Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

26
Fev 07

Os contos que agora inicio são para a rapaziada de Âncora e arredores; pelo menos para aqueles que conhecem bem estas bandas. A acção situa-se algures em qualquer lugar, ao gosto e imaginação do leitor. As características físicas, os nomes e as profissões dos intervenientes, são produto de ficção e não tem (não???) qualquer semelhança com a realidade actual, passada ou futura (penso eu).

 

A nossa história começa na mercearia da D. Júlia, mais conhecida pela Júlia Gaiteira e que durante muitos anos vendeu flores, caramelos e pantufas de contrabando no vão da escada, da sua antiga casa. E digo antiga porque agora está vazia, devido à mudança da sua proprietária para um chalé na aldeia, com telhado verde e persianas douradas, no mais fino gosto então em voga, que construiu aos bochechos e para o qual muito contribuiu os caramelos e as pantufas.

Pessoa devotada, não perdia a missa dominical onde cantarolava e dava catequese, não dispensando uns arreganhos aos putos mais ranhosos e turbulentos. Exigia boas maneiras e disciplina, ali quem mandava era ela e para isso impôs uma espécie de farda, meia azambrada, composta de camisa branca às riscas verdes e bivaque. A propósito disso, na primeira vez que os infelizes catraios apareceram assim vestidos, o Padre Esteves, já velhote e surdo como uma porta, pensou tratar-se da excursão de algum orfanato e fez uma prédica especial de boas vindas àquele rebanho.

Não sendo propriamente uma jovem, andava na casa dos quarenta, muito bem conservados, e tinha casado com o Simplício das Finanças, vinte e dois anos mais velho, na época um simples funcionário, que foi subindo até inspector tributário. Reformado há meia dúzia de meses, foi sempre pouco dado à sociedade. Depois do trabalho apreciava mais o dominó, o copo cheio e o Sporting, pois nasceu e foi criado em Lisboa, paredes-meias com Alvalade. Depois de reformado profissionalizou-se naquilo que até à data eram os seus passatempos. Na loja pouco fazia, pois embaraçava mais do que trabalhava, tal era a falta de jeito para os trocos ou distinguir o repolho, dos grelos.

Na verdade, pouca falta lá fazia, pois a Júlia Gaiteira tinha um funcionário muito eficiente, o Bertinho "Cambalhota", rapaz estudado, com lábia suficiente para aviar as velhotas mais recalcitrantes. Chegava para o Simplício se sentir a mais naquele espaço e rumar de fininho para a tasca do Libório.

O Bertinho como era carinhosamente tratado pela freguesia, tinha o dom dos sete ofícios. Já tinha sido locutor na rádio, fotografo, maqueiro e condutor de ambulâncias, trabalho que adorava, mas que terminou no dia em que se soube que não tinha carta de condução. Só se descobriu esse "lapso" após um acidente, no qual a ambulância ficou com as rodas para o ar e o doente que ia para o hospital com uma crise renal, acabou na ortopedia, com um traumatismo craniano e uma perna engessada.

Depois da aventura das ambulâncias, arranjou emprego na mercearia do Sr. Gonçalves, a quem chamavam o "Adesivo", devido às constantes lições que dava sob qualquer pretexto. Era um sujeito baixote e forte, que não via com bons olhos a ousadia da Júlia Gaiteira ter comprado a loja de ferragens do Valdemarcio e transformado esta numa mercearia concorrente. Ainda por cima no melhor sítio, a esquina da rua do mercado com a rua principal que ligava à avenida e ao jardim.

O Bertinho, que não tinha nada de parvo, compreendeu que o futuro estava na mercearia da Júlia e na primeira oportunidade foi-se lá oferecer. Primeiro, porque a casa era melhor, segundo porque o Simplício não ligava nenhuma e qualquer dia estava com os pés para a cova. Depois se verá, pensava em surdina. Se não for a mãe, é a filha. Pois, mas eu ainda não vos falei da filha...

A Inês saiu mais ao pai que à mãe. Caladinha, sossegadinha, passava despercebida em qualquer parte. Vivia para os estudos e para os escuteiros, a sua grande paixão, onde já tinha uma posição de chefia, como tesoureira do agrupamento. Havia até quem dissesse, más-línguas, que a Júlia tinha-se inspirado nos escuteiros, para as fardas dos putos da catequese.

Quando a Júlia Gaiteira comprou a loja de ferragens ao Valdemarcio, brasileiro, imigrante de S. Paulo, mas a residir em Portugal há mais de trinta anos, este, sempre à cata de boas oportunidades para qualquer negócio, logo se atirou à compra e venda de terrenos. Como tinha vendido ferragens, tinha bons contactos com empreiteiros, e paralelamente montou com o Lira, escriturário na carpintaria Machado, um negócio de importação de lampreias Francesas, que depois misturavam com as do Rio Minho e assim enganavam os lorpas. No verão faziam também as festas, onde vendiam pipocas, algodão doce e outras goluseimas.

Falta-me falar-vos do Zé Bastos Tijolo, nome estranho mas de baptismo, que é fornecedor de frutas e legumes, filho mais novo do falecido sr. Tijolo, tem um irmão mais velho que é empreiteiro de sucesso, a quem dá uma ajuda sempre que possível, colando nos vidros das mercearias que visitava, folhetos a anunciar a venda de apartamentos e moradias.

 

Como dizia no início, estava o Bertinho de lápis e papel na mão, a tirar as faltas da prateleira dos detergentes e dos líquidos da loiça, quando a Júlia, que tinha acabado de despachar as irmãs Torres, velhas beatas e somíticas, lhe pergunta:

- O Bastos ontem não disse que hoje vinha cedo?

-Disse, mas também não faz grande falta.

O Bertinho não nutria qualquer simpatia pelo Bastos, embora na sua frente aparentasse cordialidade, por considerá-lo um possível concorrente nos seus planos futuros.

-Lá está você a desconsiderar o homem!

- Não é isso. O que quis dizer é que não temos faltas, a não ser as peras, mas se forem como as de ontem, bem as pode comer ele.

 

O Bertinho continuou o seu trabalho remoendo para dentro cobras e lagartos sobre o Bastos e sobre o sítio onde podia meter as peras, tanto mais que a patroa parecia sempre estar a defende-lo. Já tinha a manhã estragada com a conversa e, a única coisa que lhe podia alegrar a vista, era ver a Júlia passar pela porta da rua com a sua bata fina e translúcida, entrevendo da penumbra do fundo da loja, o que só estava ao alcance do Simplício, por enquanto.

- Bertinho, eu vou sair, quero falar com o sr. Padre Esteves, mas não demoro. Se entretanto o Bastos chegar, veja lá o que precisamos e ponha-se a pau com os preços.

- Esteja descansada que eu trato disso. Se for preciso, até lhe digo que a senhora tem mais onde comprar...

-Não faça isso, que ele pode levar a sério!

- E depois? Se calhar não é verdade? Ele até serve primeiro o "Adesivo" e depois é que cá vem – envenena o Bertinho.

-Some-te diabo! Nem me fale nesse desgraçado. Qualquer dia quem lhe dá uma lição sou eu, não me chame Júlia.

- Que lhe fez ele agora D. Júlia?

- Disse lá na espelunca dele, que na nossa loja, as freguesas tem de tomar cuidado com os trocos, porque nos enganamos muitas vezes com os euros, mas sempre a nosso favor.

- Ai que mentira!!! Ainda bem que me pus a mexer de lá para fora. Já não conseguia suportar aquele fala-barato.

 

Enquanto isso, o Zé Bastos na loja do "Adesivo"descarregava quatro sacos de batatas novas, cenouras, couve-flor e não sei que mais. De seguida puxou da pequena calculadora e do bloco para apurar as contas, sim as contas, porque o Bastos não vendia fiado a ninguém. Dizia ele com alguma brejeirice, "cu no chão, dinheiro na mão, senão perco a mercadoria, o dinheiro e o cliente". Depois de fechar o bloco, como estava a sós com o "Adesivo", pergunta-lhe:

- Então como vai o negócio, sr. Gonçalves? Dá-me ideia que se está a vender menos este ano.

- Não é que me possa queixar muito, mas desde que essa, a da esquina, montou aí a loja, nota-se diferença. Raio da mulher mete-se em tudo. Agora parece que anda a convencer o padre a fazer obras no Centro paroquial e no caminho da igreja. Acessibilidades, como se diz agora. Se calhar pensa que as pessoas passam a ir à missa por ter um caminho melhor. O problema da falta de participação das pessoas nos actos religiosos deve-se em grande medida ao divórcio entre as práticas da igreja enquanto instituição e as...

- Oh sr. Gonçalves, deixe lá isso, a D. Júlia até é uma pessoa bem intencionada, apesar de um pouco metediça.

- Metediça é favor, ela fala do que não sabe e não sabe o que diz, porra!

- Não é bem assim, – retorquiu o Bastos contemporizador – olhe que ela tem ideias e onde se mete tem levado a sua avante.

- Ela tem é um santo de um homem e duma filha, que lhe aturam as maluqueiras todas. Se fosse comigo ela ia ver. Para começar metia a viola no saco, fazia o trabalhinho de casa e...

- Você saiu-me um bota-de-elástico. Olhe, vou andando que hoje tenho a volta atrasada.

- Dê cumprimentos meus à dama e ao pirata do ajudante. A esse estupor se lhe posso ser bom!! Traidor, dei-lhe um posto de trabalho digno, um verdadeiro emprego, depois daquela palhaçada da ambulância e paga-me desta maneira. Não há dúvida, o mundo hoje já não é o que era. Isto das democracias ocidentais e da integração europeia tem as suas vantagens, mas também há que se ter em conta o desequilíbrio social dos comportamentos. Ainda a semana passada li, que na Alemanha...

- Amanhã, com mais tempo, você conta-me o resto. Já devia estar em Barcelos, por esta hora.

 

O "Adesivo" virou-se para aviar à Mercedes um frasco de champô dos piolhos, pois os miúdos há já umas semanas que vem carregados de "bicharada" que apanham na escola, enquanto pensava que diabo é que o Zé Bastos iria fazer a Barcelos, pois já não era a primeira vez que a isso se referia. Negócio de hortaliça, de certeza.

 

- Só precisamos de 500 contos sr. Padre.- Diz a Júlia afogueada por ter de falar alto para o padre Esteves.

- 1.500 contos é muito dinheiro!! Não pode ser. Onde é que os íamos arranjar?

- Eu disse 500 sr. Padre, 500, entendeu?

- Ouvi muito bem, não precisas gritar. Mesmo assim, 500 contos é muito dinheiro para o caminho.

- Deixe isso comigo. Só no lugar da Ponte, onde moro, arranjo eu 100 ou 150 contos.

- Pente? Para que é o pente? Ah! Vais vender pentes para arranjar o dinheiro?

- Ponte! Lugar da Ponte foi o que eu disse, sr. Padre. Podemos falar com as outras catequistas, os mordomos e o sacristão para organizar o peditório.

- Ao velório de quem, minha filha, se hoje não morreu ninguém?

- Deixe isso comigo – repete a Júlia, estafada de berrar com o padre - no domingo depois da missa, conversamos.

- Lá isso é verdade, com uns canteiros de flores por detrás das oliveiras fica muito mais bonito.

-É isso mesmo, até amanhã sr. Padre.

 

Livra, é impossível conversar com este homem – murmura a Júlia, atravessando em passo apressado o adro, em direcção à sua loja – mas não vou desistir. Convenço as catequistas, elas organizam-se por lugares e ruas, faz-se o peditório e arranjo rapidamente o dinheiro. Limpinho, ou eu não me chame Júlia.

Quando entrou na loja, viu o Bertinho atarefadíssimo a atender meia dúzia de clientes, saltitando entre caixas de fruta e de legumes ainda por arrumar.

 

- Nem tive tempo de dar um jeito nisto D. Júlia. Desde que saiu tem sido sempre assim. Nem um segundo de descanso.

- Vê-se, está vermelho como um tomate.

- Só se for dos maduros – diz a Tia Joaquina que não perde pitada da conversa alheia – não é como os tomates que tem ali à entrada que estão todos verdes e são de estufa.

- Ora essa, vieram ontem da Póvoa. Então você pensa que eu quero aqui dessas porcarias de estufa? Isso é para o "Adesivo", que para ter mais ganho, compra do refugo.

- É verdade – atalha o Bertinho – eu vi muitas vezes. Por isso é que não gosta que ninguém escolha o produto. Ao menos a D. Julia não se importa que apalpem, porque é tudo do melhor.

- Não se importa que apalpem, salvo seja – reclama a Tia Joaquina.

- Não foi isso que quis dizer, a senhora percebeu muito bem – responde o Bertinho com ar ofendido.

 

Foi um dia desgraçado, sem tempo para parar um segundo. Só ao final da tarde, quando se preparava para arrumar as facturas dos fornecedores é que a Júlia perguntou ao Bertinho:

- O Zé Bastos afinal a que horas apareceu?

- Logo que a senhora saiu, para ir falar com o padre Esteves.

- Nem esperou que eu chegasse...

- Estava cheio de pressa, disse que ia a Barcelos e já estava atrasado.

-Ah! Sem dúvida que já estava atrasado.

 

O Bertinho que tinha dado volta aos miolos para saber o que iria fazer tantas vezes o Zé Bastos a Barcelos, ficou pasmado com a resposta da patroa. Agora tinha a certeza que a Júlia estava por dentro do esquema do Zé Bastos, facto que o deixou deveras preocupado.

No domingo de manhã, depois da missa, a Júlia desdobrou-se em vários contactos, quer com as restantes catequistas, quer com os mordomos, não encontrando grande resistência aos seus intentos, excepto do Aníbal, que também era tesoureiro da Junta e que comentou:

- Que se peça dinheiro para o Centro Paroquial, tudo bem, pois aquilo mete água por todos os lados e o soalho está podre. Para o caminho, acho que é melhor não nos metermos nisso, senão temos o presidente da Junta a complicar e eu não quero chatices com ele.

- Chatices? Quais chatices? O Domingos até nos vai agradecer. Deixe que eu falo com ele. Agora o que é preciso é ir pelas portas pedir o contributo para as obras. Não se esqueçam de apontar tudo, que é para no final a coisa bater certo.

 

Foi a procura dos miúdos da catequese, que corriam e saltavam no átrio da igreja, não perdoando um mosquete a um deles que tinha sujo a camisa listada.

A um canto da velha sacristia o sacristão e dois ou três mordomos conversavam enquanto o Padre Esteves mudava de roupa.

- Eu cá, acho que a Júlia tem razão. Só com um peditório é que arranjamos dinheiro para as obras.

- Eu estou de acordo, mas não me agrada vê-la metida nisto.

- Que é que tu querias? Que desse a ideia e saísse? Parece que não conheces a Júlia.

-Não foi isso que eu disse. O que acho é que devia ser o sr. Padre a organizar o peditório. A propósito, ele ainda não disse nada sobre isso! Oh sr. Padre Esteves, então que nos diz do peditório?

- Peditório? Foi uma vergonha, só deram moedas de cinco cêntimos para baixo.

- Não estamos a falar do peditório da missa. Falamos do peditório para as obras.

-Ah, o da Júlia? É boa ideia, mas ainda não falei com o sr. Bispo...

- Acha que ele concordará?

- Quem é que ele manda cá?

- Não foi isso que disse. Perguntei-lhe se ele concordava.

- Claro que sim. É para o bem da igreja – responde o padre.

- Se calhar o presidente da Junta é que não vai gostar. Está sempre a resmungar contra as obras que não são da sua iniciativa.

- Também gosto, mas hoje vou comer um cozido à portuguesa.

Os mordomos entreolharam-se com espanto perante este comentário e desistiram de continuar o diálogo. Uns a falar de alhos e o padre a responder bugalhos...

 

Em casa, a Júlia aproveitava para dar um arranjo no jardim, enquanto o Simplício dormia uma sesta bem merecida, pois com a vitória do Sporting no sábado à noite, os martinis e os abafados da manhã, tinham-lhe caído na fraqueza, o que o tornava muito chato. Já tinha chegado a casa ligeiramente cambaleante e com a fala arrastada, não se calando um segundo durante todo o almoço. Pelo menos agora dormia e era preferível ouvi-lo ressonar, que aturar a sua conversa sem nexo.

A Inês estava no quarto ouvindo o ultimo CD do Tony Carreira, enquanto actualizava as contas do agrupamento dos escuteiros, que tinham vendido durante todo o mês calendários e porta chaves, para angariar dinheiro destinado à compra de uma tenda grande, que pudessem utilizar com a malta toda lá dentro, nos próximos acampamentos de verão.

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 11:46
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Parabéns pelo conto! Desconhecia os teus dotes de contista pelo que fiquei surpreendido.
Faz falta o humor para saír da monotonia de "Chora que Logo Bebes" em que se tornou o nosso mundo.
Pedro Ribeiro a 1 de Março de 2007 às 22:49

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