Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

28
Fev 07
 
A área urbana estende-se entre o Lugar da Cruz Velha a norte e o Lugar da Lomba a nascente, estando concentradas no Lugar da Sobreira as escolas, o centro de saúde, o quartel da GNR e o pavilhão desportivo. Será também nessa zona que nascerá a futura piscina municipal.  
Os registos do movimento populacional são eloquentes no que respeita à tendência de crescimento. Desde o longínquo ano de 1613, no qual já eram confirmados “45 chefes de família”, até ao ultimo senso (2001) no qual são registados 4.710 habitantes, com um crescimento de 17% nos últimos dez anos.
Em 1991, ainda 15,2% dos residentes activos se ocupavam da agricultura, contra 31,2% que se empregavam na indústria e já 53,6% no terciário. A tendência para uma evolução rápida e positiva do terciário, assenta fundamentalmente no ramo do turismo e no equilibrado aproveitamento do mar, do rio e do campo ainda rural que rodeia a vila.
Esta zona rural, onde ainda trabalham 4% dos activos (a maioria como complemento e não como actividade principal), espraia-se desde o Monte do Calvário (local de belas paisagens), pelo lugar da Rocha com todo o seu tipicismo rural, até aos lugares da Chão e da Lameira com hortas e vinhedos e a Vile, S. Pedro de Varais e Bulhente, já nos contrafortes da Serra de Arga.
Vila Praia de Âncora uma vila com todas as infra-estruturas e, à excepção das Repartições públicas (Finanças, Cartórios e Tribunal), que estão em Caminha (a 9 km), consegue ter uma relativa autonomia em todos os aspectos (menos o financeiro), a começar pelo comércio local que é diversificado, de qualidade e plenamente satisfatório.
É antiga a reivindicação de Vila Praia de Âncora ser a sede do futuro Concelho do Vale do Âncora, consequência da discriminação que a sede do Concelho faz à sua maior freguesia, uma espécie de “vingança” pela sua pujança populacional e turística.

 

A rede de distribuição domiciliária de água é completa, a rede de saneamento básico apresenta uma cobertura em cerca de 75%, a ETAR da Gelfa funciona há cerca de treze anos e a lixeira que existia a norte da freguesia foi encerrada há muito tempo, factos que vieram melhorar de forma significativa as condições ambientais.
No sector da educação temos o ensino pré-primário, básico, secundário e profissional. O pré-primário é assegurado por dois estabelecimentos de ensino: um público e um privado.
O 1.º e o 2.º ciclo básico funcionam na moderna e bem equipada escola básica integrada. O 3.º ciclo básico e o secundário é assegurado pela Ancorensis Cooperativa de Ensino, que prima pela qualidade e diversidade de opções que oferece à população escolar, desde o 7.º ao 12.º anos de escolaridade.
O ensino profissional é da responsabilidade da ETAP Vale do Minho, que tem em Vila Praia de Âncora um dos seus quatro pólos, este destinado à área da hotelaria.
Ao nível da saúde, a proximidade com o Hospital Distrital de Viana (Santa Luzia) coloca a freguesia numa situação aceitável comparativamente com outras situações, tanto mais que existe na Freguesia uma extensão do Centro de Saúde de Caminha, assim como laboratórios de análises, centro de reabilitação física e dois centros médicos privados. Como se verifica, portanto, os cuidados médicos estão bem representados.  
Quanto a apoios sociais, Vila Praia de Âncora dispõe dois centros de apoio e acolhimento da terceira idade, que em conjunto tem uma capacidade de 50 camas aproximadamente, alem das valências de lar de dia e apoio domiciliário.
Na área desportiva, além do campo de jogos da Gelfa e do pavilhão desportivo, espera-se há vários (muitos) anos pela construção dum complexo de piscinas.
O associativismo é notável, destacando-se entre outros, a dinâmica do Âncora Praia Futebol Clube, Clube Ancorense de Caça e Pesca, Sociedade Columbófila, Lions Club, Grupo Etnográfico, Orfeão, Bombeiros Voluntários, NUCEARTES, Fórum Ancorense e Agrupamento de Escuteiros.
A cultura tem também o seu lugar próprio e multifacetado, com actividades em quase todas as áreas próprias duma vila progressiva e moderna, como é Vila Praia de Âncora. 
A capacidade hoteleira é razoável e um dos pilares do desenvolvimento turístico. Diga-se que neste aspecto, também não falta animação e capacidade para atrair turistas: Desde a gastronomia às praias fluviais e atlânticas, neste caso com destaque para a dita Praia das Crianças (um areal banhado por águas tranquilas, em que o rio e o mar se acalmam mutuamente para benefício da pequenada), até as maravilhosas margens do rio Âncora, aos magníficos restaurantes, ao panorama visto do Monte do Calvário, até ao património edificado, em que sobressai a Matriz, o Forte da Lagarteira, o Dólmen da Barrosa, as Capelas de Nossa Senhora da Bonança, de S. Brás, do Senhor do Calvário, de S. Sebastião, etc.
Só em 1924, por força da Lei 1:616, de 8 de Julho, passou a denominar-se Vila Praia de Âncora.
Ficarão sempre associados a esta terra nomes ilustres como o Dr. Luís Inocencio Ramos Pereira (médico, senador e filantropo), Almirante Ramos Pereira (democrata, filantropo e insigne marinheiro) e Joaquim Fernandes Fão (músico), entre muitos outros.
 
Fontes: Caminha e seu Concelho, Inventário Colectivo dos Arquivos Paroquiais vol. II Norte Arquivos Nacionais/Torre do Tombo, Roteiro do Vale do Âncora, Censos 2001 e www.freguesiasdeportugal.com
 
 
 
 
 
publicado por Brito Ribeiro às 18:50
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27
Fev 07

Estávamos a jantar, quando a minha mulher me disse:

- O Zé Alfredo comprou uma tenda. Ele disse-te alguma coisa?

Tinha estado uma boa parte da tarde com ele na praia, falamos de mil e um assuntos, mas não me disse absolutamente nada dessa compra.

- Se calhar é para o Rui ou para a Carina – respondi eu, que nunca tinha visto o Zé Alfredo com “queda” para o campismo. Se fossem uns piqueniques com merendeiro à mistura, estava sempre pronto. Agora, campismo a sério, nunca me passaria pela cabeça.

Tinha sido a sua cara-metade, a Cristina que confidenciou à minha mulher, a iniciativa daquele respeitável chefe de família, que adquiriu levianamente um T1 rasteiro, tipo iglô, no qual os seus, também respeitáveis noventa e tal quilos, entravam rastejantes.

À noite, após o jantar, encontramo-nos como de costume na avenida marginal de Vila Praia de Âncora, onde moramos, e perguntei-lhe de chofre se era verdade que tinha uma tenda nova. Mais admirado fiquei quando me contou, com toda a naturalidade, que alem da tenda tinha adquirido mais uma série de equipamentos e tinha até preços de outros equipamentos, que ainda não tinha adquirido porque não sabia bem se eram ou não, boa compra.

É claro que sendo eu um apaixonado pela nobre e salutar “arte” do campismo, tivemos conversa até nos despedirmos, lá para a meia-noite, ir rumarmos cada um para a sua casa, que nem são assim tão distantes uma da outra, uns duzentos metros, nem mais.

Nos dias seguintes os planos do Zé Alfredo avançaram e eu ganhei um novo parceiro para as minhas constantes vadiagens de verão. Pelo menos tinha a esperança de ganhar, pois a única vez que ele tinha acampado, tinha sido na tropa, em Beja, salvo erro, e não lhe tinha deixado saudades. Pudera, acampar em Beja no verão…

A Cristina não estava particularmente entusiasmada, mas sempre era uma novidade e para mais contava com a companhia da minha mulher. A Carina é um pouco mais velha que a minha filha Joana, que tinha acabado de fazer treze anos e que é doutorada em campismo, pois desde muito nova que me acompanha, alem de nos últimos anos ter entrado para os escuteiros, o que dá uma enorme experiência nesta matéria. Um enorme background, como dizem as pessoas finas.

Combinada a data e o local, fui dando uns conselhos sobre os materiais e equipamentos a levar, uns fundamentais e indispensáveis, outros que embora não fossem essenciais eram úteis e aqueles que eram supérfluos e até desaconselháveis.

Decidimos sair numa sexta-feira à tarde em meados de Agosto. Lembro-me que o dia 15, que é feriado, calhava na terça-feira seguinte, dia escolhido para regressarmos. O local escolhido foi o parque de campismo de A Guarda, na Galiza, em pleno estuário do rio Minho, a pouco mais de dez quilómetros de nossas casas.

Devo dizer que o facto de ir de férias para um local a cinco quilómetros ou a quinhentos quilómetros de casa, é para mim totalmente indiferente. O que realmente me importa é estar bem naquele sítio e este parque é das coisas melhores que temos no noroeste peninsular. É calmo, espaçoso, muito agradável porque é totalmente arborizado e relvado; as infra-estruturas embora não sendo luxuosas são plenamente satisfatórias e tem uma piscina fantastica. O único senão, são os mosquitos ao anoitecer, nos dias de muito calor. Mas quando cai a noite, eles rumam a outras paragens e deixam de incomodar.

Nessa sexta feira o tempo estava óptimo, pirei-me do trabalho mais cedo um bocado e começamos a carregar o carro com a descontracção de quem já sabe do assunto. Primeiro a tenda, depois a geleira eléctrica, uma modernice que adquiri o ano passado e que dá imenso jeito, depois as mochilas, os sacos camas, o fogão, os tachos, etc..

Toca o telemóvel, era a Cristina a saber se já estávamos prontos, porque o Zé Alfredo bufava dentro do carro, à espera que eu desse ordem de arranque. Como era fácil para mim compreender o nervoso miudinho que o assaltava, disse-lhe que já podia vir até à minha casa, pois já tínhamos a carga quase pronta. Bem, quando vi o carro dele, um Ford Focus atulhado até ao tecto, no qual já quase não se via a mulher e a filha, não me contive e desatei à gargalhada. Havia de tudo, parecia um supermercado.

Mais um compasso de espera para a Paula, a minha mulher, acabar de fritar os panados que seriam o jantar dessa noite e arrancamos finalmente. Em Caminha, ainda paramos para comprar pão, eu lembrei-me de uns folhados que a pastelaria junto aos correios tem e são uma delícia, finalmente rumamos para o cais do ferry-boat.

Aqui começo eu a sentir-me de férias e a reagir em conformidade; nada me enerva, não há pressas e uma cerveja calha sempre bem. Começam a tirar-se as primeiras fotografias, as raparigas trocam os MP3, os telemóveis e não sei que mais, combinam estratégias próprias de miúdas adolescentes, como todos nós, quando tínhamos a idade delas.

A tenda do Zé Alfredo já tinha sido experimentada lá no terraço da casa dele, com a ajuda do Rui, o filho mais velho que terá agora dezanove ou vinte anos e estuda no Porto e tem o mesmo arcaboiço do pai.

Era um iglô baixinho, com um avançado ainda mais baixo, só permitia entradas e saídas de gatas. Até nem foi difícil de montá-la, ao contrário dos receios do seu proprietário.

Acho que o facto da montagem ter corrido bem, deu uma enorme ajuda na autoconfiança dos meus amigos.

Em breve podíamos apreciar o seu iglô equipado com um super colchão, enchido com uma bomba eléctrica que era o máximo. Vou comprar uma bomba desse género, este ano. À entrada estava um foco todo cheio de “nove horas” que ele tinha comprado a um marroquino e que nunca tinha sido usado. Achei muita piada porque a Cristina fez questão de estender os sacos camas com uma dobra muito artística como se tratassem de lençóis de linho bordados, em contraste com os nossos sacos camas atirados à balda para cima do colchão.

Depois do acampamento montado, foi a vez de dar trabalho aos dentes e aos queixos, fazendo desaparecer os panados da Paula, os rissóis, os bolos de bacalhau e não sei que mais da Cristina, os folhados que tinha comprado em Caminha e tudo o que mais viesse.

É um facto que nunca tive falta de apetite, mas no campismo como bastante mais e esta característica é partilhada com todos os que conheço destas andanças. Aquilo dá uma fome! E sede também!

Uma das características dos meus acampamentos é um projector eléctrico de 500W que ligo todas as noites e que permite, cozinhar, comer, e conviver com uma luz decente, bem ao contrário de alguns tipos, que usam ainda candeeiros a gás ou lanternas a pilhas. Já ultrapassei esse purismo há bastantes anos e é uma das razões porque deixei definitivamente de acampar fora dos parques. Fiz campismo selvagem durante muitos anos, mas agora acabou-se, já não tenho idade, nem vontade. Não há nada como tirar uma “bejeca” da geleira e saboreá-la, sentado confortavelmente numa cadeira de lona, a conversar ou a ouvir musica e a ler um livro, outra coisa que não dispenso.

Durante a primeira noite acordei várias vezes como é habitual e ouvia o ressonar do meu parceiro na tenda ao lado. "pelo menos não estranhou e não se pode queixar de não conseguir dormir" pensava eu, dando mais uma volta dentro do saco cama.

No dia seguinte, depois da habitual rotina do levantar, fomos às compras para as próximas refeições, sem nenhum de nós ter a menor ideia do que iríamos escolher.

Eu tenho sempre uma ideia, que são as saladas "à Brito" como diz a minha filha, pois levam de tudo um pouco e são temperadas de forma diferente. Não é publicidade, mas não esperem que vá aqui revelar o segredo.

Foi mais ou menos nessa hora, que tivemos a surpresa de ficarmos presos no trânsito na Guarda, pois era o fim-de-semana das festas do Monte, em honra de Santa Tecla, em galego Santa Trega.

Estas festas são da mais pura raiz popular e enchem a pequena cidade de forasteiros galegos e portugueses. Basicamente não diferem muito das nossas festas e romarias, excepto no consumo de vinho tinto que é um exagero. Durante o dia, os grupos de bombos e gaitas de foles, dúzias de grupos, tocam pelas ruas em despiques animados. À noite duas orquestras animam uma verbena na praça, cujo nome desconheço, mas é onde realizam semanalmente a feira. Pelas ruas principais vedadas ao trânsito automóvel, até aos moradores, espalham-se esplanadas dos restaurantes e bares.

No domingo, é dia da subida ao monte, a acompanhar os grupos de bombos, toda a gente vestida de branco e com um lauto farnel nas cestas e mochilas. Aí é que não pode esquecer o vinho tinto, pois é ou foi transformado, de forma bizarra, no centro das atenções, porque depois de muito beberem, os festeiros regam-se uns aos outros com o precioso carrascão.

Estão a ver o efeito! Calças e camisa branca bem regadas de vinho tinto, a condizer com monumentais bebedeiras, que atiram os mais fracos para um sono retemperador, em qualquer valeta.

Foi a esta festa que nós viemos parar, onde nos divertimos imenso, sem tocar no vinho tinto, nem por dentro, nem por fora. Apesar do iminente risco que a alcoolização dos festeiros (e festeiras) acarreta, também é verdade que não vimos nenhum desacato, nem nada parecido. Nisso acho que os galegos tem melhor temperamento que os portugueses. Não confundem diversão com aborrecimentos.

Entretanto, a nossa vidinha decorria sem sobressaltos de maior dentro do parque, nomeadamente nas refeições, onde todos ajudam, seja a descascar batatas, a tomar conta de qualquer coisa ao lume, seja a lavar a louça. O Zé Alfredo e a Cristina cada vez que era preciso algo, diziam de imediato "nós trouxemos, está no carro". Mais uma gargalhada irónica aqui do entendido, que se gabava e gaba, de só levar o indispensável. Um dos dias pela manhã, estava eu a fazer a barba, quando me cortei no queixo. Coisas que acontecem. Só que devo ter cortado algum capilar importante e o raio do sangue demorou bastante a estancar. Horas depois ao passar inadvertidamente a mão pelo queixo, vejo-me outra vez a sangrar com abundância.

Mais uma vez, o Zé Alfredo diz "tenho ali no carro um produto que te revolve isso duma vez" e de seguida vai desencantar uma pequena farmácia cheia de tralha (a minha tem adesivo, agua oxigenada e pouco mais) da qual tira um frasquinho, com conta gotas. Lá me aplicou uma gota no queixo e milagrosamente o sangue parou imediatamente de correr.

- É pá, onde arranjaste isso?

- Foi o Brito da farmácia que fez este preparado há mais de dez anos e nunca falha.

- Mas qual é a composição?

Ele explicou-me que era um permanganato qualquer, já não me lembro, um daqueles remédios à moda antiga, que só o meu homónimo farmacêutico ainda seria capaz de fabricar.

Não lhe disse nada no momento, mas dei a mão à palmatória; afinal, ele foi carregado de tralha, eu até gozei com isso, mas acabei por precisar de alguma dessa mesma tralha.

Um dos meus passatempos nos parques de campismo é ver os materiais que os outros apresentam. Comparar tendas, fogões ou acessórios é algo que faço com toda a naturalidade e ao qual o Zé Alfredo se associou de seguida. Às tantas diz-me ele:

- A minha tenda só dá para gente nova. É muito baixa para mim. Gostava de ter uma daquelas.

- Essa não é grande coisa. Aquela, acolá, é bem melhor, é uma Quechua.

Começamos a falar de marcas e de características de material de campismo, como tantos de nós falamos de automóveis ou de telemóveis. “Cavada Nova” para aqui, “Camping Gaz” para acolá, “Mckinley” para a frente, “Coleman” para trás. Depois de muita discussão e várias voltas ao parque, chegamos a um consenso; ambos gostamos de um determinado tipo de tenda e logo combinamos descobrir onde era o representante da tal marca, pois eu também pretendo comprar uma tenda maior. Quando um gajo avança na idade, avança também no comodismo.

A semana passada o Zé Alfredo apareceu lá em casa a convidar-me para ir no dia seguinte, um sábado a Porrino ver as tais tendas. Tivemos uma desilusão, pois ainda não tem nada em exposição. Por informação do funcionário só lá para o final de Março é que põe à venda esse tipo de materiais. Uma estratégia comercial coma qual não estou, não estamos de acordo e por isso já combinamos ir à Maia, daqui a uma ou duas semanas. Afinal, já não falta muito, para recomeçar a vadiagem!

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 17:43
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26
Fev 07

Os contos que agora inicio são para a rapaziada de Âncora e arredores; pelo menos para aqueles que conhecem bem estas bandas. A acção situa-se algures em qualquer lugar, ao gosto e imaginação do leitor. As características físicas, os nomes e as profissões dos intervenientes, são produto de ficção e não tem (não???) qualquer semelhança com a realidade actual, passada ou futura (penso eu).

 

A nossa história começa na mercearia da D. Júlia, mais conhecida pela Júlia Gaiteira e que durante muitos anos vendeu flores, caramelos e pantufas de contrabando no vão da escada, da sua antiga casa. E digo antiga porque agora está vazia, devido à mudança da sua proprietária para um chalé na aldeia, com telhado verde e persianas douradas, no mais fino gosto então em voga, que construiu aos bochechos e para o qual muito contribuiu os caramelos e as pantufas.

Pessoa devotada, não perdia a missa dominical onde cantarolava e dava catequese, não dispensando uns arreganhos aos putos mais ranhosos e turbulentos. Exigia boas maneiras e disciplina, ali quem mandava era ela e para isso impôs uma espécie de farda, meia azambrada, composta de camisa branca às riscas verdes e bivaque. A propósito disso, na primeira vez que os infelizes catraios apareceram assim vestidos, o Padre Esteves, já velhote e surdo como uma porta, pensou tratar-se da excursão de algum orfanato e fez uma prédica especial de boas vindas àquele rebanho.

Não sendo propriamente uma jovem, andava na casa dos quarenta, muito bem conservados, e tinha casado com o Simplício das Finanças, vinte e dois anos mais velho, na época um simples funcionário, que foi subindo até inspector tributário. Reformado há meia dúzia de meses, foi sempre pouco dado à sociedade. Depois do trabalho apreciava mais o dominó, o copo cheio e o Sporting, pois nasceu e foi criado em Lisboa, paredes-meias com Alvalade. Depois de reformado profissionalizou-se naquilo que até à data eram os seus passatempos. Na loja pouco fazia, pois embaraçava mais do que trabalhava, tal era a falta de jeito para os trocos ou distinguir o repolho, dos grelos.

Na verdade, pouca falta lá fazia, pois a Júlia Gaiteira tinha um funcionário muito eficiente, o Bertinho "Cambalhota", rapaz estudado, com lábia suficiente para aviar as velhotas mais recalcitrantes. Chegava para o Simplício se sentir a mais naquele espaço e rumar de fininho para a tasca do Libório.

O Bertinho como era carinhosamente tratado pela freguesia, tinha o dom dos sete ofícios. Já tinha sido locutor na rádio, fotografo, maqueiro e condutor de ambulâncias, trabalho que adorava, mas que terminou no dia em que se soube que não tinha carta de condução. Só se descobriu esse "lapso" após um acidente, no qual a ambulância ficou com as rodas para o ar e o doente que ia para o hospital com uma crise renal, acabou na ortopedia, com um traumatismo craniano e uma perna engessada.

Depois da aventura das ambulâncias, arranjou emprego na mercearia do Sr. Gonçalves, a quem chamavam o "Adesivo", devido às constantes lições que dava sob qualquer pretexto. Era um sujeito baixote e forte, que não via com bons olhos a ousadia da Júlia Gaiteira ter comprado a loja de ferragens do Valdemarcio e transformado esta numa mercearia concorrente. Ainda por cima no melhor sítio, a esquina da rua do mercado com a rua principal que ligava à avenida e ao jardim.

O Bertinho, que não tinha nada de parvo, compreendeu que o futuro estava na mercearia da Júlia e na primeira oportunidade foi-se lá oferecer. Primeiro, porque a casa era melhor, segundo porque o Simplício não ligava nenhuma e qualquer dia estava com os pés para a cova. Depois se verá, pensava em surdina. Se não for a mãe, é a filha. Pois, mas eu ainda não vos falei da filha...

A Inês saiu mais ao pai que à mãe. Caladinha, sossegadinha, passava despercebida em qualquer parte. Vivia para os estudos e para os escuteiros, a sua grande paixão, onde já tinha uma posição de chefia, como tesoureira do agrupamento. Havia até quem dissesse, más-línguas, que a Júlia tinha-se inspirado nos escuteiros, para as fardas dos putos da catequese.

Quando a Júlia Gaiteira comprou a loja de ferragens ao Valdemarcio, brasileiro, imigrante de S. Paulo, mas a residir em Portugal há mais de trinta anos, este, sempre à cata de boas oportunidades para qualquer negócio, logo se atirou à compra e venda de terrenos. Como tinha vendido ferragens, tinha bons contactos com empreiteiros, e paralelamente montou com o Lira, escriturário na carpintaria Machado, um negócio de importação de lampreias Francesas, que depois misturavam com as do Rio Minho e assim enganavam os lorpas. No verão faziam também as festas, onde vendiam pipocas, algodão doce e outras goluseimas.

Falta-me falar-vos do Zé Bastos Tijolo, nome estranho mas de baptismo, que é fornecedor de frutas e legumes, filho mais novo do falecido sr. Tijolo, tem um irmão mais velho que é empreiteiro de sucesso, a quem dá uma ajuda sempre que possível, colando nos vidros das mercearias que visitava, folhetos a anunciar a venda de apartamentos e moradias.

 

Como dizia no início, estava o Bertinho de lápis e papel na mão, a tirar as faltas da prateleira dos detergentes e dos líquidos da loiça, quando a Júlia, que tinha acabado de despachar as irmãs Torres, velhas beatas e somíticas, lhe pergunta:

- O Bastos ontem não disse que hoje vinha cedo?

-Disse, mas também não faz grande falta.

O Bertinho não nutria qualquer simpatia pelo Bastos, embora na sua frente aparentasse cordialidade, por considerá-lo um possível concorrente nos seus planos futuros.

-Lá está você a desconsiderar o homem!

- Não é isso. O que quis dizer é que não temos faltas, a não ser as peras, mas se forem como as de ontem, bem as pode comer ele.

 

O Bertinho continuou o seu trabalho remoendo para dentro cobras e lagartos sobre o Bastos e sobre o sítio onde podia meter as peras, tanto mais que a patroa parecia sempre estar a defende-lo. Já tinha a manhã estragada com a conversa e, a única coisa que lhe podia alegrar a vista, era ver a Júlia passar pela porta da rua com a sua bata fina e translúcida, entrevendo da penumbra do fundo da loja, o que só estava ao alcance do Simplício, por enquanto.

- Bertinho, eu vou sair, quero falar com o sr. Padre Esteves, mas não demoro. Se entretanto o Bastos chegar, veja lá o que precisamos e ponha-se a pau com os preços.

- Esteja descansada que eu trato disso. Se for preciso, até lhe digo que a senhora tem mais onde comprar...

-Não faça isso, que ele pode levar a sério!

- E depois? Se calhar não é verdade? Ele até serve primeiro o "Adesivo" e depois é que cá vem – envenena o Bertinho.

-Some-te diabo! Nem me fale nesse desgraçado. Qualquer dia quem lhe dá uma lição sou eu, não me chame Júlia.

- Que lhe fez ele agora D. Júlia?

- Disse lá na espelunca dele, que na nossa loja, as freguesas tem de tomar cuidado com os trocos, porque nos enganamos muitas vezes com os euros, mas sempre a nosso favor.

- Ai que mentira!!! Ainda bem que me pus a mexer de lá para fora. Já não conseguia suportar aquele fala-barato.

 

Enquanto isso, o Zé Bastos na loja do "Adesivo"descarregava quatro sacos de batatas novas, cenouras, couve-flor e não sei que mais. De seguida puxou da pequena calculadora e do bloco para apurar as contas, sim as contas, porque o Bastos não vendia fiado a ninguém. Dizia ele com alguma brejeirice, "cu no chão, dinheiro na mão, senão perco a mercadoria, o dinheiro e o cliente". Depois de fechar o bloco, como estava a sós com o "Adesivo", pergunta-lhe:

- Então como vai o negócio, sr. Gonçalves? Dá-me ideia que se está a vender menos este ano.

- Não é que me possa queixar muito, mas desde que essa, a da esquina, montou aí a loja, nota-se diferença. Raio da mulher mete-se em tudo. Agora parece que anda a convencer o padre a fazer obras no Centro paroquial e no caminho da igreja. Acessibilidades, como se diz agora. Se calhar pensa que as pessoas passam a ir à missa por ter um caminho melhor. O problema da falta de participação das pessoas nos actos religiosos deve-se em grande medida ao divórcio entre as práticas da igreja enquanto instituição e as...

- Oh sr. Gonçalves, deixe lá isso, a D. Júlia até é uma pessoa bem intencionada, apesar de um pouco metediça.

- Metediça é favor, ela fala do que não sabe e não sabe o que diz, porra!

- Não é bem assim, – retorquiu o Bastos contemporizador – olhe que ela tem ideias e onde se mete tem levado a sua avante.

- Ela tem é um santo de um homem e duma filha, que lhe aturam as maluqueiras todas. Se fosse comigo ela ia ver. Para começar metia a viola no saco, fazia o trabalhinho de casa e...

- Você saiu-me um bota-de-elástico. Olhe, vou andando que hoje tenho a volta atrasada.

- Dê cumprimentos meus à dama e ao pirata do ajudante. A esse estupor se lhe posso ser bom!! Traidor, dei-lhe um posto de trabalho digno, um verdadeiro emprego, depois daquela palhaçada da ambulância e paga-me desta maneira. Não há dúvida, o mundo hoje já não é o que era. Isto das democracias ocidentais e da integração europeia tem as suas vantagens, mas também há que se ter em conta o desequilíbrio social dos comportamentos. Ainda a semana passada li, que na Alemanha...

- Amanhã, com mais tempo, você conta-me o resto. Já devia estar em Barcelos, por esta hora.

 

O "Adesivo" virou-se para aviar à Mercedes um frasco de champô dos piolhos, pois os miúdos há já umas semanas que vem carregados de "bicharada" que apanham na escola, enquanto pensava que diabo é que o Zé Bastos iria fazer a Barcelos, pois já não era a primeira vez que a isso se referia. Negócio de hortaliça, de certeza.

 

- Só precisamos de 500 contos sr. Padre.- Diz a Júlia afogueada por ter de falar alto para o padre Esteves.

- 1.500 contos é muito dinheiro!! Não pode ser. Onde é que os íamos arranjar?

- Eu disse 500 sr. Padre, 500, entendeu?

- Ouvi muito bem, não precisas gritar. Mesmo assim, 500 contos é muito dinheiro para o caminho.

- Deixe isso comigo. Só no lugar da Ponte, onde moro, arranjo eu 100 ou 150 contos.

- Pente? Para que é o pente? Ah! Vais vender pentes para arranjar o dinheiro?

- Ponte! Lugar da Ponte foi o que eu disse, sr. Padre. Podemos falar com as outras catequistas, os mordomos e o sacristão para organizar o peditório.

- Ao velório de quem, minha filha, se hoje não morreu ninguém?

- Deixe isso comigo – repete a Júlia, estafada de berrar com o padre - no domingo depois da missa, conversamos.

- Lá isso é verdade, com uns canteiros de flores por detrás das oliveiras fica muito mais bonito.

-É isso mesmo, até amanhã sr. Padre.

 

Livra, é impossível conversar com este homem – murmura a Júlia, atravessando em passo apressado o adro, em direcção à sua loja – mas não vou desistir. Convenço as catequistas, elas organizam-se por lugares e ruas, faz-se o peditório e arranjo rapidamente o dinheiro. Limpinho, ou eu não me chame Júlia.

Quando entrou na loja, viu o Bertinho atarefadíssimo a atender meia dúzia de clientes, saltitando entre caixas de fruta e de legumes ainda por arrumar.

 

- Nem tive tempo de dar um jeito nisto D. Júlia. Desde que saiu tem sido sempre assim. Nem um segundo de descanso.

- Vê-se, está vermelho como um tomate.

- Só se for dos maduros – diz a Tia Joaquina que não perde pitada da conversa alheia – não é como os tomates que tem ali à entrada que estão todos verdes e são de estufa.

- Ora essa, vieram ontem da Póvoa. Então você pensa que eu quero aqui dessas porcarias de estufa? Isso é para o "Adesivo", que para ter mais ganho, compra do refugo.

- É verdade – atalha o Bertinho – eu vi muitas vezes. Por isso é que não gosta que ninguém escolha o produto. Ao menos a D. Julia não se importa que apalpem, porque é tudo do melhor.

- Não se importa que apalpem, salvo seja – reclama a Tia Joaquina.

- Não foi isso que quis dizer, a senhora percebeu muito bem – responde o Bertinho com ar ofendido.

 

Foi um dia desgraçado, sem tempo para parar um segundo. Só ao final da tarde, quando se preparava para arrumar as facturas dos fornecedores é que a Júlia perguntou ao Bertinho:

- O Zé Bastos afinal a que horas apareceu?

- Logo que a senhora saiu, para ir falar com o padre Esteves.

- Nem esperou que eu chegasse...

- Estava cheio de pressa, disse que ia a Barcelos e já estava atrasado.

-Ah! Sem dúvida que já estava atrasado.

 

O Bertinho que tinha dado volta aos miolos para saber o que iria fazer tantas vezes o Zé Bastos a Barcelos, ficou pasmado com a resposta da patroa. Agora tinha a certeza que a Júlia estava por dentro do esquema do Zé Bastos, facto que o deixou deveras preocupado.

No domingo de manhã, depois da missa, a Júlia desdobrou-se em vários contactos, quer com as restantes catequistas, quer com os mordomos, não encontrando grande resistência aos seus intentos, excepto do Aníbal, que também era tesoureiro da Junta e que comentou:

- Que se peça dinheiro para o Centro Paroquial, tudo bem, pois aquilo mete água por todos os lados e o soalho está podre. Para o caminho, acho que é melhor não nos metermos nisso, senão temos o presidente da Junta a complicar e eu não quero chatices com ele.

- Chatices? Quais chatices? O Domingos até nos vai agradecer. Deixe que eu falo com ele. Agora o que é preciso é ir pelas portas pedir o contributo para as obras. Não se esqueçam de apontar tudo, que é para no final a coisa bater certo.

 

Foi a procura dos miúdos da catequese, que corriam e saltavam no átrio da igreja, não perdoando um mosquete a um deles que tinha sujo a camisa listada.

A um canto da velha sacristia o sacristão e dois ou três mordomos conversavam enquanto o Padre Esteves mudava de roupa.

- Eu cá, acho que a Júlia tem razão. Só com um peditório é que arranjamos dinheiro para as obras.

- Eu estou de acordo, mas não me agrada vê-la metida nisto.

- Que é que tu querias? Que desse a ideia e saísse? Parece que não conheces a Júlia.

-Não foi isso que eu disse. O que acho é que devia ser o sr. Padre a organizar o peditório. A propósito, ele ainda não disse nada sobre isso! Oh sr. Padre Esteves, então que nos diz do peditório?

- Peditório? Foi uma vergonha, só deram moedas de cinco cêntimos para baixo.

- Não estamos a falar do peditório da missa. Falamos do peditório para as obras.

-Ah, o da Júlia? É boa ideia, mas ainda não falei com o sr. Bispo...

- Acha que ele concordará?

- Quem é que ele manda cá?

- Não foi isso que disse. Perguntei-lhe se ele concordava.

- Claro que sim. É para o bem da igreja – responde o padre.

- Se calhar o presidente da Junta é que não vai gostar. Está sempre a resmungar contra as obras que não são da sua iniciativa.

- Também gosto, mas hoje vou comer um cozido à portuguesa.

Os mordomos entreolharam-se com espanto perante este comentário e desistiram de continuar o diálogo. Uns a falar de alhos e o padre a responder bugalhos...

 

Em casa, a Júlia aproveitava para dar um arranjo no jardim, enquanto o Simplício dormia uma sesta bem merecida, pois com a vitória do Sporting no sábado à noite, os martinis e os abafados da manhã, tinham-lhe caído na fraqueza, o que o tornava muito chato. Já tinha chegado a casa ligeiramente cambaleante e com a fala arrastada, não se calando um segundo durante todo o almoço. Pelo menos agora dormia e era preferível ouvi-lo ressonar, que aturar a sua conversa sem nexo.

A Inês estava no quarto ouvindo o ultimo CD do Tony Carreira, enquanto actualizava as contas do agrupamento dos escuteiros, que tinham vendido durante todo o mês calendários e porta chaves, para angariar dinheiro destinado à compra de uma tenda grande, que pudessem utilizar com a malta toda lá dentro, nos próximos acampamentos de verão.

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 11:46
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23
Fev 07

Funcionários da Câmara Municipal, fartos de retirar do cruzamento vidros, plásticos, guarda-lamas, para choques e outras peças de automóvel, provenientes dos acidentes quase diários, decidiram marcar no pavimento, o sinal de paragem obrigatória. Eis o resultado:

A presidente da autarquia, quando passou no local, ao ver o resultado, emocionou-se tanto, que se esqueceu de travar e foi abalroada pela carrinha da padaria, que estava carregada de broas, sêmeas e casqueiros. Não houve feridos a lamentar, as viaturas envolvidas ficaram bastante maltratadas e os casqueiros e as sêmeas ficaram transformados em pão… ralado.

publicado por Brito Ribeiro às 11:40
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Tenho sérias reservas quanto à necessidade e oportunidade dos anunciados investimentos no aeroporto da Ota. Até me provarem o contrário e isso ainda não aconteceu, manifestarei a minha oposição a este investimento.

Num país de parcos recursos, em que o Estado anda sempre com as calças na mão e a maior parte dos cidadãos tem um nível de vida muito abaixo dos seus congéneres europeus, investir numa monstruosidade faraónica como a Ota, é um disparate rematado e que consubstancia interesses de lobbies particulares muito poderosos.

Portugal é o país da Europa onde a construção civil e obras publicas tem percentualmente maior peso no PIB. Quer dizer que a nossa economia depende demasiado deste sector de actividade e que isso se faz sentir nas decisões políticas, para o bem e para o mal. Em vez de legitimamente contrariar este efeito, o Governo procura alimentá-lo e, se possível, até fazê-lo medrar.

Os milhares de milhões de euros aplicados na construção de um aeroporto preparado para receber até 25 milhões de passageiros por ano, vão certamente ser arrecadados pelos consórcios construtores (que não serão portugueses) pelos fornecedores de tecnologia (que não serão portugueses) e pelos proprietários dos terrenos, que a estas horas já estão em “boas mãos”.

Será que, ao menos, esta obra vai fazer baixar a taxa de desemprego? Desenganem-se porque o operariado fica em grande parte entregue aos imigrantes africanos e de leste, engajados por subempreiteiros, não raras vezes pouco escrupulosos e mais interessados em lucros avantajados que em direitos e segurança dos trabalhadores.

Qual o impacto financeiro consolidado que tal obra terá para a economia portuguesa? Muito pouco, se compararmos com o investido. Mas voltemos à questão da propriedade dos terrenos da Ota, no concelho de Alenquer.

O maior proprietário parece ser Renit/Tiner um grupo ligado ao imobiliário, construção civil e aeronáutica com 12 empresas em Portugal. A Turiprojecto também será um dos grandes proprietários e está associada à norte-americana Trizechann e à espanhola Riofisa. Outro dos alegados grandes proprietários é a Espírito Santo Activos Financeiros SGPS, SA uma holding de investimentos mobiliários e imobiliários da esfera do BES. Curiosamente um outro nome que também é referido como possuidor de várias propriedades é José Eduardo dos Santos, o Presidente da Republica de Angola.

Mas vejamos este caso pelo lado da oportunidade. Lisboa precisará mesmo de ter outro aeroporto? Segundo opinião de muitos especialistas o Aeroporto de Lisboa tem ainda uma margem bastante grande de ampliação, quer para o tráfego de passageiros, quer de mercadorias.

O único senão é ter as suas pistas encostadas à malha urbana e representar assim um factor adicional de insegurança. De qualquer forma quando construíram os prédios já o aeroporto lá estava! Se houve erro foi terem autorizado construir habitações paredes-meias com o aeroporto. E também nunca vi as entidades que tutelam a aviação civil a reclamar.

Em 2006 o aeroporto da Portela ultrapassou ligeiramente a fasquia dos 12 milhões de passageiros, muito à custa dos chamados voos de “low coast”, podendo este número evoluir positivamente nos próximos anos. As infra-estruturas aeroportuárias da Portela, com obras de ampliação e remodelação, poderão dar uma capacidade operacional superior aos 16 milhões de passageiros ano, que na melhor das previsões nunca seria atingido antes de 2025.

 O próprio presidente da TAP, Fernando Pinto afirmou que é um erro “deitar fora” a principal mais valia da Portela, que é a proximidade da cidade. Um dado importante diz-nos que 85% dos utilizadores da Portela (excepto turistas) residem ou permanecem na área metropolitana de Lisboa.

A hipotética ampliação da Portela iria implicar a expropriação de 80 hectares de terrenos urbanos para acrescentar aos actuais 520 hectares que ocupa. Só assim seria possível a construção de uma nova pista, alem de novos terminais de passageiros e cargas. A expropriação destes 80 hectares iriam afectar cerca de 2.000 habitações e o realojamento de 10.000 pessoas.

Mesmo que se construa a Ota, já estão confirmados cerca de 400 milhões de Euros para beneficiações do velho aeroporto da Portela até 2017, que é quando se prevê que esteja concluído o novo aeroporto. Não são 5 ou 10 milhões, são 400 milhões, o que em obra pública com as omissões, os trabalhos a mais e outros malabarismos, pode representar o dobro. Definitivamente, esta gente brinca com o nosso dinheiro e com a nossa capacidade de compreensão!

O novo aeroporto da Ota, contrariamente ao da Portela ficará a algumas dezenas de quilómetros da capital e será servido pelo TGV e auto-estradas construídas propositadamente. A minha dúvida reside em saber se haverá um TGV ou um autocarro para cada avião que aterre, pois de contrário, os passageiros ficarão “pendurados” no terminal, restando como alternativa, para os mais apressados, o táxi ou rent a car. Desconfio que serão estes os melhores negócios para o novo aeroporto.

A desactivação do aeroporto da Portela, com um custo estimado de 25 milhões de euros, irá libertar para urbanização, todos os terrenos da chamada Alta de Lisboa, dos quais Stanley Ho parece ser o maior proprietário com mais de 300 hectares, alem de todo o espaço anteriormente ocupado pelas pistas (520 ha), que numa avaliação já antiga, atingiam os 250 milhões de Euros.

publicado por Brito Ribeiro às 11:00
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22
Fev 07

Um tipo esteve a beber até o bar fechar, como era o ultimo cliente, o funcionário informou-o que iam fechar e que ele tinha que sair.

O tipo levantou-se e caiu. Tentou novamente levantar-se e caiu novamente. Optou por se arrastar até á porta, junto da porta do bar tentou levantar-se novamente e voltou a cair. Já na rua tentou levantar-se e voltou a acontecer o mesmo. Foi assim para casa, tentando levantar-se e caindo.

Já em casa e pela manhã a esposa comentou: - Grande bebedeira ontem á noite!

-Como é que tu sabes que eu ontem cheguei bêbado?

- Telefonaram do bar, dizendo que deixaste lá a cadeira de rodas...

publicado por Brito Ribeiro às 11:43
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21
Fev 07

Faz parte do concelho de Caminha e pertence geograficamente ao Vale do Âncora, tendo os seus limites estabelecidos na seguinte ordem: a norte, pela freguesia de Moledo; a nascente, com Vile; a sul com o rio Âncora e a freguesia de Âncora e a poente pelo oceano Atlântico.

Dotada de um clima de uma amenidade surpreendente, está relativamente aconchegada das ventanias, encrostada em colinas sobranceiras de encantadoras paisagens.

Dista nove quilómetros da fronteira espanhola por Caminha, trinta e cinco de Valença e quinze de Viana do Castelo.

A freguesia de Vila Praia de Âncora já aparece mencionada na documentação dos séc. IX e X, então com a denominação de Gontinhães, no livro "Inventário Colectivo dos Arquivos Paroquiais vol. II Norte Arquivos Nacionais/Torre do Tombo".
Era uma paróquia com igreja e que estava organizada muito provavelmente segundo a fórmula ancestral de Villa rústica (Villa Guntilanis), à qual pertencia o sítio chamado Lagarteira.
Na lista das igrejas de Entre Lima e Minho pertencentes ao bispado de Tui, elaborada por ocasião das Inquirições de D. Afonso III, em 1258, é citada a igreja de "Guntianes". As Inquirições referem também São Salvador de Bulhente, que hoje é apenas um lugar de Vila Praia de Âncora onde, com alguma dificuldade, se podem encontrar alguns vestígios duma construção muito antiga. Nessa época, porém, possuía igreja própria, sendo o seu abade apresentado pelos moradores.
D. Rodrigo de Moura Teles, em 1717, transferiu os bens da capela de Bulhente para o sítio do Calvário, por esta ter deixado de ter cura e fregueses.
Na taxação a que se procedeu no reinado de D. Dinis, em 1320, Gontinhães figura enquadrada no arcediagado da Vinha, com a taxa de 40 libras.
No Censual do Cabido de Tui para o sobredito arcediagado da Terra da Vinha, elaborado em 1321, Gontinhães pagava um quarteiro de trigo, uma libra de cera e procuração.
Entre 1514 e 1532, no Censual de D. Diogo de Sousa, Gontinhães rendia para a diocese de Braga 23 mil réis. A partir desta data, todas as freguesias de Entre Lima e Minho, da comarca eclesiástica de Valença, passaram a fazer parte da diocese de Braga.
Na avaliação dos mesmos benefícios eclesiásticos (1545-1549), esta freguesia rendia 45 mil réis.
Américo Costa descreve-a como abadia da apresentação do Ordinário, como alternativa do rei, tendo anteriormente pertencido à Casa de Vila Real.
Esta paróquia de Santa Marinha de Gontinhães atravessou mais de 1000 anos de história local e de tal forma a denominação se enraizou, que ainda é usual na região, tal como ainda há quem chame de Gontinhães a Vila Praia de Âncora, até porque, na verdade só em 1924, a secular Gontinhães se transmutou em Vila Praia de Âncora.
Toda a região é rica em vestígios arqueológicos, quer do Neolítico, quer da cultura Castreja (Idade do Ferro), mas o vale do Âncora tem atraído a especial atenção dos arqueólogos. O rio nasce na Serra de Arga e após 15 km chega ao mar num sítio a 7 km, a sul da foz do rio Minho. No sítio chamado Lapa dos Mouros, pode ver-se aquele que é provavelmente o Dólmen mais notável da pré-história em Portugal (o Dólmen da Barrosa).  
Nos finais do século passado, Martins Sarmento deu a conhecer uma povoação castreja, hoje conhecida por Cividade de Âncora-Afife. Trata-se dum monte, excepcionalmente bem situado para cumprir missões defensivas entre o mar e uma ampla área circundante, habitada pelo menos até ao séc. I DC.
Os romanos terão instalado nesta zona um entreposto mineiro para recolha dos metais que exploravam nas minas de Ribô, Orbacém e Gondar. Talvez por ter existido aí um entreposto com cais de embarque, se tenha gerado a ideia de que os romanos teriam baptizado o sítio com o nome de Âncora, por aqui desembarcarem as suas tropas e aqui embarcarem o minério, segundo a ideia de Argote.
No séc. XIII generalizou-se a lenda de que teria sido na foz deste rio que o rei Ramiro (o da lenda de Gaia), afogou a sua adúltera e saudosa esposa com uma mó atada ao pescoço como se fosse uma âncora. Ao que tudo indica, no entanto, o nome é anterior e tem origem no nome que o próprio rio já teria.
Quando a paróquia foi formada, ainda o sítio onde hoje está Vila Praia de Âncora seria completamente desabitado, principalmente por ser um sítio aberto e exposto aos constantes ataques dos piratas normandos. O mesmo Argote diz que aqui terá existido um fortim para vigilância e aviso.
Por isso, a paróquia inicial se fundou na “Villa” de Guntilares ou Guntilanis(dum tal Guntila) mais no interior e mais resguardada. Esta “Villa” teria resultado duma acção de presúria efectuada pelo Conde Paio Vermudes, aquando do repovoamento desta faixa do litoral até ao Lima (séc. IX) ou por um seu vassalo que se chamaria Guntila. O mesmo que terá povoado Bulhente. O topónimo já está documentado nos finais do séc. IX, altura em que parte das terras da Vila foram doadas ao Mosteiro de São Salvador da Torre.
Data de então a primeira igreja consagrada como era usual, a Santa Marinha. Os tempos posteriores foram bem difíceis e desastrosos devido às razias muçulmanas e a foz do Âncora deve ter-se tornado um dos sítios mais perigosos de toda a costa norte.
Era um ancoradouro que dava para um vale rico e fértil, por isso muito cobiçado e também frequentemente assaltado. Daí que uma outra Villa, a de Saboriz, provavelmente fundada no sítio actual de Vila Praia de Âncora, tenha tido uma vida precária, embora a documentação a relacione com uma Venda Velha ou com uma Pousada necessária para esta zona de muita passagem (séc. X) entre Braga, Tui e Santiago. 
Igreja de Santa Marinha (Matriz), Forte da Lagarteira, capelas da Sra. Das Necessidades (Sra. Bonança), de S. Brás, de S. Sebastião e do Senhor do Calvário, Gruta de N. S. de Lurdes, Ponte de Abadim, Dólmen da Barrosa, vários cruzeiros (10), alminhas e ninhos (9), são património existente na freguesia de Vila Praia de Âncora.
Encontram-se ainda vestígios paleolíticos no Lugar do Caído, perto da Capela de Santo Isidoro e na Gelfa, perto do Forte do Cão, que levam vários arqueólogos a pensar estarem perante um dos maiores centros de indústria tipo Asturiense.
Além de diversos instrumentos líticos variados, aparecem com mais frequência, “picos ancorenses”, “picos asturienses”, “raspadores” e “pesos de rede”. A par deste material, embora de uma época mais recente, encontram-se salinas, que podem ter origem no séc. III DC ou no séc. XI.
 
Fontes: Caminha e seu Concelho, Inventário Colectivo dos Arquivos Paroquiais vol. II Norte Arquivos Nacionais/Torre do Tombo, Roteiro do Vale do Âncora, Censos 2001 e www.freguesiasdeportugal.com
 
 
                                                                                      
publicado por Brito Ribeiro às 12:19
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16
Fev 07

Com o naufrágio do “Prestige” abriu-se mais uma página na abordagem da problemática dos transportes marítimos e sua evolução. Também ficou demonstrada a falta de coordenação e de solidariedade entre países vizinhos, assim como a incapacidade de evitar ou minorar as consequências de uma maré negra costeira. Com efeito, tudo foi demasiado mal, começando com o barco, com a carga, com a postura da França e da Espanha ao recusarem receber o barco acidentado e com a insuficiência de meios e descoordenação no combate à tragédia da Galiza. Se já havia alguma legislação tendente a limitar no tempo a utilização de petroleiros de casco simples, verifica-se que é necessário antecipar a data limite de abate e aumentar o rigor e os níveis de exigência da certificação dos navios. Por outro lado é tempo de se acabar com as trafulhices e balbúrdias resultantes das bandeiras de conveniência. Hoje em dia, grande parte dos barcos estão matriculados em meia dúzia de países, como a Libéria, Camboja ou Panamá, não só por benefícios fiscais, mas principalmente pelo facto destes países não serem subscritores de convénios internacionais sobre transportes marítimos. Barcos com pavilhões de conveniência, são fretados por empresas “traiding” (meros intermediários), que operam por conta do proprietário da mercadoria, a maior parte das vezes, empresas sediadas em paraísos fiscais e cuja sede social não passa de um apartado de correio ou um quarto de hotel. Muitas vezes os proprietários dos navios, também eles, estão sediados nos tais paraisos fiscais. Uma autentica teia difusa, que no momento de assumir responsabilidades, se desvanece como o fumo, restando os danos nos ecossistemas e os prejuízos nas populações ribeirinhas. Em matéria de recursos humanos é aterradora a realidade destes navios “piratas”, que operam com cerca de metade dos efectivos realmente necessários e no máximo, com dois ou três tripulantes especialistas, sendo os restantes não qualificados, normalmente de origem asiática (Filipinos, Indonésios, Malaios, Paquistaneses e Chineses). A Comunidade Europeia tem de criar uma Agencia Europeia de Segurança Marítima de forma a coordenar e a desenvolver legislação adequada, sob pena de periodicamente assistirmos a outros acidentes idênticos ao do “Prestige”, do “Mar Egeu”, do “Amoco- Cadiz”, do “Urquiola”, do “Jakob Maersk” ou do “Aragon”, só para falar nos últimos incidentes principais da Europa Atlantica. A discussão das matérias em causa não pode nem deve ser reduzida aos temas atrás inunciados. Há responsabilidades que cada país, per si ou no âmbito conjunto da tal Agencia de Segurança, tem de assumir. O controle eficaz das Zonas Económicas Exclusivas (ZEE), meios eficazes de vigilância, busca, salvamento e reboque, afastamento dos corredores de navegação, meios de combate aos derrames, quer no mar, quer em terra, planos de acção actualizados e devidamente testados. No caso português, o principal instrumento de controle da costa que estava na fase de adjudicação foi recentemente cancelado por ordem do Ministério da Defesa, assim como foi cancelado o concurso de fornecimento de um navio de combate à poluição, em permuta pela construção de dois navios de patrulha oceânica. Sendo Portugal o país que possui a maior área marítima (ZEE) de toda a Comunidade Europeia, não se entende este desleixo, este virar de costas a uma dos principais patrimónios, uma das maiores riquezas.

publicado por Brito Ribeiro às 15:02
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Após meses de hesitações e adiamentos decidi criar um blog com a intenção de dar espaço a alguns artigos de imprensa e outras coisas que fui escrevendo ao longo dos últimos anos. Não sei se vou conseguir que uns simples escritos prendam por alguns momentos a atenção de alguém. Os leitores terão de se munir de uma dose elevada de paciência ou então, não ter nada mais interessante para fazer. Estou provavelmente a ser pretensioso, mas o incentivo de alguns amigos como o Pedro e o exemplo do meu primo António, tiveram o condão de me decidir. Vou para a frente com isto, nem que saia uma borrada. Por outro lado, há histórias de vida, minha e de outros, que me apetece contar, partilhar convosco, com aqueles que me conhecem, mas também com aqueles que não conheço mas, como eu, muitas vezes andam a farejar na blogosfera, à procura de tudo e de nada em especial. Gosto particularmente de reflectir sobre questões ambientais, mas também sobre a sociedade e é nestas áreas que me irei debruçar. Com alguma probabilidade, vou distrair-me e quando der por ela, já estarei a escrever sobre pesca, culinária, campismo e sei lá que mais. Mas o tema central é Vila Praia de Âncora e o Vale do Âncora, a terra que não escolhi para nascer, mas que escolhi para viver. Este blog não é só meu, é principalmente vosso, aberto a todo o tipo de comentários, desde que sérios, que me irão certamente incentivar a escrever mais e principalmente melhor, muito melhor. Não esperem aquilo que se convencionou chamar de “politicamente correcto”, pois sempre procurei estar de bem com a minha consciência, mesmo que isso represente pôr algumas pessoas com azia, nomeadamente os autarcas da minha terra. Mas também não esperem acusações mesquinhas e anónimas como tantas vezes se encontram nos blogs sem rosto. Aqui as afirmações tem rosto, as criticas sugerem propostas, os problemas implicam soluções. Mais nada!

publicado por Brito Ribeiro às 14:19

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