Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

30
Abr 07
Cinco da manhã toca o despertador, tacteio a mesinha de cabeceira, encontro o relógio que emite o bip bip agudo, carrego no botão, regressa o silêncio. Escuto a "ronca" do nevoeiro, pergunto a mim próprio se não irei fazer uma madrugada, para nada.
Levanto-me às escuras, pego na roupa e vou vestir-me para a casa de banho, evitando fazer barulho. Engulo o pequeno-almoço, pão do dia anterior e um par de copos de leite saído do frigorífico, saio de casa e no escuro da noite, apenas um nevoeiro cerrado, cortado pelo clarão dos candeeiros acesos.
"Que pôrra, não se vê um palmo à frente do nariz"; mesmo assim, entro no carro e conduzo até ao portinho, duzentos metros mais à frente, onde já estavam outros madrugadores, que avaliavam a possibilidade de sair para a pesca. Já lá estava o Arturinho, quase sempre o primeiro a chegar, o Fernando Nelaço, o Ica, o cunhado e mais alguns.
- Isto levanta com o nascer do dia.
- Hum, não me parece, vai demorar, se levantar, é lá para o meio da manhã…
- E o mar que tal está? – Pergunto eu, que não conseguia ver nada.
- O mar está debaixo das pedras, tu nem o ouves - diz-me o Arturinho.
- Pois não!
O mar estava completamente chão, chega o meu parceiro, o Zé, que mora na Laje e diz que lá não está nevoeiro.
- Esta névoa só está pelo mar, ides ver que vai levantar.
E logo estala mais uma discussão sobre o nevoeiro, a meteorologia e a pesca do dia anterior.
- Ontem não deu para a gasolina, corri sete mares rapaziada, para trazer dois pequeninos – dizia o Arturinho.
- Mas para que és mentiroso? Ou pensas que não te vi a tirares o peixe do barco, depois do jantar. Até a tua mulher te veio ajudar, fostes de carro para baixo, se calhar foste ao Aires e estás para aí a cantar fados… - acusava o Nel do Cuco, que tem uma língua de palmo.
- Não foi nada, Nel. Fui ao barco buscar o bidão, para ir à gasolina…
- E ele a dar-lhe. É que eu não vi, tu a tirá-los do porão e a metê-los na saca, até te digo mais, tinhas um peixe, para aí de três ou quatro quilos.
O Arturinho, velhote sabido, manhoso e mentiroso como poucos, ria-se, deixando à vista os dentes de ouro, que brilhavam à luz do candeeiro da lota, onde estávamos encostados.
- Parece que já não está tão cerrado…
- Está a nascer o dia, é por isso que parece menos cerrado.
Os Churribas passam, dão os bons dias entre dentes e sem mais conversa, arreiam o barco pela rampa, carregam as tralhas e arrancam mar dentro. O Arturinho vai calçar as botas de borracha, mete as canas no barco e pede-nos ajuda para arrear.
Todos deitamos mãos à obra, a preparar cada barco. "Se eles vão, é porque é de ir", "Brito, tira os calços" e o barco do Zé, no qual eu pescava, começa a descer a rampa sobre o carrinho de transporte.
Quando chega à água, o barco flutua e eu puxo o carrinho para cima, até ficar em seco e sem estorvar os outros. Salto para dentro, armo os remos e coloco o barco no meio do porto, para o Zé ligar o motor e deixá-lo aquecer.
Puxa duas vezes o cabo de arranque, o motor tosse e fica a trabalhar ao ralenti, no silêncio do alvorecer. Recolhidos os remos, passamos a preparar as linhas de pesca ao corrico.
Costumavamos pescar com linhas de mão, uma de cada lado do barco e se não tivermos de dar muitas voltas, muitas mudanças de direcção, largamos mais uma ou duas linhas nas canas. Como tencionávamos ficar no nosso praial, pelo menos até ao nevoeiro levantar, preparamos apenas as linhas de mão.
-Já ligaste o GPS? – Pergunto eu, pois sabia que mal saíssemos do portinho, ficaríamos imediatamente desorientados e sem pontos de referência. Não era a primeira vez que saíamos com nevoeiro cerrado e sempre conseguimos navegar com segurança e tranquilidade, apoiado pelo GPS que é uma ajuda inestimável e que o Zé domina perfeitamente.
Lentamente, quase ao ralenti, começamos a navegar, contornamos o molhe sul do portinho, e largamos lentamente as linhas em frente ao Moreiro. À nossa volta um silêncio absoluto, apenas se ouvia o ronronar surdo do motor 9,9 hp, via-se peixe, aqui e ali, a rebolhar à superfície.
- Estás a ver? – Pergunta o Zé, em voz baixa.
- Estou, isto são robalos – respondi-lhe, olhando para todos os lados. À volta do barco cada vez se via mais peixe a vir à tona, a rebolhar agitados, razão pela qual subimos um pouco mais as linhas. Ainda não era dia, mas também a noite já ficara para trás. Com a ajuda do nevoeiro víamos tudo cinzento e com os contornos algo indefinidos.
O peixe não se atirava às nossas borrachas verdes, que habitualmente usamos com resultados animadores. Continuamos mais um pouco ao longo da costa, já tínhamos passado a foz do rio, estávamos a não mais de cem metros da areia, que conseguíamos vislumbrar uma ou outra vez, entre as vagas de nevoeiro.
Mais à frente a quantidade de peixe ainda era maior, decidimos parar o barco e corricar lançando com as canas, fazer spinnig, como se diz agora.
Assim evitávamos movimento com o barco e o barulho do motor, que podia a qualquer momento espantar o cardume. Como o mar estava completamente chão, não oferecia nenhum perigo para nós.

Montamos as canas e lançamos, eu à proa, meu lugar habitual e o Zé à popa, junto ao motor. Ao fim de alguns lançamentos para o meio do cardume, sem qualquer toque, começamos a mudar as borrachas.
-Mete azul, que vou pôr verde-claro.
Preparávamos rapidamente ao estralhos e lançávamos, carregados de esperança, à espera de uma enferrada violenta. Nada… Lança outra vez, agora para mais longe. O carreto chiava ligeiramente ao colher a tansa, registei mentalmente, que à tarde, tinha de o lubrificar. Nada…
Muda outra vez as borrachas. Às tantas, o Zé engata um robalo e diz-me: - Põe uma borracha branca.
- Branca?
- Sim, branca, não tens?
Tinha, só que nunca usava, pois das poucas vezes que experimentara, só apanhava "fodas".
Pois, vocês não sabem o que são "fodas". Não!!! Não é dessas… As "fodas" a que eu me refiro, são peixes-agulha, que costumamos deitar fora quando os engatamos e que deixam um cheiro pouco agradável nas mãos.
Enquanto eu preparava a borrachinha branca, o Zé tirou mais um ou dois robalos, bastava cair na água e era fatal. E tudo peixe acima do meio quilo! Boa!!!
Começamos a dar neles e em breve tínhamos já uma boa pesca, quando aparece o Ica mais o cunhado, no barquinho deles, o "Gaivota" e ficam pasmados com o que estávamos a fazer, com a velocidade a que metíamos o peixe a bordo.
O nevoeiro levantara um pouco e permitia, agora, ver terra com nitidez, onde estavam os Charrocos a corricar, em cima da pedra do Tesal.
São dois irmãos, ambos profissionais da pesca ao robalo, que tanto pescam à cana, como usam algumas artes ilegais (que todos usam) como os anzóis em estacas e as redes manjoeiras, que estendem nas coroas de areia ou nas rochas da ribeira.
Eles bem se esforçavam em pôr as borrachas ao alcance do cardume, o "nosso" cardume, mas estava demasiado afastado de terra. Quando viram que era impossível de chegar onde estava o peixe, pararam de pescar, sentaram-se em cima da pedra a observar-nos.
O Ica ainda tentou fazer como nós, mas faltava-lhe as borrachas brancas e nós não íamos parar de pescar para lhas ir levar. Quando há uma oportunidade destas, o que raro, é preciso ter mãos despachadas e não perder tempo com nada, excepto a segurança, pois estes momentos, nunca duram muito.
O Zé engata um peixe maior, pede-me para o ajudar com o ganapão, como aqui chamamos ao camaroeiro, e já perto do barco, o peixe rebenta-lhe a linha, levando a borracha cravada nos "queixos" e a bóia de lançamento a rasto. Nem queiram saber o que o Zé "pregou", imaginem!
Preparou novo material e continuamos a pescar até que vi a bóia perdida, a alguns metros do barco.
- Pá, liga o motor que vamos apanhar o gajo. – Digo-lhe eu, apontando para o local onde flutuava a bóia - Isso, mais para fora, sempre, sempre, devagar agora…está quase, merda… afundou!!!
Pois foi, eu estava debruçado na proa do barco, com a mão junto à água, a pouco mais de um palmo da bóia e o sacana do peixe, pressentiu-nos e foi para o fundo. Nunca mais vimos a bóia e pouco depois o cardume começou a desaparecer e deixamos de apanhar peixe naquele local.
Pusemos o motor em marcha, saímos mais para o largo e apreciamos brevemente o que conseguíramos. Devíamos ter vinte e tal cachiços jeitosos, todos eles um pouco acima do meio quilo. Haviam dois ou três, que deviam ser os "chefes", mas não passariam um quilo de peso.
O nevoeiro levantava lentamente, o sol nascia radioso, o mar estava estanhado, um espectáculo que muito aprecio, já fazia calor e rumamos para sul, até às "primeiras pedras", passamos o castelo (forte do Cão) e continuamos até Afife.
Cada vez fazia mais calor, ainda não eram oito da manhã, começamos a tirar camisolas, vimos também robalos rebolhar à tona, ainda engatamos dois ou três e ficamos sem saber se eram do mesmo cardume. Quem sabe!
Quando regressamos ao portinho no fim da manhã e nos preparamos para subir a rampa com o barco, apareceram mais ajudantes que habitualmente. O Ica e o cunhado, o Martinho, tinham desistido cedo, pudera, depois da "abada" que tinham levado e em terra, disseram a quem quis ouvir:
- O Zé da Tilde e o Brito é que os "escanaram", em frente à pedra do Tesal. Até lhes perdemos a conta, nós só os víamos a meter no barco…
Naquele dia fomos os campeões, tinha-me dado um certo gozo, ver os Charroços a "coar água" e nós a dar neles, nos robalos, bem entendido.
Deu-me ainda mais gozo, ver a cara de alguns, que tem mania que sabem tudo, quando chegaram a terra e lhes contaram que apanhamos uns quilos valentes de robalos, ao pé da porta.
Aprendi que as borrachas brancas funcionam bem para o robalo em condições de pouca luz, como ao nascer o dia ou com muito nevoeiro, de resto, só servem para apanhar aqueles peixes, que vocês pensavam ser outra coisa…Lembram-se?
 
 
publicado por Brito Ribeiro às 11:53
tags:

bonito conto :) boa pescaria :)
Anónimo a 18 de Abril de 2009 às 00:36

Obrigado!
Abraço

Boa pesca e boa historia, muito bem contada.
Os meus parabens.
Rui Martins a 23 de Março de 2011 às 11:26

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