Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

12
Set 14

Esta foi a minha primeira colaboração com a revista "Vale mais", edição Setembro 2014.

 

A Comissão para a Reforma da Fiscalidade Ambiental entregou ao Governo um conjunto de propostas sob a forma de anteprojecto, que merece uma reflexão atenta, pois estão em causa custos não negligenciáveis para os cidadãos.

Uma das principais medidas, aborda a tributação do carbono por via de uma restruturação do Imposto sobre Produtos Petrolíferos (ISP), com impacto directo sobre todo o sistema económico.

Usa-se e abusa-se na aplicação de taxas e impostos específicos, com justificações espantosas. Basta recordar a taxa que foi introduzida no ISP em 2006 para ajudar a pagar as scuts e mais tarde portajaram essas vias, sem nunca ter retirado a taxa no ISP. Além disso, no momento em que o país precisa de alavancar a economia, designadamente com diminuição dos custos de produção, esta taxa sobre a energia tem o efeito contrário.

O caminho tem de ser outro, com medidas criativas, que promovam a redução da quantidade de dióxido de carbono na atmosfera, por via da inovação tecnológica na área industrial, com a criação de parques de estacionamento periféricos e transferes eficazes de transportes públicos nos centros urbanos, com a bonificação fiscal das viaturas menos poluentes (híbridos) e isenção no caso de viaturas eléctricas. A electrificação da Linha do Minho, por exemplo, é uma das medidas regionais que se impõe há muitos anos, sempre foi preterida em favor de outros projectos, quiçá menos importantes.

Uma das propostas do anteprojecto que considero positiva é o incentivo ao abate de veículos com mais de doze anos, pois o número de veículos abatidos tem vindo a descer consecutivamente, mesmo no último semestre, que registou uma recuperação apreciável na venda de veículos novos. Este incentivo ao abate, potencia a compra de veículos novos, menos poluentes e seguramente mais económicos, portanto, mais amigos do ambiente.

A terceira medida que me merece reparo é o imposto sobre o uso de sacos plásticos, a recair sobre o utilizador. Mais uma vez, defendo que há medidas igualmente eficazes na redução do consumo de plásticos, sem ser necessário recorrer à estafada fórmula do imposto. Há uma cadeia de supermercados, que implementou com êxito a oferta de sacos reutilizáveis, cobrando posteriormente o custo real do saco plástico, quando solicitado pelo cliente, conseguindo uma diminuição de 70% no consumo destes descartáveis.

A proposta para introduzir mais um imposto sobre o transporte aéreo, resume bem a filosofia que está subjacente a este anteprojecto, criar mais receitas para o Governo, tendo esta Comissão de Reforma da Fiscalidade Ambiental ignorado a máxima, reduzir, reutilizar e reciclar, além de não induzir ao consumidor nenhum princípio de sustentabilidade ambiental.

 

publicado por Brito Ribeiro às 12:16
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29
Ago 14

A recente decapitação do jornalista americano James Foley elevou o nível de alerta da civilização ocidental para um patamar previsível, mas ainda não realizado. Se a isso somarmos o fuzilamento maciço de militares do Iraque e da Síria, às mãos dos insurgentes islamitas, só temos razões para estarmos preocupados. Duplamente preocupados, acrescento! Por um lado, porque o terrorismo islâmico tem um braço muito longo e pode, querendo, chegar onde deseja. Por outro lado, não posso esquecer que foi George W. Bush e “sus muchachos”, que nos Açores, em 2003, deram o pontapé de saída para a invasão do Iraque, como condição fundamental para a instauração da democracia naquelas terras do fim do mundo.

Ao invés da democracia anunciada, semearam o caos e o ódio ao ocidente, logo aproveitado pelos lunáticos líderes do radicalismo islâmico para pregarem cruzadas contra tudo o que não fosse a interpretação austera dos preceitos islâmicos. Veja-se o caso da Síria, da Líbia e até do Egipto, em que a revolta contra as ditaduras vigentes, colheu a simpatia e o apoio americano e europeu, até se perceber que os revoltosos estavam seriamente infiltrados pelos islamitas, obrigando os mesmos americanos e europeus a “virarem o bico ao prego” e apoiar as ditaduras no poder. No momento que escrevo esta crónica discute-se a possibilidade de os EUA procederem a bombardeamentos aéreos em coordenação com as forças de Bashar al-Assad.

Entre outros sinais preocupantes está o pedido de resgate por parte do autoproclamado Estado Islâmico da Síria e do Iraque, por uma americana sequestrada há cerca de um ano quando desenvolvia trabalho humanitário. Que estado é este e que princípios são estes que usam voluntários abnegados e descomprometidos com os ditames da política e do poder, como escudo, como fonte de financiamento e como moeda de troca para a libertação de terroristas internacionais?

A Europa não pode continuar a reboque dos EUA, nem de tratar estes problemas com pinças, paninhos quentes ou, pior ainda, com retórica. A Europa é uma região tradicionalmente aberta e tolerante, mas isso não pode ser confundido com fraqueza, subserviência e hipocrisia, perante uma ameaça cruel, maldosa e injusta, que viola os nossos princípios civilizacionais, pese embora, reconheça que com os políticos que temos não deveremos esperar muito.

O Mediterrâneo que é uma plataforma geoestratégica fundamental para a Europa e para a sua economia, não pode ser transformada numa rota incontrolável de emigração, que agrava exponencialmente o drama de todos os que procuram fugir da miséria económica e intelectual dos seus países de origem, bem como os problemas dos países de acolhimento, onde são presa fácil de máfias organizadas que os exploram como força de trabalho, onde nunca são assimilados com facilidade pela sociedade e onde acabam invariavelmente por constituir guetos, pasto fácil para o recrutamento subversivo, não raras vezes desaguando na violência, na marginalidade e, em casos extremos, no terrorismo.

publicado por Brito Ribeiro às 11:36
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26
Ago 14

Esta crónica foi escrita há cerca de dez anos e nunca a publiquei, até hoje. Não sei o que me deu (!!!) mas mudei de opinião, talvez por se aproximar a data de aniversário do meu pai que a 2 de Setembro, se fosse vivo, faria 102 anos. Propositadamente não a corrigi e a prosa é bárbara...

 

 

Em 1976 decidi não continuar a estudar, deixei de me enganar e de enganar os meus pais que não mereciam esse embuste de ver o filho todos os dias a sair de casa com os livros.

Fui trabalhar para o Porto, no armazém de artigos de papelaria e escritório, do qual o meu pai era um dos sócios. Esta empresa tinha sido fundada dez anos antes por três colegas, o Ribeiro, o Santiago e o Claudino que trabalhavam noutra firma do ramo, na rua Guedes Azevedo.

Fundaram então a “Sanori”, primeiro na rua Fernandes Tomás e mais tarde na rua do Bonfim, quando a empresa começou a crescer.

Foi nessa empresa que eu aterrei como ajudante de armazém, sem experiência de espécie alguma no ramo. Nem nesse, nem em nenhum outro!

Tinha duas colegas, a srª Cândida que era mais velha e que tinha também trabalhado na anterior empresa com o meu pai e os outros dois; a outra caixeira de armazém chamava-se Eva, uma rapariga toda despachada, que morava ali perto.

Foram elas que me ensinaram os primeiros passos do ofício. A minha última tarefa de cada dia, era varrer o armazém, tarefa que elas gostariam de me aliviar, mas que esbarrava na intransigência do meu pai que dizia “o mais novo é que faz a limpeza, sempre foi assim e não é por ser o meu filho, que mudam as regras”. Mais nada, o velho era rigoroso, mas justo.

 

Aos poucos, fui aprendendo a tratar das encomendas que os vendedores traziam, aprendi a embalar e como já tinha carta de condução, comecei a fazer entregas e despachos. Naquela época, as encomendas eram despachadas por camioneta ou por comboio, assim eram entregues em todo o país, excepto nas ilhas, que eram enviadas através dos transitários, que as despachavam por barco.

Dos três sócios, o Ribeiro era o principal vendedor, o Claudino dava um jeito no armazém e também vendia e o Santiago estava no escritório a tratar dos papéis e das “massas”.

Quem realmente puxava pela empresa era o meu pai, que teve, a dada ocasião, de baixar substancialmente o ritmo de trabalho, porque teve um enfarte do miocárdio. Foi aí que começaram a experimentar-me como vendedor, primeiro com meia dúzia de clientes, nos arredores do Porto e depois em Trás-os-montes e no Douro.

Eu achava uma certa piada ao Claudino, que era um tipo cómico e muito azelha. Talvez por isso é que lhe chamavam “o aranha”. Se era preciso qualquer coisa, assim de repente, o Claudino começava a dar voltas e mais voltas, como uma barata tonta. O homem era um espectáculo e no armazém, pouco ou nada fazia, a não ser estorvar quem lá trabalhava.

O Santiago era o contrário, um indivíduo frio, calculista, que sabia o que queria e o que fazia. Era muito religioso e a certa altura começou a meter-se nos cursos de cristandade, retiros espirituais e coisas desse género. O meu pai tinha uma grande amizade por esse indivíduo e tratava-o quase como um filho ou um irmão mais novo, o irmão que ele nunca tivera.

Eu nunca simpatizei com ele, de início era uma coisa algo irracional, pelo menos não conseguia explicar, por fim tive razões mais que suficientes. O homem nunca me tinha feito mal, a amizade que o meu pai lhe dedicava também não me afligia, mas nunca fui na “bola” dele.

Eu era vendedor a tempo parcial, andava em Trás-os-Montes e no Douro durante duas semanas, voltava para o armazém e lá ficava um mês. Dava-me um “jeitaço” porque recebia comissões sobre as vendas efectuadas, o que significava mais uns cobres para derreter. O Ribeiro vendia no Minho que era a melhor zona, eu vendia no interior norte e o Claudino fazia o resto do país, a um ritmo de “aranha”. Verdade seja dita que eram muitos clientes para visitar. Uma vez por ano, na primavera ia à Madeira e aos Açores vender e por lá “pastava” quase um mês.

 

Entretanto, decidiram comprar umas máquinas de fazer agrafes e passei a tomar conta da produção, o que me dava algumas dores de cabeça, porque era necessário estar constantemente a conferir a qualidade dos “pentes” fabricados. Era necessário muito rigor, andava sempre com o micrómetro e o “peclisse” na mão, a medir isto e aquilo.

Cada vez se vendiam mais agrafes, cada vez nós produzíamos mais quantidades e mais referências, até que concluíram não ser possível continuar com a fabriqueta daquela maneira.

Eu tinha de trabalhar no armazém, tinha de produzir agrafes e tinha que vender, o que significava que as máquinas paravam durante o tempo em que me ausentava. O espaço onde estavam instaladas, tinha sido tirado ao armazém e fazia cada vez mais falta. O barulho era ensurdecedor e não era possível coexistir a produção e o armazém no mesmo espaço.

Foi então que o Santiago veio com a história que o sogro dele queria arranjar qualquer coisa para investir e ele tinha um primo que precisava de trabalhar, tendo proposto aos sócios ficar com as máquinas, montar a fábrica com o sogro no quintal, lá da casa dele. Conseguiu artes de convencer os sócios que era um bom negócio para todos e assim, comecei a dar formação ao tal primo dele, o Mário, um rapaz excelente, que gostei muito de trabalhar com ele. Não saía ao primo!

Regressei ao meu trabalho do armazém e às vendas durante mais algum tempo, até que me entregaram a zona das Beiras e parte do distrito de Santarém. Deram-me uns bons ossos para roer, pois fazia quilómetros sem fim e a rentabilidade era baixa, mas alguém tinha que fazer aquilo!

Foi quando deixei de prestar serviço no armazém e me tornei um vendedor a sério. Começava em Chaves e Bragança e vinha por ali abaixo até Castelo Branco, virava para oeste e ainda fazia Tomar e arredores.

 

Em 1980 casei e no final de 1982, o meu pai que já tinha uma idade considerável, decidiu vender a sua parte na empresa, aos outros dois sócios, o Claudino e o Santiago.

A Sanori era então uma pequena mas próspera empresa, com uma carteira de clientes sólida, não devia nada a ninguém e o armazém estava recheado de mercadoria. Pagava a tempo e horas aos funcionários e aos fornecedores, tinha pela frente um futuro, aparentemente tranquilo.

O negócio que o “meu velho” fez foi, em minha opinião, uma “droga”, pois vendeu a sua cota baratíssima, apesar de haver gente interessada em pagar-lhe um valor superior, teimou em cedê-la aos sócios, com a condição de se manter como vendedor durante três anos, o tempo estipulado para os novos patrões lhe reembolsarem o capital. Vendeu barato e às prestações, que raio de negócio!

A surpresa surgiu ao fim de dezasseis meses quando inesperadamente abriram falência, uma falência provocada pelo Santiago, que descapitalizou ao limite a empresa, sem que "o aranha” do Claudino se apercebesse.

Se o individuo já roubava quando eram três sócios, depois do Ribeiro sair, foi “à farta e à bruta” e nem sequer teve pejo em ameaçar a funcionária do escritório, a Maria Aldina fazendo-a involuntariamente (ou não) cúmplice da sua pulhice, com mais uns trocos ao fim do mês.

Foi a primeira vez que vi o meu pai de “orelha murcha”, face à traição, ao abuso de confiança e à vigarice daquele indivíduo, que tanto estimava. Apetecia-me atirar-lhe qualquer coisa do género “está a ver, eu bem lhe dizia”, mas não tive coragem de o repreender nessa ocasião, pois o seu ânimo já estava de rastos. Quando regressávamos a Âncora, após termos ido pela última vez à empresa, entregar os carros e as colecções de mostruários, no comboio, ele disse-me:

- António, nunca mais fales desse filho da puta na minha frente.

Chocou-me porque ele não era pessoa de utilizar essa linguagem e para mais, quando o meu pai me chamava António é porque estava a falar muito a sério; dali para a frente se por casualidade, lá em casa, alguém se referia a esse gajo, olhávamos um para o outro e procurávamos, de qualquer maneira, desviar a conversa para outros temas. Era um pequeno segredo só nosso, se ele queria pôr uma pedra no assunto, não era eu que o ia contrariar.

Para o desemprego foram todos os trabalhadores, o meu pai ficou sem o dinheiro e eu entreguei o meu caso ao contencioso do Sindicato dos Técnicos de Vendas, que foram impecáveis, conseguindo reaver praticamente toda a indemnização a que tinha direito.

Nunca mais vi os meus antigos patrões, nunca mais soube nada deles, desde 1984, quando isto aconteceu. A única colega com quem contactei, alguns anos depois, foi a srª Cândida, porque veio de passeio até Vila Praia de Âncora e não se esqueceu de me visitar.

Se calhar, pelo exemplo do Santiago, é que ainda hoje, salvo raras excepções, olho com muita desconfiança para os gajos que se armam em beatos, sempre a bater com a mão no peito e a correr para a Igreja.

É que se ainda não a fizeram, estão a preparar-se para a fazer!

publicado por Brito Ribeiro às 14:31

01
Ago 14

Embora de forma breve, já fiz parte do Orfeão de Vila Praia de Âncora. Não propriamente do orfeão, leia-se grupo coral, mas da secção de teatro. Nunca tive voz para cantorias, nem jeito para dançar, mas a certa altura convenci-me que tinha alguns dotes de representação. Se calhar convenceram-me, já foi há tanto tempo…

Não recordo o ano com exactidão, mas foi pouco depois do 25 de Abril. Disso tenho a certeza!

Tudo começou com o Padre Marinho. A direcção do Orfeão “engatou-o” para director artístico do grupo de teatro e para arranjar gente capaz de dar vida àquela secção, já que ninguém queria pegar naquilo.

A cisão no Orfeão, que deu origem à criação do Etnográfico de Vila Praia de Âncora, ainda estava muito fresca e notava-se uma certa indefinição, alguma letargia, mas também muita determinação por parte de alguns elementos. Eu é que não tinha nada a ver com aquilo, mas anui com entusiasmo ao pedido do Marinho, para participar numa peça que ele queria levar à cena.

Deixem-me abrir um parêntesis para vos explicar quem era o Padre Marinho. Os da minha idade lembram-se dele, mas os mais novos não o conhecem. Era pároco em Âncora, seria, no máximo, dez anos mais velho que eu e alinhava com a malta para tudo, perdão, para quase tudo e conseguia dizer a missa em dez minutos, tipo Pepe Rápido!

Era proprietário de um Datsun 1200 e achava-se um grande condutor, o que não era bem verdade. Felizmente nunca teve nenhum acidente, mas que arriscava um bocado, arriscava! Resumindo, era o que se costuma designar por “gajo porreiro”.

Mas dizia eu, que fui parar ao grupo de teatro do Orfeão de Vila Praia de Âncora juntamente com mais um punhado de amigos, mais ou menos a malta que andava a estudar no Liceu de Viana, o “nosso” grupo.

Recordo a Fernanda Neves e a Fernanda Bouças, a Carla e a Nela, o Chico e o Churriba, o Zeca do Morrosó, o Zé da Linha, a Ilda, o Cândido e o Aristides. De certeza que havia mais alguns, mas de momento não me recordo. Como éramos todos novatos em teatro, excepto a Fernanda Neves que já tinha alguma experiencia, o Marinho decidiu ensaiar uma coisa “ligeira” e “fácil”, uma peça de Bertold Brecht, muito em voga nos meios intelectuais de esquerda da época e que se chamava “O que diz sim e o que diz não”.

Uma peça em dois actos praticamente iguais, que só eram diferentes nos cinco minutos finais (do segundo acto). De fácil não tinha nada, nem para os actores, nem para os espectadores, que ficavam completamente baralhados ao começar o segundo acto e ouvirem tudo com no princípio. Mas para uns actores de gabarito como nós, estava tudo bem!

Depois de dois ou três meses de ensaios, com muita borga pelo meio, foi marcada uma saída para participar no Encontro de Coros na Covilhã; o grupo de danças e o grupo de teatro também iam para dar um espectáculo numa aldeia vizinha.

Foi durante uma madrugada do mês de Junho que entramos para o autocarro, cruzamos o Rio Âncora pela Ponte de Estrada Real e rumamos para sul. Se aqui em Vila Praia de Âncora estava bom tempo, conforme nos aproximávamos da Covilhã a canícula ia aumentando, até se revelar um calor abrasador.

Fomos directamente para Unhais da Serra, a tal aldeia que afinal não ficava assim tão perto e lá demos o nosso espectáculo, durante o qual os espectadores barafustaram ruidosamente com frases do género “Estão outra vez a repetir a mesma merda” ou “Que c… de teatro é este?”. Foi uma barraca completa, apesar de não nos enganarmos e fazermos tudo direitinho!

A seguir actuou o grupo de danças que teve de dançar num ringue de patinagem, porque o palco onde nós actuamos era muito pequeno. Assim passamos a tarde à espera do jantar que nos ia ser servido lá em Unhais da Serra. Uma aldeia serrana, os sabores da natureza e nós a contar com os chouriços, as broas, os presuntos, aquele vinho da Cova da Beira…

Afinal, serviram-nos sandes de alface e tomate, água e vinho de garrafão, do mais reles que havia na mercearia. Foi uma grande desilusão e uma grande barrigada de fome.

Regressamos à Covilhã de orelha murcha, a tempo do grupo coral actuar à noite, mas ainda não sabíamos onde iríamos pernoitar. O calor continuava e nem com a noite refrescou.

No final do espectáculo, de regresso ao ponto combinado, junto do autocarro, ainda ninguém sabia onde se iria dormir, logo havendo alguns elementos que decidiram abalar para uma pensão próxima.

Por fim, já depois da meia-noite, apareceu um tipo da organização que guiou os homens até uma escola e as mulheres até um convento. Ahh… Pensavam que ficava tudo junto? Não, não, eram outros tempos e não havia essas confusões! Até havia, mas não se dava tanto nas vistas, percebem?

 

Ainda bem que estava calor, porque o alojamento resumia-se a uns colchões de espuma espalhados pelo chão nas salas de aula, às quais tinham tirado as mesas e as cadeiras. Acho que adormeci madrugada alta, pouco antes de nascer o sol, tendo passado o tempo a fazer todo o tipo de patifarias possíveis. Ainda recordo de ter ajudado a trazer um camarada (com colchão e tudo) para o jardim onde continuou a dormir placidamente, em cuecas.

De manhã cedo, andava o Vasco Moreira, que tinha idade para ser nosso pai, de clarinete em punho, passando pelas salas a acordar a malta, sendo recebido com toda a cerimónia, própria para estes casos “Ó Vasco, mete a gaita no cu”, vai acordar o c…” e outros mimos do género.

O meu pequeno-almoço foi num café perto da praça do município e ao qual voltei muitas vezes, mais tarde, no decurso da minha vida profissional, sempre que pelo sopé da serra pernoitava. Uma sande de queijo e um fino, uma imperial, com se diz para aqueles lados, para espanto do empregado, mais habituado a servir galões e torradas pela manhã.

Depois de todos reunidos, mais uma vez à volta do autocarro, lá arrancamos serra acima, o autocarro ronceiro que fumegava em cada curva, a dúvida residia em saber se conseguiria ultrapassar os desníveis do percurso. O local escolhido para o convívio dos Coros, já passadas as Penhas da Saúde, era aquele vale glaciar enorme, antes da subida para a Torre.

Aí assistimos a uma missa campal e conseguiu-se pôr todos os coros a cantar um hino conjunto. Não estou certo, mas seriam mais de mil e quinhentas pessoas.

No final havia o piquenique e o regresso a casa. Como no dia anterior tínhamos passado fome de cão, ansiávamos por esta refeição, até porque o ar da serra puxa pelo apetite. Não recordo o manjar, recordo a fome com que continuei e a “fita” que foi chegar ao camião onde estava o vinho.

Tudo em fila, de copo na mão, aguardando pacientemente a vez para abrir a cobiçada torneirinha. O Professor Laurentino Monteiro é que não foi de modas, ao chegar a sua vez, bebeu logo dois ou três copos seguidos, começando a ser imitado por muitos outros. Se a bicha andava devagar, passou a andar ainda mais devagar, para desespero dos sequiosos orfeonistas.

No regresso, paramos em Coimbra ou arredores, para comer qualquer coisa ,pois a larica era muita e a viagem iria durar mais algumas horas.

Recordo uma viagem animada, com muita música, muita cantoria e muita brincadeira, novos e velhos irmanados na amizade e no companheirismo.

 

Esta foi a minha primeira e ultima saída com o Orfeão, ainda demos mais um ou outro espectáculo pelos arredores, mas o Marinho acabou por admitir que a peça era “difícil”, face aos repetidos e pouco abonatórios comentários dos espectadores e à nossa recusa em continuar a fazer o papel de bombo da festa. Decidiu ensaiar outra peça, “O espantalho” que ainda era pior que a anterior e por isso deixei de ir aos ensaios, nunca mais retomando o contacto com o grupo de teatro.

Aos poucos, todos foram desistindo, o próprio Marinho também abandonou, assim se perdendo a oportunidade de motivar e de formar gente que pudesse encenar com regularidade peças interessantes. Por mim, peças do Brecht… não, obrigado!

 

 

 

 

 

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 16:21
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23
Jul 14

Nunca estive de acordo com a instalação de um parque radical junto do Dólmen da Barrosa. Disse-o quando estavam a construir, repito-o agora, mais uma vez. Entendo que este tipo de equipamento poderia ter outra localização mais adequada, por exemplo junto à área escolar e das piscinas ou, em alternativa, no Monte Calvário, isto para não se cair na tentação de concentrar no litoral mais um equipamento.

O Dólmen da Barrosa, classificado como Monumento Nacional desde 1910, tem uma área de protecção que foi violada ostensivamente com esta construção, apesar das denúncias feitas por várias entidades, junto do organismo público que tutela o sector. Assistiu-se a um lavar de mãos ou um fechar de olhos, provavelmente por ter acontecido nas vésperas das eleições autárquicas.

É triste quando uma questão de cumprimento da lei, fica sujeita aos humores e às carrancas de interesses alheios. Enfim…

Voltemos à questão principal; junto ao Dólmen, o que deveria ser feito era um centro interpretativo de arqueologia ou, melhor ainda, um núcleo museológico que reunisse o espólio, não só daquele monumento funerário, mas também outros artefactos recolhidos no Vale do Âncora, que estão hoje na posse do Centro Social e Cultural de Vila Praia de Âncora, do NAIAA (Núcleo Amador de Investigação Arqueológica de Afife) e outros.

Não faz sentido haver imensos objectos recolhidos, representativos do modo de vida daqueles tempos pré-históricos e estarem encerrados, longe da vista do público, designadamente dos jovens em idade escolar, sem cumprir a obrigação pedagógica subjacente à sua recolha.

Por outro lado, o conceito actual de museologia, impõe que as colecções e as mostras sejam dinâmicas e esclarecidas, sendo necessário uma vertente de investigação, geralmente associada a pólos universitários. Ora, tendo nós o site specific, que pode ser traduzido de forma muito abrangente como “local apropriado”, não vejo porque se insiste em ideias esdrúxulas, como o parque radical e um campo de vólei de praia, não se avançando com um projecto de valorização cultural do Dólmen da Barrosa e sua envolvente. Ou será que a matriz cultural do Concelho continua a ser festas e regabofes?

Não podia terminar sem denunciar as condições em que encontrei o local, como as fotos documentam. Enquanto estiver lá a Academia de Patins, ao menos que se faça a limpeza de manutenção, de modo a dar ao local a dignidade que merece.

Lixo espalhado pelo piso. Pode-se ver que parte do muro caiu
O outro lado do muro, parte tombado e o restante com "barriga" e em perigo de derrocada
Mais lixo espalhado
Entulho que não foi retirado no fim da obra
Equipamento e entulho que o empreiteiro não retirou
Se é uma tela de protecção devia ter sido coberta com terra
publicado por Brito Ribeiro às 09:49
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22
Jul 14



Foto do final do ano de 1968, com as quatro irmãs. da esquerda para a direita, Felisbela Meira, Arminda Gomes, Maria José Ribeiro e Julieta Castilho.



publicado por Brito Ribeiro às 11:46

07
Jul 14

Desde que António Costa começou a falar para o exterior, deixando a discussão quezilenta do entre muros partidário para um único protagonista, sentiu-se uma brisa fresca a trespassar a modorra bolorenta da crise e das desgraças anunciadas a vozes contraditas, de quaisquer esganiçados do governo.

Costa está a falar para os socialistas de sempre e para aquele milhão de eleitores que alteram frequentemente o sentido do seu voto. Finalmente há alguém a pensar em português, depois de anos de oposição segurista, a mastigar um combinado de puré e óleo de fritar churros, sem coerência, sem garra e sem mobilizar expectativas, como se confirmou no último acto eleitoral, mostrando que há novas formas de intervenção no espaço público, à custa da destruturação dos velhos modelos.

Aconteceu pela primeira vez em Portugal que a intervenção no espaço público rasgou as barreiras da formalidade desse mesmo espaço, não disfarçando a fraca representatividade que o actual sistema político revela, traduzido nos níveis recorde de abstenção e no aumento da base eleitoral dos partidos, ditos anti-sistema.

Não foi por acaso que A. J. Seguro, após ser eleito secretário-geral, alterou os estatutos do partido, entrincheirando-se de qualquer ataque à sua liderança até às próximas legislativas. A cereja em cima do bolo é a questão das primárias, oferecida como alternativa ao congresso, exemplo maior das boas práticas socialistas.

Quem não deve, não teme e Seguro mostrou que teme e mal se segura nas canetas, por muitas contas que faça, por muitas federações a que se alape, por muitas espingardas que imagine ter.

Desenganem-se todos aqueles que vêem em Costa a salvação messiânica, a cura para todas as maleitas, qual anti-inflamatório genérico, que podemos prescrever a eito.

Não faço parte desse grupo, mas parece-me que não há comparação entre o pensamento estruturado de Costa e a postura engaiolada de Seguro. Agora que foi empurrado para fora da dita, encontra em cada esquina motivo para denegrir o seu adversário, deixando aos seus desesperados apoiantes a tarefa de esbracejarem ao governo. Se não fosse pelo dramático da situação, seria interessante ver Seguro a formar governo com sapientes ministros, como Álvaro Beleza, Eurico Brilhante Dias, Carlos Zorrinho, João Proença ou Alberto Martins.

Mas o avanço e disponibilidade de Costa, não importunaram apenas o ainda secretário-geral do Partido Socialista. Foi um murro no estomago do governo, do PCP e de um Bloco de Esquerda frágil e desavindo. A emergência de Costa como candidato a líder do PS, face aos estatutos internos e outros condicionalismos do modelo partidário actual, nunca seria possível se não tivesse encontrado na sociedade civil acolhimento tal, que se impôs ao partido e ao seu "aparelho".

Costa sabe que tem de pescar à esquerda eleitorado imprescindível para chegar ao poder, abrindo o espaço natural dos socialistas, fugindo do pântano central onde tantas vezes se refugiam e onde são invariavelmente esmagados pelos partidos de direita.

publicado por Brito Ribeiro às 16:47

06
Jul 14

A revista Domingo do Correio da Manhã, publicou hoje um artigo sobre o passado da nossa praia, para o qual dei um pequeno contributo, cedendo algumas fotos e informações aos jornalistas Marta Silva e José Lima.

 

publicado por Brito Ribeiro às 11:10

05
Jul 14

Este é um documento inestimavel da vivencia nos mares do norte, partilhado na primeira pessoa, onde os nossos conterrâneos labutavam em condições muito duras.

Ora para fugir à fome, ora para escapar ao serviço militar, a ida ao bacalhau passou de geração em geração até ao advento da democracia, quando as condições infra humanas praticadas, foram contestadas e irradicadas.

Em boa hora a Câmara Municipal de Caminha decidiu reunir para memória futura este conjunto de testemunhos, que contribuem decisivamente para se escrever a história deste povo marinheiro.

publicado por Brito Ribeiro às 16:00
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22
Jun 14

Depois de ter publicado o post sobre o afundamento do "Maria Carlota", bacalhoeiro à linha onde dois Ancorenses trabalhavam, recebi diversas informações que devo partilhar neste espaço.

O Sebastião Simões tinha por alcunha "o Lonzinho", casado com a "Pinotas", eram moradores na Rua do Sol Posto. O Francisco Pires Oliveira, conhecido por "Chico das Pontas" foi viver para Almada onde nasceram cinco filhos.

Ficha de inscrição e matrículas no Grémio do Chico das Pontas

O barco que resgatou os naufrafos do "Maria Carlota" foi o navio hospital americano USAHS Charles Stafford, deixando-os em Nova York, de onde regressaram a Portugal. Ambos apareceram em Vila Praia de Âncora com roupa nova e de boa qualidade, segundo testemunhas que ainda se recordam dos casacos vistosos que o Lonzinho e o Chico das Pontas envergavam.

publicado por Brito Ribeiro às 15:16
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