Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

29
Set 17

Transcrevo um artigo publicado na revista ABC de Lisboa, a 19 de Janeiro de 1922, pelo prestigiado jornalista Gomes Monteiro, sobre a família ancorense Fernandes Fão.

“Ao falarmos da numerosa família Fernandes Fão temos a impressão de estarmos contemplando uma partitura de Wagner. Tudo ali é harmonia, ritmo, orquestração… música. Do progenitor Constantino Fernandes Fão, um grande amador musical, todos os filhos saíram músicos… e de categoria.

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Assim, José Fernandes Fão entrou para a banda da Guarda Nacional Republicana, classificado em 1ª classe, obtendo progressos. Tempos depois, uma impertinente “angina pectoris” forçava-o a abandonar a sua esperançosa carreira.

Artur Fernandes Fão entrou com o pé direito para a arte musical e, de triunfo em triunfo, é hoje o chefe indiscutível da distinta banda da Armada.

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 Francisco Fernandes Fão, músico de 1ª classe da banda da GNR e aluno do 6º ano do Conservatório em violoncelo.

Emília Fernandes Fão, alma de artista, obtendo, com distinção, o curso de piano, harmonia e violino no Conservatório.

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Finalmente, temos Joaquim Fernandes Fão que, propositadamente, reservamos para o fim, porque é dele que desejamos tratar mais detalhadamente. Bisbilhotando na sua vida de artista conseguimos apurar que o maestro Joaquim Fernandes Fão nasceu em Buenos Aires, por uma bela manhã de 3 de Maio de 187F8, quando as rosas argentinas desabrochavam para a vida, ungidas de orvalhos matinais. Quando ainda aprendia as primeiras letras, seu pai, seguindo o uso, ensinou-lhe a compreender os encantos do solfejo, entregando-o, em seguida, aos cuidados de um professor inglês de violino, sendo depois trazido para Portugal.

E já nessa idade pueril – 12 anos – em que todas as crianças se dedicam às suas travessuras, Joaquim Fão compunha já valsas para 3 violinos, dando-lhes a missão de um executar o canto, o segundo substituir o rabecão e o terceiro fazer o acompanhamento. Depois de fazer o exame de instrução primária, em Âncora, e a seguir frequentar o Liceu de Viana do Castelo, até ao 4ºano, assentou praça em infantaria 3 desta cidade, continuando sempre a instrução musical de violino e piano para a qual sentia uma irresistível vocação.

Transferido para infantaria 12, seguia, pouco depois, para Lisboa, a fazer parte da banda de infantaria 2, onde ficou como músico de 3ª classe. Mas o génio, tal como uma gema de subido valor, fulgurando à luz acerada dos espelhos, manifestou-se logo. A breve trecho, o músico de 3ª classe era promovido a chefe, tomando a regência da banda de infantaria 26, em Ponta Delgada.

É curioso notar que que, neste concurso, Joaquim Fernandes Fão triunfou sobre 25 concorrentes, conquistando a 1ª classificação. Quando ainda músico de 1ª classe e sub-chefe da banda de infantaria 2, compôs vários números de música ligeira que foram executadas com o maior agrado. Chefe da banda do 26, compôs números de música militar, tendo também escrito música para as operetas “Gata borralheira” e “Hotel do novo mundo”, que foram acolhidas com gerais aplausos pelo público de S. Miguel.

Apesar de se encontrar lá longe afastado por muitas léguas de oceano, o seu nome andava já de boca em boca, proferido com aquela admiração tributada aos consagrados. Por escolha dos músicos da GNR, deu ingresso na regência da mesma, reorganizando-a e dando-lhe uma arquitectura moderna, de forma a poder executar a verdadeira música de concerto.

Aparte as suas composições originais, o maestro Fão tem dedicado grande parte do seu tempo a instrumentar música de Wagner, Beethoven, Listz, Berlioz, Mozart e tantos outros. Como obras de vulto, escreveu a “Abertura Sinfónica” que foi executada pela orquestra Blanch e ums “suite”, composta por 4 números – “Prelúdio” – “Minuette” – “Intermezzo dramático” - e “Marcha Militar” – que foi executada pela orquestra de David de Sousa. O “Minuette” foi agora executado, em S. Carlos, pelo maestro Guy, tendo obtido os calorosos aplausos duma plateia de entendedores de boa música. Sobre o libreto de Alfredo Pinto (Sacavém) escreveu o poema sinfónico “Sylmires” que, no Teatro Politeama foi executado pela orquestra de Viana da Mota.

Em suma, o maestro Joaquim Fernandes Fão conquistou um lugar proeminente na música nacional, sendo um dos poucos que soube compreender os voos gigantescos da águia wagneriana. Sob a sua direcção, a banda da GNR tem percorrido o país, visto que todo o país tem direito de a admirar e deliciar-se com a sua execução primorosa.

Três vezes foi a Espanha, tendo percorrido Vigo, Badajoz e Valencia del Cid. A propósito, lembramos que tendo-se realizado nesta ultima cidade espanhola, um certame de 11 bandas, maestro Fão foi escolhido para presidir ao júri, representando esta escolha uma homenagem, aliás merecida, ao português que lhes dera as honras da sua visita.

Julgamos ter falado bastante sobre o músico consagrado, não sabendo ainda se o visado nos perdoará termos aprofundado tão intimamente a sua biografia artística. Mas, seja como for, uma vez que nos propusemos a dizer a verdade, devemos frisar que o maestro Fão, tendo tocado violino em todas as orquestras a que pertenceu, sendo, por vezes, o solista na ópera no Coliseu dos Recreios e viola solista na orquestra Blanch, é hoje um regente firme, impecável, que nos últimos concertos realizados no Teatro Politeama, nos tem feito acreditar em contos de fadas, tomando a batuta mágica por uma verdadeira varinha de condão – Gomes Monteiro.”

O pai destes músicos, Constantino Fernandes Fão esteve emigrado na Argentina e terá regressado a Gontinhães com a família por volta de 1890. Em 1905, dando largas às suas paixões, a música e a terra natal, reorganiza a banda local, que será composta essencialmente por elementos muito jovens. A dirigi-la estará até ao fim da vida, salvo breves interrupções, o seu filho José Fernandes Fão, que vem a falecer em 1933. Em todos os serviços de coro, que nessa altura eram muitos, a regência era de Constantino Fernandes Fão.

Mais dados sobre o historial das bandas de música de Vila Praia de Âncora podem ser consultados aqui.

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 A Banda de Música extinguiu-se há muito tempo, mas a memória destes músicos continua viva, não só na toponímia da vila, mas essencialmente na Academia de Música local, a qual foi, muito justamente, designada por "Fernandes Fão".

publicado por Brito Ribeiro às 11:09
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24
Set 17

Nem tudo o que reluz é ouro”, dizia a minha mãe, às vezes a propósito, outras vezes nem tanto. Ao fazer esta citação, à falta de outra mais apropriada, quero também atribuir o significado que há sempre duas versões (pelo menos) para a mesma “história”. E é de história que vos falo, mais concretamente da ponte rodoviária de Caminha, sobre o Rio Coura.

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Encontrei duas versões com discrepâncias sobre este tema que me causam alguma perplexidade, tanto mais que estamos a referir-nos a um passado não muito distante, quando já existiam fontes documentais bastante rigorosas e acessíveis.

 

A versão transcrita em “Caminha através dos tempos, o movimento marítimo e outros meios de transporte” de João da Silva Santos, resumidamente, diz que até meados do século XIX a travessia do Rio Coura entre Caminha e Seixas fazia-se por barco. 

Em 1844, construiu-se uma ponte em madeira, cujos pegões são construídos com a pedra das Torres da Piedade e de Vilar de Mouros, que nessa altura são arrasadas. À entrada da ponte, na margem Sul, existia uma pequena casa onde se pagava a portagem. Os peões pagavam 5 reis e os carros 400 reis, pela sua passagem. Rendia uns 1.500$000 reis anuais aos quais se acrescentava o imposto do sal, verbas que chegavam para a conservação da ponte. Mais tarde, com a abertura da via-férrea, o imposto do sal desapareceu, ficando a conservação da ponte apenas a contar com o produto da portagem. 

Durante a guerra de 14/18, a portagem já era insuficiente para custear a sua conservação, tendo a Câmara entregue a ponte ao Governo. Começaram então a aparecer buracos e a atravessá-la com dificuldade, até que em Agosto de 1920 pegaram-Ihe fogo.

A partir desta data, nem sequer peões passavam e os carros tinham que ir à volta por Vilar de Mouros. 

Foi então decidido construir uma nova ponte em cimento com um orçamento de 1.010 contos. Porém, a empreitada acabou por ficar por mais 400 contos que o previsto. A 14 de Agosto de 1930, voltaram a passar automóveis, ficando concluída a obra em Novembro e fazendo-se a entrega, em 2 de Dezembro de 1930. 

Esta ponte ficou com duas rampas, uma à entrada e outra à saída, devido à sua subida de nível. Na antiga, de madeira, a quantidade de pegões era superior e o nível do tabuleiro idêntico ao actual.

Finalmente, já na segunda metade deste século, a ponte sofreu umas modificações, fazendo-se desaparecer as rampas. 

 

Contudo, em “História Nossa” de Paulo Torres Bento, afirma-se que a ponte foi inaugurada em 1839, nos primórdios do liberalismo e que a sua manutenção fora sempre uma fonte de problemas para a Câmara Municipal. Após um incendio que se suspeita ser intencional em 1884, que destruiu 14 metros do tabuleiro, as condições de atravessamento vem a piorar, até que a Câmara delibera em 1905, enquanto proprietária “taxar a passagem dos automóveis na ponte de madeira sobre o Coura, em 200 reis cada passagem, e as motocicletas em 40 reis também pela passagem de ida e volta”, conforme acta da CMC de 23 de Outubro de 1905.

Em 1920 o estado ruinoso do tabuleiro obrigou a Câmara a proibir, por questões de segurança, o trânsito automóvel, sendo desviado para a ponte de Vilar de Mouros. Em 1922, após outro incendio, até o trânsito pedonal foi desviado para a ponte ferroviária a montante.

Valeria a Caminha a intervenção do senador ancorense Luís Inocêncio Ramos Pereira que em 1924 conseguiu do governo a aprovação do projecto para a reconstrução do tabuleiro em cimento armado. A obra começaria dois anos depois e após muitos atrasos seria reaberta ao trânsito automóvel em Dezembro de 1930, estatal e livre de portagem.

 

Num período o em que todos oferecem bonés, chapelinhos e santinhos, prometendo festarola e foguetório para o futuro das nossas vidas, fica a triste realidade de há cem anos haver tantas dificuldades para simples travessia do Rio Coura.

Fica também para a história o exemplo de um homem, um senador da república, que levou para Lisboa o problema e lutou pelos recursos necessários para a empreitada.

Para concluir, digam lá que a história não tem coisas interessantes!!!

 

 

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 10:33
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17
Set 17

Os equipamentos hidroelétricos em Portugal tiveram o seu início em 1884, com o aproveitamento de uma pequena queda de água, para fornecer energia elétrica à Real Fábrica de Fiação, em Tomar.

Em 1912 é constituída a Companhia Hidroelétrica do Coura, que vai construir e explorar a central de Covas, no Rio Coura. A Electra del Lima, em 1908, propunha-se rentabilizar as águas do Rio Lima, convertendo a potência hidráulica em energia elétrica. Assim foi construída a primitiva barragem do Lindoso entre 1915 e 1922, constituída por um muro de 5 metros de altura em alvenaria e por uma central de 8.750 kVA, naquela época a mais importante do país. Em 1922 a barragem foi elevada para 22,5 metros e até 1951 foram introduzidos outros melhoramentos ao nível do canal de derivação e do aumento de potência, que já então se cifrava em 92.500 kVA.

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Face ao aumento de consumo de eletricidade, em 1960 foi pedido ao governo autorização para proceder a estudos de ampliação do empreendimento do Lindoso. Em 1992 iniciaram-se as obras da segunda geração da barragem, designada por Alto-Lindoso, com 110 metros de altura, 21 de espessura na base e 4 no coroamento. Esta barragem deu origem a uma albufeira internacional com mais de mil hectares de área inundada e cerca de 350 milhões de metros cúbicos de água represada.

Este projeto hidroelétrico fez nascer, 17 quilómetros a jusante, o empreendimento de Touvedo, com a função de regularizar os caudais turbinados no Alto-Lindoso. A irregularidade dos caudais descarregados no Alto-Lindoso provocariam cheias diárias e fortes efeitos erosivos, pelo que a barragem de Touvedo funciona como contra embalse, minimizando o impacto sobre o ecossistema ribeirinho e permitindo condições seguras de utilização do rio a jusante, até à foz.

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No entanto, as opções técnicas destas grandes barragens, no que diz respeito aos recursos naturais da bacia do Lima, levadas a cabo nos anos oitenta e noventa do século passado, foram exclusivamente para desenvolvimento de produção energética, mas à custa de irreparáveis perdas nos recursos dos solos, da paisagem e das populações. Em concreto foi uma ação autoritária, humanamente exógena e destinada a organizar o território, prosseguindo fins energéticos.

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Estávamos pois, nos anos oitenta e noventa do século passado e estas opções técnicas estavam já desarticuladas das incipientes políticas de ambiente e de proteção dos recursos naturais que então despontavam.

As alterações nas atividades humanas (deslocamento de populações, redução da agricultura e terras de pastagem, inundação de sítios e monumentos de valor arqueológico e cultural), na saúde pública, na fauna, na vegetação e no meio aquático (alteração das correntes, modificação da qualidade das águas, diminuição do transporte de sedimentos, eutrofização da água e aumento da evaporação), são impactos negativos, permanentes e sem possibilidade de retorno.

Este caso do Alto-Lindoso e Touvedo causou a artificialização das margens e vale do Lima em mais de 35 quilómetros, dos quais mais de 7 quilómetros são de leito morto (a jusante da atual barragem do Lindoso), inviabilizando a vida e reprodução dos grandes migradores Atlânticos, que secularmente desempenhavam as funções vitais e genéticas nas águas vivas do Lima.

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Concluo com a convicção que não se aprendeu a lição, face ao recente exemplo da barragem do Tua, onde, mais uma vez, as opções técnicas adotadas, vão provocar um dano ambiental e humano, grave e irreparável.

 

Bibliografia consultada: “Uma perspectiva de ecologia humana. O caso da barragem do Alto Lindoso na zona serrana do Minho-Lima” de José da Cruz Lopes

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 15:20
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25
Ago 17

Relatório integral dos agentes da PIDE sobre o Festival de música "Pop" em Vilar de Mouros em 1971, distribuido à Presidência do Conselho, Ministério do interior e Ministério da Educação Nacional.

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"A seguir se transcreve o texto de uma informação redigida por um nosso elemento informativo que assistiu ao “festival” em questão, que teve lugar nos dias 7 e 8 do corrente, a qual se reproduz na íntegra, para não alterar os detalhes que foram alvo do seu espírito de observação: “Dias antes do festival, foram distribuídos, nas estradas do País e nas estradas espanholas de passagem de França para Portugal, panfletos pedindo aos automobilistas que dessem boleias aos indivíduos que iam ver o festival.

No 1º dia, o espectáculo começou às 18h00 e prolongou-se até às 4 da manhã. Ao anoitecer, o organizador, um tal Barge, anunciou que tinham sido vendidos 20 mil bilhetes (a 50$00 cada). Esperavam vender 50 mil bilhetes para cobrir as despesas, que seriam aproximadamente a 2.500 contos. Diziam que tiveram de mandar vir o conjunto Manfred Mann de Inglaterra, mas parece que estava no Algarve, e por isso, a despesa com eles não foi tão grande como parecia.

Um dos cantores, Elton John, causou desde o começo má impressão, com os seus modos soberbos e as suas exigências: carro de luxo para as deslocações, quartos de luxo para os acompanhantes e guarda-costas, etc. O recinto do festival era uma clareira cercada de eucaliptos, com um taipal à volta e uma grade de arame do lado do ribeiro.

Na noite de 7 estavam muitos milhares de pessoas e muita gente dormiu ali mesmo, embrulhada em cobertores e na maior promiscuidade. Entre outros havia: crianças de olhar parado indiferentes a tudo grupos de homens, de mão na mão, a dançar de roda um rapaz deitado, com as calças abaixadas no trazeiro um sujeito tão drogado que teve de ser levado em braços, com rigidez nos músculos relações sexuais entre 2 pares, todos debaixo do mesmo cobertor na zona mais iluminada sujeitos que corriam aos gritos para todos os lados bichas enormes a comprar laranjadas e esperando a vez nas retretes (havia 7 ou 8 provisórias) mas apesar disso, houve quem se aliviasse no recinto do espectáculo. porcaria de todo o género no chão (restos de comida, lama, urina) e pessoas deitadas nas proximidades. Viam-se algumas bandeiras. Uma vermelha com uma mão amarela aberta no meio (um dos símbolos usados na América pelos anarquistas); outra branca, com a inscrição “somos do Porto” com raios a vermelho e uma estrela preta.

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A população da aldeia, e de toda a região, até Viana do Castelo, a uns 30 km de distância, estava revoltada contra os “cabeludos” e alguns até gritavam de longe ao passar “vai trabalhar”. Foram vistos alguns a comer com as mãos e a limparem os dedos à cabeleira. Viam-se cenas indecentes na via pública, atrás dos arbustos e à beira da estrada. Em Viana do Castelo dizia-se que os “hippies” tinham comprado agulhas e seringas nas farmácias da cidade. Havia muitos estudantes de Coimbra, e outros que talvez fossem de Lisboa ou do Porto.

Alguns passaram a noite em Viana do Castelo em pensões, e viam-se alguns de muito mau aspecto, parece que vindos de Lisboa, que ficaram numa pensão. Houve gritos de Angola é... (qualquer coisa) durante a actuação do conjunto Manfred Mann (de que faz parte um comunista declarado, crê-se que chamado Hugg). Fora do recinto, junto do rio e de uma capela, havia muitas tendas montadas e gente a dormir encostada a árvores ou muros e embrulhada em cobertores. Houve grande confusão junto às portas de entrada.

Havia quatro bilheteiras em funcionamento permanente e muito trânsito. Toda aquela multidão de famintos, sem recursos para adquirir géneros alimenticios indispensáveis, como se de uma praga de gafanhotos se tratasse, se lançou sobre as hortas próximas colhendo batatas e outros produtos hortícolas, causando assim, grandes contrariedades aos seus proprietários, muitos deles de débeis recursos económicos."

publicado por Brito Ribeiro às 16:26
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18
Ago 17

Em Outubro de 2016 publiquei na revista "Vale Mais" um artigo sobre as consequências dos incêndios florestais. Procurei sintetizar e expor de forma clara e objectiva as implicações deste flagelo na vida das pessoas. Hoje, mais que nunca, o artigo parece-me actual.

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Neste número da revista Vale Mais não podia deixar de reflectir sobre o drama recorrente dos incêndios florestais. Durante o verão que agora finda (2016), Portugal foi fustigado por inúmeros fogos de grandes dimensões, que destruíram uma parte significativa do seu espaço rural e até de núcleos populacionais como o caso do Funchal. Isto repete-se todos os anos, com maior ou menor dimensão, dependendo de factores tão imprevisíveis como o vento, a humidade, a temperatura ou a quantidade de material combustível presente no solo.

Parece ser consensual que a maioria esmagadora das ignições é de origem humana, algumas por negligência, muitas intencionais. E a justiça entra na dança, prende, solta, volta a prender e os incendiários continuam por aí, geralmente conotados com o alcoolismo ou demência, sem se averiguar verdadeiramente as motivações e quem lucra de forma directa ou indirecta com esta calamidade.

O que é certo, é que a madeira queimada continua a vender-se ao preço da “uva mijona” e um sector como a silvicultura, que em Portugal tem um potencial avaliado em vários milhares de milhões de euros, com capacidade de gerar muitos milhares de postos de trabalho, continua a ser encarado como o parente pobre da economia, gastador de recursos e fomentador de canseiras e perigos.

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Vejamos, de forma resumida, as consequências dos incêndios florestais e os impactos que causam na natureza e na sociedade:

 

  • Depreciação cénica na paisagem 

O impacto visual após um incêndio florestal é terrível;

 

  • Morte de plantas

É o efeito mais visível e causa os mesmos problemas da desflorestação massiva;

 

  • Perdas humanas

Quase todos os anos há a lamentar a perda de vidas humanas ou ferimentos mais ou menos graves, sejam de populações ou de bombeiros;

 

  • Destruição de bens materiais

Aspecto cada vez mais mediatizado com as perdas de habitações, equipamentos e culturas agrícolas;

 

  • Quebra de receitas para o turismo

Facilmente se percebe das consequências dos incêndios no turismo de natureza;

 

  • Perda de material lenhoso

A floresta é uma fonte de receita por parte dos seus proprietários. Após a passagem de um incêndio o valor comercial do material lenhoso desce consideravelmente, perdendo mesmo, em algumas situações, todo o seu valor;

 

  • Perda de receita proveniente da resinagem

É uma actividade que estava a renascer, após longos anos de inactividade que sofre um duro golpe na área de pinhal;

 

  • Destruição de apiários

Quer a destruição das colmeias, quer a destruição dos locais de alimentação das abelhas, representam uma quebra de produtividade na apicultura e uma diminuição da acção de polinização das abelhas nas plantas silvestres;

 

  • Perda de biodiversidade

Toda a fauna e flora de uma área ardida é gravemente afectada e dependendo da intensidade, existem plantas e animais que, no limite, se extinguem.

Foi o que aconteceu no incêndio de 2010 nas serras da Madeira em que a única população de “Sorbus maderensis”, espécie endémica da ilha da Madeira, foi extinta do seu habitat natural. Valeu na altura a existência de plantas em viveiro da Direcção Regional de Florestas e Conservação da Natureza provenientes daquele local, promovendo-se à posterior instalação de novos exemplares. A população da freira-da-madeira, “Pterodroma madeira”, ave endémica da Madeira, foi na mesma altura gravemente afectada pelo mesmo incêndio;

 

  • Emissões de CO2

Um incêndio tem um efeito duplamente negativo ao nível das emissões, na medida que origina a libertação de gases com efeito estufa, como reduz a capacidade de absorção e armazenamento de CO2.

Outro factor associado às emissões é a emissão dos fumos que poderão causar constrangimentos respiratórios, além de dificultarem a logística operacional no combate com meios aéreos;

 

  • Perda de Solo

Os incêndios provocam a destruição das árvores e do coberto vegetal do solo ficando o mesmo mais susceptível à acção directa da chuva e dos ventos, podendo em zonas com maior pluviosidade e de maior pendente existir arrastamento do solo e empobrecimento por arrastamento dos nutrientes. Este fenómeno poderá igualmente provocar a contaminação de linhas de água;

 

  • Perigo de aluviões e enxurradas

As áreas afectadas por incêndios florestais, principalmente as zonas mais declivosas, tornam-se mais vulneráveis a arrastamento de massas de solo;

 

  • Surgimento de espécies invasoras

Após um incêndio as primeiras plantas a colonizarem o espaço afectado são as plantas invasoras. A expansão rápida destas espécies, algumas bem adaptadas ao fogo, como a haquea-picante, “Haquea cericia”, contribuem para a perda de biodiversidade e consequente aumento da incidência de novos incêndios;

ng8603657.JPGEstá a gerar alguma expectativa a decisão de promover durante o mês de Outubro, um Conselho de Ministros exclusivamente dedicado a tomar decisões sobre a problemática dos incêndios florestais, que ultrapassem o velho paradigma da contabilidade dos meios de combate envolvidos em cada fase Charlie ou outra qualquer designação técnica, para consumo imediato e paliativo, numa televisão perto de si.

publicado por Brito Ribeiro às 15:38
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01
Jul 17

Os dólmens surgem na Europa sensivelmente entre 4000 e 2000 a.C., sendo que na Península Ibérica parece irradiarem da Andaluzia e sul de Portugal para o resto do território.

Estes monumentos megalíticos eram originalmente tapados em forma cónica com terra e pequenas pedras, sendo ao longo dos tempos destapados para pilhagem e já nos nossos dias, para estudo arqueológico.

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O que me leva a escrever este pequeno artigo não é a dissertação sobre estes marcos funerários, mas antes uma reflexão sobre o relacionamento das pessoas com os dolmens, as crenças e superstições que lhe estão associadas.

Andam ligadas a estes monumentos superstições e crendices, levando a que alguns tenham sido utilizados para variados destinos como abrigo de gente e de gado, arrecadação de alfaias, na expectativa de “energias” positivas que protejam até a adaptação a templos católicos. Andam também as antas ligadas a factos de culto com invocações locais e à toponímia local e regional.

Desde sempre o homem acreditou na capacidade dos mortos influenciarem a ação criadora dos deuses e do próprio ciclo da natureza, designadamente no renascimento dos vegetais e das culturas que os demónios e os maus espíritos associados ao inverno fizeram desaparecer.

Esta crença está na origem de muitas práticas relacionadas com o culto dos mortos, que em regra começam em Novembro e prolongam-se até à Serração da Velha, passando pelo solstício de inverno (saturnais) e pelos festejos do carnaval. Os ritos vão variando conforme as celebrações em causa, mas mantem entre si uma finalidade comum, que é assegurar que o ciclo da vida e da morte não se interrompa, ou seja, que ao indesejado inverno, suceda a almejada primavera.

Investigações feitas na área da arqueologia e da antropologia, concluíram que as práticas do culto dos mortos tiveram o seu início na fase de transição do paleolítico para o neolítico, sendo disso testemunho os inúmeros monumentos funerários como os dolmens ou antas e inscrições votivas.

Uma característica curiosa é a orientação da abertura do dólmen, geralmente virada a sudeste, coincidente com o amanhecer do solstício de inverno.

Muitos dos nomes dos dólmens ou antas estão relacionados com entidades misteriosas, que criaram mitos mais ou menos generalizados. Outros porque foram cristianizados os vestígios dos velhos cultos pagãos, adaptando-se a invocações religiosas como templos, nichos e alminhas; há casos em que se contruiu ou ergueu um sinal cristão sobre os monumentos ou ao seu lado, ou ainda, numa manifestação mais evoluída desta progressão espiritual, transformaram a anta em capela.

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Aos mouros são atribuídos pelo povo todos os monumentos arcaicos e suas ruinas, por isso “construíram” as antas e vivem nelas as “mouras encantadas”, que segundo a lenda, carregaram as pedras à cabeça para a sua construção, bem como para pontes, castelos e penedos avantajados. A lenda põe essas mouras encantadas com a roca à cinta para irem fiando, a aturar o tempo e a canseira, ou a amamentar uma criança enquanto transportavam as pesadas pedras pelos caminhos.

Lembro que a invasão mulçulmana na península iniciou-se por volta do ano 711 da nossa era, portanto, cerca de três mil anos após a construção dos ultimos dólmens.

Além das referencias aos mouros encontram-se vestígios de  arcaicos cultos pagãos, apresentamdo-se de duas formas: uma de sentido agrícola, simultaneamente propiciatório e divinatório; outra de utilização divinatória também, mas casamenteira ou erótica, em prática de ritos de fricção e escorregamento.

O que se atribui às grutas, lapas abertas nas pedras, covas fundas e a penedos sobrepostos, as pedras baloiçantes ou “bulideiras”, repete-se nos dólmens: as mouras ou os mouros guardaram aí tesouros encantados de riquezas fabulosas, que os devotos de S. Cipriano ou não, ainda hoje, procuram freneticamente com pás e picaretas.

No Vale do Âncora, além do Dólmen da Barrosa (também conhecida por Lapa dos Mouros), existem outras antas de menor dimensão, mas igualmente representativas desse período da pré história, como a Anta do Santo de Vile, Mamoa da Aspra ou Cova da Moura na freguesia de Âncora, Mamoa da Ereira na freguesia de Afife ou Mamoa do Chão da Pica na freguesia de S. Lourenço da Montaria.

publicado por Brito Ribeiro às 16:02

01
Fev 17

Desde criança que ouvia falar do Convento ou Mosteiro de Bulhente; muitas vezes por lá passei, onde se via uma parede incompleta pertença de uma edificação, fosse mosteiro ou outra coisa qualquer. Há dias por ouvir um amigo referir-se ao dito, decidi debruçar-me um pouco sobre o assunto e passar o resumo a escrito.

Popularmente, sobre este convento avançavam-se as mais fantasiosas lendas, onde se misturavam tuneis secretos, frades, freiras e não sei que mais para apimentar a estória.

Porém, o rigor histórico não se compadece destas fantasias e consultando alguns dados sobre esta matéria, cedo nos assolam dúvidas mais que fundadas sobre a existência de um convento na medieva freguesia de Bulhente.

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Cruzeiro de Bulhente - Rampa do Calvário

A primeira referencia a S. Salvador de Bulhente surge em 1258 e nos séculos imediatos não se encontra o termo “mosteiro” aplicado à igreja paroquial existente.

Na acta de inquirição de 1258, mandada executar por D. Afonso III, feita em St.ª Maria de Caminha sobre Bulhente, conclui-se que era uma aldeia povoada há relativamente pouco tempo, talvez aquando da presúria de Paio Vermudes no século XII, onde os povoadores ergueram uma ermida consagrada ao Divino Salvador, usufruindo por isso de padroado, que lhes permitia apresentar clérigo para celebrar actos de culto. Tinham obrigação de pagar foro ao rei pelas terras outorgadas e o dote desta igreja devia ter alguma importância, pois eram cobiçados pelos descendentes de um tal Nuno Velho, figura da corte de D. Afonso Henriques, que malgrado a oposição dos fregueses, tentavam apoderar-se deles pela força.

No Censual da Terra da Vinha, em 1321, Bulhente já não figura como ermida mas como “yglesia”, ou seja, freguesia. A partir de 1436 ou até antes, Bulhente “hé tornada sem cura porque nom tinha freigueses”, portanto estava despovoada.

O padroado e as rendas de Bulhente estavam divididas desde o início do reinado de D. Fernando em duas partes iguais, uma sem cura, outra com cura, havendo longo rol de confirmações até 1598, quando é unida ao Colégio de S. Pedro do Seminário Conciliar de Braga.

É precisamente em 1598 que surge a primeira referência “…do mosteiro de São Salvador de Bulhente da comarcua de Vallença” num registo de confirmação (Arquivo Distrital de Braga, Registo geral, nº 318, fls. 77-77v), numa época que já se sabia estar a paróquia desabitada.

Curiosamente é o mesmo escrivão da câmara da comarca e administração de Valença, Feliciano de Carvalho Barreto, que a 30 de Maio de 1598 apelidou de “mosteiro” e quatro meses antes, a 23 de Janeiro do mesmo ano, a apelidou de “igreja”.

Mais tarde, aparece outra alusão ao Mosteiro de Bulhente nas Inquirições Paroquiais de 1758, onde o abade de Gontinháes, Gonçalo Pinto de Carvalho Medeiros, ao responder ao inquérito, escreve:

A Cappella de Salvador de Bulhente, que antiguamente estava junto ao alto da Serra para aparte do Norte em sitio, que Chamão Bulhente, e por tradição foy Mosteyro de Religiosos Mendicantes que se extinguio há perto de trezentos anos…” Mais à frente refere: “Outros querem dizer também per tradicam, que otal Mosteyro fora de Religiozas

É muito improvável que a ordem fosse dos Mendicantes (Dominicanos e Franciscanos), pois estes estavam vocacionados para a pregação e testemunho de pobreza, preferindo os meios urbanos para se fixarem. Neste sentido, referir uma Ordem Mendicante levanta imediatamente suspeita, pois Bulhente fica isolada a meia encosta de um monte agreste e difícil de aceder, contrariando as localizações tradicionais destas Ordens, fossem dentro de recintos amuralhados fossem fora, mas nas imediações.

coluna de bulhente.JPG

Coluna da igreja de Bulhente - Terreno particular

A própria duvida sobre se era um mosteiro masculino ou feminino, não abona nada em favor da sua existência.

É já no século XIX, quando Pinho Leal publicou “Portugal antigo e moderno” que deparamos com fantasiosas afirmações de Bulhente ser um Mosteiro de freiras Beneditinas e que “já existia no tempo dos Suevos”.

Com o caminho preparado por uma suposta informação histórica, faz um conjunto de afirmações apenas explicadas por um anticlericalismo exacerbado e uma falta de rigor confrangedora:

As freiras d’aqui eram, como as de Requião (vide esta palavra que traz coisas curiosíssimas com respeito às freiras) praticando toda a casta de escândalos com quem lhes aparecia, principalmente com os frades de S. João de Cabanas, na freguesia de Afife, que ficavam perto, parecendo mais sacerdotisas de Venus, do que religiosas christans. Tantas fizeram que o bispo de Ceuta, suprimiu este convento, pelos anos de 1460, e parece que até o mandou arrasar”.

Na obra de João de Barros de 1548, Geografia d’Entre Douro e Minho, que registou outros mosteiros da região, incluindo despovoados, como o de Cabanas, nada consta sobre um hipotético Mosteiro de Bulhente; também o cronista da Ordem de S. Bento, Frei Leão de S. Tomás, na sua obra Benedictina Lusitana não faz nenhuma referência ao hipotético Mosteiro.

Esta paróquia junta-se à extensa lista de aldeias e instituições portuguesas que não sobreviveram à crise demográfica e económica dos séculos XIV e XV, sensivelmente entre 1330 e 1450.

Em jeito de conclusão, não há nenhuma prova consistente da existência de um Mosteiro em Bulhente, pelo contrário, existem razões muito fundamentadas para duvidar do rigor histórico das Inquirições de 1758 e principalmente do “Portugal antigo e moderno” de Pinho Leal.

Fontes consultadas: "O mosteiro de Bulhente não existiu" de José Marques; "Monografia do Concelho de Caminha" de Lourenço Alves

publicado por Brito Ribeiro às 10:46

28
Jan 17

As festividades em honra da Senhora da Bonança ter-se-ão iniciado em Gontinhães no ano de 1883, no seguimento de uma devoção dos pescadores locais pela Senhora da Bonança, de Carreço, que tinha festividade e confraria com estatutos desde 1727.

9134819_gqWnU.jpegEnquanto em Carreço a festividade definhava, ao ser transferida para o Lugar da Lagarteira, em Gontinhães, ganhou rapidamente projeção, trazendo à povoação grandes quantidades de forasteiros. Dizia o correspondente local do Jornal da Manhã, no dia 21 de Setembro de 1885:

“Domingo, dia 13 do corrente, realizou-se nesta praia a romaria e festividade de Nª Sª das Necessidades, sita no Lugar da Lagarteira, que é localidade de banhos, denominada Praia d’Âncora.

No sábado à noite houve música de arraial, fogo d’ar e iluminação da capela e de algumas casas próximas, sendo muito grande a concorrência de famílias a banhos e de povo desta freguesia e das circunvizinhas.

No domingo de manhã fez-se a festa de capela a grande instrumental e sermão pelo distinto orador padre João Luís Afonso, encomendado da freguesia e de tarde houve procissão e sermão, pelo exímio orador padre capelão de Infantaria 3.

De tarde, principalmente, foi enorme a concorrência de povo de todas as freguesias vizinhas, vendo-se também grande número de pessoas mais gradas de Caminha e algumas de Viana.

Esta romagem e festa foi instituída há três anos pelos pescadores e é já a segunda da freguesia em pompa e brilho, vindo antes de pouco a ser a primeira.”

O apontamento deste jornal do Porto encerra um erro, pois a festa da Senhora das Necessidades, à época a mais importante de Gontinhães, realizava-se na segunda-feira de Pascoela e nunca na segunda semana de Setembro. A confusão ter-se-á dado pelo facto da capela que recolhia a Senhora da Bonança denominar-se “das Necessidades”.

dfdgfg.jpegA festividade da Senhora das Necessidades, conhecida popularmente por Feira da Lagarteira ou Feira das Trocas, foi declinando com o passar do tempo e deixa de se festejar com a abolição do feriado da Pascoela. A Feira das Trocas era muito apreciada pela juventude que, por um dia, trocava-se de namorado(a). Nesse dia os namorados ficavam “livres” e era habitual entabularem conversa com outra moça ou rapaz e irem durante a tarde apanhar rosmaninho para a Gelfa.

A ligação da comunidade piscatória da Lagarteira às gentes de Carreço explica-se pelo facto de alguns pescadores durante o verão arribarem às praias e enseadas de Carreço para nelas desembarcarem e venderem o peixe capturado, e por ali pernoitavam em condições precárias, tal como o fizeram os seu pais e avós galegos que visitavam sazonalmente a enseada natural do Moureiro, na Lagarteira, antes de fixarem residência no primeiro quartel do século XIX. Por outro lado como havia bons pesqueiros por aquelas bandas, poupavam o esforço da viagem de ida e regresso ao porto de origem na Lagarteira. Acresce ainda que Carreço tinha uma pequena comunidade piscatória, que até conseguiu construir um pequeno portinho de abrigo na praia do Lumiar.

praia-do-lumiar-2.jpgÀ Confraria da Senhora da Bonança de Carreço pertenceram vários Irmãos, distribuídos pelas comunidades marítimas entre a Lagarteira e Viana. Entre elas, a família Enes Azevedo, do Lugar de Paçô, que se fixou na Lagarteira em 1870 e durante várias gerações ocupou cargos na mesa daquela confraria, o que pressupõe uma forte ligação espiritual àquela padroeira. Na falta de uma padroeira dos pescadores da Lagarteira, estes tornaram-se devotos da santa de Carreço, acabando o processo na transferência daquela devoção para as terras ancorenses, tudo isto sem a oposição do povo de Carreço.

Esta festividade sempre teve um caracter misto, convivendo a parte religiosa com a parte profana, atraindo grande quantidade de visitantes à zona da Lagarteira e ao bairro marítimo, local onde decorriam grande parte das cerimónias mais emblemáticas, como as procissões, os sermões ou a bênção das embarcações.

Hoje continua a ser a festa maior de Vila Praia de Âncora e a ter como pano de fundo o portinho e a zona piscatória, pese embora a prevalência mercantil da festividade, em detrimento da devoção da comunidade piscatória.

 

Fontes: "De Santa Marinha de Gontinhães a Vila Praia de Âncora" de Maria Aurora Botão Rego; "A Masseira Ancorense" de Brito Ribeiro e Celestino Ribeiro

 

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 11:34
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02
Dez 16

A música tinha na sua origem uma só função, situando-se apenas nos atos do culto religioso, não sendo expressão de um trabalho ou de um ato comum.

Na renascença, com o aparecimento do compositor, a música começa a rebentar os elos que a acorrentavam gerando a sua libertação, ultrapassando a complementaridade do serviço religioso, passando a alegrar os salões dos reis e dos nobres, nos concertos que tinham por missão divertir e entreter a assistência.

Com o advento do liberalismo nos finais do século XVIII, realizam-se os primeiros concertos públicos, operando-se a mudança rumo à generalização da música.

1912 em gontinhães.jpg

É nesta fase que encontramos a primeira banda de música de Gontinhães, que só em 1924 passou a denominar-se Vila Praia de Âncora.

Por volta de 1850, durante uma fase de desenvolvimento cultural e económico de Portugal é fundada em Gontinhães, por um grupo de “curiosos”, uma filarmónica. Um dos primeiros mestres foi António Alves da Devesa. Esta povoação, tinha o seu principal núcleo populacional afastado do mar, tendo crescido em volta da sua velha igreja matriz. Segundo os censos de 1890, tinha 1804 habitantes, distribuídos por 408 fogos.

Em 1886 ainda com António Alves da Devesa na regência, dois músicos desta filarmónica, Rafael Francisco Martins Pinheiro e Sebastião Domingues tentaram controlar a sociedade e acabaram expulsos pelos demais. Como provavelmente as motivações políticas estivessem na origem do desentendimento, estes elementos acabaram por criar uma filarmónica, passando a distinguir-se por “Banda Velha” e “Banda Nova”.

A Banda Velha era afeta ao Partido Regenerador e a Nova ao Partido Progressista; cada uma tinha a sua claque de apoiantes que se deslocavam aos locais de atuação da sua banda e era raro as duas bandas tocarem juntas. Há até alguns episódios de má convivência e violência ao longo dos anos, nas escassas vezes em que participaram ambas na mesma festividade.

O primeiro mestre da Banda Nova foi Rafael Francisco Martins Pinheiro e em 1891 é Francisco Emílio Gonçalves Preza que assume a regência. Possivelmente, pela mesma época a Banda Velha também muda de mestre ficando a regê-la António Mendonça.

Ainda antes de 1900 há nova alteração na Banda Velha com a saída de António Mendonça que emigra para o Brasil, ficando Domingos António Alves Velho na regência.

Em 1896 fez-se em Gontinhães uma manifestação de apoio aos expedicionários de África, tendo as duas bandas atuado em conjunto e gratuitamente, interpretando o Hino Nacional, sem qualquer incidente.

Em 1903 ambas terão entrado em declínio, provavelmente devido à emigração de muitos dos seus músicos, extinguindo-se algum tempo depois.

1933 festa na ínsua.jpg

Por volta de 1905, Constantino Fernandes Fão, apaixonado pela música e grande bairrista, organiza novamente a banda, que será composta essencialmente por elementos muito jovens. A dirigi-la estará até ao fim da vida, salvo breves interrupções, o seu filho José Fernandes Fão, que vem a falecer em 1933. Em todos os serviços de coro – que nessa altura eram muitos – a regência era de Constantino Fernandes Fão.

Logo após a morte de José Fernandes Fão, surge um movimento organizado pelos músicos mais velhos, para darem continuidade a banda. Convidam Artur Martins Pereira, ancorense e sargento no ativo em Viana do Castelo, que já tinha pertencido à anterior banda. A regência de Artur Martins Pereira prolonga-se até ao início de 1937.

Só a partir de 1933 é que temos dados relativos à forma de manutenção das bandas. São os músicos que pagam as fardas através do desconto no produto das festas, contribuindo igualmente para a compra e reparação dos instrumentos. A divisão dos proventos era da seguinte forma: o mestre tinha direito a oito partes, um músico já feito a quatro, um músico em ascensão a três partes e um iniciado a duas partes.

Em 1937 é contratado para regente da banda Armando Alves Viana que se mantem à frente da banda até aos fins de 1939.

Dois anos depois regressa à direção da banda que estava mais ou menos inativa e em 1942 (18 de Maio) é ele que propõe à direção da Associação dos Bombeiros de Vila Praia de Âncora a integração da banda nessa associação humanitária.

A 30 de Maio de 1942 é incumbido pela direção dos Bombeiros António Afonso Costa para a reorganização da banda nesta associação, sendo tomadas várias iniciativa, designadamente a elaboração de um regulamento interno, que passado pouco tempo viria a revelar-se desadequado. No início de 1943 a banda toca pela primeira vez e pouco tempo depois, Artur Martins Pereira deixa a banda por ter de se ausentar.

Em Março de 1943 assume a regência José Gomes Lomba, que se mantem à sua frente até 1945.

1956 festa em perre.jpg

Em 1946 é contratado Carlos José de Araújo, de Viana do Castelo que se manteve até Março de 1952, ano da sua morte. Ao longo de 1952 foi ensaiador e regente em alguns serviços o mestre José Pedro Martins Coelho, natural de Viana do Castelo. Durante o mesmo período foram efetuados diversos serviços pelos regentes Armando Alves Viana e Teófilo Gualdino Pinheiro.

É nesta fase que a banda se vê obrigada a deixar de ensaiar no edifício sede dos Bombeiros, por motivo de obras, para ocupar a antiga escola primária do Santo, um edifício da Junta de Freguesia e no qual se manteve até à sua extinção.

No início de 1953 é contratado para regente Manuel Adelino Dias, de Viana do Castelo, que se manteve à frente da mesma até à sua extinção a 1 de Janeiro de 1958.

Desde meados da década de quarenta que a banda necessitava de músicos de “fora”, naturalmente mais caros, face ao desinteresse dos mais novos em aprenderem música. Neste contexto e a ausência de apoios por parte da maioria das pessoas da terra, ditaram a extinção da banda de música.

 

Recolha de João Carvalho, Joaquim Vasconcelos, Mário Rebelo de Sousa e Rafael Capela, para o NUCEARTES, efetuada em 1985.

publicado por Brito Ribeiro às 08:56

08
Nov 16

Os portugueses são os terceiros maiores consumidores de peixe a nível mundial, mas esta referência gastronómica pode estar em risco, devido às alterações climáticas, poluição, má gestão dos recursos e sobre exploração dos pesqueiros.

pesca.jpg

Desde meados do século vinte que o consumo de peixe tem vindo a subir e estima-se que 90% dos recursos pesqueiros estejam sobre explorados ou no limite da sustentabilidade.

Desde 1961 que o crescimento do consumo está nos 3,2% ao ano, representando cerca de 160 milhões de toneladas anuais, ou seja, mais de 435.000 toneladas diárias.

Igualmente, a aquacultura tal como tem sido desenvolvida, não é solução; para produzir um quilo de dourada são precisos um quilo e meio de ração seca, a qualidade do produto final é discutível e não raras vezes portadores de substâncias nocivas à saúde humana. 62% da produção em aquacultura está localizada na China.

Hoje em dia, os produtos da pesca são praticamente os únicos alimentos "selvagens" consumidos regularmente nos países Ocidentais.

Um dos riscos que se corre na gestão da exploração de uma espécie é a sua sobre-exploração. Ou seja, poderá haver um excesso de capturas que ultrapassa a sua capacidade natural de reposição, tendo em conta as suas taxas de reprodução, de mortalidade e o lugar que ocupa na cadeia alimentar. E a insistência nesta forma de exploração durante algum tempo, essa população, ou mesmo a espécie, pode extinguir-se.

Por exemplo, isso aconteceu com o stock de bacalhau na Terra Nova, Canadá, que colapsou em 1992 devido ao excesso de pesca. Mesmo depois da implementação de várias medidas de proteção ao bacalhau ainda não recuperou satisfatoriamente nessa área.

Em Portugal, também há recursos pesqueiros como o lagostim e pescada que foram avaliados como “sobre explorados” em 2004 e apesar da União Europeia ter imposto um plano de recuperação em ambos os casos, em 2009 o estatuto dos stocks de lagostim portugueses foram considerados como "indefinidos", e o estatuto dos stocks da pescada mantinham-se como "sobre explorados".

No entanto, a maioria da pesca no nosso país é artesanal e costeira, feita em embarcações de pequeno porte e pescando para consumo local. Este tipo de atividade tem impacto ambiental geralmente menor do que a pesca industrial, em que são usadas embarcações de grande dimensão e artes de pesca menos sustentáveis como o arrasto.

A pesca em Portugal também é centrada em espécies em bom estado de conservação, o que contribui para reduzir o problema da sobre exploração, como o esforço para que os stocks nacionais da sardinha, espécie emblemática da nossa gastronomia, voltem a ser sustentáveis.

Tendo em conta a atual situação na exploração de pescas a nível mundial e o crescimento da população humana previsto para as próximas décadas, é provável termos de lidar no futuro com problemas cada vez mais graves, relacionados com a sustentabilidade dos recursos pesqueiros. Por isso, é recomendável respeitar os limites de capturas apontados pelos cientistas, para que esses recursos continuem a ser renováveis.

Os recursos naturais são esgotáveis quando usados de uma forma inconsciente, constatando-se que os mesmos são encarados apenas como matéria-prima no que se refere ao seu processo produtivo. Um aspeto fundamental para a mudança, destaca a perceção do mundo encarado como máquina, dando lugar a um mundo como sistema vivo. A mudança exigida diz respeito à perceção da natureza, do homem e da sociedade nas suas diferentes formas de organização. O novo paradigma necessita ser acompanhado por uma alteração positiva e significativa de valores, reforçando o “salto” da expansão para a conservação, da quantidade para a qualidade, da denominação para a parceria.

 

publicado por Brito Ribeiro às 15:15
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