Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

14
Mai 12
É um projecto académico dos finalistas da Licenciatura em Gestão Artística e Cultural do IPVC de Viana do Castelo.
Subordinado ao tema "Envelhecimento Activo", estão programadadas conferencias, concertos, performances e teatro que decorrerão nos dias 17, 18 e 19 de Maio.

 

publicado por Brito Ribeiro às 18:54

06
Abr 12

Se há algo que distingue Vila Praia de Âncora de outras localidades do Alto Minho é a beleza da sua frente atlântica. A “praia das crianças”, como é conhecida, é banhada por um mar benévolo e por um rio que se passeia lento, serpenteando entre dunas até desaguar no meio do areal dourado.

 

 

 

 1950 Foz do Rio Âncora

 

Desde o início do século vinte que a Praia de Âncora é o destino de famílias inteiras que vinham a banhos e que por aqui ficavam durante vários meses. Outros tempos, que corriam devagar, onde as casas alugadas, modestas e simples, eram apalavradas de ano para ano. As barracas de praia, sempre colocadas no mesmo local, tinham por vizinhança as mesmas pessoas ao longo dos anos e as crianças de ontem, constituíam famílias hoje, para amanhã serem os seus filhos a perpetuar a renovação geracional.

Depois do 25 de Abril, as alterações mais visíveis foram ao nível da construção com o proliferar de imóveis de gosto e qualidade medíocre, que transformaram Vila Praia de Âncora, a pacata vila minhota, numa caótica povoação com um sector imobiliário desordenado onde cada um fazia o que melhor convinha aos seus interesses pessoais, secundarizando-se o bem-estar e o interesse público.

A abertura de novas estradas facilitou a circulação de turistas, a multiplicação de restaurantes, cativou mais visitantes e aos poucos a Praia de Âncora tornou-se cosmopolita, destino de moda de um turismo massivo que cria diversas dificuldades e que não aporta qualquer factor de diferenciação positiva.

É verdade que Vila Praia de Âncora também nunca se preparou para ser um destino turístico de qualidade. Desde logo a insuficiência de camas “legais” distribuídas por hotéis, residenciais e outros estabelecimentos hoteleiros. Continua, tal como antigamente, o negócio do aluguer de casas e apartamentos, a par com o aluguer de quartos nas casas particulares junto à praia.

Por outro lado a gastronomia oferecida não se consolidou com o tipicismo que se impunha a um porto de mar onde o peixe fresco devia ser uma constante. É caricato o Turismo (RTAM) andar durante vinte anos a promover a “Caldeirada à Tio Feito” e de repente, a organização que lhe sucedeu, deixou “cair” este prato para promover outra iguaria à base de polvo.

É grave e incompreensível que em Vila Praia de Âncora se esteja a destruir um património único como a paisagem, com a construção despropositada de equipamentos de interesse muito relativo no Campo do Castelo, o que configura mais um desperdício de dinheiro absolutamente injustificável. Face aos problemas estruturais que o porto de mar tem desde a sua construção, fazia todo o sentido ter aplicado esta verba na correcção dos erros cometidos, contribuindo assim para a melhoria das condições de trabalho e segurança, não só da comunidade piscatória local, mas da activa comunidade náutica da região.

Outro problema na área paisagista prende-se com a destruição do monte no Lugar da Póvoa onde uma exploração de pedra de grandes dimensões deixou uma cratera indisfarçável e cujo impacto é muito difícil de minimizar. Agora que a empresa está às portas da falência, o monte vai acabar por assim ficar e mais uma vez “quem se lixa é o mexilhão”, que é como quem diz, Vila Praia de Âncora é mais uma vez prejudicada.

Mais exemplos podia continuar a dar, ficam para a próxima, mas de uma coisa estou certo, a Praia de Âncora vai continuar a ser a “praia das crianças”, apesar daqueles que mais obrigação tem, pouco ou nada fazerem pela sua dignificação.

publicado por Brito Ribeiro às 19:44
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28
Mar 12

A antiga escola primária de Vilarinho continua ao abandono, após uma promessa autárquica com cerca de 10 anos, de transformar aquele imovel na sede da Academia de Música Fernandes Fão.

Vandalizado e esventrado, o edificio está entregue à sua sorte e aos caprichos de promessas faceis de quem não tem memória, nem consciencia do que significa aquele edifício, para todos os que lá aprenderam a ler e a escrever.

Duas fotografias ilustram o passado e o presente da escola de Vilarinho. Pelo meio, apenas passaram algumas dezenas de anos.

publicado por Brito Ribeiro às 09:48
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20
Fev 12

Em passeio domingueiro passei por Apúlia e não pude deixar de ver o lastimável estado de abandono a que chegou a Estação Radio Naval Almirante Ramos Pereira.

 

Nos anos cinquenta do século passado foi instalada nas terras férteis do concelho de Esposende, uma unidade militar que na época era pomposamente denominada “Estação Rádio Goniométrica Aero Naval de Apúlia”.

Foram expropriados em favor do Estado cerca de 14 hectares de terra arável da melhor qualidade, centenas de pequenas parcelas de terreno, algumas o único património de muitos habitantes de Apúlia. Pelos legítimos donos foram distribuídos alguns míseros tostões, sem direito a reclamação como era timbre no tempo do Estado Novo.

Mesmo os proprietários dos terrenos próximos à zona expropriada foram prejudicados, pois quando necessitaram de construir casas ou anexos, muros ou poços, esbarraram na Lei da Servidão Militar que indeferia invariavelmente as pretensões dos proprietários.

Depois de funcionar cerca de cinquenta anos a Estação Rádio Naval de Apúlia, denominada Almirante Ramos Pereira, foi progressivamente desguarnecida e deixada ao abandono a partir de 2001.

 

Na parcela edificada existem diversos edifícios de significativo valor arquitetónico com fachadas em granito lavrado em cantaria, que estão sufocados por densa vegetação; as residências literalmente afogadas em silvados que sobem aos telhados; os antigos jardins, as veredas, os espaços desportivos e de lazer, já ninguém sabe onde existiram; a piscina é um viveiro de animais anfíbios; o aquartelamento, o refeitório, as messes, as garagens com as portas abertas; restos de mobiliário e arquivos pelo chão; arruamentos, pavimentos e muros dos edifícios atapetados de silvas.

Entretanto, continua vigente e atualizada a Lei da Servidão Militar, (Decreto nº 19/2002 de 27 de Maio), que continua a condicionar o licenciamento de obras nas imediações.

É óbvio que o facto desta unidade militar ter associado o nome do Almirante Ramos Pereira me incentivou a escrever este artigo indignado, mas penso também nos inúmeros marinheiros que ali prestaram serviço, ali viveram anos a fio, que cuidaram daqueles edifícios e jardins como da sua própria casa se tratasse.

 

Haverá alguma política de restruturação militar ou alguma contenção financeira que justifique esta humilhante situação de abandono e desprezo não só pelo património, mas também pelo povo de Apúlia e pela memória de um dos mais ilustres militares e lutador pela democracia?

 

Fotos de Manuel Moreira

 

publicado por Brito Ribeiro às 10:36

12
Dez 11

O Mendonça virou a página da “Bola” e continuou a ler a reportagem da mais recente vitória do “seu” Benfica. Depois dos azares do início da época, o clube entrara finalmente nos eixos levando de vencida os mais directos adversários. “Este ano é que vai ser, Campeonato, Liga dos Campeões tudo ao alcance dos melhores do mundo” pensava o Mendonça enquanto soletrava as letras pequenas.

- Ó pai, os computadores da Câmara foram atacados por um vírus – anuncia o Quim sem tirar os olhos do portátil.

- É bem feito! Esses gajos da Câmara deixam tudo ao “Deus dará” e algum esperto pegou-lhes essa moléstia, lá nas maquinetas deles.

- Dizem aqui que, se calhar, foi um hacker que se introduziu no sistema deles – continua o Quim, rapaz dos seus quinze anos, alto e desengonçado, com a cara coberta de borbulhas.

- Pois claro! Ela só tem peneiras e os outros são uns papa-açorda. Os gajos do Bloco é que os tem no sítio e lhe dizem das boas. Os outros  encolhem-se todos…

- Quem são os outros, pai?

- Os da oposição, mas não prestam para nada. Agora até tem uma fulana que se chama Antonieta e que eu não conheço de banda nenhuma. Vais ver que se está a preparar para ser candidata nas próximas eleições.

- Pelo Bloco?

- Não, pá! Não percebes nada disto. Então Bloco ia querer uma gaja que nem conhece? Estás maluco? Se tiverem de pôr uma mulher a candidata aposto que põe aquela que mandou a Presidente meter o telefone… não posso dizer que está aqui a tua irmã e é uma criança.

- Realmente não percebo nada – concorda o Quim, encolhendo os ombros – o que sei é que aquilo foi obra de um hacker, aposto!

- Ó pai! – intromete-se a Raquel, que estava a ver os “Morangos com Açucar” – tu podias dar-me um hacker agora no Natal. Como assim, tenho tirado boas notas e tu prometeste-me uma prenda…

- Isso é verdade, tu mereces. Quando passar pelo shopping vou à loja dos animais e compro-te um hacker, com gaiola e tudo. Para que esses gajos da Câmara não pensem que só eles é que tem dessas coisas!

publicado por Brito Ribeiro às 17:52
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26
Nov 11

Este conto foi incluido na Colectânea "Arte pela Escrita IV", edição da Mosaico das Palavras, em Outubro passado. Ficciona o naufrágio do cargueiro espanhol Cabo Blanco, que naufragou nas penedias de Montedor, acidente do qual ouvi vários relatos relacionados com a pilhagem da carga de barris de azeite e vinho entre outras mercadorias que transportava.

 

13 Julho 1936

Não se via um palmo à frente do nariz e a névoa pegajosa e húmida tudo tolhia. O som repetitivo da máquina, adensava a sensação de isolamento criado pelo nevoeiro. O dia ainda vinha longe, já o Comandante Piño desesperava com o compasso e régua sobre a carta de navegação. Não perdia de vista a agulha de marear e na ponte vários pares de olhos esforçavam-se a escrutinar as trevas nevoentas. À volta do “Cabo Blanco” o mar tinha adormecido e cardumes de sardinha fugiam para o profundo ao sentirem a vibração daquele corpo estranho em movimento.

A viagem tinha-se iniciado em Huelva, às portas do Mediterrâneo, com uma carga de produtos da terra, vinho, azeite, amêndoa, figo entre outras iguarias de que os Galegos de Vigo eram escassos, destino desta cabotagem. Na Andaluzia corriam rumores sobre a eminência de um golpe dos monárquicos, há até quem diga que o General Queipo de Llano já dera as suas ordens. Talvez a carga de mantimentos do “Cabo Blanco” fizesse parte do plano de reforçar o abastecimento da Falange na Galiza, disso saberiam os armadores, não o comandante e muito menos os marinheiros, que estão ali para labutar.

Dois dias de mares remansosos, sem vento, nem ondulação, que fazem feliz qualquer marinheiro. Poupa-se no carvão e avia-se a empreitada a contento do cliente. Madrugada dentro, tinham avistado os clarões do farol de Esposende, passando a distância segura dos mal-afamados “Cavalos de Fão”, dentes rochosos sempre à espreita de incautos, destino amaldiçoado por viúvas e órfãos. Nor-noroeste, sentenciou o Comandante Piño, bom conhecedor daquelas voltas, enquanto o piloto rodava o leme a bombordo.

A máquina resfolegava pela pressão do vapor que impulsionava as enormes bielas de metal polido, peganhenta de óleo que os maquinistas lhe vertiam.

O dia levantara-se cedo e triste, a bordo despertavam corpos e consciências toldadas pelo palhete andaluz que correra farto ao serão. O Comandante olhou pela milésima vez para a bússola incrustada na campânula de latão polido. A cada minuto, o silvo estridente da sirene fendia a cúpula de algodão que lhes servia de céu. Por mais atentos e avisados que estivessem os dois marinheiros de atalaia nas asas da ponte, nada assinalavam ao angustiado oficial, homem sabedor, porém nervoso com tanta responsabilidade.

No seu cubículo, o radiotelegrafista, de auscultadores nos ouvidos, perscrutava o éter, ora partilhando a apreensão de outros navios presos no nevoeiro, ora acompanhando as informações das estações navais. À sua frente, a caneca de café, lembrava-lhe uma noite de espertina.

Entre dois silvos da sirene ouviu-se um ligeiro rocegar, como alguém que esgadunha ao longe. O silêncio regressou, apenas o tempo suficiente para todos se perguntarem sobre a origem de tão estranho ruído. O ribombar seguinte tirou-os de dúvidas e à vibração habitual provocada pela máquina, sobrepôs-se o tremor da estrutura metálica em luta contra a áspera penedia.

Após os primeiros momentos de estupor, correrias cruzaram o convés, semblantes de pânico, gentes aflitas emergentes do ventre metálico rasgado. A máquina deu à ré, demasiado tarde para esta manobra. Do pouco que se podia vislumbrar, percebia-se que tinham entrado por um afloramento rochoso, talvez a norte de Viana da Foz do Lima, agora conhecida pelo Castelo que lhe guarda o casario.

O pedido de socorro foi enviado sem demora e das estações costeiras de Lisboa e de Leixões foi acusada a recepção e prometido auxílio. Vários navios que se encontravam próximos responderam ao chamamento e pelo meio da manhã, quando o nevoeiro se retirou e o sol brilhou, com a posição obtida pelo sextante do Comandante Piño, reconheceram na velha e sebosa carta náutica, a costa de Montedor, onde se destacava a torre quadrada do farol agora apagado. A colina verdejante cortada verticalmente pelo mar observava-os sobranceira e os moinhos rodavam as pás preguiçosas. Na planície, camponeses sachavam o milho que lhes fornecia pão e alimentava o gado nos rigores do inverno.

Os sete passageiros desembarcaram a salvo pelo cabo lançado a terra e a maior parte da tripulação retirou-se do navio que abrira água nos porões da proa. Para a operação de desencalhe, iniciada nessa tarde, bastava a presença dos maquinistas e de mais alguns marinheiros para a manobra dos cabos de reboque. Trabalho vão, que nem o mar estanhado auxiliava. Dos buracos do casco saiam, ao sabor da corrente, os barris de vinho e azeite da Andaluzia, que mãos ávidas, a bordo das masseiras da Praia de Âncora e dos pesqueiros de Viana, retiravam das águas, antes que se escapassem para a praia, onde a chusma de camponeses se metia à rebentação para resgatar tanta fartura.

Não tardou a Guarda-fiscal querer arrecadar o que o mar dava e o engenho do povo subtraía. Negócios se fizeram entre pedras e dunas, barris e caixas eram carregados, o dinheiro mudava de mãos sumindo-se logo nos bolsos negros, enquanto o “Cabo Blanco“ afundava lentamente a popa inundada. “Dali já não sai”, diz quem conhece bem os picos fortes e aguçados das rochas do Montedor, “com a graça de Deus, não morreu ninguém” responde quem está habituado às tragédias que o mar provoca.

 

publicado por Brito Ribeiro às 18:29
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23
Out 11
...nada melhor que recordá-lo!
publicado por Brito Ribeiro às 15:14
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16
Set 11

O Vale do Âncora pela fertilidade das suas terras e clima ameno, tem sido ocupado desde tempos imemoriais.

Durante a proto-história, no cimo do monte, com bom domínio da paisagem circundante, entre Âncora e Afife, surge um povoado defendido por um recinto amuralhado. Verdadeira “civilização do granito” utilizam este recurso natural para construir, com blocos toscamente afeiçoados, os limites das áreas residenciais onde se erguem as habitaçõ0es de planta circular.

Este aglomerado populacional ocupado até à romanização, fase de apogeu e declínio do mesmo, suscita grande curiosidade de diversos arqueólogos que, desde os finais do século XIX, o estudam procurando o conhecimento do modus vivendi do que é comummente designado por cultura castreja. Estes habitantes, genericamente designados por calaicos, organizavam-se socialmente com base em laços de sangue. A família seria a célula base da organização social e, alem da residência e da descendência, a família castreja teria também em comum a actividade económica, os direitos de propriedade e de sucessão e o exercício de actividades religiosas.

A união de vários grupos familiares organizados, descendentes do mesmo antepassado comum, constituiria a primeira unidade supra familiar com funções específicas, o castro.

Muito do que conhecemos actualmente deve-se aos escritos de Estrabão que sobre este povo diz: “bebem geralmente cerveja e raramente vinho, o pouco que têm depressa o consomem em banquetes familiares… comem sentados em bancos construídos ao redor dos muros, ocupando os lugares segundo a idade e a dignidade e fazendo circular a comida de mão em mão… utilizam a farinha de bolota para a sua subsistência; vivem dois terços do ano de bolotas, que secam e trituram e depois moem para fazerem pão, que conservam durante muito tempo”.

“Todos os homens vestem de negro, pela maior parte em mantos grosseiros, nos quais eles dormem em suas camas de serragem. E usam vasos encerados, assim como os celtas fazem. Mas as mulheres sempre vão vestidas em longos mantos e becas de cores alegres”.

 

 

 

A estrutura do povoado comporta um conjunto de casas circulares com uma cobertura de formato cónico suportada por um poste implantado ao centro da habitação. Na parte da frente, dois muros avançam, lembrando as tenazes de um caranguejo, delimitando um pátio que poderia ter múltiplas utilizações.

No interior, os pisos são preparados com saibro e argila amassada e a lareira aparece deslocada, visto que o centro da casa é ocupado pelo poste que sustenta o tecto. Encontra-se igualmente, para armazenamento e abastecimento de água, uma fonte ao serviço do agregado familiar. Ainda se verifica a presença de recintos funerários no interior dos núcleos familiares onde se conservam as urnas cinerárias dos antepassados de cada família.

 

 

A proximidade da costa atlântica e da bacia do rio Âncora, torna as actividades agropecuárias viáveis bem como o aproveitamento dos recursos marítimos e fluviais e ainda a exploração mineira. A atestar estes factos, o peso da agricultura de cereais e hortícolas era significativo.

De acordo com Estrabão, as actividades agrícolas eram exercidas pelas mulheres que cultivavam as terras e se encarregavam da recolha de frutos naturais. A actividade pecuária é também extremamente importante pois a carne dos animais domésticos, o leite, outras gorduras e seus derivados, aparecem como base da alimentação e como importante fonte de riqueza e as peles, como meio de intercâmbio, a ser trocadas por cerâmica, sal, instrumentos e adornos, além de utilizados no vestuário, no fabrico das armas e na construção de barcos.

As actividades artesanais eram a moagem, fiação, tecelagem e a fundição e tratamento do metal.

 

Informação retirada do folheto de apresentação do grupo de Âncora, no cortejo das Festas da Senhora da Bonança de 2011.

publicado por Brito Ribeiro às 17:05
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30
Ago 11

Muitos pescadores ancorenses passaram pela pesca do bacalhau nos bancos da Terra Nova. Uns, os mais antigos, em lugres à vela, trabalhando na pesca à linha. Outros, os mais novos, conheceram de perto a tecnica do arrasto, tanto em navios fábrica portugueses como em navios alemães destino de muitos emigrantes nos anos setenta e oitenta. Este artigo foi publicado no excelente blog http://caxinas-a-freguesia.blogs.sapo.pt/ de onde o retirei com o devido agradecimento.

 

Há 500 anos, o explorador John Cabot regressava das águas em volta do que agora chamamos Terra Nova e reportava que o bacalhau era tanto que se podia apanhar com simples cestos à borda dos navios. Cabot tinha "descoberto" (algo muito discutível) um recurso que mudaria a Inglaterra para sempre, a base de um comércio marítimo que daria àquela pequena ilha-reino a riqueza, artes e capacidade de construção naval que a tornaria num império global. Ele havia descoberto os maiores Bancos de pesca que o mundo jamais conhecera, águas tão cheias de vida que uma vasta extensão do Novo-Mundo foi colonizada somente para recolher tamanho prémio.

Um século após Cabot, capitães de pesca Ingleses ainda reportavam baixios de bacalhau “tão espessos ao pé da costa que mal se consegue remar através deles”. Havia bacalhaus de 1,8, a 2 metros de comprimento a pesar tanto como 90 quilos. Havia grandes bancos de ostras, tão grandes como sapatos. Com a maré baixa, crianças eram mandadas para a beira-mar para a apanha de lagostas de 5 a 10 quilos. As corridas da desova do arenque, lula e capelim eram colossais, deixando boquiabertos observadores durante quatro séculos. Hoje, o peixe da Terra Nova desapareceu.

Das 10 províncias do Canadá, o território conjunto da Terra Nova e Labrador é o menos acessível. A maioria da sua população de meio milhão, vivem na grande ilha da Terra Nova, uma massa de terra de 39.500 milhas quadradas que consiste em costas rochosas, colinas selvagens e montes de pinheiros. No Inverno a ilha é bafejada por ventos do Ártico e em inícios do Verão icebergues passam pela costa vindos da Gronelândia. O Labrador, 3 vezes maior que a Terra Nova, contém apenas uns poucos milhares de habitantes, pois é demasiado frio, descampado e virado a Norte para suportar maior população. Mesmo no Verão, uma viagem de Boston para St. John´s, a capital, leva 16 horas de carro e 14 de ferry.

Tal como a maioria da Terra Nova, a península de Burin a Sul foi fundada com base na pesca. Existem provas da presença de pescadores Bascos como estação de pesca de Verão por alturas dos anos 1500s. Pescadores Franceses podem ter começado a viver lá por alturas dos 1640s, embora a maioria tenha abandonado a área quando o território foi cedido à Inglaterra nos inícios do séc. XVIII. No auge da pesca nos Grandes Bancos com escunas, as comunidades de Burin estavam cheias de vida e enormes mansões Vitorianas foram construídas na cidade de Grand Bank. Durante a era industrial mecanizada de arrastões, a península estava no centro do processamento de peixe com fábricas de trabalho contínuo em Fortune, Marystown, St. Lawrence e Grand Bank. A maioria da população de 29.000 habitantes na península ou pescava ou trabalhava nas fábricas ou nos estaleiros navais de construção de arrastões que alimentavam as sempre famintas linhas de produção. Estas fábricas forneciam os filetes de peixe para a McDonald´s e ainda o faz hoje, mas o peixe usado agora é importado da Europa.

A razão para tal é o facto dos grandes aglomerados de bacalhau do Norte terem sido “limpos” por grandes redes de arrasto e o Governo encerrou a maior faina do mundo por falta de peixe – um ridículo exemplo de fechar a porta do estábulo quando o cavalo já fugiu. Em 1996, a península de Burin registou a maior taxa de desemprego do país durante meses e 30% da população não tinha trabalho.

Até 1949, a Terra Nova foi uma colónia Inglesa e ainda hoje se sente que é um posto longínquo da Europa do Norte. Muita da sua história está ligada à Inglaterra e Irlanda por laços de família, comércio e política. Com o desenvolvimento das tecnologias de congelação em inícios da II Guerra Mundial, os E.U.A. tornaram-se o maior mercado para o bacalhau da Terra Nova, mas o contacto com o Canadá era muito pouco. Não é por acaso que St. John´s está localizada no extremo Leste da ilha, metida entre montes numa baía virada para a Inglaterra, algures para além dum perpétuo muro de nevoeiro. De St. John´s, Londres fica mais perto que Calgary e a Irlanda mais perto que Winnipeg.

A colonização da Terra Nova e na verdade de muita da América do Norte foi uma consequência da busca pelo bacalhau. Bacalhau bem seco e salgado durava por longos períodos, algo de muito importante antes da moderna refrigeração, sendo relativamente leve e fácil de transportar. Desde o advento das pescas no Novo Mundo em inícios do séc. XIV, que havia um mercado insaciável por bacalhau salgado na Europa. Era de longe uma fonte mais barata de proteínas que bife, porco ou cordeiro e a única fonte permitida de proteínas aos Católicos durante 166 dias de cada ano. Rentável, transportável e facilmente comercializado, o bacalhau rivalizaria com o ouro da América do Sul e açúcar das Caraíbas.

Contudo a história da destruição do bacalhau começa quando a era colonial da Terra Nova termina. Nos primeiros 4 séculos após Cabot, os habitantes da Terra Nova tinham pouco trabalho em encontrar e apanhar bacalhau. Pareciam ser eternos no seu número. Estes grandes e robustos peixes foram feitos para durar, sendo adaptáveis, omnívoros e bastante fecundos (uma grande fêmea produz 9 milhões de ovos numa única desova). O bacalhau do Atlântico sobreviveu na sua presente forma durante 10 milhões de anos, passando idades do gelo e aquecimentos globais que alteraram o nível dos mares em 90 metros. Vivem 20 ou mais anos e os seus ovos adaptam-se bem ao frio ou ao calor e com a riqueza de várias gerações ao mesmo tempo, o seu sucesso sempre foi garantido... até surgir a pesca industrializada.

O bacalhau pertence a uma família de peixe conhecida como “peixe do fundo”, assim denominada porque normalmente habita junto do fundo do mar ao longo da placa continental. Outras espécies das mesmas áreas são o eglefim, alabote, abrótea, e solha. Todas estas espécies foram intensamente pescadas e muitas partilham o mesmo fim do “primo” bacalhau. No entanto o bacalhau era o mais numeroso, valioso e importante. O bacalhau não vive apenas em cardumes mas sim em distintas populações reprodutoras. Cada qual movimenta-se como grandes “manadas” para se reproduzir e alimentar e raramente se mistura com outras. O bacalhau do Norte habita as costas geladas do Labrador e nordeste da Terra Nova. Outro grupo desova nos ricos em nutrientes Grandes Bancos, uma vasta série de montes submersos em águas pouco profundas ao largo da Terra Nova. Existem outras populações distintas no Golfo de St. Lawrence e nos Bancos de St. Pierre, perto de Burin; outras massas estão ao longo da Nova Escócia e no Banco de Georges ao largo da Nova Inglaterra. Estes últimos vivem em águas um pouco mais quentes e são maiores e mais “mexidos” que os do Norte. Outros grupos de bacalhau povoam as costas da Islândia e Europa.

Os pescadores beneficiam do facto do bacalhau se agrupar em grandes números. Na desova, congregam-se em massas de centenas de milhões de peixes. O peixe do Norte e Grandes Bancos enchia as correntes oceânicas com triliões de ovos o que tornava possível a sua pesca com linhas de mão (trol) e em décadas mais recentes a apanha de grupos inteiros com enormes redes içadas por arrastões do tamanho de pequenos transatlânticos. Mas durante vários séculos eram as migrações do bacalhau que determinavam quanto havia à mesa. Curiosamente, um dos alimentos do bacalhau, o capelim, desova na mesma zona e ambos migram depois para mais próximo da costa. O bacalhau na verdade come de tudo o que consiga meter à boca, o que os tornou versáteis por natureza, comendo desde mexilhões a caranguejos, lagostas, lulas e até outros jovens bacalhaus. Tal também tornava o isco de pesca fácil aos pescadores. Podem facilmente ser alados com um pedaço de chumbo, pedaços de “hot-dog” ou mesmo copos de plástico. Uma vez mordido o isco, não oferecem resistência até entrarem no bote.

publicado por Brito Ribeiro às 12:04
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22
Ago 11

Dia após dia, deparamo-nos com dificuldades acrescidas no estacionamento de viaturas em Vila Praia de Âncora. Este “fenómeno” tem vindo a consolidar-se, não só nos turbulentos meses de verão, mas já se estendem por todo o ano, pelo menos nas zonas centrais da vila.

Erros de planeamento com origem nas últimas décadas do século vinte explicam, em parte, os porquês do problema. Com o desenvolvimento urbanístico pós 25 de Abril, uma das coisas não acauteladas foram os estacionamentos das urbanizações. Construía-se mal e à toa, sem qualidade e sem preocupação de ordenamento, como todos sabemos e disso estamos conscientes. Os tempos eram outros e o que hoje sobra em meios técnicos e recursos humanos, ditos especializados, escasseava nessa época.

Além disso, se em 1976 havia em Portugal cerca de um milhão de viaturas, hoje temos cerca de seis milhões de viaturas, segundo dados da ACAP. Por isso as necessidades de estacionamento ou aparcamento aumentaram em flecha. Nas áreas metropolitanas tem-se feito algum esforço no sentido de dar maior operacionalidade aos transportes públicos, mas esta questão não se aplica em Vila Praia de Âncora.

Por isso, deviam ter sido investidos esforços no sentido de encontrar soluções de minimização do impacto urbano e de atractividade turística para a zona. É lamentável mas, alem de não se ter procurado solução ainda se agrava deliberadamente o problema, com soluções pretensiosamente requalificadoras, que não requalificam coisa nenhuma, apenas introduzem um factor de embelezamento, muito ao sabor das modas e do gosto dos mandantes.

Isto tudo a propósito da falta de lugares de estacionamento em Vila Praia de Âncora que está a transformar esta vila num cenário caótico, tipo capital subsariana. Se este é o cartaz turístico de acolhimento, estamos conversados.

Para ajudar à festa temos gente sem o mínimo de escrúpulos que “deixa” os carros de qualquer maneira, não restando à autoridade outro remédio que chamar o reboque para expulsar os prevaricadores. Claro que também há casos de excesso de zelo, nomeadamente da Polícia Marítima, que não aportam nada de positivo e deixam uma imagem ainda mais negativa da terra.

 

Vista aérea da praia e Av. Dr. Ramos Pereira - Crédito Foto DAP

Este ano fomos também confrontados com o surgimento de uns pequenos quadriciclos a pedal que deambulam por entre os peões que passeiam na Avenida Doutor Ramos Pereira, com incómodo e perigo constante de atropelamento. Até porque na maior parte dos casos não são crianças que conduzem os quadriciclos, mas “matulões” em corridas e gincanas parvas entre as pessoas. Confinados à praça multiuso no Parque ainda vá que não vá, com esforço, mas é admissível (também a praça não serve para mais nada…).

Agora, circular anarquicamente em espaço público, entre as pessoas que passeiam, é que não. E isto para não questionar a legalidade de todo este negócio, desde o licenciamento, até ao controlo fiscal. Mas isso é outra conversa e compete às autoridades avaliar esses parâmetros, aqui o que quero destacar é o absurdo a que esta terra chegou, por falta de soluções reflectidas, de planeamento e de responsabilidade.

 

publicado por Brito Ribeiro às 18:45
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