Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

18
Ago 15

 

"As sociedades necessitam de símbolos para representarem os seus valores. A arquitectura, a estatuária, a pintura, a arte em geral também cumprem esse papel de dar forma e local de culto ao que uma sociedade considera ser a sua essência, aquilo que pode ser designado pela sua alma. 

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Em África, por exemplo, certas culturas têm as suas árvores sagradas. Na Guiné, na Senegâmbia, chamam-lhes Irã. É ali que repousam os espíritos dos antepassados e ali que eles podem ser chamados a pronunciar-se sobre o presente e a transmitir aos atuais a sabedoria que recolheram da vida, a aconselhar, a julgar.

 

Os panteões começaram por ser os locais de reunião dos vários deuses de uma dada região e de uma dada cultura, ou civilização. Foram um primeiro passo para o monoteísmo. Ali se reuniam todos os veneráveis, num único lugar. Diferiam dos templos porque, ao contrário destes, não tinham altar, não eram lugar de sacrifício, nem de oferendas, apenas de veneração, de unanimidade sobre um certo modo de viver, que aqueles seres divinizados representavam.

 

Os modernos panteões retomaram esse espirito numa vertente laica e republicana. Pretenderam reunir aqueles que uma dada nação considerava como os seus faróis, aqueles que foram orientando a sociedade e dotando-a de uma identidade. Aqueles que foram capazes de decantar a essência do seu povo.

 

A ideia de reunir esses símbolos é em si mesmo louvável. Mas é necessário deixar que o tempo faça o seu trabalho, limpando o efémero. É necessário envelhecer bem para merecer o Panteão. Um panteão não é uma caderneta de cromos com os bonecos dos futebolistas que jogaram nesse anos na primeira divisão.

 

Vem isto a propósito da nova moda dos panteonáveis. Tenho a minha opinião sobre os que lá estão, os da primeira vaga e os da segunda, mas não é sobre um referendo a propósito de inclusões ou exclusões que me parece saudável discutir, mas sobre o conceito de “ir para o panteão”. O ir para o panteão, já, como se ouviu após a morte de Eusébio e agora com a morte de Manuel de Oliveira é o correspondente ao sanctus súbito da Igreja Católica, que deu por vezes péssimos exemplares de santos. O outro perigo é o de transformar o Panteão numa montra dos famosos da época, de amigos de um dado regime... ou num local da moda. Num cemitério de personalidades – em vez de ser uma fonte, uma árvore numa floresta sagrada.

 

É evidente que todas as personalidades ultimamente panteonadas são ilustres, a questão não é essa, é a de a sociedade portuguesa entender que o Panteão passou a ser o jazigo dos ilustres. Isto é, se o Panteão português passou a ter outra finalidade...

 

É que, se o Panteão passou a ser o cemitério do PéreLachaise de Portugal..., convém desimpedir o campo à volta de modo a albergar a vaga de famosos que mais cedo ou mais tarde falecerão e que terão tanto direito como outros a ali figurar! Lembro, sem nenhum desejo de lhes apressar o fim, longe vá o agoiro, atletas como Carlos Lopes, Rosa Mota, Joaquim Agostinho, atores e actrizes como Rui de Carvalho, ou Eunice Munõz, ou Maria de Medeiros, filósofos como Eduardo Lourenço, músicos como Chaínho, pintores como Pomar, escritores como Agustina e, pergunto, onde estarão, entre outros, o Zeca Afonso, ou Agostinho da Silva, ou Saramago, ou Eugénio de Andrade, ou Natália Correia, ou Amadeo de Souza Cardoso, administradores como Azeredo Perdição, ou engenheiros de grandes obras como Edgar Cardoso, enfim a lista podia continuar com os acrescentos e exclusões de cada um, se a ideia for panteonar os nossos ilustres concidadãos e não aqueles que dirão aos nossos descendentes onde devem lançar a âncora, aqui e não ali, as boas épocas para viajar, ou de ficar em casa, as de correr ou as de andar, as de lutar ou as de negociar…

 

No romance Para Sempre, Vergílio Ferreira (aí está outro panteonável) coloca vários escritores de várias épocas a comentarem as vicissitudes de história numa imaginária biblioteca.

 

Eu vejo o Panteão como a «biblioteca do Para Sempre», com os ilustres, que lá se encontram a reflectirem sobre Portugal, sobre os portugueses, sobre o que somos, sobre o nosso futuro e a deixarem-nos ouvi-los. Eu, por exemplo, de todos os ilustres lá imortalizados, o que me parece ter dado a melhor resposta às perguntas que eu lhe faria sobre o que de mais importante devíamos fazer para vivermos melhor e sermos melhores, sobre a causa da nossa pobre situação foi João de Deus: aprendam a ler! E deixou-nos uma cartilha! Inteligente e eficaz. Eis um caso raro!

 

Para já, o que oiço dos que andam cá por fora é: «coitado, lá vai mais um para o panteão». Ou, a nova versão da frase de Almeida Garrett: “Foge cão que te mandam para o panteão!” O que não honra o Panteão, nem quem lá está, nem quem lá deverá estar…

 

O populismo é sempre mau conselheiro e, como diz o povo, “cadelas apressadas parem cães cegos!!!” Ainda corremos o risco de lá irem parar o Alves dos Reis e o Ricardo Espírito Santo, os maiores fazedores de dinheiro falso…"

 

Artigo de Carlos de Matos Gomes

publicado por Brito Ribeiro às 14:28

16
Ago 15

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Olhar o passado para construir o futuro” é o tema da XVIII Bienal Internacional de Arte de Cerveira, que decorre até 19 setembro de 2015, em Vila Nova de Cerveira, para apresentar 400 artistas de 33 países, cerca de 500 obras de arte. Pretende-se a identificação dos saberes e tradições da região, para apresentar soluções de identificação contemporânea, conducentes a uma aposta no diálogo dos artistas criadores com a história e conhecimento dos meios onde se inscrevem geograficamente. A Direção Artística está a cargo de Henrique Silva.

O formato, adotado desde a primeira Bienal, foi mantido de acordo com o objetivo a que este evento se propõe desde 1978: um local de encontro, debate e investigação de Arte Contemporânea, num programa concertado com a vizinha Galiza e o Ensino Superior a nível Europeu.

O programa de 2015 envolve: Concurso Internacional; representações de 13 Universidades, Escolas Superiores e Politécnicos das áreas artísticas, com apresentação dos departamentos de investigação artística e as produções de alunos e professores; Artistas Convidados nacionais e estrangeiros; Curadorias nacionais e internacionais; Artistas Homenageados (Alcino Soutinho, Dacos e Eurico Gonçalves); Conferências e Debates; Ateliers e Workshops; Visitas Guiadas; Espetáculos interiores e exteriores; um Drive-in, entre outros.

A Bienal de Cerveira alarga, mais uma vez, o seu âmbito expositivo, apresentando mostras em Paredes de Coura, Caminha e Tomiño.

De destacar, ainda, a participação da artista grega Danae Stratou, que apresenta dois trabalhos de vídeo, um deles com um texto de Yanis Varoufakis, e Margarida Reis que expõe parte do seu notável trabalho artístico na área da tapeçaria contemporânea.

  

PROGRAMAÇÃO XVIII BIENAL DE CERVEIRA

 

TEMA

O desenvolvimento de objetivos nacionais e internacionais, a atualização e revisão do Estatuto de Estratégia Regional são os planos de enquadramento desta edição, onde se propôs promover uma série de workshops que serão a base da construção de uma coesão regional sustentada para a prestação de serviços culturais essenciais para o desenvolvimento criativo e económico da Bienal de Cerveira e para a sua maior internacionalização. Neste sentido, a XVIII Bienal de Cerveira levou a cabo uma identificação dos saberes e tradições da região, para apresentar soluções de identificação contemporânea conducentes a uma aposta no diálogo dos artistas criadores, com a história e conhecimento dos meios onde se inscrevem geograficamente.

Baseado num Centro de Recursos para as Indústrias Criativas que deverá contribuir para a sua subsistência e desenvolvimento económico, a componente central basear-se-á no apoio dos departamentos de investigação de Universidades e Institutos Politécnicos, como pano de fundo para uma alta e internacional referência cultural. Assim o tema proposto para esta XVIII Bienal de Cerveira é:

 

 "Olhar o Passado para Construir o Futuro”

 

CONCURSO INTERNACIONAL

O concurso foi destinado a artistas de todo o mundo, sendo que cada concorrente apresentou, para além da(s) obra(s) a concurso, um portfólio com fotografias de trabalhos da sua carreira artística, um currículo completo e uma memória descritiva sobre a integração da sua proposta no contexto do tema proposto. Foi dada preferência às obras que refletiam a cultura e tradição do país de origem dos artistas concorrentes, numa interpretação contemporânea. Pretende-se, desta forma, estabelecer um diálogo mais enriquecedor entre os concorrentes e o público em geral.

 

ARTISTAS CONVIDADOS

Com o fim de aproximar os conceitos científicos da prática laboratorial, foram convidadas Faculdades, Institutos e Escolas Superiores de Arte a participar nesta Bienal com mostras dos resultados das investigações dos respetivos departamentos das áreas artísticas, assim como em debates e conferências sobre o estado da arte, em analogia com as investigações feitas nos anos 60 por José Ernesto de Sousa sobre a valorização da “expressão ingénua” como ele lhe chamava.

Participam, nesta edição, 13 Instituições Superiores das áreas das Artes:

  • Colégio Das Artes da Universidade de Coimbra;
  • Escola Superior das Artes e Design das Caldas da Rainha;
  • Escola Superior Artística do Porto;
  • Escola Superior Gallaecia;
  • Escola Superior de Música, Artes e Espectáculo;
  • Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa;
  • Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto;
  • Instituto Politécnico de Tomar;
  • Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro;
  • Universidade Católica Portuguesa do Porto;
  • Universidade do Minho;
  • Universidade Aberta;
  • Universidade do Algarve.

 

No âmbito deste trabalho realizado em conjunto com as Instituições de Ensino Superior, a programação inlcui: exposição das obras de alunos e/ou professores, selecionadas pelas Instituições de Ensino Superior convidadas e que compõem o Conselho Científico / Artístico da Fundação Bienal de Cerveira; uma Assembleia do Conselho Científico / Artístico da Fundação Bienal de Cerveira, tendo como principal assunto a ser debatido o futuro da Fundação Bienal de Cerveira; e, finalmente, um debate público sobre o ensino tradicional versus o ensino contemporâneo das artes.

Está programado também um Retiro Doutoral, até 31 de julho, pela Universidade Aberta e Universidade do Algarve que partilham o Curso de Doutoramento em Média-Arte Digital, onde serão realizadas conferências abertas ao público, apresentação dos trabalhos dos doutorandos, defesa de projetos de teses, entre outras atividades.

Podemos, ainda, falar de dois outros convidados que marcam, com certeza, a XVIII Bienal de Cerveira: a artista Margarida Reis, cujo trabalho em tapeçaria é reconhecido internacionalmente e, ainda, a artista grega Danae Stratou, que participa com dois trabalhos de vídeo, um deles com textos de Yanis Varoufakis.

  

HOMENAGENS

É homenageado o artista Eurico Gonçalves não só pela consistência e personalidade da sua obra, mas também pela dedicação e contribuição que teve ao longo dos 37 anos da Bienal de Cerveira, cujo contributo muito marcou a Instituição, assim como o Arquiteto Alcino Soutinho (1930-2013) pela sua intervenção no ex-líbris de Vila Nova de Cerveira, chamando assim a atenção das autoridades competentes para o futuro do Castelo, onde esteve implementada a Pousada D. Dinis, e que hoje merecia uma integração mais objetiva nos destinos desta Vila das Artes.

Dacos (1940-2012) colaborou com a Bienal de Cerveira durante mais de 10 anos, tendo sido responsável pelos ateliers de gravura. Mestre gravador, muito contribuiu para o desenvolvimento da gravura no Norte de Portugal e foi co-responsável pela organização de exposições no Museu de Liège de artistas portugueses, no qual participou ativamente.

 

INTERVENÇÕES ARTÍSTICAS

Ao longo do mês de julho e agosto decorrerão ações espontâneas de artistas convidados, tanto no interior da Bienal como no espaço público, cujo conteúdo será desenhado de uma forma interventiva nos espaços.

 

WORKSHOPS

Aproveitando as sinergias do “Cluster” das Industrias Criativas da Fundação Bienal de Cerveira, dinamizar este sector com a criação de workshops, cursos e ateliers livres em áreas criativas como o desenho e pintura, cerâmica, gravura, tapeçaria, arte digital, entre outras, integrando nos serviços educativos do Museu da Bienal de Cerveira.

 

4 a 15 agosto | Ateliers

Horário – Das 15H:00 às 19H00

Local: Fórum Cultural (Oficinas)

 

Pintura – Conceção e orientação – Henrique do Vale

Cerâmica /Escultura – Conceção e orientação – Álvaro Queirós

Arte Digital – Conceção e orientação – Joel Ribeiro

Serigrafia – Conceção e orientação – Lídia Portela

Gravura – Conceção e orientação – Cabral Pinto

 

4 a 9 agosto| Workshop de Gravura

Horário| Das 15H:00 às 19H00

Local | Fórum Cultural (Oficinas)

Conceção e orientação – FACAL

 

16 a 29 agosto | Laboratório de improvisação

Horário: 15h00 às 18h00

Local | Fórum Cultural (Openspace)

Atividade Prática Exercícios de: movimento, escrita, oralidade, expressão corporal/dança, sonoros/musicais.

Conceção e orientação – Ana Maria Pintora

 

ATELIERS INFANTIS

O atelier de crianças será dirigido aos jovens em idade escolar, onde aprenderão a manipular os objetos, estimulando a criatividade e, sobretudo, desenvolvendo a capacidade de observação e o contacto com a arte contemporânea. Estão agendados de 9 a 15 de agosto, sob a coordenação de Ana Patrícia.

 

VISITAS GUIADAS

Serão organizadas visitas guiadas por artistas, cumprindo com o objetivo levar o “conhecimento a todas as populações”, único meio para o desenvolvimento social e cultural indispensável a uma melhor qualidade de vida. Já em Setembro a XVIII Bienal estará aberta exclusivamente para receber Instituições de Ensino e de Solidariedade Social.

  

CONFERÊNCIAS E DEBATES

Estão a ser preparadas conferências no âmbito do tema “Olhar o passado para construir o futuro”, tendo sido já definida uma sessão de debate intergeracional sobre a “Idade do saber”.

 

Contacto imprensa | Ana Vale Costa | gab.comunicacao@bienaldecerveira.pt | 925973911

publicado por Brito Ribeiro às 12:20
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20
Jul 15

Hamburgo 3 - Envolto em chamas após ter colidido com o navio holandês “Simonskerk”, no dia 2 de Fevereiro de 1966, o cargueiro português “Conceição Maria”, de 1.819 toneladas, propriedade da Sociedade Geral de Comércio, Indústria e Transportes e registado em Lisboa, derivou perigosamente em direcção aos reservatórios petrolíferos da Transocean – informou a guarda costeira holandesa.

As autoridades acrescentam que o rebocador de alto mar “Atlas” está a tentar passar um cabo ao navio português, a fim de o afastar dos depósitos e evitar a possibilidade de uma catástrofe ainda maior. Entretanto, os vinte e seis tripulantes portugueses do “Conceição Maria” foram recolhidos pelo navio dos pilotos da barra do Ems, “Pollux”.

Mensagens de rádio recebidas de bordo do “Atlas” indicam que o “Conceição Maria” deve ter derivado perigosamente em direcção dos reservatórios da Transocean, desconhecendo-se, por enquanto, o que sucedeu ao navio holandês envolvido na colisão.

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Dezassete dos tripulantes portugueses recebidos pelo “Pollux” foram, mais tarde, transferidos para bordo do navio da guarda costeira “Georg Breusing”, que os levou imediatamente para terra, regressando, pouco depois, para recolher os nove restantes. Todos os sobreviventes, um dos quais apresentava ferimentos graves, foram para a ilha de Borkum, no Mar do Norte – informa a guarda costeira.

Segundo a rádio «Norddeich», a colisão deu-se ao largo do estuário do rio Ems, a doze quilómetros ao norte da ilha holandesa de Schiermonnikog.

Os vinte e seis tripulantes portugueses foram recolhidos por navios de socorro holandeses.

Por informações obtidas junto da Sociedade Geral, o cargueiro português “Conceição Maria”, propriedade daquele armador, estava fundeado perto da boia JE-2, já na área do porto de Borhum, quando foi abalroado pelo vapor “Simonskerk”, de 9.821 toneladas, que, criminosamente e ao contrário de todas as leis do mar e dos homens continuou o seu rumo. O navio português sofreu um grande rombo e incendiou-se, afundando-se mais tarde, notícia, aliás, ainda não confirmada pela Sociedade Geral.

O marinheiro ferido, Jasmim dos Santos Nascimento, natural de Mafra e que está internado no Hospital de Borkum, sofreu fratura numa perna e nas costelas. Encontrava-se na parte superior do navio e, devido ao abalroamento, foi projectado.

 

A atitude criminosa do navio abalroador

De acordo com mais informações recolhidas na Sociedade Geral, que o comandante do “Conceição Maria”, sr. Manuel Casimiro Soares Sousa, este em contacto telefónico, às 11 horas da manhã, com aquela empresa e dissera que o navio português se encontrava fundeado e devidamente sinalizado. Depois do abalroamento, que provocou grande rombo no costado do “Conceição Maria”, o navio holandês continuou viagem sem prestar assistência ao navio nem à tripulação do cargueiro português.

O “Conceição Maria” saiu de Lisboa no passado dia 29 de Janeiro de 1966, com destino a Bremen, onde devia ter chegado ontem. Levava um carregamento de cortiça e carga geral. A notícia do afundamento do navio não pôde ser confirmada pela empresa proprietária. O último telefonema pra a companhia armadora, feito a bordo do rebocador “Atlas”, onde se encontrava o comandante do navio, informava que já tinha sido lançada uma amarra ao navio português e que se faziam tentativas para o recuperarem e extinguir o incêndio.

 

A tripulação do “Conceição Maria”

São as seguintes as identidades dos membros da tripulação:

Comandante, Manuel Casimiro Soares de Sousa, de Lisboa; imediato, Vasco Dinis de Barros Freire, de Oeiras; segundo-piloto, Délio Carlos Ramos Morgado, de Loulé; praticante de piloto, Afonso Correia Bettencourt, dos Açores; radiotelegrafista, Renato Manuel da Silva Santos Medeiros; contra-mestre, José Fiúza Sampedro, de Lisboa; marinheiros, Cesário dos Santos Evangelista, de Vila Franca de Xira; Vasco Boto Macatrão, da Nazaré; Ernesto Cordeiro, da Figueira da Foz; Armindo Pereira Rico, de Vila Nova de Gaia; José Viegas Samuel, de Setúbal e Jasmim dos Santos Nascimento, de Mafra; primeiro-maquinista, António Fiel, de Lisboa; segundo-maquinista, Fernando Neves do Sacramento, também de Lisboa; terceiros-maquinistas, Domingos Augusto Beira, de Mirandela e João Lima Maranhão, do Porto; artífice, José de Oliveira Ferreira Lopes, de Lisboa; fogueiro-paioleiro, Joaquim dos Santos, da Lourinhã; ajudantes de motorista: Manuel Anselmo Freitas Maciel e Manuel Luís Delgado Gaivoto, ambos de Viana do Castelo; Alípio António da Rocha Carvalho, de Vila Praia de Âncora; cozinheiro, António Luís de Brito, dos Arcos de Valdevez; padeiro, Manuel Rodrigues da Silva, de Aveiro; e, ainda Manuel Ferreira Pousada, de Valença; António Lajes Veloso, dos Arcos de Valdevez; e João de Sousa Marques, de Vila Verde.

Todos se encontram a salvo, no porto de Borkum.

(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 4 de Fevereiro de 1966)

 

Características do navio-motor “Conceição Maria”

1948 – 1968

Armador: Soc. Geral, de Comércio, Indústria e Transportes, Lisboa

Nº Oficial: H-360 – Iic: C.S.I.U. – Registo: Lisboa, 08.07.1948

Construtor: Companhia União Fabril, Lisboa, 07.1947

Arqueação: Tab 1.735,64 tons – Tal 931,59 tons – Pm 2.974 tons

Dimensões: Ff 93,32 mt – Pp 86,40 mt – Bc 12,84 mt – Ptl 4,55 mt

Propulsão: Burmeister & Wain – 1:Di – 7:Ci – 2.500 Bhp – 13 m/h

Equipagem: 26 tripulantes

 

Emden (Alemanha Ocidental), 4 – Chegou hoje aos estaleiros Rheinstahl Nordseewerke, de Emden, o navio português “Conceição Maria”, a fim de ser reparado, pois tem o casco muito queimado.

O capitão e oito tripulantes estavam a bordo quando um rebocador da Alemanha Federal rebocou o navio para o porto de Emden.

O convés superior e a superestrutura do “Conceição Maria” estão reduzidos a ruínas negras. O navio apresenta as marcas da colisão com o navio holandês “Simonskerk”.

Um dos vinte e seis tripulantes portugueses continua hospitalizado na ilha de Borkim, no Mar do Norte.

Os restantes dezassete chegaram a Emden, vindos de Borkum, num «ferryboat» pouco depois do navio. Foram imediatamente recolhidos numa casa de marinheiros onde comeram e descansaram, antes de partirem de comboio para Portugal.

Ainda não se sabe quanto tempo demorarão as reparações que o “Conceição Maria” terá de sofrer em Emden.

 

A Sociedade Geral, empresa armadora do navio “Conceição Maria”, ante-ontem abalroado por um navio holandês, no Mar do Norte, informou que, segundo as últimas notícias recebidas, aquele cargueiro continuava a navegar, às 21 horas de ante-ontem, e estava a ser rebocado para o porto alemão de Emden, onde devia chegar, ontem, cerca das 11 horas.

Pouco antes daquela hora, o capitão do “Conceição Maria”, sr. Manuel Casimiro Soares Sousa, deixara o rebocador “Atlas” para regressar para bordo do navio português, onde o fogo, entretanto, fôra extinto.

Além do comandante Soares Sousa, estão em Emden mais sete membros da tripulação, com vista à possível reparação do navio. Só depois do “Conceição Maria” entrar naquele porto poderá ser decidido se o navio será objecto de reparação provisória em Emden, vindo depois para Lisboa, ou se também se fará na Alemanha a sua reparação definitiva.

Os outros dezoito tripulantes do “Conceição Maria” partiram, ontem à noite, de comboio, para Lisboa, onde devem chegar na segunda-feira à noite.

Vai ser posta uma acção contra o comandante do vapor holandês que não prestou assistência ao navio abalroado.

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A Sociedade Geral já incumbiu os seus advogados, em Londres, de prepararem a apresentação da queixa contra o comandante do navio holandês “Simonskerk”, que seguiu viagem sem prestar assistência aos sinistrados, depois do seu navio ter abalroado violentamente o “Conceição Maria”. A atitude daquele comandante, e tanto mais incompreensível, pois o “Conceição Maria” para além de seguir devidamente sinalizado, o sino de nevoeiro ia a tocar, por mera precaução.

(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 5 de Fevereiro de 1966)

 

Em função do referido no texto anterior, confirma-se ter o navio levado a cabo reparações provisórias no porto de Emden, possibilitando a viagem de regresso a Lisboa. Porém, a companhia Sociedade Geral, em função dos múltiplos danos encontrados a bordo, optou pela venda do navio ao sucateiro Américo Vasques Vale, de Lisboa, tendo a demolição acontecido no decorrer do ano de 1968.

 

Publicação original de REIMAR em http://naviosenavegadores.blogspot.pt/

publicado por Brito Ribeiro às 09:49
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13
Jul 15

Com a aproximação do verão, chega o tempo de férias, de festas e romarias, do regresso dos emigrantes às aldeias de origem e da deslocação de muita gente para o litoral, para as praias das suas preferências, na busca do merecido descanso junto às águas frescas do Atlântico.

O desequilíbrio demográfico entre o litoral e o interior acentua-se, pondo em risco, por vezes, os padrões médios de segurança no que toca a saneamento básico, que nos picos de afluência são rapidamente ultrapassados.

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 É muito importante que os municípios estejam preparados para responder com eficácia às demandas que o afluxo turístico acarreta, apesar de frequentemente se esquecer que não existem apenas mais-valias nesta actividade económica, mas também custos não negligenciáveis ao nível da melhoria da rede viária e estacionamentos, informação e ordenamento, limpeza e salubridade urbana, segurança e resolução de conflitos e, por fim, o sobredimensionamento das infra-estruturas de captação e distribuição de água, rede de saneamento e tratamento de efluentes, bem como potência da rede eléctrica, devido à característica sazonal da actividade turística baseada no tradicional sol e praia.

Mas é também necessário preparar as praias, atlânticas ou fluviais para as enchentes de Julho e Agosto. Longe vão os tempos em que se escolhia calmamente o sítio para estender a toalha sem vizinhos irrequietos e barulhentos por perto. Na actualidade torna-se cada vez mais difícil encontrar essa pérola, apesar de sermos intoxicados amiúde com as habituais frases feitas sobre o turismo de qualidade.

Um bom exemplo é a forma exagerada e desordenada como certas esplanadas invadem o espaço público, subjugando-o ao interesse comercial (que é legítimo) de alguns privados. Deixa de ser legítimo quando por abuso ou por anuencia da autarquia, os espaços públicos ficam reféns de um mero negócio de restauração, condicionando em alguns casos a livre circulação dos cidadãos, em outros casos desvalorizando o património histórico e arquitectónico com a parafernália de guarda sois multi coloridos que promovem marcas de bebidas mais ou menos conhecidas. Como em tudo na vida, deve haver equilíbrio e exige-se bom senso nas decisões, principalmente nos centros históricos e na primeira linha de costa.

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O turismo de qualidade não é sinónimo de turismo de luxo, mas sim de excelência, seja a nível da restauração tradicional ou de luxo, do alojamento local ou de uma unidade de 4 ou 5 estrelas. O que interessa é potenciar aquilo que temos de melhor para oferecer e que eventualmente os outros (entenda-se, regiões) não tem.

Em primeiro lugar a genuinidade dos minhotos que sabem receber como ninguém; depois as festas de aldeia e as grandes romarias, a paisagem, o património e a cultura de um povo que tanto olha para o mar, como para a serra, que se orgulha das suas origens e das suas tradições.

Ao ficarem presos às esplanadas e ao binómio sol e praia, algo que existe um pouco por todo o lado, e frequentemente em condições mais vantajosas, continuar-se-á a cavar o fosso entre a qualidade e a vulgaridade.

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Nos últimos anos, o Alto Minho tem assistido à abertura de um número apreciável de pequenas unidades hoteleiras, enquadradas no sector do turismo rural, que respeitando o ambiente e valorizando o património arquitectónico, tem conseguido afirmar-se neste mercado tão competitivo.

O turismo é actualmente uma das actividades de maior crescimento, de maior importância para a economia mundial e que gera mais emprego. No entanto, os benefícios do turismo não podem ser reduzidos aos económicos. O turismo afecta positivamente a qualidade de vida e o bem-estar, sendo esta relação significativa no que respeita a algumas das dimensões da qualidade de vida e do bem-estar.

Os gestores da área (assim como autarquias e tutela turística regional) devem promover serviços que valorizem experiências pessoais satisfatórias, que gerem afectos positivos e que estes efeitos sejam duradoiros, uma vez que podem gerar lealdade com o destino, vontade de gastar mais e de recomendar quando se volta a casa.

Boas férias!

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 10:09
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28
Jun 15

Foi apresentado publicamente no dia 27 de Junho o livro "A Masseira Ancorense" no recinto da Festa do Mar e da Sardinha, em Vila Praia de Âncora.

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Esta brochura pode ser adquirida na livraria "Banco de Livros", na Rua Candido dos Reis, em Vila Praia de Âncora ou on line pelo site https://livrosusadosantigosraros.wordpress.com

O produto da venda deste livro reverte integralmente para a associação NUCEARTES - Núcleo de Estudos e Artes do Vale do Âncora.

 

publicado por Brito Ribeiro às 19:09

24
Jun 15

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 "Quando os pescadores guardeses se instalaram no isolado lugar da Lagarteira, nos inícios do séc. XIX, além da sua força de trabalho, trouxeram as artes e o saber de toda a prática marítima, bem como a sua principal ferramenta, a gamela guardesa.

Pela sua especificidade, esta embarcação que no norte de Portugal é conhecida por “Masseira Ancorense”, tornou-se um elemento incontornável da comunidade piscatória ancorense até aos nossos dias, continuando sempre a desenvolver-se e a adaptar-se às novas condições de trabalho, às necessidades da pesca e do pescador, bem como às inovações técnicas que entretanto surgiram."

 

Lançamento do livro no dia 27 de Junho de 2015, pelas 18 horas, no pavilhão da Festa do Mar e da Sardinha, em Vila Praia de Âncora.

Preço de lançamento: 10 €

publicado por Brito Ribeiro às 10:08

06
Mai 15

Texto publicado originalmente na revista ValeMais do mês de Maio.

 

O anúncio da Reforma do Sector das Águas com a agregação de 19 empresas do Grupo Águas de Portugal, está a gerar polémica e a revoltar autarcas, que já equacionam a possibilidade de recorrer aos tribunais para tentar travar o processo.

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Que o modelo actual não está bem, não é novidade, mas o conjunto de propostas apresentado pelo governo enferma de graves erros de concepção e de estratégia.

A água é um bem universal e é a seiva de nosso planeta. Ela é a condição essencial de vida vegetal e animal. Sem ela, não poderíamos conceber como são a atmosfera, o clima, a vegetação, a cultura ou a agricultura. Os recursos naturais de transformação da água em água potável são lentos, frágeis e muito limitados. Assim sendo, a água deve ser manipulada com racionalidade, precaução e parcimónia. A captação de água em condições de qualidade para ser utilizada para distribuição domiciliária é um processo complexo e de elevados custos, que não podem ser apenas assacados ao consumidor final, sem uma justa ponderação social.

Se retirarmos essa ponderação e acrescentarmos o desleixo na manutenção das redes e outras ineficiências de gestão, teremos um quadro do sector altamente deficitário em termos económicos. E o que faz o Governo neste caso? Resumidamente, decide concentrar os 19 sistemas multimunicipais, em 5 mega sistemas, alegadamente para “obter ganhos de escala e de gama, com benefícios para a tarifa”.

Ora isto é uma falácia, porque não ataca o problema no essencial, que é o desperdício e a má gestão. Quando é o próprio Governo que admite haver um deficit tarifário de 600 milhões e uma divida dos municípios de 500 milhões de Euros, não se pode resumir a restruturação do sector à concentração de empresas e à projecção dos custos ao consumidor final.

É claro que os municípios também não podem continuar a financiar-se à custa do dinheiro dos munícipes, que pagam pontualmente o recibo da água, ficando os municípios a dever à empresa de abastecimento, como aconteceu há uns anos com a Câmara de Caminha, que acumulou, irresponsavelmente, uma dívida de vários milhões de Euros à Empresa de Águas Minho-Lima.

Sabendo-se que a rede de baixa (rede de distribuição domiciliária) tem na imensa maioria das vezes perdas apreciáveis (muitas vezes superiores a 50%), tem de se fazer um esforço no sentido de diminuir esse caudal desperdiçado, mas que é contabilizado como consumo efectivo. Limitar a conservação e reabilitação das infra-estruturas não é uma poupança, pelo contrário, é um acto de má gestão, que condiciona a sustentabilidade financeira do sistema e a qualidade do serviço.

Por outro lado, nas empresas multimunicipais é necessário limitar os custos de gestão, diminuindo os cargos de chefia, nomeadamente os de nomeação política, ajustando as remunerações e outros encargos às necessidades reais das empresas, não as transformando em asilos dourados para políticos em princípio ou fim de carreira.

A sustentabilidade do sistema de captação e distribuição de água não pode ser apenas de ordem financeira, mas deve englobar todas as vertentes, técnica, ambiental, económica, financeira e social, algo que parece esquecido na recente proposta do Governo.

 

publicado por Brito Ribeiro às 09:35
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18
Abr 15

Encontrei no Facebook uma referencia ao Catitinha, um homem enigmático, despontando na memória dos mais velhos, que o recordam a percorrer as praias e a falar com as crianças. Nunca soube de onde vinha, para onde ia, sabia apenas que pernoitava na casa da Dona Titó. Deixo-vos o link onde podem conhecer mais alguma coisa sobre esta personagem extraordinária e um pequeno conto que escrevi no verão de 2012, publicado no quinto volume da colectânea de prosa e poesia "A Arte pela Escrita " da editora Mosaico das Palavras.

 

O Cruzado

CATITINHA-.jpg

A sombra deslizou sobre o meu castelo de areia, imobilizando-se sobre o barquinho de folha-de-flandres, que noutra vida acondicionara chouriças. Endireitei-me, pisquei os olhos doridos pelo violento contra luz. A manhã de estio quase a terminar, o sol no apogeu, dizem hoje ser perigoso para a derme. Nesse tempo não se pensava nisso, o sol tinha melhores humores.

A sombra projetada no meu reino do faz de conta, representava a silhueta de um homem de longa barba branca que se agigantava sobre mim, observando o motivo da minha concentração.

Por um instante fiquei convencido que o Pai Natal tinha descido à praia. Tirou o chapéu de palha de aba larga, enxugou o suor da testa com um lenço grande e voltou a cobrir-se. O areal apinhado de crianças, uns vigiados por mães e amas; outros, habituados desde sempre à “praia das crianças”, livres de tantos cuidados, que se bastavam a si próprios, apenas à hora em que a fome apertava regressavam à penumbra do lar.

O homem confiava a barba com um sorriso triste, distante. Aproveitei esse momento para melhor observar o amarrotado fato de linho branco. Calças arregaçadas, à pescador, deixavam a nu os pés grandes e os joanetes salientes. Olhos azuis, vivos, saltitavam a cada movimento que eu fazia. O cabelo caia em cachos para fora do “palhinhas”, sobre os ombros, aconchegando-se à gola do casaco do qual não destoava a cor.

Repentino, desinteressou-se, deu-me as costas e continuou caminho, calcorreando a areia escaldante até ao próximo grupo de catraios que sonhavam com o castelo dos mouros, entre pás e baldes de plástico que serviam de forma aos torreões inexpugnáveis.

“É o senhor Catita”, “o Catitinha”, “que pena, parece que lhe morreu um filho”, “um filho, um bebé, coitado, ficou assim”.

Para nós era apenas o Catitinha, o homem que velava pelas crianças na praia. Ano após ano, surgia do nada com a missão de assegurar aos outros o que não conseguira evitar a si próprio.

Um cruzado de armadura branca, que ia e vinha sem dar satisfação, respondendo apenas perante o seu desígnio. Um ano, o verão começou sem o Catitinha. Teria o sol adiantado o seu horário, a sardinha abalado para outro portinho, estaria agora na companhia do filho que tanto amara? Não soubemos, mas a praia nunca mais foi a mesma.

publicado por Brito Ribeiro às 09:17
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26
Mar 15

“Era o filho mais velho de quatro irmãos, o único rapaz. Manuel, como o meu pai, o meu avô, o meu bisavô... Treinado para ser médico. Porque o meu pai era médico e toda a família, inclusive do lado da minha mãe, também. Nasci em 47. Não havia televisão. Portugal era um país muito triste. O meu pai era esquerdista, a minha mãe católica e salazarista. A família do meu pai era republicana, a da minha mãe monárquica.

10983462_1710901495803358_3649713301917296085_o.jpEu era um miúdo que não tinha graça nenhuma. Passava a vida a ler. Li tudo. Tudo. Comecei muto novo. Adorava ir para Arouca, para casa dos meus avós. E, naquela altura, as férias eram muito grandes. Em Arouca não havia nada para fazer. Então, lia Aquilino Ribeiro e Camilo Castelo Branco. Em casa do meu pai lia Eça e Antero, na dos outros avós lia os românticos. Era gordo, não tinha jeito para desporto. Joguei hóquei no Vigorosa, mas fui sempre suplente. E suplente do guarda-redes. Pior não podia ser! Mas fui sempre esforçadíssimo, isso sim. E sempre tive muita dificuldade em perder, o que é uma estupidez para um tipo gordinho que não tinha qualquer jeito para aquilo. Tinha um tratamento diferente do que era dado às minhas irmãs. Em Arouca, o meu avô deixava-me sair para ir jogar futebol para o clube. Elas dizem-me ainda hoje que o melhor bife vinha sempre para mim. Não sei se era verdade, mas provavelmente sim. Nasci no dia de Nossa Sra. da Mó, 8 de Setembro, que é a grande festa de Arouca. Portanto, a minha avó achou que era um milagre. Há uma aura que se estabelece em relação a uma criança que não tinha ponta de graça. As minhas recordações dos meus bisavós nunca sei se são mesmo verdadeiras ou se foram reconstruídas a partir das fotografias. A fotografia e o cinema são umas armas fantásticas. As minhas memórias são muito reconstruídas. Vivi desde miúdo na rua Pedro Teixeira. Todos os médicos tinham vindo viver para perto do hospital de São João, só a nossa rua tinha oito ou nove. Neste sítio onde estamos, onde é agora o IPATIMUP, eram os lameiros da Asprela. A gente brincava ou aqui ou no jardim da Arca de Água. Era um Porto rural. A minha ideia de infância da cidade não tem nada a ver com um lugar cosmopolita. Ia ao cinema em frente ao Académico, em Júlio Dinis, ao Vale Formoso. O Porto era uma cidade de bairros. Fui sempre muito bom aluno. Era um marrão, mas adequado. Ajudava os meus amigos, porque tomava notas e depois passava a limpo. Portanto, as minhas sebentas foram sempre muito cobiçadas. Quer na escola, quer no liceu, quer, mais tarde, na faculdade. Eu topava os professores. Tinha boa memória, mas acima de tudo topava... Sempre achei graça a pessoas. Se tiver de identificar a característica que me distingue mais de uma certa geração próxima da minha é essa. Nunca gostei muito de coisas, sempre gostei muito de pessoas. Não acho graça a automóveis, nunca comprei roupa para mim. Uma vez estava em Londres e precisava de comprar uma camisola. Quando a senhora me perguntou o que queria nem sabia como me explicar. Nem linguagem para isso tenho. Fui para médico sobretudo por causa da pressão familiar. E depois, dentro da Medicina, quis sempre ser professor. Esta coisa que faço, de ser vagamente cientista, é para ser melhor professor. As minhas escolhas foram sempre muito racionais. Gostava de Medicina, de estudar doenças, mas tinha muita pena dos doentes. Emocionava-me. Por exemplo, os tipos que se queixavam de doenças psiquiátricas contavam histórias tão horripilantes que pensava: ‘Eh pá, se fosse eu estava pior...’. Empatizo sempre. E para um médico isso pode ser muito complicado. Portanto, encontrei esta solução da Anatomia Patológica. Sou útil, porque faço diagnóstico. Mas há aqui uma coisa de fuga ao risco. Se não tiver a certeza faço mais colorações, se não tiver a certeza com as colorações mando para segunda opinião. Sou muito atípico nisso. Toda a minha vida foi muito certinha. Ainda não tinha acabado o curso na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto quando fui trabalhar com o professor Serrão. Numa altura havia um congresso que tinha como tema o cancro da tiróide e ele disse-me para fazer a revisão dos casos. Gosto de saber as coisas com profundidade. Não sou nada superficial. Percebi que a partir do cancro da tiróide podia perceber muito de cancro em geral. Foi assim que comecei. Fazia autópsias e não tinha percebido que ia morrer. O que é uma burrice para quem faz autópsias. O meu pai morreu cedo, com 71 anos, de cancro do pulmão. Foi uma tragédia para mim. Adorava o meu pai. Percebi que as pessoas morriam aí. Mas, é engraçado, só quando a minha neta mais velha nasceu é que percebi que eu também ia morrer também. Isso deu-me uma ternura e quase uma doçura trágica. Agora, há dois ou três anos, percebi que me ia reformar. Tenho uma má relação com o deixar de trabalhar, porque não sei fazer mais nada. Tenho um cagaço de deixar de trabalhar... No limite por orgulho, por não querer perder. Continuo a lidar muito mal com a derrota. Pessoal ou não. O que está a acontecer no país, por exemplo, é uma tragédia do ponto de vista social. Irrita-me que aconteça. Por isso tenho tendência para lutar contra. Tenho muito optimismo — ou teimosia — na acção. No limite, a teimosia é a fuga da morte. Ou o medo de perder. O medo de perder para mim é deixar de trabalhar ou que o IPATIMUP deixe de ser um sucesso. Ou que a Universidade do Porto deixe de ser o que é. Não vivo com azedume, mas vivo com irritação. E dá-me sempre para responder fazendo. O que me torna — para a minha mulher, os meus filhos e os meus netos — super irritante. Tenho sempre mais coisas para fazer do que tempo. Essa falta de tempo é tenebrosa. E, nesta altura em que a reforma se aproxima, ainda mais. Para mim, deixar de trabalhar é muito mais grave do que morrer. Por isso, quando devia estar a desacelerar, estou a acelerar. Tenho de programar a reforma. Mas como?.. Ando aterrorizado. Se tiver de definir o meu estado actual seria: triste com o país e assustado com a ideia da reforma. Tenho, talvez, de me manter numa actividade próxima da ciência e do ensino. Estou a achar cada vez mais graça aos meus netos. Tenho orgulho neles. Pode ser que eles sejam uma solução. À segunda-feira juntamo-nos todos lá em casa e tem muita graça. Ajudar a formá-los, dar-lhes livros... isso é um desafio interessante. Mas estou a ter um envelhecimento mau. Em conclusão, fui um puto sem nenhuma graça e estou a ficar um velho muito irritante. O IPATIMUP é a menina dos meus olhos. Indiscutível. Mas por ser uma espécie de emanação da Universidade do Porto. A gente quando pensou o IPATIMUP fez uma espécie de universidade, com mais graça e menos chatices. Mas isto é universidade. Não tive nunca a sedução de fazer um laboratório. Ou uma empresa. O IPATIMUP é, antes de mais, um sítio onde fizemos gente melhor do que nós. Eu não sou um cientista, nunca podia ganhar um prémio Nobel. Tenho algumas descobertas razoáveis, mas não tenho nenhuma muito boa. Mas tenho alguns miúdos que começaram comigo que são do melhor que há. Não foi só por estarem aqui, mas foi também por isso. Estas instituições vivem de fazer pessoas. Se não percebermos isso em Portugal de uma vez cometemos um erro enorme. A gente só evolui se apostarmos em fazer gerações de pessoas melhores do que nós. Nós — São João, IPO, IPATIMUP — fizemos uma escola de cancro do estômago e da tiróide que é das melhores do mundo. Esta geração de hoje é muito diferente da minha. É uma geração indutiva, aprende por tentativa e erro. Muito epidérmica, muito pouco elaborada em termos de estrutura. Por exemplo, não conseguem contar uma história com princípio meio e fim. E estamos a falar de gente inteligentíssima. São pessoas muito simplificadas na expressão verbal. É uma coisa que me assusta. São muito bem educados. Mas por imaturidade. São mais formatados e previsíveis. Provavelmente fruto do ambiente familiar. Na minha cultura a mãe estava muito mais presente, dava-nos mais maturação afectiva. Estes miúdos não têm tempo. E acho que não têm entusiasmo, o que talvez seja fruto do estado do país. Nós tínhamos um futuro. Podia não ser risonho, mas era um futuro. Eu agora falo com os meus alunos e eles querem ser médicos. Ponto. Nós queríamos ser os melhores e ir para todo o lado. Agora, houve um problema, que é estupendo mas é um problema, chamado massificação. E nós lidamos mal com a massificação. Estou a falar do ensino, que é o meu mundo. Vivo pouco fora dele. Ao estrangeiro quase só vou para trabalhar. De resto prefiro ficar cá. Todos os fins de semana vou para Âncora, nas férias grandes vou para Arouca. Sempre. Adoro fazer férias para ler. Nunca pensei sair do Porto. Tive um convite de trabalho muito bom da Suíça, país sem mar. Tive outro muito bom da Noruega, onde há pouca luz. O meu primeiro problema é o afastamento dos meus pais, das minhas irmãs e dos meus amigos. Mas preciso também de mar, luz, sol. Depois, há uma coisa muito importante que existia em Portugal e não existia em mais lado nenhum, talvez com a excepção de Espanha. A oportunidade de fazer a diferença. Durante vinte anos, isto foi uma aventura. Tenho sempre muitas visitas de estrangeiros cá. E, há uns anos, o Porto não era uma cidade muito bonita para se mostrar. Levava-os à Foz e à Ribeira. E depois fugia para o Douro e Viana do Castelo. Agora não. O Porto está lindo. A minha relação com a cidade melhorou muito.”

Portugal, Porto, 24 de Março de 2015

Porto Canal - Manuel Roberto e Mariana Correia Pinto

publicado por Brito Ribeiro às 15:36
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13
Mar 15

Na base da saída de pessoas das zonas interiores, estiveram, essencialmente, motivos económicos, daí resultando uma emigração maciça, descontrolada e clandestina, bem como um êxodo rural para o litoral, que originou um rápido e acentuado crescimento das principais cidades portuguesas, Lisboa e Porto. Actualmente a Área Metropolitana de Lisboa tem cerca de 2,8 milhões de habitantes, o que representa 27% da população portuguesa, enquanto a Área Metropolitana do Porto tem cerca de 18% da população total. Ou seja, as duas metrópoles juntas têm praticamente metade de toda a população residente em Portugal. Estes números demonstram sem margem para dúvidas, que temos um país desequilibrado e litoralizado.

portugal a cair autor derrade.png

 As causas aliadas à crescente litoralização do país estão relacionadas com a busca de empregos com melhores níveis de salário, melhor qualidade a nível de escolas, universidades, e melhores infra-estruturas e serviços (hospitais, transportes, educação). Também a sua situação geográfica condiciona a maior instalação e o desenvolvimento das actividades económicas, como é o caso de maior diversificação de indústrias e serviços.

Ora, isto acarreta diversas consequências tanto para as áreas de chegada, como nas áreas de partida. Em relação ao aumento da população no litoral, isto leva a problemas de cariz social, uma vez que as cidades vêem chegar grandes aglomerados de pessoas, não estando apetrechadas dos recursos indispensáveis para dar resposta às necessidades de toda a população.

Os empregos tornam-se insuficientes e precários, levando assim a situações de desemprego, e com isto, ao crescente aumento da pobreza e da marginalidade. A litoralização faz com que haja cada vez menos qualidade de vida no litoral, diminuindo a qualidade dos serviços prestados, aumentando a poluição e a pressão demográfica, com todos os problemas que lhe estão associados.

Os problemas das zonas rurais em consequência do êxodo populacional são, entre outros: desertificação de aldeias, envelhecimento da população e decréscimo da natalidade. Com a diminuição da população decresce a arrecadação de impostos, diminui o turismo nestas zonas, perda de costumes e práticas locais, impedindo o aproveitamento de todas as potencialidades dos territórios afectados (recursos naturais, aptidão para a agricultura e agro-indústria, posicionamento estratégico, etc.)

A combinação destes dois fenómenos aumenta os custos para o país, pois os serviços no interior acabam por ser encerrados, com graves prejuízos para os  utentes locais e os serviços no litoral têm de ser continuamente melhorados para dar resposta à população crescente.

O abandono agrícola e a desertificação do interior é, actualmente, uma das principais causas de alteração da paisagem em Portugal e na Europa. Após séculos de uso humano da paisagem, áreas de agricultura marginal estão a ser abandonadas devido à migração para zonas urbanas ou ao envelhecimento das populações.

Se, por um lado, estas alterações limitam a manutenção das práticas de agricultura tradicional de subsistência e a persistência dos mosaicos de paisagem compostos por áreas de agricultura tradicional, matos e pequenos bosques, por outro lado, abrem uma janela de oportunidade para a regeneração natural da floresta nativa que em Portugal sofreu uma regressão intensa após séculos de desflorestação e degradação.

A par com a oportunidade de restaurar a floresta nativa, o abandono de campos agrícolas acarreta também um aumento do risco de incêndio devido à acumulação de biomassa nas áreas abandonadas, o que pode comprometer a regeneração natural da floresta.

Assim, é fundamental descobrir e implementar novas formas de gestão destes espaços rurais, onde a mudança e a transformação são das tónicas mais acentuadas. O abandono da actividade agrícola e o despovoamento são elementos que unem os municípios do interior do País.

Contudo, assiste-se hoje em dia a um ligeiro, mas progressivo, retorno de pessoas às áreas rurais, e estas são designadas “neo-rurais” ou “novos rurais”. Eles constituem um novo capital humano, que procura uma melhor qualidade de vida, mas igualmente querem contribuir para o desenvolvimento destas áreas. Dedicam-se a várias actividades, muitas delas ligadas à agricultura, sobretudo à biológica, mas também ao turismo em espaço rural. Têm sido, sem dúvida, elementos dinamizadores, que devem ser incentivados pelo poder local e instituições governamentais.

Nenhum país não mede o seu grau de desenvolvimento pelo elevado número de pessoas sediadas nas grandes cidades, mas sim, pela sua capacidade produtiva, pelos seus níveis de riqueza.

Por isso, é tempo de mudar mentalidades e apostar noutras áreas, como o Alto-Minho, que possui os diversos recursos indispensáveis ao desenvolvimento de um ambicioso projecto regional. Basta porem os olhos na Galiza!

publicado por Brito Ribeiro às 11:39
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Agosto 2015
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