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23
Fev 07

Tenho sérias reservas quanto à necessidade e oportunidade dos anunciados investimentos no aeroporto da Ota. Até me provarem o contrário e isso ainda não aconteceu, manifestarei a minha oposição a este investimento.

Num país de parcos recursos, em que o Estado anda sempre com as calças na mão e a maior parte dos cidadãos tem um nível de vida muito abaixo dos seus congéneres europeus, investir numa monstruosidade faraónica como a Ota, é um disparate rematado e que consubstancia interesses de lobbies particulares muito poderosos.

Portugal é o país da Europa onde a construção civil e obras publicas tem percentualmente maior peso no PIB. Quer dizer que a nossa economia depende demasiado deste sector de actividade e que isso se faz sentir nas decisões políticas, para o bem e para o mal. Em vez de legitimamente contrariar este efeito, o Governo procura alimentá-lo e, se possível, até fazê-lo medrar.

Os milhares de milhões de euros aplicados na construção de um aeroporto preparado para receber até 25 milhões de passageiros por ano, vão certamente ser arrecadados pelos consórcios construtores (que não serão portugueses) pelos fornecedores de tecnologia (que não serão portugueses) e pelos proprietários dos terrenos, que a estas horas já estão em “boas mãos”.

Será que, ao menos, esta obra vai fazer baixar a taxa de desemprego? Desenganem-se porque o operariado fica em grande parte entregue aos imigrantes africanos e de leste, engajados por subempreiteiros, não raras vezes pouco escrupulosos e mais interessados em lucros avantajados que em direitos e segurança dos trabalhadores.

Qual o impacto financeiro consolidado que tal obra terá para a economia portuguesa? Muito pouco, se compararmos com o investido. Mas voltemos à questão da propriedade dos terrenos da Ota, no concelho de Alenquer.

O maior proprietário parece ser Renit/Tiner um grupo ligado ao imobiliário, construção civil e aeronáutica com 12 empresas em Portugal. A Turiprojecto também será um dos grandes proprietários e está associada à norte-americana Trizechann e à espanhola Riofisa. Outro dos alegados grandes proprietários é a Espírito Santo Activos Financeiros SGPS, SA uma holding de investimentos mobiliários e imobiliários da esfera do BES. Curiosamente um outro nome que também é referido como possuidor de várias propriedades é José Eduardo dos Santos, o Presidente da Republica de Angola.

Mas vejamos este caso pelo lado da oportunidade. Lisboa precisará mesmo de ter outro aeroporto? Segundo opinião de muitos especialistas o Aeroporto de Lisboa tem ainda uma margem bastante grande de ampliação, quer para o tráfego de passageiros, quer de mercadorias.

O único senão é ter as suas pistas encostadas à malha urbana e representar assim um factor adicional de insegurança. De qualquer forma quando construíram os prédios já o aeroporto lá estava! Se houve erro foi terem autorizado construir habitações paredes-meias com o aeroporto. E também nunca vi as entidades que tutelam a aviação civil a reclamar.

Em 2006 o aeroporto da Portela ultrapassou ligeiramente a fasquia dos 12 milhões de passageiros, muito à custa dos chamados voos de “low coast”, podendo este número evoluir positivamente nos próximos anos. As infra-estruturas aeroportuárias da Portela, com obras de ampliação e remodelação, poderão dar uma capacidade operacional superior aos 16 milhões de passageiros ano, que na melhor das previsões nunca seria atingido antes de 2025.

 O próprio presidente da TAP, Fernando Pinto afirmou que é um erro “deitar fora” a principal mais valia da Portela, que é a proximidade da cidade. Um dado importante diz-nos que 85% dos utilizadores da Portela (excepto turistas) residem ou permanecem na área metropolitana de Lisboa.

A hipotética ampliação da Portela iria implicar a expropriação de 80 hectares de terrenos urbanos para acrescentar aos actuais 520 hectares que ocupa. Só assim seria possível a construção de uma nova pista, alem de novos terminais de passageiros e cargas. A expropriação destes 80 hectares iriam afectar cerca de 2.000 habitações e o realojamento de 10.000 pessoas.

Mesmo que se construa a Ota, já estão confirmados cerca de 400 milhões de Euros para beneficiações do velho aeroporto da Portela até 2017, que é quando se prevê que esteja concluído o novo aeroporto. Não são 5 ou 10 milhões, são 400 milhões, o que em obra pública com as omissões, os trabalhos a mais e outros malabarismos, pode representar o dobro. Definitivamente, esta gente brinca com o nosso dinheiro e com a nossa capacidade de compreensão!

O novo aeroporto da Ota, contrariamente ao da Portela ficará a algumas dezenas de quilómetros da capital e será servido pelo TGV e auto-estradas construídas propositadamente. A minha dúvida reside em saber se haverá um TGV ou um autocarro para cada avião que aterre, pois de contrário, os passageiros ficarão “pendurados” no terminal, restando como alternativa, para os mais apressados, o táxi ou rent a car. Desconfio que serão estes os melhores negócios para o novo aeroporto.

A desactivação do aeroporto da Portela, com um custo estimado de 25 milhões de euros, irá libertar para urbanização, todos os terrenos da chamada Alta de Lisboa, dos quais Stanley Ho parece ser o maior proprietário com mais de 300 hectares, alem de todo o espaço anteriormente ocupado pelas pistas (520 ha), que numa avaliação já antiga, atingiam os 250 milhões de Euros.

publicado por Brito Ribeiro às 11:00
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