Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

02
Mai 07
Nos correios, o Bertinho estava sentado muito direito, no gabinete do chefe; do outro lado da secretária, o inspector Araújo que coordenava a zona norte, cabelo penteado para trás, com brilhantina, fato cinzento claro, gravata rosa pálido, anel de safira no dedo médio, recostava-se na cadeira, com a perna traçada.
- Como lhe estava a dizer sr. Alberto…
- Desculpe, Bertinho para os amigos.
- Claro, claro, Bertinho, dizia eu, que a direcção de operações dos correios, decidiu atribuir-lhe um prémio, que certamente será do seu agrado e vai ao encontro de uma necessidade da comunidade.
O Bertinho inchava o peito de orgulho…
- Sabe Bertinho, o que se passou consigo deverá ser um exemplo para os mais jovens. Por isso nós vamos patrocinar… surpresa, ah, ah… a sua carta de condução, seu felizardo!
- O quê? A carta de condução??? Eu pensava que…
- Eu sei, escusa de me agradecer, eu sei... Pensava que lhe íamos dar um simples louvor e uma palmada nas costas, como recompensa. Não, os correios sabem ser agradecidos e tem todo o gosto em pagar as suas lições de condução. Homem, já é tempo de você ser um encartado!
- Pois, isso é verdade – responde o Bertinho, com as faces tingidas de vermelho.
- E não só. Vamos também indemnizar os queixosos de alguns prejuízos que provocou durante a fuga e que as companhias de seguros recusam assumir.
- Ai sim? Que prejuízos? O carro até era apreendido pela polícia. Parece que era de uns traficantes…
- Quem reclamou, foi um sujeito que faz venda ambulante, um brasileiro que se queixa de lhe destruiu o negócio dos aperitivos. Só esse, quer uma indemnização de 4.500 euros.
-O quê? –admira-se o Bertinho – 4.500 euros por uma tabanca de tremoços e pipocas. Esse gajo é maluco. Aquilo foi feito com tábuas velhas lá na carpintaria onde trabalha o sócio dele, o Lira, e nem cinquenta euros gastaram.
- Não interessa, os correios têm os melhores advogados do país e por isso podemos estar tranquilos.
O Bertinho saiu da reunião com a vontade de dar um pontapé e partir qualquer coisa. "Cambada de idiotas, então arrisca um tipo a vida, sujeito a levar um tiro ou a patinar no acidente, e vem um tipo todo lambido, anunciar que vão pagar a porcaria da carta de condução. Grande coisa! Ainda por cima vou ser apontado a dedo e gozado por todos, quando me virem a passar no carro de instrução. Bolas!!!"
O "Adesivo" embora não pudesse mexer ainda o braço, já se atarefava na loja, de um lado para o outro, embora o trabalho principal fosse com a língua, dando conversa a todos.
- Horas do diabo! E eu que estive para mandar a rapariga ir aos correios nessa manhã. São horas do diabo, já te disse. Mas não ficaram com vontade de repetir a proeza. Se todos fizessem como nós, que não baixamos os braços e lutamos dignamente por repor a legalidade e a ordem estabele…
- Deixa-te de coisas, se não fosse o acidente, eles tinham fugido e levado o dinheiro. E vós nem piáveis.
- Não é dessas escovas que a D. Rosa quer, Arminda. É daquelas escovas que estão na prateleira de cima. Não! As do lado esquerdo, essas mesmas – orienta o "Adesivo", sempre vigiante em relação ao atendimento que a Arminda fazia à clientela – Ora, ora estava tudo controlado.
- Estava tudo controlado, heim? Eu bem te vi à saída dos correios, tu não estavas controlado, estavas todo borrado…
- Mercedes, sou muito teu amigo, mas levo a mal que digas uma coisa dessas. Sabes que o carácter das pessoas, só se manifesta verdadeiramente em situações de crise, quer dizer sob pressão, como dizia Freud, sim, Freud estudou estas coisas, no meu subconsciente tomei a decisão de fazer abortar aquele assalto, o que até a mim me admirou…
- De te borrares todo? Deixa lá, esse Fredo de quem tu falas, se estivesse lá, também se cagava todo de medo!
- Chiça, convosco não se pode falar de coisas sérias!
A Júlia tinha aproveitado o encerramento da loja à hora do almoço, para ir num salto a casa ver se o Simplício já tinha comido alguma coisa e rumou de imediato à residência paroquial, para dar uma palavrinha ao padre Esteves, com quem já não conversava há mais de uma semana, sobre as obras no caminho da igreja.
Encontrou o velho abade a sornar no sofá, com os óculos descaídos na ponta do nariz, um velho volume das obras de Júlio Dinis, seu autor preferido, tombado sobre a proeminente barriga, o gato listado refastelado com a cabeça encostada a uma perna, a respiração tranquila dos bem-aventurados.
- Sr. Padre, sr. Padre – chamava a Júlia, sem resultado – padre Esteves, acorde homem de Deus!
- Ha, ha... Olá Júlia, minha filha. Desculpa estava distraído a ler, nem vi que estavas aí. Que te trás por cá? O Simplício já está fino? Diz-lhe para vir aqui ao final da tarde, depois da missa das seis, para conversarmos.
- Está bem sr. Padre, eu digo-lhe. Mas eu vim cá, para lhe falar das obras do caminho.
- Coitadinho, tem de ficar em casa sozinho… Pois, tu tens a tua loja.
- As obras do caminho – berra a Júlia.
- Eu ouvi. Ouço mal, mas não sou surdo. Então minha filha, vamos conseguir o dinheiro, não vamos? E quem achas que deve fazer a obra?
- Primeiro o dinheiro, depois tratamos da empreitada.
- Eu até já pensei em falar com o Quim Tita, para ver quem me aconselhava, já que ele lida todos os dias com os empreiteiros.
- Falar com o Tita, nem pensar!
- Queres aguardar. Está bem, mas eu falo com ele.
- Jesus, nem uma palavra a esse velho maçónico, ateu duma figa, padre Esteves. Ouviu?
- Perfeitamente. Estou de acordo contigo, eu até já pensei que era ateu, mas desde que abriu o armazém na rua da Bandeira tem vindo à missa. Não vem sempre, mas lá vai aparecendo.
- Não diga nada a esse homem, percebeu? - Gritava a Júlia, vermelha com o esforço de falar alto.
- Pronto, pronto, não te zangues rapariga. Agora vou para os confessos. Queres vir confessar-te?
- Deus me livre, – suspira entre dentes – agora não posso, só para a semana. Adeus sr. Padre Esteves, a sua bênção!
- É verdade, quando parar o vento, começa a chover. Tu vais ver!
A nossa Júlia Gaiteira sai pelo caminho do passal, contorna as tílias e a palmeira, pára um momento em frente à bica, cuja água corre de verão e de Inverno, muito concorrida antigamente, antes de haver água canalizada.
- Ter de arranjar dinheiro para o caminho já vai dar que fazer, mas primeiro ainda temos de arranjar dinheiro para comprar um daqueles aparelhos para os surdos, senão dou em doida cada vez que venho falar com o padre. Raios o partam, que até fico rouca de tanto gritar!
 
 
 
publicado por Brito Ribeiro às 14:21
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