde é que apareceu a técnica de pescar com amostra, seja colher, peixe de borracha ou as mais sofisticadas Rapallas. Chama-se a isso curricar; lança-se para a água e colhe-se mais ou menos lentamente, fazendo nadar a amostra, enganando o peixe que se atira e fica preso no anzol.
Aconteceu-me um episódio curioso nos primeiros tempos de aprendizagem da amostra, que vos quero contar. Uma tarde, peguei na cana e fui para o Caído, na extrema entre Vila Praia de Âncora e Moledo, uma zona que faz uma enseada e na qual se pode pescar confortavelmente de cima de uma das grandes pedras que por lá existem. Montei a bóia de água, pus um estralho (tenso) comprido, com um peixinho avermelhado.
Experimentei e como trabalhava em condições, toca de explorar o mar à minha frente. Ora atirava para sul, ora atirava par norte, quase a roçar aquela pedra, até que senti uma dor na nuca, como se tivesse levado uma pedrada. Passei a mão pelo sítio dorido e encontro o meu peixinho lá espetado profundamente. "Que grande merda" pensei eu, sem saber muito bem o que fazer. Sangrava um pouco, doer só se mexesse e não havia forma de sair.
Tinha acontecido que ao fazer um lançamento, esqueci-me que a amostra baloiçava no final do estralho comprido e, por azelhisse, não deixei parar o tal balancear, acabando o anzol por se espetar na minha nuca, quando chicoteei a cana para frente.
Acabei por cortar a linha junto da amostra, arrumei a cana e os demais apetrechos e rumei para a Policlínica onde me apresentei com um flamejante peixe vermelho a adornar a "mona". O enfermeiro, depois de rir e gozar com a situação, foi buscar um vulgar alicate, com que cortou o bico logo atrás da barbela e desenfiou tranquilamente resto do anzol. Nunca aquele anzol tinha apanhado um animal tão grande!
Foi da maneira que aprendi com o erro, nunca mais me aconteceu nada do género. O que me acontecia frequentemente era perder as amostras e as bóias. Foi uma aprendizagem relativamente cara, mas o que importa é que aprendi a pôr a amostra, mais ou menos onde queria.
E ao fim de várias sessões de pesca lá apanhei o meu primeiro peixe a corricar. Ao princípio até pensei que tinha, mais uma vez, prendido em algum sargaço ou alguma pedra, só tomei consciência que era mesmo um robalinho, quando senti o gajo a "espernear". Acho que me senti um pescador a sério, um pescador que "já sabia umas merdas". Como estava enganado!
Outro dos primeiros peixes que apanhei a curricar foi em frente à minha casa, na boca do rio, com um Raglou vermelho (peixe de borracha) e que pesava um pouco mais de quilo e meio. Ainda por essa época, um dia acabei dentro de água, junto com a cana e o peixe, pois ao tirar um cachiço perto das Paredes Altas, desequilibrei-me e caí ao mar. Mais uma vez a falta de experiência a vir ao de cima, embora isso de cair à água aconteça ao mais pintado.
Voltando à pesca ao fundo, na pedra, modalidade difícil mas compensadora, quando se tira um peixe, quase sempre de tamanho superior aos que se apanham na areia, um dia fui pescar, ao inicio da tarde para o Quintino, perto do Forte do Cão.
O tempo estava nublado, corria uma brisa não muito forte de sudoeste, a maré estava quase no baixa mar e o sacana do pesqueiro estava ocupado. "Raio de sorte" pensei eu cá em cima, junto ao parque infantil, olhando tambem para as "primeiras pedras", mais a norte, logo a seguir à pequena enseada. Já lá estavam dois ou três pescadores espalhados e a ocupar os melhores sítios.
"Bem, vou para baixo, para o Quintino, está lá aquele gajo, mas há vários sítios onde pescar" e desci, cavalgando as pedras com a cana numa mão e o zote ao ombro, sempre com cuidado para não escorregar nas pedras molhadas, cobertas de sargaço e limo. Ao aproximar-me do pescador que já lá estava, reconheci o Mitra, um tipo que pesca bem, um verdadeiro mitra cheio de saberes e de manhas, não foi por acaso que lhe puseram o nome.
Como nos damos bem, até andamos juntos na escola primária, fui até à beira dele perguntar como estavam a correr as coisas; disse-me que já tinha uma ou duas choupas e convidou-me a pescar ao lado dele, porque havia espaço para isso. Como era mesmo para ali que eu queria ir, aproveitei o convite, preparei a cana, isquei e lancei para perto, pois o Mitra dizia-me que tinha tirado as choupas ali perto.
Só para me mostrar como era, tirou outra logo de seguida. Ele estava pescar com caranguejo de muda, o que era uma enorme vantagem, à partida, pois de uma forma geral, quando não se apanha uma choupa com caranguejo de muda, não se apanha com mais nada. Ora eu só tinha amêijoa branca, um isco bom para o robalo e apenas razoável na maioria das vezes para as choupas ou para os sargos. Podia ser que estivessem com fome e não fossem esquisitas!
E o Mitra ia tirando regularmente mais uma choupa, mais outra choupa e eu a "coar água", nem um escorpião para a amostra, nem um toque, as iscas iam e vinham direitas.
A maré subia, íamos recuando pelo interior da enseada e o meu amigo às tantas diz-me que se vai embora, contente com as suas oito choupas e a "abada" que me estava a dar. As choupas não eram grandes, mas tomara eu muitas daquelas, eu que ainda não tinha estreado.

Arrumou os "tarecos" e abalou, deixando-me só em cima duma laje grande, já perto da areia. "Mais dois lançamentos e se não der nada ponho-me a andar", pensava eu, deitando contas à vida e ao relógio.
No ultimo lançamento, estiquei mais para fora, onde há uns cabeços de pedra e areia entre eles, com a esperança no ponto mais baixo e sem fé nenhuma no sucesso daquele dia, quando de repente vejo a cana, que estava entalada habilidosamente numa fraga da laje, a dar um grande esticão e a ficar toda curvada.
O carreto, um velho, mas fiavel Mitchell 498, chiou quando a embraiagem funcionou e corri para a cana com o coração aos saltos. Levantei a cana, puxei-a suavemente para trás e senti o "melro" na outra ponta.
"Hum… choupa não é, pelo toque, isto é robalo", afinei a embraiagem fechando-a meia volta, comecei a colher, devagar, devagar mas sem deixar folgar a linha. E o gajo a dar esticões, mas sempre a vir para terra, uma vezes mais ligeiro, outras vezes mais devagar, que nestas coisa não deve haver pressas.
Quando chegou perto da laje onde eu estava, vi que era peixe para mais de dois quilos, não deveria chegar aos três, mas às vezes engana.
Uma das coisas que me habituei a fazer ao pescar nas pedras, é verificar sempre qual o melhor caminho para "encalhar" um peixe, se tiver a sorte de o apanhar. É que já vi muita boa gente com um peixe na ponta da cana, sem saber o que fazer e eu não quero fazer essa triste figura.
Por isso sabia bem que tinha de passar o "melro" à volta da laje e fazê-lo encalhar entre duas pedras que estavam lá atrás. Dizer isto é fácil, fazer é um pouco mais difícil, como sabe perfeitamente, qualquer pescador que esteja a ler estas linhas.
O certo é que o gajo lá se foi encaminhando para o sítio ideal e com a ajuda da ondulação, acabou por ficar mesmo a jeito. Foi só saltar da laje e meter-lhe dois dedos nas guelras e o polegar pela boca abaixo de forma imobiliza-lo. Estava bem ferrado e o único perigo tinha residido no facto frequente, de roçar a linha em alguma pedra e "adeus peixe". Mas este tinha-se portado bem e tinha salvo a tarde de pesca e a honra deste vosso amigo, que não se livrou de ter ficado a ver o Mitra a "limpar" as choupas, mesmo em frente ao nariz.
Se já estava convencido antes, mais convencido fiquei que o caranguejo de muda é "infalível" para as choupas desde que elas lá estejam. Confirmei nesse dia e reconfirmei depois, muitas outras vezes, que aquele pesqueiro, quando o tempo vira a sudoeste moderado, é muito bom e o peixe não costuma andar longe. Façam-me um favor, não digam a ninguém, isto são segredos, que não se contam a qualquer um!
Ah… o robalo mal chegava aos dois quilos e meio, foi preparado no forno, com umas batatinhas assadas, que vos digo, divinal…só é pena não apanhar peixe assim, todas as vezes que lá vou.
publicado por Brito Ribeiro às 15:48
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26
Mar 07
 
Estas crónicas do filho da p*** são apenas uma mera cópia de uns originais que li há muitos anos e que procurei reproduzir o melhor que pude, introduzindo novas variedades, novas espécies de filhos da p***, uma raça em constante evolução.

O filho da p*** existe e encontra-se em todos os sítios e em todos os ambientes. Do pouco que se sabe acerca dele, de como a sua roupa e a sua figura não basta para o definir, restam alguns traços que o caracterizam - os seus gostos e lugares preferidos, as suas grandes especializações, o seu sistema de entreajuda, perguntas que faz, a sua sempre escondida vida particular, a sua casa lar como lugar excelso, os seus modos de recreio e diversão, os seus tiques e aspectos anedóticos, os seus temores e receios, enfim, de como é, acima de tudo, um filho da p***.
A grande dúvida que ainda existe em relação ao filho da p*** é se ele já nasce filho da p*** ou se a vida é que o faz...

Pois, o filho da p*** também vai à pesca. Encontramo-lo por aí, sozinho ou em grupos de que apenas faz parte por pouco tempo, com a cana na mão. Digo que apenas faz parte por pouco tempo, porque é breve o espaço temporal que o grupo leva a descobrir que por lá paira um filho da p*** e, tal como a uma purulenta borbulha, procede à sua excisão, normalmente de forma gradual e pouco notada, até que o próprio filho da p*** já não tenha coragem de voltar, pois sabe que ali não se safa...
O filho da p*** nunca se define à primeira vista - esta é, aliás, uma das suas principais características.
À primeira vista, o filho da p*** faz tudo para mostrar a disponibilidade que acha própria, e ocultar a própria indisponibilidade. À primeira vista, o filho da p*** diz quase sempre que “está bem”, que "se vai ver", o filho da p*** é quase sempre assim, “sim senhor”.
É só depois, às vezes muito depois, que o filho da p***, por vocação superior e para constar, diz que "não, não senhor", e mostra que não está na disposição: nem de viver nem de deixar viver.
Por isso, ele, o filho da p***, ocupa-se e preocupa-se sobretudo com os outros, e uma das coisas que mais o ocupa e preocupa é a despreocupação dos outros, e esse é a segunda das suas principais características. Até se pode dizer que nada preocupa tanto o filho da p*** como a despreocupação dos outros, que nada o incomoda tanto, nada o perturba de tal modo como a despreocupação dos outros.
Ele, o filho da p***, tem por máxima preocupação construir toda a espécie de mais valias, e assim ocupa a vida com essa preocupação, isto é, ocupa a vida ocupando-se com o modo de conseguir sempre o que mais valia, sacrificando-se para conseguir sempre o que mais vale...
O filho da p*** não gosta de viver, mas gosta de reviver, gosta mais de reviver que de viver, e assim ocupa grande parte do seu tempo. Deste modo se entende que seja sempre imensa a saudade que ele, filho da p***, tem do passado, imenso o seu desejo de ambição de regressar (se possível) ao estado embrional, esse estado em que ia para todos os lugares sem chegar a sair do mesmo lugar.
Na pesca, o filho da p*** quer sempre pescar mais que os outros, seja lá como for. Se alguém apanha algum peixe, o filho da p*** logo a ele se encosta para pescar no mesmo lugar e vai apertando, sem quaisquer contemplações, até que o outro se afaste. Se estiver longe irá lançar exactamente para a frente do outro, de modo a incomodá-lo...
Quando não apanha nada é porque é um tipo com azar, porque os outros ficaram nos melhores locais e tinham melhor isco - para o filho da p*** cada pescaria é um concurso - e se fica mal "classificado" não consegue esconder o mau humor e a filha da putice que o envenena. é nesta altura que deixa de se controlar e não consegue evitar o focinho coberto de ódio contra tudo e todos.

Para o filho da p*** a captura de espécies que não irá aproveitar para a mesa é a forma de vingança contra o mundo e contra os outros - e os pontapés, pisadelas e outras formas de crueldade contra o desgraçado do peixe surgem, incontroláveis, proporcionando um sorriso escondido e um acalmar imediato, mas por pouco tempo, dos recalcamentos e do ódio latente nas suas entranhas...
Lançar lixo à água ou deixá-lo nos pesqueiro é um dos gozos supremos do filho da p*** na pesca - saber que quem vier a seguir vai encontrar toda a merda que lá deixou, e que contribuiu com mais algum lixo para a poluição das águas, fá-lo sentir-se importante - e o prazer de saber que incomodará os outros leva-o a um êxtase indescritível, já que ele vive basicamente para lixar a vida aos outros.
O filho da p*** utiliza material de pesca barato - porque que iria dar uma pipa de massa por uma boa cana ou carreto? Porquê gastar dinheiro nestas merdas, encher o cú a esses chulos das casas de pesca? Nem pensar!!! Ele é um gajo com azar e o dinheiro faz-lhe muita falta...
A técnica do filho da p*** muda de época para época e de lugar para lugar. A felicidade e o gosto pela vida que os outros manifestam é incompreensível para si - porque é que os outros não têm tanto azar como ele? Que mal é que ele, filho da p***, fez, para ter tanto azar????


publicado por Brito Ribeiro às 10:51

23
Mar 07
Artigo escrito e publicado no Terra e Mar em Outubro de 2004
 
No Verão que agora terminou, Portugal ultrapassou todos os limites, por mais pessimistas que fossem, em termos de incêndios florestais.
Cerca de 500.000 hectares de área ardida, 20 mortos, centenas de feridos, desalojados e desempregados, dezenas de milhões de contos de prejuízos.
Uma catástrofe em três vertentes: AMBIENTAL, SOCIAL e ECONÓMICA.
Se já não havia dúvidas sobre o posicionamento de Portugal na cauda da Europa, esta situação veio reconfirmar esta posição, ao lado de outros países que não acautelam os seus recursos naturais, que não investem na protecção da natureza, da biodiversidade e da qualidade de vida dos cidadãos, que prometem, há décadas, reordenar o espaço florestal, limitando-se a agir em cima dos acontecimentos como “baratas tontas”, visitando as zonas de catástrofe com ar compungido e hipócrita.
Os meios eram insuficientes, faltavam homens, faltavam viaturas, faltava água, faltavam meios aéreos. Sobrava o calor insuportável, os ventos fortes e caprichosos, a humidade reduzida. Sobravam os problemas resultantes do desordenamento do território, os erros de coordenação e os erros de previsão.
 
Nunca Portugal esteve envolvido numa catástrofe desta dimensão, que marcou de forma indelével alguns distritos do interior profundo e pobre, nomeadamente Castelo Branco, Portalegre, Santarém e Faro. Há Concelhos nos quais arderam perto de 90% da sua área florestal, como foi o caso de Gavião, Vila de Rei, Oleiros ou Monchique.
Os comentários que os intervenientes mais referiam eram: Falta de meios e falta de prevenção. Também é certo que, mesmo que os meios (bombeiros, viaturas e aviões) duplicassem ou triplicassem, o resultado não seria muito diferente, devido às anormais condições climatéricas e à estrutura caótica e desleixada do tecido florestal.
No entanto, teremos de regressar vinte ou trinta anos no tempo, para se analisar com rigor e seriedade toda a problemática florestal, a falta de estratégias de médio e longo prazo no reordenamento e na valorização do único recurso natural renovável que ocupa 38% do solo nacional e que representa, mesmo desprezado, 3% do PIB.
As causas deste flagelo são conhecidas e estão bem identificadas:
 
  • Monocultura do pinheiro bravo, substituído gradualmente por eucalipto;
  • Decadência da pecuária tradicional que usava os matos para as camas do gado;
  • Ausência de um programa de prevenção (limpeza, ordenamento e vigilância) sério e rigoroso;
  • Ausência de reflorestações ordenadas que privilegiem a biodiversidade;
  • Características minifundiárias do tecido florestal;
  • Insuficiência de vias de comunicação florestal e zonas corta fogo;
  • “Falência” dos serviços florestais;
 
Desde os anos trinta do século passado, o pinheiro bravo passou a ser a cultura florestal dominante, como se pode analisar no quadro seguinte:
ANO
1902
1934
1960
1970
1980
1990
 
 
 
 
 
 
 
PINHEIRO BRAVO
430
1139
1190
1274
1300
1210
PINHEIRO MANSO
 
 
 
33
35
32
EUCALIPTO
 
 
100
154
295
495
SOBREIRO
366
741
667
638
655
612
AZINHEIRA
417
380
618
573
536
480
CARVALHOS
47
108
 
 
66
62
CASTANHEIRO
84
85
70
27
30
30
 
 
 
 
 
 
 
 
(valores em milhares de hectares)
 
 
No entanto, o eucalipto, espécie de crescimento rápido, mais rentável economicamente devido à grande procura por parte das celuloses, explorado em talhadia, vai substituindo o pinheiro bravo, de forma gradual e consistente.
Outra das causas do declínio do pinheiro, prendeu-se com a falta de rentabilidade da extracção da resina, outrora uma das mais importantes fontes de rendimento florestal. É também visível no quadro, que as espécies autóctones (sobreiro, azinheira, carvalhos e castanheiro) tem perdido espaço nas ultimas décadas.
 
O abandono dos campos na década de sessenta, motivado pela deslocação para o litoral mais industrializado e pela emigração para diversos países da Europa e África, condenaram a agricultura tradicional e o sub-sector da pecuária, que utilizava de forma intensiva os matos para as camas do gado e posterior elaboração de estrume.
Também a pastorícia foi diminuindo ao longo dos tempos e em quase todo o território, originando a acumulação de matos, carquejas, folhas, ervas, etc..
O aparecimento de novas formas de energias ditaram o abandono da recolecção de lenha para consumo doméstico.
Em conclusão, as áreas florestais estão hoje, de uma forma geral, com falta de limpeza, com uma manta morta espessa e nas quais o fogo atinge temperaturas e velocidades impressionantes.
 
O espaço florestal é na sua maioria pertença de privados (cerca de 85%), mas curiosamente pouco se diferencia dos espaços florestais públicos no capítulo da manutenção e do ordenamento. Basta ver o exemplo da Mata Nacional de Gelfa que, está abandonada há vários anos, após a não renovação do protocolo de manutenção entre o ICN e o NUCEARTES. Entregaram a gestão da Gelfa ao Parque Nacional da Peneda-Gerês... que até hoje não mexeu uma palha e já passaram três anos.
Associado ao problema dos fogos florestais está a erosão dos solos e a incapacidade de retenção das águas da chuva. Um solo sem coberto vegetal tem a capacidade de infiltração muito diminuída, originando uma falta de alimentação dos lençóis freáticos, não sendo de admirar que nascentes e furos artesianos sequem ou no mínimo diminuam o caudal em relação a anos anteriores.
Logo nas primeiras chuvas, em meados de Setembro, nas áreas ardidas, grandes quantidades de lamas e cinzas foram arrastadas pela força das águas para as zonas mais baixas, empobrecendo de nutrientes os solos, condicionando a biodiversidade da fauna e da flora.
 
A comunicação social tem dado largas às notícias sobre os passeios de helicóptero e outros negócios promíscuos entre elementos dos bombeiros, servindo esta estratégia às mil maravilhas para se encontrar bodes expiatórios (na arraia miúda) e se esquecer as promessas dos governantes que apontavam para acções imediatas na recuperação das zonas afectadas e na restruturação do sector florestal.
Portugal só tem a ganhar (até no déficit público) se eleger o sector florestal como uma prioridade da sua economia, visto que é um sector que ocupa 38% do território e, directa ou indirectamente, dá trabalho a cerca de 160.000 pessoas.
publicado por Brito Ribeiro às 18:59
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21
Mar 07
Já aqui contei uma pequena história relativa às minhas andanças campistas e hoje vai sair outra peripécia. Estávamos acampados na Galiza, algures num parque das Rias Baixas, eu a minha filha Joana e o Pedro, um amigo de longa data, também apaixonado pelas salutares escapadas da primavera e do verão.
Quando lá cheguei, já ele estava instalado, o sítio era bom, mas tinha um pequeno defeito, pois o sol batia nas tendas logo de manhã, o que nos obrigava a levantar relativamente cedo, se não quiséssemos uma sessão de sauna. Lembro-me que a tenda do Pedro ficou do lado do meu quarto (eu tenho um T2 com sala ao meio) e sobrava bastante espaço exterior para estacionar os carros, as mesas, a corda da roupa, a louça, as cadeiras e o resto das coisas que um pouco desordenadamente vamos espalhando. Depois de umas braçadas e outras tantas palhaçadas na piscina, uma “bejeca” e ala, de se faz tarde para ir às compras, um supermercado ao qual fomos a pé e que nos fez gastar mais algumas calorias. Só para abrir o apetite.
 
Para variar, escolhi como prato principal creoulas, uma espécie de salsichas frescas que todos gostamos. Deixei os acompanhamentos para a escolha do Pedro, que sem hesitar escolheu uns abonados frascos de grão-de-bico, praticamente prontos a comer.
- Oh Pedro, grão-de-bico com crioulas, tu não estás bom?
- Que é que queres, estou com vontade de comer grão. Lá em casa nunca como, só eu é que gosto. Preferes feijão?
- Não pá, o grão está bem – sem conseguir ver-me a comer feijão com as salsichas – vou escolher uma salada para as entradas.
Quando regressamos ao parque, estavam nas imediações das nossas tendas alguns casais jovens, com ar de quem procura alguma coisa. Como não os conhecíamos, não demos treta e começamos arrumar as compras; cerveja e vinho para a geleira, ao lado da fruta, dos iogurtes, os tomates e as alfaces por cima e por aí adiante.
-Vocês são portugueses? – Pergunta um dos parceiros, com forte pronúncia do Porto.
- Somos. E vocês de onde são?
- De Gondomar, chegamos agora e vimos as matrículas dos vossos carros. Podemos ficar aqui ao lado?
- Por nós podem, mas tem de dizer na recepção quais os lotes que vão ocupar.
Lá foram buscar os carros e começaram a montar os tarecos. Afinal eram bastantes e todos equipados com iglôs, mas daqueles pequeninos, onde só cabem duas ou três pessoas no máximo. Em breve formamos uma ilha portuguesa, em plena Rias Baixas galegas. Ao lado da minha tenda ficou uma senhora, uma quarentona, viúva com uma miúda de três ou quatro anos. Disse-me que era a avó da miúda e que tinha vindo com a filha e o genro. O facto da senhora ser viúva e ainda jeitosa, que não vos dê ideias…
O jantar acabou por ser um sucesso, mais devido à fome que nos atravessava em todas as direcções, do que à especialidade das iguarias servidas.
 
O Pedro começou a preparar a televisão que sempre o acompanha, sintonizando canais, esticando e rodando a antena, que comprou na loja do chinês em Caminha, por dez euros. A outra antena durou pouco, porque no acampamento anterior passou-lhe por cima com a roda do carro, durante uma manobra de estacionamento. Nunca tinha visto uma antena tão espalmada, só era pena não funcionar. É o perigo de se deixar as coisas espalhadas pelo chão.
Naquela noite ia dar futebol, provavelmente aqueles jogos de preparação ou pré-época, como lhe chamam, já não estou certo.
Os nossos vizinhos ficaram pasmados com tanta tecnologia e sofisticação. Televisão em cima da mesa, cadeiras a postos, nós à espera do grande jogo.
- Até tem televisão, carago! Também podemos ver o futebol, chefe?
- Claro, tragam cadeiras e acomodem-se – convida o Pedro.
Uns nas cadeiras, outros com o rabo alapado no chão, lá fomos conversando, molhando o bico, porque eles e elas não gostavam nada e vendo a televisão. Depois do futebol foram umas cartas, mais conversa, enfim, uma noite bem passada com gente simpática e amigos da borga.
 
Quando finalmente nos deitamos, eu nem me lembro de ter adormecido, que é o mesmo que dizer que adormeci de imediato. Às tantas da noite, acordei com uma sensação estranha. Um barulho esquisito que vinha dos meus pés. Certamente já aconteceu convosco, acordarem e terem dificuldade de raciocinar com clareza nos primeiros momentos. Aconteceu isso mesmo comigo. Um barulho surdo, forte e intermitente que vinha dos pés. Dos pés??? “Ora pôrra, só pode ser o Pedro a ressonar” pensei, quando finalmente identifiquei o responsável por aquele “rosnar”.
Do outro lado, algum dos nossos recentes amigos, respondia com uns roncos mais suaves, um ou dois tons mais abaixo. Um tom mais urbano, mais educado! Registei mentalmente que nunca mais colocaria a tenda, com o meu quarto virado para a tenda do Pedro e é verdade que procuro, desde essa data, evitar certas proximidades.
Lá consegui dormitar algo incomodado com a serenata que aqueles dois faziam e com um certo mal-estar provocado pelo jantar “ligeiro” que tinha ingerido e que me estava a causar alguns gases. E o ataque de flatulência estava em crescendo, primeiro era um de vez em quando, depois eram cada vez mais frequentes e já era dia alto, quando finalmente a “trovoada” deu mostras de amainar.
 
Horas de levantar, o calor já apertava, o barulho cá fora dizia-me que já quase toda a malta estava a bulir, saio do quarto, visto-me e calço-me, abro o fecho da tenda, dou de caras com a avó e a neta que também estão a sair da tenda delas. Trocados os bons dias, a senhora afasta-se a rir à gargalhada, ficando eu atónito perante aquele comportamento. Passei a mão pelo cabelo, verifiquei que não tinha nada desapertado, as sapatilhas estavam direitas; que raio levou a mulher a olhar para mim e rir-se assim? Parece maluca! Alguma piada da neta, se calhar.
A Joana já tinha abalado para o banheiro, o Pedro tinha ido à loja do camping comprar o pão e os nossos vizinhos já estavam todos de volta do pequeno-almoço. Foi nessa altura que ouvi um deles comentar para os demais:
-Há aqui um tipo que ressona que se farta.
- Era mais que um, eram dois ou três.
- Afinal quem foi o gajo que se peidou durante toda a noite?
A quarentona recomeçou a rir-se e eu finalmente compreendi o porquê daquelas gargalhadas. Achei que era oportuno sair dali, de fininho, ir dar uma volta, pelo menos até a trovoada amainar de vez.
publicado por Brito Ribeiro às 16:41
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20
Mar 07
O cruzamento com a rua do centro de saúde aproximava-se a velocidade vertiginosa. Para trás ficara a praceta e um mar de gente, que fugiu espavorida, quando a frente do enorme BMW lhes foi apontada.
Os ocupantes lembravam-se de ter batido em qualquer coisa e ficado com o para brisas coberto de tremoços e pipocas. Pipocas??? Como raio foram parar ao automóvel. Só se foi alguém que as atirou, numa tentativa frustrada para travar a fuga.
O Bertinho agarrado ao volante, os limpa-vidros funcionavam e faziam voar os tremoços, o “pencudo” ao lado, com um facalhão na mão, rosnava algo que ninguém entendia. Quase em cima do cruzamento, o Bertinho travou forte, reduziu para segunda com um forte arranhar da caixa, rodou o volante, acelerou a fundo provocando uma derrapagem, que só terminou quando o guarda lamas direito encontrou o “mupi”, que anunciava uma nova formula de dentífrico, infalível no branqueamento dos dentes.
O “mupi” é que perdeu logo os dentes, como quem diz, ficou pendurado a meia esquadria. O BMW deixou no local a óptica traseira e o pára-choques, como testemunhos da sua meteórica passagem.
No banco traseiro, o “Adesivo” continuava entalado entre o Lopes, que desde a manhã, não falava e o gago que continuava ameaçador, com a espingarda em riste.
-Mais de..de…depressa, m…ais de…de…depressa – gritava para o apavorado condutor, enquanto espreitava pelo vidro traseiro, para ver se eram seguidos.
Nenhum carro da polícia os seguia, nenhuma barreira estava montada. Tudo parecia demasiado fácil. Os polícias eram burros, mas assim tanto, era de desconfiar. Nos filmes os polícias tem sempre alguma tramóia na manga, mas na vida real são bem mais obtusos.
Rapidamente chegaram à periferia sem mais percalços e por ordem do gago, mudaram de direcção para sul, de forma apanharem a via rápida.
Foi ao entrarem na rotunda, que tudo se precipitou. O Bertinho já com mais confiança nos seus dotes de condução, voltou a travar nos limites, reduziu sem arranhar, rodou decididamente o volante e preparou-se para mais uma derrapagem e respectiva chiadeira dos pneus. Até já estava a gostar… Mas de onde surgiu a carripana???  Bolas, mesmo atravessada em frente... Só há um caminho, tentar desviar e travar e, e… Pum…Crrrr…Pum…Catrapum…Ena, nunca mais páraaaa!
- Aiiii, uiiii, tirem-me daqui.
- Que aconteceu? Onde estamos?
- Vejo tudo vermelho, porra, devo estar no inferno.
- Ai, ai, não sinto o braço…
Estes lamentos vinham do carro dos fugitivos, que tinha caído numa pequena ribanceira com cinco ou seis metros de altura após ter abalroado outro veículo dentro da rotunda e serrado completamente o “rail” de protecção.
A velocidade e o peso do carro ultrapassaram a capacidade de impacto da barreira metálica, causando a queda do BMW escuro no vazio, que aterrou no pomar do Gervásio, um ex emigrante dos States, que tinha duas paixões: as brasileiras que cirandavam pelas casas de alterne e as suas árvores de fruto.
O outro automóvel acidentado, tinha caprichosamente sido projectado para o centro da rotunda, ficando empoleirado num enorme calhau, que alguém com os gostos estragados, lá tinha deixado a fazer de escultura. Não seria propriamente um automóvel, pois alem de ter já mais de vinte anos, o chaço ficou de tal forma amarrotado que difícil seria identificar a marca e o modelo.
Pelo vidro da porta do lado direito tenta, com dificuldade, sair um homem. Logo, outras pessoas que entretanto se aproximavam a correr, ajudam a retirar um aturdido Simplício, que não faz a pequena ideia do que aconteceu. Tinha comido uma jardineira, bebido um ou dois bagacitos, tirado o carro da garagem, para ir até à tasca do Libório, jogar um dominó. Os outros até já deviam estar à sua espera. Mas que raio é que lhe tinha batido?
 Sobre a rotunda, com um barulho ensurdecedor, um tum-tum-tum-tum repetido, o helicóptero negro, pairava em atitude de vigilância.
Do BMW ninguém saía, o que não augurava nada de bom. Repentinamente, PUM…, um tiro dentro carro e outra gritaria.
Sirenes aproximam-se a toda a velocidade, em breve a rotunda fica bloqueada pelo aparato policial e pelas carrinhas dos jornalistas. Todos corriam aparentemente sem destino, uns para lá, outros para cá. A confusão estava instalada!
- Não se mexam, estão todos presos – diz um polícia junto do BMW, com a metralhadora apontada para o interior.
- Pois estamos – diz alguém do interior, com voz sumida – vai ser preciso serrar esta merda toda, para sairmos daqui.
- Arreda, arreda, chegou o INEM, deixem trabalhar.
 
- Júlia, Júlia, o teu empregado foi raptado…
- Jesus, mulher, que estás para aí a dizer!!!
- Foi, carago, eu vi tudo. Os assaltantes apanharam-no e puseram-no a guiar o carro em que fugiram. Eu vi…
- Aquele homem anda sempre nos perigos; eu bem o avisei para não se meter na confusão. Conta-me o que aconteceu.
 
As ambulâncias chegavam e partiam para o hospital em grande velocidade, fazendo gincana entre os carros parados “ao Deus dará”, cujos condutores estavam tomados da curiosidade e que tinham ido cheirar, como abutres, entre os ferros torcidos das viaturas acidentadas.
 
A Júlia fechou a porta da loja com estrondo, sem se preocupar em recolher as caixas de hortaliça que estavam no expositor do passeio. Em passo estugado desceu em direcção à praça para se inteirar dos últimos acontecimentos e do infortúnio do seu empregado. Estava a chegar quando alguém gritou: “Houve um acidente, na rotunda da via rápida”.
A Júlia ficou sem pinga de sangue, as pernas não queriam obedecer, a cabeça estava num turbilhão.
- Que se passou?
- Só sei que o carro se despistou e caiu numa ribanceira. Já lá está o INEM.
- E feridos, há feridos?...
- Isso não sei. Ainda não se sabe. Mas os da rádio já lá estão. Daqui a nada vão começar a dar notícias.
 
publicado por Brito Ribeiro às 17:37
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16
Mar 07

 
Não conheci pessoalmente o meu avô materno Abel Nascimento Brito, de sua graça. Quando eu nasci, já ele tinha falecido há cerca de 10 anos. Era pai de quatro raparigas, quatro manas, como eu carinhosamente lhes chamo, até porque uma delas é minha mãe. Teve um filho mais novo, o António, que morreu ainda criança.
O Abel era um senhor dotado de uma calma monástica, que nada o fazia enervar, que nada o apressava, característica que certamente herdou do seu pai Luís Brito, nascido criado e vivido em Segadães, às portas de Valença do Minho. Eu disse que nada o apressava, mas não é totalmente verdade, porque apenas umas saias tinham o condão de espevitar o pachorrento Abel.

 

O meu avô materno era conhecido pelo Abel da Chocalha, apelido que herdou da sogra do seu primeiro matrimónio Maria José Gandra, que curiosamente foi sua ama de leite. A Chocalha era de Gontinhães, mas por artes do acaso, foi ter a Segadães onde desempenhou a função de ama de leite do Abel, nascido em 1880 e do Manuel, seu irmão mais velho quatro ou cinco anos.
Esta senhora que era solteira, tinha uma filha de nome Felisbela Gandra, casada com um tal Pereira, do Amonde, que morreu poucos anos volvidos com tuberculose. Deste casamento já tinha nascido o Américo, que ficou órfão ainda catraio, mas que ganhou rapidamente um padrasto, pois o Abel casou com a viúva, filha da sua ama de leite. Mas tambem o Abel não ficou casado muito tempo, pois a Felisbela acabou por falecer com tuberculose. É então que o Abel casa em segundas núpsias com a sua conterrânea, Delfina Gomes, mais tarde minha avó. 
Por essa época já o Abel Brito e a sua ex-sogra estavam estabelecidos em Gontinhães com uma pensão e loja que chamaram Pensão Âncora, mais tarde pensão Meira e actualmente hotel Meira, naquela que é hoje a Rua 5 de Outubro. Não sei se já assim se chamava nessa altura, pois a republica se já estava implantada, estava ainda muito verde.
Do casamento com a Delfina nasceram quatro filhas e um filho a um ritmo praticamente anual. Primeiro a Felisbela, a seguir a Arminda, depois a Maria José e ainda a Julieta. Finalmente o António, o benjamim dos pais e o querido das irmãs que tragicamente morre de doença com dez anos. Era da idade do nosso conterrâneo Sr. Durval Brito, que apesar do apelido, não tem connosco qualquer relacionamento familiar. Outro conterrâneo da mesma idade era o Sr. Luís Gomes, recentemente falecido em acidente de viação.
Entretanto, o Américo, que nem era filho do Abel, nem da Delfina, foi criado e cresceu como se filho deles fosse, acabou por falecer com cerca de vinte anos, de tuberculose como os seus progenitores. Quando faleceu, estava para nascer o António, aquele que seria o filho mais novo dos meus avós e, tambem ele, falecido precocemente.
A filha mais velha, Felisbela casou com Simão Meira e abriram uma pensão na Praça da Republica, no chamado prédio da Assembleia. Curioso o facto de darem o nome de Felisbela à primeira filha, pois era o nome da primeira mulher do Abel Brito.
A Arminda casou em Valença com o António Gomes, seu primo legítimo, filho de um irmão da Delfina.
A Maria José, minha mãe, casou com o Ribeiro, caixeiro-viajante e foi viver, embora por pouco tempo, para o Porto, regressando poucos anos depois a Vila Praia de Âncora.
A Julieta casou com o Castilho, foi viver para o Porto e por lá ficou.
Mas a personagem principal desta história é o avô Abel, um bonacheirão que metia-se em negócios (mais ou menos da China) e que acabavam sempre por dar fiasco e prejuízo.
Uma vez convenceu o genro Ribeiro, meu saudoso pai, a fazer um negócio de marmelada. O Ribeiro dava o açúcar e o Abel arranjava os marmelos e enlatava a dita. É mesmo, não me enganei, era marmelada enlatada. O resultado foi montes de latas que ninguém comprava e que acabaram por ser abertas e o produto deitado aos porcos. Mas por estranho que pareça ou talvez não, nem os porcos quiseram a marmelada, que teve de ser enterrada no quintal. Muitos anos mais tarde, quando falávamos deste episódio na frente do meu pai, era vê-lo a sair “à francesa”, como se nada fosse com ele.
Outro negócio que correu mal foi uma importação de bicicletas que ele ia buscar a França na sua camioneta e com um intérprete às ordens, um sujeito de Viana que ele convenceu a acompanhá-lo. Naquela época uma viagem a França por estrada, não se fazia com a facilidade de hoje e o Abel gastou mais na aventura, que o valor das bicicletas. Mais uma vez para se ver livre da mercadoria teve de vender com prejuízo e ouvir as recriminações da minha avó, que tremia cada vez que o Abel dizia que andava a matutar num negócio.
Mas o que punha a avó em polvorosa, eram as repetidas aventuras amorosas do marido. Nunca lhe perdoou ter o facto de uma das amantes, a Felicidade, uma viúva ainda fresca, como dizemos hoje ”que ainda rompia meias solas”, ter ido morar a pouco mais de cinquenta metros da sua casa, mais ou menos onde hoje é a ourivesaria do Catarino.
Outra das suas “amigas”, a Ester da Pelada quando teve um filho, o José Luís que é o mais novo de três, logo disseram que seria filho do Abel. Não há certezas, naquele tempo não se sabia nada sobre ADN, mas outro dos suspeitos da paternidade, seria o Toninho Tinta Fina, que também por lá andava.
O Abel tinha um parceiro que fisicamente ainda era mais avantajado que ele. Pois, eu ainda não vos descrevi o Abel da Chocalha, que era um homenzarrão que embora não fosse muito alto, era forte e barrigudo. O Fontes, o tal parceiro de que vos falei, ainda era mais corpulento, pois media perto de dois metros e acompanhava o Abel, nas suas palavras, para "fazer de contrapeso" na camioneta.
Este Fontes foi faroleiro na Ínsua durante muitos anos, morava mesmo em frente à pensão Âncora, onde hoje é o Hotel Meira. Eram bons amigos e davam grandes passeatas na camioneta do Abel, na companhia dos netos que foram surgindo dos casamentos das filhas. Aqueles que conheceram o avô foram os meus primos Jorge e Zé Meira e as minhas irmãs Julieta e Delfina, conhecidas por Mimi e Fininha respectivamente. O Jorge e a Mimi eram uns vivaços; o Zé e a Fininha, pelo contrário eram muito tranquilos. Muitas vezes ouvi os meus pais dizerem que o neto mais parecido com o Abel da Chocalha era o Zé Meira, não só fisicamente, mas no carácter e na imaginação. O Zé, que era meu padrinho, talvez dê um dia destes um pequeno conto, vamos a ver!
A pachorra do Abel era tanta que quando encostado à parede em frente à sua casa, onde estão as alminhas, e as pombas no beiral do telhado lhe sujavam a cabeça, em vez de se desviar, dizia para a Maria Ninom, mulher do Sr. Barata:
- Oh Maria, empresta-me a boina, que as pombas estão a cagar-me na cabeça.
O avô Abel alem de bom cozinheiro, era também um óptimo fotógrafo, que até possuía câmara escura para revelação das suas fotos. Infelizmente apenas duas ou três fotos da sua autoria chegaram à minha posse e desconheço se alguns dos meus primos possuem mais fotografias tiradas por ele. Tenho bastantes fotos antigas, mas são de estúdio ou tiradas pelo meu pai, já na década de trinta.
Após a morte da minha avó Delfina, o Abel sossegou e dizem que até se deixou de aventuras amorosas. Não sei se isso foi totalmente verdade, mas que ele sentiu muito a falta da esposa, não tenho dúvidas. Ele próprio o reconheceu, mais que uma vez.
Apenas lhe sobreviveu seis anos, sendo vitima dum acidente vascular cerebral, que o deixou totalmente incapacitado, para se repetir poucas semanas depois, causando-lhe a morte.
publicado por Brito Ribeiro às 12:17
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14
Mar 07
Nos tempos que correm, o acesso à água como recurso estratégico motiva enormes esforços e condiciona grandes decisões. São frequentemente conhecidas disputas judiciais e até confrontações físicas originadas pela partilha das águas, principalmente em comunidades rurais.
O acesso à água e o acesso a fontes de energia fóssil movem a vontade política dos nossos dias, sendo percutores de conflitos armados e ocupações ilegais de territórios como a recente invasão do Iraque ou a ocupação dos Montes Golan por Israel, principal fonte de abastecimento de água potável do estado hebraico.
Durante as ultimas décadas, com a transferencia das populações das regiões rurais e interiores para as zonas litorais mais industrializadas e com maior concentração de serviços, o esforço na melhoria das redes de saneamento básico não teve efeito de proporcionalidade, sendo quase sempre um investimento tardio e feito com alguma má vontade.
"É obra para enterrar e ninguém se lembra dela" foi e continua a ser o lema de muitos autarcas de vistas estreitas, ansiosos por mostrar serviço que renda votos.
Será sempre mais fácil recordar quem construiu o centro cultural, a ponte ou a avenida, do que quilómetros de saneamento que nem sequer estão à vista.
Por isso é que hoje temos a situação caótica, praticamente ao longo de todo o pais, de rios que são autênticos leito de esterco e estuários fortemente poluídos. Há exemplos marcantes que periodicamente são alvo de notícia:
  • No estuário do Sado ainda são lançados os esgotos de parte da cidade de Setúbal sem qualquer tratamento;
  • Rio Alviela recebe esgotos provenientes de industrias transformadoras de curtumes, efluentes estes contaminados com metais pesados;
  • Rio Liz fortemente contaminado com os resíduos das suiniculturas da região;
  • Lagoa de Óbidos e baia de S. Martinho do Porto que recebem esgotos domésticos das povoações limítrofes;
  • Rio Douro um vertedouro ao longo do seu curso, primeiro em Espanha e depois em Portugal, com a agravante de receber no seu troço final, os esgotos da parte velha da cidade do Porto, nomeadamente a Ribeira, Lordelo e Cantareira até à Foz.
  • Rio Leça que recebe esgotos domésticos e industriais de algumas freguesias da parte norte da área metropolitana do Porto, nos Concelhos da Maia e Gondomar.
  • Rio Ave que é o vazadouro dos esgotos domésticos e muito mais grave, dos efluentes industriais do Vale do Ave, nomeadamente de tinturarias têxteis;
A lista de casos graves, penalizadora para a saúde pública, condicionante para o desenvolvimento económico e turístico onde se inserem estes cursos de água não tem fim.
Há uma imensidão de casos de contaminação dos cursos de água a montante das captações para abastecimento público. Pior ainda é não ser possível aproveitar os grandes cursos de água para abastecimento publico devido a eles estarem contaminados praticamente desde a nascente, centenas de quilómetros a montante e mesmo fora do território nacional.
É o caso dos Rios Minho, Douro e Tejo, entre outros. O Rio Minho, por exemplo, já tem uma enorme carga poluente ao passar em Ourense e ainda lhe faltam muitos quilómetros até chegar a território português.
Desde a década de oitenta, com a consciencialização ambiental a subir exponencialmente, e principalmente com os milhões disponibilizados pela Comunidade Europeia, muitas infra-estruturas tem sido renovadas ou executadas de raiz.
Infelizmente, em bastantes casos, o sucesso destas infra-estruturas tem sido deficiente ou mesmo nulo, devido a erros de concepção, ausência de manutenção ou ausência de investimento complementar.
É o caso das infra-estruturas construídas ao longo do Rio Alviela que custaram milhões de contos há meia dúzia de anos e hoje não tem praticamente qualquer utilidade pois as unidades de tratamento (ETAR) foram totalmente abandonadas em termos manutenção. Moral da história, gastou-se o dinheiro, o rio continua cada dia mais poluído e os poluidores continuam impunes.
O investimento em saneamento básico é uma opção que tem de ser planeada a longo prazo e que acarreta custos continuados em alargamento de rede, manutenção, exploração e inovação.
Se há sectores onde o desenvolvimento tecnológico tem um saldo muito positivo é este, com novidades tecnológicas e com o aparecimento constante de novos operadores neste sector do mercado.
Embora com algum exagero podemos dizer que hoje, com o leque de soluções disponíveis, só há poluição nos meios aquáticos se quiserem. Haja dinheiro e vontade política para dar prioridade a estes investimentos.
publicado por Brito Ribeiro às 13:34
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Março 2007
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