Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

07
Mai 07
Uma coisa tem de ser dita em abono da verdade. O Manuel de Sousa, director comercial da Empresa de Lacticínios Âncora e meu chefe directo, nunca me pressionou para nada. Também não precisava, porque eu procurava estar sempre um passo à frente e suprir todas as necessidades do departamento, pôr-lhe “a papinha pronta”. Estávamos em 95 ou 96 e a construção da nova fábrica tinha trazido à tona todas as dificuldades que ainda não se viam, mas que alguns de nós, já adivinhavam.
 
Tinha havido um exagero na contratação de pessoal, fruto da euforia ingénua e irreflectida de quem mandava. Só porteiros haviam quatro ou cinco. No escritório havia gente a mais, que até se estorvavam uns aos outros, no departamento comercial idem, aspas.
No departamento comercial havia o chefe e o adjunto que vocês já conhecem, mais quatro supervisores, o Armindo, o César, o Camilo e o Vítor, mais uma secretária (muito boa!!!) a Sandra, mais quatro ou cinco vendedores e dois ajudantes. Tinham contratado o Alírio para ajudar o Santos e a Rosa, mais duas engenheiras, mais uma secretária para o Francisco Presa (não era tão boa como a nossa), mais um financeiro e por aí adiante. Com metade desta “tropa”, fazia-se exactamente o mesmo.
A construção da nova unidade fabril enfermou de tantas insuficiências e tantos erros, tantas asneiras de investimento, que algumas parecem anedota. Ainda hoje estou por saber se alguém não realizou lucros inesperados e inconfessáveis, à custa disso.
Recordo que se comprou uma máquina alemã que enchia manteiga e iogurtes (com pedaços) mas não tinha uma medida estandardizada o que encarecia brutalmente a embalagem e nos retirava competitividade.
Comprou-se à Proleite (Mimosa) uma máquina usada e de tecnologia obsoleta (preformagem), para o enchimento de iogurte, por cerca de setenta mil contos, gastaram-se muitos milhares para a instalar e por pouco mais (muito pouco) tinha-se comprado uma máquina nova, tecnologicamente evoluída (termoformagem) e com custos de produção muito inferiores, que poderia ser amortizada rapidamente. Enfim, quem sou eu para discutir estas coisas…
 
Havia gestores pagos a peso de ouro, recordo uma empresa a Exxem, salvo erro, que cobrava vinte e quatro mil contos ano, mais despesas de alojamento e automóvel para um gestor, que até foi nomeado gerente, uma sumidade chamada “Dr. Tiago” que vim a descobrir mais tarde, era biólogo ou pelo menos estudara biologia e depois de ter saído da Âncora foi para o Algarve, como delegado de propaganda médica…
As dificuldades financeiras da Âncora eram já um facto, quando entraram os homens da Exxem, houve grandes reajustamentos ao nível comercial e eu fui um dos sacrificados, pois entenderam que devia dar o lugar a outro e mandaram-me para longe, tomar conta dum “rebanho” de clientes. Em miúdos, deram-me uma zona alargada para tratar, um carro e um biqueiro no cu. Só não perdi no vencimento, era o que faltava.
Durante dois anos, este vosso amigo, palmilhou diariamente a zona do Porto até Aveiro e, sem falsas modéstias, se pensavam que me lixavam, ficaram a chupar no dedo, porque nunca aquela zona apresentou resultados comerciais tão bons, como nessa ocasião.
No meu lugar ficou o Camilo, que é um gajo que não se corta de dizer o que pensa e que sinceramente acho, ainda hoje, que era o único com perfil e conhecimentos para me substituir com vantagem naquele cargo.
Mas ele também não aqueceu o lugar, pois ao fim de dois ou três meses foi “comido de cebolada”, quando pediu uma semana de férias para ir com o Etnográfico a França, já que ele toca acordeão nesse grupo folclórico.
Ficou o Armindo a substitui-lo e quando o acordeonista regressou, teve a maior surpresa, ao ser despachado, em circunstâncias idênticas a mim, para Lisboa. Ainda ficou pior do que eu! Pelo menos eu vinha quase todos os dias a casa. Só ficava fora, se tinha de permanecer mais que um dia em Aveiro. Ele abalava de Âncora à segunda de manhã e regressava de Lisboa, depois do almoço de sexta.
E assim estivemos dois anos. A situação financeira a piorar de mês para mês, de semana para semana. Nunca faltaram encomendas, nunca faltaram clientes. O problema residia no descontrole total ao nível da gestão financeira, que nem sabia quais os preços reais de produção, nem os preços reais de venda desses mesmos produtos, com custos de produção elevados, alem de muito desperdício em produto, fruto de erros graves de produção. Não vou maçar ninguém com esses pormenores, mas se um dia for preciso explicá-los, também os explico.
 
Um belo dia, disseram-nos que iríamos ter uma reunião geral do departamento e a ordem era para estarmos na sexta–feira de manhã, na fábrica. Assim se fez, éramos, apesar de tudo, bem mandados, e depois de tratarmos dos vários casos que cada um trazia, referente ao trabalho de uma semana, fomos almoçar, pois a reunião geral do departamento era de tarde. Fomos almoçar à Fonte Nova, o Camilo, o Vítor, o César e eu, que nos fartamos de dar palpites sobre o motivo e importância de tal reunião. Como já se falava há muito que iriam ser trocadas as nossas zonas, eu que estava muito pessimista e até revoltado com aquilo tudo, disse-lhes: - Vão mandar-me a mim para Lisboa, ides ver!
E logo os outros contrapuseram: - Tu és tolo, quem vai para Lisboa é o Vítor, tu vais para o interior, substituir o César.
Pela lógica e pelo que tinha sido combinado dois anos antes, eu devia ir para Trás-os-Montes, Beiras e litoral centro, o Vítor ia para Lisboa, pois tinha andado a “mamar” todo o tempo no Minho, o César ia para o Porto e o Camilo saia do castigo de Lisboa e vinha para o Minho. Acho que não me enganei no raciocínio! Mas eu teimava: - Ides ver, eles vão-me foder e mandar para Lisboa.
 
Chegados à reunião, depois de muita conversa de chacha do dr. Tiago, aquela sumidade, conversa que nós já conhecíamos de ginjeira, é anunciada a alteração das zonas e sou despachado para Lisboa, sem apelo nem agravo.
Ainda ouço o Camilo a dizer-me a meia voz, mas que todos escutaram “parece que és bruxo, pá”. Naquela altura, aquilo cheirou-me a retaliação pura e simples, mas algum tempo depois, percebi que não era bem isso.
O Camilo que devia ficar a trabalhar o Minho, foi enviado para o Porto. Vocês vão perceber porquê, mais à frente!
publicado por Brito Ribeiro às 12:37
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