Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

05
Abr 14

A propósito de Isabel Jonet, já teci uns breves comentários à sua afirmação que os desempregados passam demasiado tempo nas redes sociais em vez de procurarem emprego. Sobre essa mesma matéria encontrei um artigo da historiadora Raquel Varela que não resisto a reproduzir.

Diz ela que a afirmação de Isabel Jonet carece de bom senso, mas sobretudo é falsa. E continua...

 

"Se os desempregados fossem todos à procura de emprego haveria na mesma 1 milhão e 400 mil pessoas desempregados. Os mesmos que há com os desempregados “a passar o tempo nas redes sociais”.

Há 1 milhão e 400 mil desempregados porque há 1 milhão e 400 mil postos de trabalho que não estão a ser utlizados de propósito. O Governo decidiu uma política recessiva que permita recuperar as taxas médias de lucro na produção e que o Governo definiu no próprio Orçamento de Estado: fazer cair o PIB, encerrar fábricas e empresas e criar ainda mais desemprego (cito o Relatório do Orçamento de Estado 2013). 

Isto faz-se desempregando pessoas, aumentando a jornada de trabalho para que um faça o trabalho de dois, intensificando tarefas (dando cada vez mais trabalho à mesma pessoa), aumentando impostos para fazer falir pequenas empresas (restaurantes, cabeleireiros, cafés, lojas), regulando a existência de estágios para exercer profissões (não obrigando à sua remuneração, por exemplo). A consequência disto é a médio prazo quebras na produtividade, os que trabalham estão exaustos e o número de esgotamentos duplicou e aumentou o número de acidentes de trabalho.

 

É preciso ainda recordar, e surpreende-me que a presidente de uma associação humanitária o desconheça, que a maioria dos desempregados não tem condições para procurar emprego.

Para procurar emprego é preciso dinheiro (para imprimir currículos, deslocar-se para ir a entrevistas, ter acesso à Internet e a jornais, telefonar); porque as hipóteses de ter emprego aumentam se as pessoas têm saúde, dentes arranjados, estão bem vestidas, etc; porque para procurar emprego é preciso ter iniciativa e muita gente está paralisada pela depressão do desemprego; porque para procurar emprego é preciso ter de enfrentar propostas salariais que não justificam sair de casa como hoje é comum: um call center onde se ganha, trabalhando 6 dias por semana, 9 horas por dia, 480 euros. Basta juntar a alimentação e viver num subúrbio com um passe social de 70 ou 80 euros para já não compensar trabalhar.

 

 

A economia clássica dizia que o crescimento económico levava a um crescimento dos salários e esse crescimento dos salários levaria a um crescimento da população e o crescimento da população iria controlar o crescimento do próprio salário (muita gente para trabalhar). É uma visão ricardiana, que os clássicos foram buscar a Malthus. Karl Marx veio dizer que esta é uma pequena parte da história – a menos importante.

Porque há um outro factor, mais determinante para manter os salários baixos, aquilo que ele designou como exército industrial de reserva – uma gigantesca massa de desempregados. O desemprego é, no modo de produção capitalista, a forma mais rápida de baixar os salários, porque quem está empregado sente-se ameaçado de perder o emprego e aceita a redução das condições laborais.

 

Não é no entanto necessário qualquer desempregado. Por exemplo, para fazer descer os salários dos advogados é preciso advogados desempregados; para baixar o valor dos salários dos professores é preciso professores desempregados, e por aí fora. Por isso hoje a função da escola é, cada vez mais e de forma mais rápida, formar pessoas que desconhecem a totalidade, não têm raciocínio abstracto, mas dominam tarefas e competências (podem rapidamente estar aptas a entrar no mercado de trabalho – é isto que mede o PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) e por isso Portugal está melhor no PISA, para que fiquem rapidamente desempregados e assim pressionem para baixo os salários. O Processo de Bolonha, o ensino dito profissional ou as novas oportunidades são a expressão desta necessidade de formar o mais rápido possível desempregados – hoje este é o objectivo principal das políticas de educação, do básico ao superior.

 

E, afirmo-o sem qualquer dúvida, fazer desempregados é o objectivo principal da política governamental, se olharmos a economia na sua totalidade.

Sem um rumo de ruptura com estas políticas, vai haver cada vez mais desemprego porque o desemprego é a chave da “saída” da maior crise histórica do modo de produção capitalista desde 1929.

 

É preciso lembrar ainda que:

1) Portugal tem no desemprego 1 milhão e 400 mil pessoas aptas para trabalhar

2) um país que precisa que se produza bens e serviços

3) não utiliza toda a capacidade instalada (investimentos, máquinas etc.)

4) os bancos estão inundados de dinheiro e não fazem investimentos, nem os chamados “grandes empresários” porque a remuneração do investimento via títulos da dívida pública é maior e mais segura, e porque as grandes empresas funcionam em regime de monopólio, não estão sujeitas à competição que podia levar a mais investimentos – no caminho morrem as PME porque a maioria depende das encomendas destes monopólios.

 

E tudo isto existe porque existe uma lei da gravidade do modo de produção capitalista – a queda tendencial da taxa de lucro que se deu efectivamente e que levou a uma brutal e inédita desvalorização da propriedade, cuja expressão foi a falência bancária em 2008.

 

O euro está à beira do seu fim, hoje estas empresas grandes vivem o pânico da deflação e tudo é legítimo para evitar o inevitável, mesmo que no caminho deixem 1 milhão e 400 mil pessoas na desumana situação de não terem como viver. O direito ao trabalho é o direito à vida e, como bem social que é, o trabalho deve ser divido por todos e todos trabalharem. Não existe nenhuma solução realista para o nosso país que não seja a redução do horário de trabalho sem redução salarial. Todas as outras medidas são inúteis e não trarão qualquer resultado.

Muitos dos desempregado estão hoje nas redes sociais não como uma forma particular de socialização, mas como a única forma que têm de ter contacto com o mundo porque não podem pagar transportes, jantar fora, ir ao cinema ou a um concerto ou sequer ao café. Em Portugal há 47% de pobres antes das transferências sociais.

 

Tenho porém um acordo com Isabel Jonet. Os desempregados têm de sair das redes sociais e passar a organizar-se socialmente, não para irem trabalhar por 432 euros e pedir comida ao Banco Alimentar metade do mês, mas para pôr fim a este modelo social de destruição. E sobre ele construir um mundo menos injusto, mais igual e – também – mais livre."

 

Raquel Varela, Historiadora

 

publicado por Brito Ribeiro às 12:28

02
Abr 14

Texto de Rita Bouça publicado no jornal digital Caminha2000 (www.caminha2000.com)

 

É muito difícil conhecer com exactidão em que época os portugueses iniciaram a faina da pesca do bacalhau, na medida em que se encontra intimamente ligada à história dos Descobrimentos Portugueses, dos séc. XV e XVI

Porém, é conhecido que já no início do século XVI havia na Terra Nova grupos de pescadores oriundos de Aveiro e Viana, muito embora não fosse provável a existência de uma frota bacalhoeira organizada nesse tempo.

Mais tarde, já no reinado de D. Manuel I, foi o porto de Aveiro que mais pescadores enviou à Terra Nova.

Numa carta escrita em 1578 por um mercador de Bristol, Anthony Parkhurst, referindo-se à Terra Nova, é dito que: "Havia ali, em geral, mais de 100 velas espanholas pescando bacalhau, 50 velas portuguesas, 150 velas francesas e bretãs e 50 velas inglesas".

Durante o reinado de D. Sebastião a pesca do bacalhau continuou a desenvolver-se de forma activa.

Quando Portugal ficou sob o domínio Filipino aquela actividade sofreu um declínio assustador devido à trágica organização da Armada Invencível da responsabilidade de Filipe II de Espanha. Foram requisitados os navios que tivessem as melhores condições para as diferentes manobras de guerra e a frota portuguesa da pesca do bacalhau foi drasticamente arrasada, de modo que em 1624 não existia nenhum barco nos portos de Aveiro e Viana que pescasse na Terra Nova.

Foi preciso decorrer muitos e muitos anos até que Portugal recuperasse daquele fatídico desastre e só a partir do Séc. XIX o país passou a viver da importação do bacalhau, que se tornou no principal alimento de consumo corrente e com real significado na economia nacional.

No entanto, é no período que vai de 1830 a 1901 que se verifica um gradual crescimento da nossa frota pesqueira, embora devido a pesados emolumentos fiscais essa expansão não deixava produzir os resultados expectáveis.

A partir de 1901 em diante a frota bacalhoeira começa a ver resultados e é com este avanço que fica conhecida como "Época Heróica" e nesta época os pescadores portugueses exerciam a sua faina no Grande Banco que pertencia ao Banco da Terra Nova.

As condições de trabalho eram deveras difíceis, não só pelo rigor climatérico, mas também a rudimentar "pesca à linha" era o único método utilizado. Em que consistia? Cada navio de pesca à linha transportava entre 40 a 60 dóris, empilhados no convés. Os dóris eram botes de cerca de 4 metros com fundo chato. Os dóris eram colocados na água e cada pescador partia sozinho em busca de um local onde lançar as linhas. A pesca era feita com 20 linhas ligadas entre si formando aquilo a que se chamava um " trol ". O " trol " levava mil anzóis com iscos que podiam ser lulas, sardinhas, vísceras de cagarras ou de outras aves marinhas. No fim do dia de trabalho, o navio — mãe tocava um sino ou uma sirene e então os dóris regressavam. Os bacalhaus eram descarregados no convés e aí começavam a ser preparados para salgar nos porões.  *

Passado cerca de trinta e poucos anos, mais precisamente em 1934 o método arcaico de pesca — "pesca à linha" — mantinha-se inalterado. Apesar de tudo, o Estado Novo começa a manifestar interesse pela indústria bacalhoeira. A reconversão da frota de pesca "à linha", em arrasto, poderia ser uma possibilidade. No entanto, os armadores entendiam que se tratava de um investimento dispendioso e difícil de concretizar. Verificou-se que à medida que as embarcações iam ficando sem utilidade a sua natural substituição acontecia.

Porém, até aos anos sessenta os lucros obtidos pelos armadores, à custa de uma exploração de mão-de-obra sem limites, não se destinavam à modernização da frota, mas pelo contrário, à armação de novos navios.

Tratava-se de uma mão-de-obra  miserável, sem condições de trabalho, oriunda principalmente do distrito de Viana do Castelo e Póvoa de Varzim, composta essencialmente por homens que para escaparem à guerra das colónias também passaram a vir de todo o País. O governo da altura decidiu equiparar sete campanhas de pesca à linha (sete anos) ao cumprimento do serviço militar. Serviam durante 5 anos seguidos ou seis intercalados. Era quase escravatura. Apesar de tudo a produção nacional do bacalhau aumentou significativamente até 1967.

 

No entanto, a nossa frota pesqueira nunca poderia competir com as de outros países europeus que possuíam navios tecnicamente mais preparados para a pesca de arrasto. Os armadores portugueses não equiparam as embarcações com as condições exigidas para que as frotas pesqueiras pudessem enfrentar as difíceis condições climatéricas que frequentemente fustigavam as zonas da pesca do bacalhau. Assim, havia períodos de longas paragens que favoreciam a faina dos outros países.

Apesar de tudo, a produtividade foi-se mantendo, provavelmente devido ao "benemérito" Estado Novo que criou um sistema de protecção à pesca nacional criando créditos com baixos juros e até subsídios não reembolsáveis. Será importante dizer que os destinatários desses benefícios eram grupos pertencentes ao corporativismo instalado no conhecido tempo do Estado Novo (Ver "Henrique Tenreiro — Um biografia política" de Álvaro Garrido, edição Círculo de Leitores e Temas e Debates).

As restrições à pesca em águas internacionais, a partir de 1967 e ampliadas a partir dos anos 70 devido à escassez dos recursos biológicos e à crescente competição internacional, são as primeiras causas de ordem externa determinantes para o início da crise na actividade.

No que concerne às causas internas será importante referir que a indústria bacalhoeira nunca acompanhou a de outros países devido à falta de visão na renovação e modernização das suas frotas, mantendo uma estrutura débil e pouco organizada. Por outro lado, os pescadores desta faina cansados de uma vida de autêntica escravatura começaram a repensar o seu "modus vivendi" e encontraram na emigração novas formas mais vantajosas de vida, partindo para a Alemanha, França onde o trabalho seria mais compensatório e a sua dignidade mais respeitada.

A 25 de Abril de 1974 assistia-se já a uma morte anunciada da indústria bacalhoeira tendo atingido o verdadeiro fim a partir de 1986, aquando da entrada de Portugal na União Europeia.

 

 * https://www.youtube.com/watch?v=Rez67FA6ZxQ

 

BIBLIOGRAFIA:

BALDAQUE DA SILVA, António — Estado actual das Pescas em Portugal (1892)

LOPES, Ana Maria e MARQUES, Francisco — Faina Maior - A Pesca do Bacalhau nos Mares da Terra Nova (Quetzal,1996)

MOUTINHO, Mário — História da Pesca do Bacalhau (Estampa, 1985)

Museu Marítimo de Ílhavo, Âncora Editora, 2008

QUIRINO DA FONSECA, Henrique — Os Portugueses no Mar (Dinalivro, 1989)

SAMPAIO, A — As póvoas marítimas, Estudos Históricos e Económicos, Vol. I Porto, 1923.

 

Rita Bouça

 

publicado por Brito Ribeiro às 11:23
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10
Fev 14

Pesquisa efectuada por "Reimar" e publicada no blog naviosenavegadoresblogspot.com

Viana do Castelo, 27 – Mar agitadíssimo, ontem (26), na barra. Quase maré feita avistam-se ao largo dois lugres: o “Gaspar e o “Brilhante”, que nos seus porões conduzem o resultado da pesca, que fizeram nos bancos da Terra Nova durante seis longos meses. Em terra, a corporação de pilotos prepara-se para, nas catraias e no gasolina se colocar na boca da barra a fim de, com sinais, indicar a entrada dos navios, que avançam.
De sobre os cais e em pontos altos, muitas pessoas assistem ao grandioso espectáculo que lhes proporciona o mar embravecido, a abrir as suas faces, parecendo querer tragá-los, fugindo, impelidos pelo vento, à sua fúria. O “Gaspar” adianta-se e o “Brilhante” fica-se a perder de vista, parecendo não poder puxar devido a qualquer avaria na mezena.

Lugre Gaspar

Do semáforo fazem sinais que do “Gaspar” dizem não distinguir; mas o soberbo veleiro, como que a envaidecer-se da sua marcha, vem garimpando e toma as marcas da barra, como se a bordo viesse o mais experimentado prático. É que o seu arrojado comandante, o sr. Manuel Mendes, bravo e sabedor marinheiro, sempre que entra no porto, toma tento que não desperdiça para dele fazer uso nas ocasiões difíceis, em que o mar, umas vezes brincalhão e outras desleal e cobarde, lhe queira pregar partida. E assim, altivamente, velas enfunadas, a dois rizes, o lindo lugre, umas vezes cortando as vagas, outras vezes por elas varrido de proa à popa, entrou a barra e foi ancorar no Cabedelo, onde se encontra.
No mar ficou o “Brilhante” que, mais tarde, se fez ao largo, visto a noite parecer apresentar-se de mau cariz, como, efectivamente se apresentou, soprando vento rijo e trovejando fortemente. Às 9 da noite ainda foram vistos os seus faróis.
A chuva causou enxurradas. A violência do temporal fez cair o tapamento que separava o recinto da doca de uma cordoaria, que lhe fica adjunta, esgalhou árvores, partiu beirais dos telhados, claraboias e vidraças e escangalhou a barraca de um fotógrafo ambulante, que tinha assentado arraiais na Nova Avenida. No auge da tempestade pareceu que a terra estremecia e, segundo algumas pessoas esse tremor teria mesmo sido ocasionado por um abalo de terra.
Hoje, logo de manhã, mulheres do bairro piscatório e alguns pescadores foram para o alto da Senhora da Conceição da Rocha ver se no mar se divisava o lugre “Brilhante” que, na opinião dos entendidos, deve ter amarado o mais possível. Até agora ainda não apareceu. É provável que arribasse a qualquer porto espanhol.
A bordo do “Gaspar” vem um pescador do lugre “Esposende 3º”, de Caminha, que foi encontrado num dóri, no dia 21 de Agosto. Tinha uma grande ferida no pulso esquerdo, de muito mau aspecto, e que lhe ia contaminando o braço. O capitão do “Gaspar”, sr. Mendes tratou-o carinhosamente. Parece incrível que se deixe ir para o mar, a bordo de um destes navios, um homem no estado como foi encontrado o pobre pescador.
(In jornal “Comércio do Porto”, Domingo, 28 de Outubro de 1923)

publicado por Brito Ribeiro às 16:39
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27
Jan 14

Da autoria do Prof. Paulo Bento esta crónica deliciosa sobre a Praia d'Âncora e as suas gentes. Não resisti a publicá-la!

 

Ainda não tinha passado um ano da instauração da República, quando as ameaças monárquicas ao novo regime, protagonizadas por Paiva Couceiro, obrigaram à mobilização de tropas governamentais para o norte do país. Entre julho e dezembro de 1911, militares da Armada andaram regularmente pelos concelhos da raia alto-minhota, entre os quais Caminha, patrulhando a fronteira e prevenindo as conspirações realistas. Um dos destacamentos ficou estacionado na Praia de Âncora, trazendo uma nota de animação ao quotidiano daquela terra de coração republicano: "Bom exemplo de patriotismo acaba de mostrar um pequeno grupo de marinheiros aqui destacado. No passado domingo [5 de novembro], com uma criança vestida de República e acompanhada da banda musical desta freguesia [Gontinhães], percorreu as ruas e lugares desta praia, angariando donativos para a subscrição a favor da compra dum novo cruzador" (jornal Folha de Viana, 7-11-1911).

Como era costume ao tempo, nas localidades onde não havia instalações castrenses, as praças, sargentos e oficiais ficavam alojados e alimentavam-se em casas particulares, em arranjos negociados pelos próprios com os moradores.

Apesar da norma ser o bom relacionamento entre militares e populares, por vezes esses tratos desencadeavam alguns problemas, como sucedeu no caso que aqui trazemos. Enviado da Praia de Âncora, datado de 10 de julho de 1912, sem dúvida redigido por mão ilustrada, provavelmente de bacharel de Direito, assim constava um requerimento dirigido ao Ministro da Marinha:

"Miguel Lourenço, viúvo, taberneiro, morador na Praia d'Âncora, freguesia de Gontinhães, concelho de Caminha, vem respeitosamente expor a V.Ex.ª o seguinte. Quando, de Setembro a Dezembro de 1911, permaneceu aqui um destacamento das forças da Marinha, foi o supp.[ra citado] quem, do seu estabelecimento, lhe forneceu géneros alimentícios, por intermédio de Manuel Martins, cabo nº 762, da Divisão dos Reformados da Armada, residente nesta Praia.

Este requisitava e recebia os géneros, só entregando algumas quantias por conta do débito. Aconteceu, porém, que a força foi retirada, ficando nessa altura um saldo a favor do supp.[ra citado] de Rs. 20.845. Por bastas vezes o supp.[ra citado] tem exigido, em particular, ao referido Manuel Martins, o pagamento deste saldo; mas ele obstina-se em não o pagar, alegando que não recebeu das praças.

Ora o supp.[ra citado] é pobre, vivendo exclusivamente do seu pequeno negócio, de onde tira o parco sustento para si e para os quatro filhinhos, e esta quantia, em absoluto pequena, representa todavia um desequilíbrio notável nas suas ténues finanças, caso tenha de perdê-la.

Bem sabe o supp.[ra citado] que, nos termos gerais do Direito, devia accionar o devedor ou devedores; mas este expediente, mesmo na melhor hipótese de vencimento, seria nulo nos seus efeitos, pois que na execução da sentença nada encontraria para penhora, visto que os devedores — praças da Armada — nenhuns bens naturalmente possuem. Apenas lhe resta um meio: pedir a V.Ex.ª providências tendentes a compelir os devedores ao pagamento, por meio de equitativo desconto no seu pret [vencimento] em um ou mais meses.

Exmº. Sr. Ministro: é justa a pretensão do supp.[ra citado], como justo é que, sobre esses briosos e valentes patriotas, nunca pese a mais leve suspeição de um acto menos correcto....".

 

 

 

Reagindo com celeridade à queixa do taberneiro da Praia de Âncora, o Ministro da Marinha — à época Francisco Fernandes Costa (1857-1925) — despacha o assunto para a Majoria General da Armada. Este departamento abre um processo de averiguações e, através da Direção Geral da Marinha, incumbe o capitão do porto de Caminha — o Capitão-tenente José de Abreu Barbosa Bacelar (1866-1946) — de "ouvir o reclamante Miguel Lourenço e o intermediário Manuel Martins, e informar do que for possível apurar". Assim sucedeu no dia 2 de agosto, nas dependências da Capitania, sendo primeiro chamado o reclamante que, interrogado, reafirmou as suas razões, explicitando que os géneros por si fornecidos eram para "sustentação do destacamento de marinheiros que comiam em casa dele [Manuel Martins] conjuntamente com ele e família... seriam aproximadamente sete [praças] e o mais graduado era um sargento". De seguida foi a vez do cabo reformado ser inquirido. Começou por esclarecer não ser o assunto um trato seu — "foi minha mulher que ficou com esse negócio" — e acrescentou que, se primeiro o destacamento vinha apenas dormir a Âncora, "voltando para Caminha na manhã do dia seguinte", depois, "como se fosse mais prático ficar permanentemente em Âncora... entrou em negociações para darem em Âncora de comer". Manuel Martins acabou contudo por reconhecer que tinham recebido integralmente as quantias devidas por parte dos marinheiros e que não saldara contas com o taberneiro porque "só há pouco soube desta dívida de minha mulher", declarando-se no entanto disposto a "pagar a Miguel Lourenço... por pequenas deduções nos meus vencimentos". Afinal, como sentenciaria dias mais tarde a Majoria General da Armada, "em virtude das investigações promovidas...se conclui tratar-se de uma dívida entre particulares...o cabo não pertencia ao destacamento, e as praças deste não ficaram a dever nada".

 

 

Ficamos sem saber ao certo se Miguel Lourenço alguma vez recebeu a totalidade da dívida contraída pela mulher do cabo reformado mas, em contrapartida, cremos que uma terceira parte pode ter beneficiado deste caso. Um ano decorrido sobre os acontecimentos acima narrados, talvez premiando o expediente no apuramento dos factos e consequente desagravo da honra da Marinha, era publicada no Diário do Governo de 11 de setembro de 1913 a nomeação do "capitão-tenente, José de Abreu Barbosa Bacelar, para o cargo de chefe da segunda secção da 2ª Repartição da Majoria General da Armada". No prosseguimento da sua carreira militar, o antigo capitão do porto de Caminha dos tempos da República ainda atingiria a prestigiada patente de Contra-almirante. Quem sabe se não foi decisivo o empurrãozinho do processo do calote do taberneiro da Praia de Âncora?

 

REFERÊNCIAS

Paulo Torres Bento (2010). Da Monarquia à República no concelho de Caminha. Caminha: Edições Caminha2000; Direcção Geral da Marinha — 2ª Repartição. Processo nº 424, Julho e Agosto de 1912. Arquivo Geral da Marinha; Diário do Governo, 13 de setembro de 1913.

 

Um agradecimento muito especial ao nosso amigo ancorense Paulo Barreto, homem de muitas e variadas artes e saberes, que nos fez chegar os documentos que suportam esta crónica e nos desafiou a escrevê-la.

publicado por Brito Ribeiro às 10:22

04
Jan 14

Aurora desperta a razão

Nas águas agitadas do mar gélido

Como gigante impondo a vontade

Ao pobre pescador aperta o coração

Por a maresia não fazer sentido

E amarrá-los em terra à mendicidade

 

Terras a dentro vão em procissão

Casa a casa pedem pão

Arrastam os tamancos pelo caminho

As lajes testemunham a submissão

Homens famintos com o grilhão

De filhos que esperam bucha e carinho

 

A brisa virou a noroeste

O mar engole a espuma e as mágoas

Retira-se para onde impera

A refrega já não é agreste

Redes, anzóis, velas e masseiras

Vamos ao mar que arribou a primavera

 

Para trás fica a triste lembrança

A fome e a miséria aplacadas

Com côdeas e caldos magros

O Senhor dos Aflitos lhes dá esperança

A agulha os guiará pelas águas diáfanas

Peixe será ouro nos seus desejos

publicado por Brito Ribeiro às 16:36

26
Nov 13

Uma década após o encerramento da Empresa de Lacticínios Âncora, aconteceu no dia 23 de Novembro um jantar de antigos funcionários desta unidade industrial de referência para o Vale do Âncora. Na Quinta do Cruzeiro reencontramos antigos colegas, revisitamos memórias, aplacamos saudades.

Não vieram todos, mas marcaram presença os que puderam e quiseram manter viva a família dos que labutaram na “Fábrica do Leite”. Estiveram aqueles que ultrapassaram as mágoas e o desânimo causado pelo encerramento desta empresa, que causou grandes transtornos à vida de cada um de nós.

Uma palavra de reconhecimento para os organizadores que proporcionaram este convívio, na convicção de que esta iniciativa se irá repetir cada vez com mais aderentes. Ao fim ao cabo somos uma grande família.

publicado por Brito Ribeiro às 16:29

22
Nov 13

Crê-se que este cruzeiro pertencia à Igreja de Bulhente. O século XII é apontado como a época provavel da sua construção.

Foto dos anos cinquenta. O cruzeiro estava no caminho da Retorta. Mais tarde foi transferido para a rampa do Calvário.
publicado por Brito Ribeiro às 16:31

09
Nov 13

Texto e fotos do Prof. Paulo Torres Bento, publicado no jornal digital Caminha2000 sobre a primeira escola pública de Gontinhães

 

Uns pontos mais sobre a Escola do Santo

 

Reza o provérbio que "quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto". Não se tratando em rigor de um conto, mas de História — a da educação no concelho de Caminha —, vimos a terreiro acrescentar mais uns pontos a um recente artigo sobre a Escola do Santo, a primeira escola pública da freguesia de Gontinhães (desde 1924, Vila Praia de Âncora), da autoria dos nossos amigos do Nuceartes.

Utilizando como fonte principal uma ata da Junta de Paróquia, aí se relata o evento do dia 6 de novembro de 1879 em que, na presença de diversas personalidades da região — o governador civil Rocha Páris e o deputado do círculo António Xavier Torres e Silva, entre outros —, foi formalizada a oferta do edifício à mesma junta pelo comendador António Manuel Alves do Rego. Tratava-se de um "brasileiro" que regressara rico à terra natal depois dela ter emigrado pobre em 1836, com dezasseis anos de idade, e o seu ato benemérito vinha possibilitar a abertura de uma escola de instrução primária para rapazes, como outrora ele fora, numa freguesia onde continuava a não haver educação pública, com a vantagem adicional do imóvel servir também para sala de reuniões da própria Junta de Paróquia de Gontinhães.

 

A partir deste documento, poder-se-ia pensar que a nova escola, devidamente arranjada e mobilada a expensas de Alves do Rego, estaria pronta a receber de imediato os primeiros alunos. Mas assim não aconteceu. Na verdade, porque as obras não estivessem ainda finalizadas ou por outra qualquer razão que desconhecemos, passaria quase mais um ano para que, em setembro de 1880, a Câmara Municipal de Caminha fizesse a obrigatória representação ao governo para "a criação duma cadeira de ensino primário para o sexo masculino na freguesia de Gontinhães porque, agora, a Câmara possui uma casa e mobília em magníficas condições em virtude da doação que lhe foi feita pelo Exmº. Comendador António Manuel Alves do Rego". Para reforçar o pedido, a edilidade adiantava que a freguesia de Gontinhães comportava 345 fogos e 1550 almas, entre as quais 119 meninos e 124 meninas e "não tem escola nenhuma, particular ou régia para o ensino primário" — no vale do Âncora, só as havia então em Âncora e Riba de Âncora (Ata da CMC, 15-09-1880).

 

A resposta de Lisboa até foi relativamente célere para os padrões portugueses já que terá chegado a Caminha antes ainda do final de 1880, de modo a preparar a grande inauguração para os primeiros dias do ano seguinte. Foi assim que na manhã de 9 de janeiro de 1881 o presidente da Câmara Municipal, comendador Domingos José Pereira, apanhou o comboio em Caminha para, pouco minutos depois, descer na estação da Praia de Âncora. Para nossa sorte e honra dos ancorenses, os sucessos desse dia de festa para Gontinhães, em que a Escola do Santo abriu as suas portas, ficaram registados para a posteridade porque foram alvo da atenção de uma prestigiada figura dessa época — D.António da Costa — que os incluiu no seu livro "Auroras da Instrução pela iniciativa particular", publicado três anos mais tarde, em 1884.

 

 

 António da Costa de Sousa Macedo (1824-1892), de seu nome completo, era nobre por nascimento como filho do conde de Mesquitela, tendo sido um alto funcionário administrativo, deputado e, no seguimento do seu particular interesse pelas questões educativas, o primeiro titular do Ministério da Instrução Pública, criado em 1870, lugar onde desencadeou uma série de importantes reformas. Humanista ilustrado, foi um escritor prolixo, muito apreciado pelos seus contemporâneos, contando-se entre as suas obras O Casamento Civil (1865), Necessidade de um Ministério de Instrução Pública (1868), A Instrução Nacional (1870), História da Instrução Popular desde a Fundação da Monarquia até aos Nossos Dias (1871) e No Minho (4). Este último, um livro de viagens, trouxe-o até à vila de Caminha — cujas belezas lhe mereceram fartos elogios — e também, de passagem, à Praia de Âncora: "povoação de banhos habitada agora por muitas famílias do alto Minho. Ahi choveu, e tornou a estiar". Foi certamente nesta ocasião que D.António da Costa ficou a conhecer a realidade educativa do concelho caminhense que, anos depois, quando redigia um dos seus derradeiros escritos, destacaria através do relato da inauguração da Escola do Santo, que a seguir se transcreve mantendo rigorosamente a ortografia original:

 

 

 "Está Gontinhães toda em festa no dia 9 de janeiro de 1881, arcos, bandeiras, foguetes, musicas; as familias ás janellas desconhecem a sua propria terra. No extremo, acabada de edificar e mobilar quasi sobre uma collina, bafejada de ar puro, cheia de luz, com optimas condições hygienicas, lá se ergue uma ampla escola, coroada de seu campanario, ornada de mappas, quadros, provida de todos os utensilios, com um bom terreno annexo e habitação para o professor, tudo a expensas do caritativo Antonio Manuel Alves do Rego. São nove horas. Á estação vão esperar a camara municipal de Caminha, por entre musica e vivas os graduados e o povo da localidade. Em seguida dirige-se o prestito para a escola. Nas proximidades d'ella, Alves do Rego, após quarenta e sete annos de trabalhar em paiz estrangeiro, e 'almejando, palavras suas, por voltar á patria para fazer algum beneficio a bem do paiz', adianta-se commovido, e, parando todos, offerece ao presidente da vereação uma chave de prata, dizendo-lhe: — 'Sr. Presidente da camara, tenho a honra de lhe entregar esta chave para abrir aquellas portas á instrucção d'este povo, a fim de nunca mais se fecharem'. E dos olhos rolaram-lhe lagrimas.

O presidente abraçou o doador e abriu a porta. Entraram todos. Ouviu-se então um viva unanime. Sobre cento e cincoenta analphabetos, cegos de ignorancia, rompia o primeiro raio do sol que ia alumiar Gontinhães. O templo escolar da sua civilisação festejava entre recitações e applausos a estreia da educação local". (D. António da Costa, "Auroras da Instrução pela iniciativa particular", pp. 168-169 )

 

Voltando ao pioneiro artigo do Nuceartes, por ele ficamos a saber que a Escola do Santo haveria um dia de receber também raparigas e, como escola mista e sede da Junta de Paróquia de Gontinhães, estaria aberta por muitas décadas a seguir e que, mesmo depois de desativada, continuou como casa de ensaios da banda de música de Vila Praia de Âncora em meados do século XX.

Desse modo, antes de entrar numa segunda vida como residência particular — infelizmente muito descaracterizada — terá completado três quartos de século ao serviço da educação e da cultura, respeitando o espírito do generoso ato do comendador Alves do Rego.


BIBLIOGRAFIA

D. António da Costa (1874). No Minho. Lisboa: Imprensa Nacional.

D. António da Costa (1884). Auroras da Instrução pela iniciativa particular. Lisboa: Imprensa Nacional.

Nuceartes — Núcleo de Estudos e Artes do Vale do Âncora (2011). A Escola do Santo. In http://nuceartes.blogs.sapo.pt/8479.html [consultado em 14-10-2013].


publicado por Brito Ribeiro às 11:18
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04
Nov 13

Naqueles tempos a vida era dura, tanto para os pescadores que por cá ficavam, como para os que se aventuravam na pesca do bacalhau. Partiam para a Terra Nova e Gronelândia no final do inverno, regressando a meados do Outono, dependia da sorte e da habilidade do capitão para encherem mais ou menos depressa os porões soturnos do navio.

O Manuel João, tal como outros jovens da sua idade, agarrou a oportunidade de largar a pesca artesanal onde se ganhava uma côdea, para “ir ao bacalhau”; alem disso, quem fizesse sete temporadas de bacalhau, livrava à tropa e à guerra em África.

Para quem sai a primeira vez da sua aldeia natal, tudo é uma aventura e sempre será melhor que receber umas míseras moedas no final de cada maré. Se o mar o permitir, porque de Inverno os frágeis barcos de boca aberta cavalgam rua acima entre o casario, para se furtarem às arremetidas do mar que fustiga o portinho, escavado entre as rochas agrestes do Moureiro e o Forte da Lagarteira..

Acabara de fazer a sua terceira viagem no “Rio Lima”, um barco lento, mas seguro, construído em 1952 pelos Estaleiros Navais de Viana do Castelo. As condições de vida a bordo, apesar de duras, não se comparavam aos velhos lugres à vela, onde o seu pai e os irmãos mais velhos tinham pescado. Aí sim, era uma vida de escravidão e de perigo constante a pescar nos frágeis dóris, a viverem amontoados em cubículos como animais, a trabalhar perto de vinte horas por dia, sob as inclemências climatéricas do Atlântico Norte.

O “Rio Lima” tinha atracado a meio da manhã na doca de Viana do Castelo. Já lá estava o “Senhor dos Mareantes” e o “S. Ruy”, atracados desde a semana anterior. A roupa sebosa estava ensacada há muito, tal como as bugigangas compradas em St. Johns para a mãe e para as irmãs. Para o pai trazia, como de costume, pacotes de tabaco com filtro. O último banho a bordo libertou-o das escamas, disfarçou o odor a vísceras e a suor, mas não apagou as marcas do cansaço, as mãos gretadas e gastas, a barba hirsuta e o cabelo ensalitrado.

Após da manobra de atracar, cumpridas as formalidades, desembarcou pelo instável portaló ao encontro do abraço sentido dos familiares que o aguardavam no cais. Mais que um reencontro, era o renascer de uma coesão familiar, uma celebração da vida que recomeçava. Era dia de festa, a viagem para casa foi de carro de praça, um luxo reservado para bodas, emergências e para estas ocasiões.

Uma acha de pinheiro no fogão espevitou o fogo inundando a cozinha de aroma resinoso, que o refogado estava pronto de véspera e a cabidela surgiria enquanto contava as peripécias da viagem. Só as vitórias, os lances carregados de bacalhau, as partidas que pregaram aos colegas, as horas intermináveis na escala e salga. Os sustos, as lágrimas, as saudades e o medo não se apregoam, iriam sombrear os rostos felizes da família, que o escutam com um fervor quase religioso.

Depois do almoço saiu com rumo certo, o barbeiro que o expurgou das pilosidades acumuladas em sete meses de mar, vestígios sombrios que importa esquecer até à próxima viagem. No Poipa reencontrou companheiros, leu o jornal, soube as últimas do futebol e das coscuvilhices locais, antes da tesoura e da navalha cumprirem a sua missão. Quando olhou ao espelho não se reconheceu, custava-lhe acreditar que aquele rosto lhe pertencia, tão pálido e exangue, as orelhas penduradas na cabeça estreita, onde o nariz ganhava destaque, tal como um promontório avança mar a dentro.

Aviado do barbeiro, seguiu em direcção ao portinho, lugar que o viu nascer e crescer, onde se juntavam os amigos, onde se trocavam olhares e ditos com as raparigas, onde os homens enchiam as tabernas, nas quais ele já tinha entrada por direito próprio. A tarde correu rápida, talvez a conversa retida durante meses a tenha apreçado, a noite cobriu a terra e o mar, despediu-se de cada um para regressar ao lar aquecido pela chama mortiça do fogão, onde o caldo de hortaliça papujava lentamente.

Estavam à sua espera, pois era hábito daquela comunidade cear após as vésperas.

- Por onde andaste meu filho, que se faz tarde.

- Ó mãe, ainda ficou gente na Curraca e no Coxo da Faena.

- Mas o teu pai já está à espera para depois se deitar… Afinal onde é que andaste?

- Fui ao Poipa cortar o cabelo e a barba…

- Graças a Deus…

- … Depois fui para o portinho e estive à conversa com os amigos… o Daniel, o João, o Nel do Côto, o…

- Qual João?

- Da tia Ermelinda… e bebemos umas malgas de vinho novo.

- Vê lá, já não estás habituado e pode fazer-te mal.

- Não se apoquente, minha mãe. Pouco bebi e só demorei mais um bocadinho porque encontrei na esquina da pensão um companheiro de escola e fiquei à conversa. Depois ele seguiu para casa e eu pelo Sol Posto acima… Aqui me tem!

- Quem é esse companheiro de escola? O Camilo?

- Esse ainda não vi. Era o Berto da Nila…

A tigela caiu com fragor no chão, espalhando cacos e caldo em todas as direcções. A cor fugiu das fasces rosadas da Lurdes, petrificada de espanto e horror.

- Que foi, mãe? Parece que viu um lobisomem… Conhece o Berto da Nila… onde está o espanto?

- Tens a certeza, meu filho? – Balbucia a Lurdes, procurando o rosário no bolso do avental.

- Tenho, mãe! Então eu não conheço o Berto?! Olhe que fizemos juntos a quarta classe…

- Mas isso não é possível… a Nossa Senhora nos acuda…

- Então qual é o problema? Ele até estava tão bem disposto…

- Virgem Santíssima – gemeu a Lurdes com as lágrimas nos olhos – a sua alma não está tranquila.

- Que está aí a dizer, minha mãe! A sua alma?!...

- Sim, filho… O teu amigo… o Berto da Nila, esteve muito doente, chegaram a levá-lo para o Hospital de Viana, mas mandaram-no de volta para casa… o Berto… coitadinho, foi enterrado ontem…

publicado por Brito Ribeiro às 18:46
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27
Set 13

Nos últimos dias, a Câmara de Caminha distribuiu uma revista municipal, que a Comissão Nacional de Eleições não teve dúvidas em declarar que viola as normas de neutralidade e imparcialidade das entidades públicas. Pelos vistos em doze anos não aprenderam o que significa ética política, pois a revista paga com dinheiros públicos não passa de mais um instrumento de campanha partidária.

Mas com isso posso eu bem. O que me incomoda, porque é injusto e falta à verdade, é dizer-se que antes do PSD chegar à Câmara de Caminha “não existia nada”, como se o Concelho estivesse mergulhado no caos e no dilúvio, e só nos últimos doze anos é que alcançou a luz e a civilização. Isto é uma falsidade e importa lembrar à Drª. Júlia Paula Costa e ao Prof. Flamiano Martins que desconsideraram (para não dizer que enxovalharam) todos aqueles que ao longo dos tempos, não só depois do 25 de Abril, abraçaram a causa pública e lutaram desinteressadamente pelas suas terras.

Só para falar em Vila Praia de Âncora, estou a lembrar-me daqueles que construíram a avenida da praia e o parque, ao qual decidiram chamar Dr. Ramos Pereira; estou a lembrar-me do escadório, da gruta, da estrada e outras benfeitorias no Monte do Calvário; estou a lembrar-me daqueles que fundaram as associações que ainda hoje existem; estou a lembrar-me daqueles que, com mãos rudes, aparelharam as pedras do portinho, sem recorrer a empréstimos, sem quadros comunitários de apoio e sem parcerias público privadas. Apenas o querer, a vontade indomável de servir a sua comunidade, de fazer o bem, para lá dos interesses pessoais, dos taticismos partidários e das danças de cadeira.

Mas as afirmações dos candidatos do PSD, querem atingir de forma mais directa, as gestões socialistas que os antecederam.

Por isso, importa lembrar-lhes que no pós 25 de Abril, quando não haviam praticamente verbas nenhumas transferidas do Governo Central e a Comunidade Europeia ainda era uma miragem, transformaram-se caminhos em ruas, rasgaram-se novos arruamentos, levou-se a água aos domicílios e instalou-se o saneamento em grande parte da Vila.

Além disso, construiu-se uma nova Escola Básica, um posto para a GNR, um Centro de Saúde, um Mercado Municipal, um Centro Coordenador de Transportes, um Centro Social e Cultural, um Pavilhão Municipal e uma Ludoteca. Entre muitas outras obras, rasgou-se a marginal a norte e a sul, construindo duas passagens desniveladas à linha do caminho-de-ferro e lutou-se arduamente junto dos diferentes Governos, sem nunca baixar os braços, por um novo Porto de Mar.

A Drª. Júlia Paula Costa e o Prof. Flamiano Martins parecem querer que os Ancorenses tenham apenas orgulho nas “suas” obras. Talvez à Praça da República ou ao novo Parque Ramos Pereira que tanta polémica deu, quer pela granitização da primeira ou pela betonização do segundo. A não ser que se estivessem a referir à piscina, uma obra muito meritória, não fosse a forma de financiamento com recurso a uma parceria público privada, catapultar o preço inicial de cinco milhões, para uns astronómicos vinte e três milhões de euros, que os munícipes vão pagar nos próximos anos.

Onze anos de orgulho, dizem eles, mas Vila Praia de Âncora continua sem bandeira azul, com a escola de Vilarinho em ruínas, com o cine teatro dos bombeiros em ruínas, com o quartel dos bombeiros de cara lavada, mas “carregado” de deficiências, sem uma sede da Junta de Freguesia com um mínimo de condições, sem dignificar o nosso património e sem casa mortuária.

O que falta hoje a Vila Praia de Âncora e ao Concelho de Caminha é visão estratégica, que lance as bases de uma política de desenvolvimento sustentado. Captar investimento para criar emprego, apostar no turismo, promover a coesão social, as boas práticas ambientais, a educação, o diálogo e a participação cívica.

Porque acredito que Miguel Alves e a sua equipa entendem estas carências do Concelho, porque acredito que querem trabalhar sem resignação, sem sectarismo político, com inteligência e com coração, voto Miguel Alves.


publicado por Brito Ribeiro às 18:53
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