Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

20
Jul 16

A figura imponente do lobo remete-nos para um imaginário misterioso com origem muito antiga. Até à atualidade, este predador de topo gerou mitos e histórias assombrosas, onde as noites de nevoeiro, as fogueiras, as sombras ameaçadoras e os uivos lancinantes fazem parte desse mesmo imaginário.

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O lobo-ibérico (Canis lupus signatus) é uma subespécie do lobo cinzento ameaçado de extinção em Portugal, perseguido por caçadores furtivos, venenos, armadilhas e pela destruição progressiva do seu habitat.

Cientes do perigo do seu desaparecimento, foi criada uma lei específica e vários projectos de conservação, congregando investigadores, organizações cívicas e autoridades.

O Parque Nacional da Peneda Gerês (PNPG) é o mais importante reduto do lobo ibérico em estado selvagem do noroeste peninsular, onde dificilmente se alimenta das suas presas naturais, como o corço ou o javali. Geralmente a alimentação escasseia, obrigando as alcateias a atacar rebanhos de ovinos e caprinos, gado vacum e garranos semi selvagens. Lobos e homens partilham este território há séculos e isso cria naturalmente conflitos com as comunidades locais, devido aos prejuízos causados nos rebanhos.

O PNPG é classificado pela UNESCO como Reserva Mundial da Biosfera e justamente considerado uma das maiores atracções naturais de Portugal, pela impressionante beleza paisagística, pela variedade de fauna e flora e pelo interesse ecológico e etnográfico. É a mais antiga área protegida de Portugal e a única com a categoria de Parque Nacional, sendo o único parque da Península Ibérica com a restrita classificação de PAN Park, dada a sua extensa área selvagem e a sua riqueza natural e cultural.

Nos últimos tempos os lobos tem vindo a atacar com bastante frequência e com uma audácia crescente, rebanhos e cabeças de gado, quer no monte durante o pasto, quer junto às habitações, quando já estão recolhidas.

Os produtores de gado estão muito preocupados e revoltados, porque a lei que protege os lobos, contem também mecanismos de salvaguarda de prejuízos causados pelos predadores aos agricultores, só que as indemnizações chegam “tarde e mal” e cobrem em média 20% dos prejuízos reais. Queixas de que os técnicos do Estado demoram muito a confirmarem a morte dos animais, que o valor pago não corresponde ao valor real dos animais ou a não comparticipação nas despesas de tratamento dos animais feridos, bem como queixas de que os pagamentos demoram um ano ou mais, quando os produtores tem poucos dias para repor o efetivo, ouvem-se um pouco por todo o lado e o cenário restrito que se vivia nas comunidades agro pastoris do PNPG, alargou-se a zonas relativamente afastadas, com particular destaque para as zonas montanhosas dos concelhos de Paredes de Coura, Vila Nova de Cerveira e Caminha.

Juntando a componente cultural que atribui uma imagem negativa do lobo, aos prejuízos causados pelas alcateias, compreende-se a revolta das populações afetadas e por isso urge implementar medidas minimizadoras dos impactos causados, como a indemnização justa e célere dos prejuízos. A promoção de ações de sensibilização e educação ambiental poderá contribuir para a diminuição efetiva dos conflitos homem-lobo.

Uma das medidas que tem sido implementada (com alguma timidez, diga-se), é a utilização de cães de gado para proteção dos rebanhos, mas que segundo os técnicos tem vindo a revelar-se de grande eficácia, promovendo-se também a divulgação de raças caninas portuguesas como o cão Castro Laboreiro, o Serra da Estrela, o Rafeiro Alentejano e o cão de gado transmontano (no Parque Natural de Montesinho). A redução geral dos prejuízos nos rebanhos assim protegidos, tem levado à adesão progressiva dos pastores a esta prática antiga, que tinha caído em desuso nas últimas décadas.

É também necessário implementar medidas que melhorem o rendimento económico das populações rurais, designadamente, promovendo o ecoturismo que tire partido de aspetos biológicos deste animal e do património cultural a ele associado, de modo a que as receitas geradas esbatam a conotação negativa associada ao lobo.

publicado por Brito Ribeiro às 18:58
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05
Jun 16

Com mais uma época estival à porta, a “Praia das Crianças” espera os seus utentes, miúdos e graúdos que vem descansar e gozar as delícias do sol, das águas frescas do Atlântico e da brisa fresca do quadrante norte. Assim o permita o S. Pedro, não nos brindando com aquelas nortadas tão características ou pegajosos e tristonhos nevoeiros.

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A Bandeira Azul que irá ostentar no alto do mastro maior, representa não só a boa qualidade das águas balneares, como também o esforço conjugado que tem sido feito nos últimos anos para controlar os parâmetros sanitários das águas do Rio Âncora.

No entanto o galardão alcançado não pode enquistar à volta da qualidade das águas e dos equipamentos legalmente exigidos, mas ser mais abrangente, nomeadamente às condições de acessibilidade e à qualidade e limpeza das areias. E aqui reside a razão do meu reparo de hoje. O areal entre o “Redondo” e o “Cais Sul”, lugar conhecido entre os Ancorenses por “Moureiro”, não tem a qualidade a condizer com os pergaminhos da “Praia da Crianças”.

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Antes da construção dos molhes do novo Porto de Mar, toda a zona do “Moureiro” era invadida pelo mar nos meses de inverno que trazia e levava areia consoante as condições momentâneas da dinâmica costeira. Assim a areia era lavada, expurgada de poeiras e outros resíduos, pronta a ser utilizada no verão seguinte sem reparos de maior. A crítica que mais se escutava era, por vezes, que o mar não repunha areia suficiente e as pedras ficavam à vista pelo meio do areal. Nada a que os veraneantes não estivessem habituados.

Hoje em dia a situação é diametralmente diferente, pois a areia foi-se acumulando e já não é “sovada” pelo mar, devido ao efeito de corte/desvio de ondulação proporcionado pelos novos molhes. De ano para ano nota-se mais poeira no areal, perdeu o característico tom brilhante e em dias de vento é um suplício com nuvens de poeira no ar. Outro sinal preocupante é a facilidade com que surgem no areal pequenas plantas, sinal inequívoco de condições de colonização vegetal, algo que não era suposto haver naquele local.

Em minha opinião, já se deviam ter implementado medidas minimizadoras deste fenómeno, baixando mecanicamente o perfil da praia em cada outono, de modo a que o mar faça as suas investidas invernais e proceda à remoção das poeiras (ou “finos”) acumuladas, trazendo na primavera seguinte areias devidamente higienizadas.

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Além disso, da maneira como a praia está neste momento, com a areia, em vários pontos, quase ao nível da avenida marginal, corre-se o risco de num dia de temporal, com mar de sudoeste, este galgue o paredão, invada a via pública e o casario, provocando danos de vulto. Calculo que o nível da praia neste local tenha subido em média entre 1,5 m e 2 metros.

Termino como como comecei, referindo a satisfação pela qualidade das nossas águas balneares, que levaram à conquista da Bandeira Azul Europeia. Vamos lá a ver se não a perdemos pela falta de qualidade/higiene do areal…

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 16:49

14
Fev 16

Há um ano atrás escrevi nas páginas da revista "Vale Mais" um artigo sob o título “A impermeabilização dos solos”, no qual apontei algumas consequências daí decorrentes, bem como do estrangulamento ou supressão das linhas de “águas bravas”. O que aconteceu recentemente na vila de Albufeira, no Algarve, foi uma lição eloquente sobre os erros de ordenamento de que grande parte dos municípios é fértil, designadamente os do litoral.

Hoje em dia, começa a alterar-se o paradigma dos projectos relacionados com infra-estruturas básicas, não passando tanto pelas extensões de rede, mas pela correção de erros anteriores e substituição de materiais desapropriados ou obsoletos. No entanto, falta coragem e meios para atacar o problema pela raiz, porque iria colidir com interesses de poderosas empresas ou instituições, com direitos adquiridos e com uma lei, que na maior parte das vezes não defende o Estado, nem a causa pública.

Mais que encontrar desculpas esfarrapadas para consumo mediático, tais como as alterações climáticas (que existem, sem dúvida), é necessário tomar consciência que a culpa pertence ao homem que provoca o desequilíbrio ambiental do planeta, com o somatório de pequenas interações isoladas que todos conhecemos. A fábrica que produz resíduos tóxicos, o efluente de saneamento descarregado no ribeiro, a barragem que alterou o ecossistema regional, o porto de mar que modificou a dinâmica costeira, o entubamento do riacho para facilitar a urbanização, o fogo florestal que destruiu o pulmão da região e provocou a erosão do solo ou o aumento exponencial do trânsito automóvel, são apenas alguns exemplos de questões que nos devem preocupar e que tem de entrar nas agendas políticas dos governantes.

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No caso concreto da Bacia Hidrográfica do Rio Minho, a poluição associada às descargas dos efluentes de saneamento doméstico e industrial, bem como a construção de 43 barragens ao longo do seu curso ou dos seus afluentes, transformaram um ecossistema riquíssimo do ponto de vista ambiental, mas também do ponto de vista dos recursos económicos, num curso de água que se debate diariamente com um conjunto de problemas difíceis ou impossíveis de ultrapassar.

Se a poluição tem vindo a diminuir fruto de investimento público em sistemas de tratamento de efluentes, a questão das barragens condiciona em absoluto o ciclo de reprodução das espécies migradoras como a lampreia, o sável ou o salmão. Destes verdadeiros ex-libris do Rio Minho, o sável está em grave declínio, o salmão está praticamente extinto, mantendo a lampreia um nível de capturas mais ou menos estável.

No momento em que escrevo este pequeno artigo, infelizmente as questões ambientais foram suplantadas por uma preocupação maior e de consequências imediatas, o terrorismo, um absurdo que está provocar uma alteração profunda na complexa sociedade da Europa e bacia Mediterrânica.

Saibamos nós dar uma resposta decente aos desafios que nos colocam.

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 10:37

09
Fev 16

Tomei conhecimento que a Junta de Freguesia de Vila Praia de Âncora pretende adquirir uns terrenos para alargamento do cemitério. Referiram-me também, que seria necessário vender alguns terrenos que possui noutros locais para custear o investimento.

Não me choca a solução, face à urgência em tornar realidade esta obra, mas sinto um amargo de boca quando recordo que as coisas poderiam ter sido melhor delineadas, sem a visão míope do miserabilismo que caracteriza boa parte das decisões quando toca a investimentos em Vila Praia de Âncora.

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O ancestral costume de enterrar os corpos no interior das igrejas e nos adros, foi revertido, em termos de legislação, em 1835, durante o regime liberal e marca o início da secularização dos cemitérios. Porém, a adesão a esta nova disposição nem sempre foi pacífica, estando até na origem daquilo que se conhece por “Revolta da Maria da Fonte”.

Esta revolta ocorrida em 1846 e iniciada na zona da Póvoa de Lanhoso, resultou das tensões sociais remanescentes das guerras liberais, exacerbadas pelo grande descontentamento popular gerado pelas novas leis de recrutamento militar, por alterações fiscais e pela proibição de realizar enterros dentro de igrejas.

Em Gontinhães, assim se chamava a nossa terra à época, não ocorreram conflitos, porque se continuou a enterrar os defuntos no adro, mas o problema foi-se agravando até que no final do século XIX em consequência de um conjunto de surtos epidémicos que provocaram grande mortandade entre a população, ocasionando a saturação do adro da igreja matriz e a consequente falta de condições de salubridade que potenciava os riscos de contágio.

Após o surto de cólera que grassou entre 1833 e 1852, uma epidemia de varíola varreu Gontinhães em 1895, sendo 60,9% dos óbitos registados na zona litoral da freguesia. Especialmente nos meses mais quentes, as epidemias de varíola e tifo ou difteria, atribuídas aos “maus cheiros” dos estrumes do patêlo, que por ali se costumava empregar como estrume, pelo que as autoridades administrativas ordenaram que este estrume depois de colhido no mar fosse imediatamente enterrado a um palmo de profundidade. O correspondente local de “O Jornal da Manhã” refere na sua crónica sobre Gontinhães:

 “nesta freguesia há muito a fazer, particularmente no porto de pesca, e nas casas de alguns lavradores que, nada cuidadosos da sua saúde, têm as cortes dos gados vacum e suíno juntas ou por baixo dos aposentos em que habitam e dormem

Como os cadáveres eram inumados no átrio da Igreja e este já estivesse sobrelotado, o Governo Civil de Viana do Castelo exigiu à Administração da Câmara de Caminha que procedesse de imediato à aquisição dos terrenos necessários à construção do cemitério. Esta deliberou rapidamente e por unanimidade na compra 886 m2, mas será a Junta de Paróquia  de Gontinhães a efectuar empréstimos e a lançar derramas para custear a obra, que se concluirá em 1897.

Um século depois, mais ou menos há vinte e cinco anos atrás, após muitos anos de reivindicação, a autarquia caminhense financiou um alargamento do cemitério que ficou muito aquém das expectativas e das necessidades, como lamentavelmente vimos a constatar por mais uma intervenção que terá de ser feita no futuro próximo e que, recorrentemente, vai ter de ser custeada pela Freguesia e pelo seu património.

publicado por Brito Ribeiro às 16:53

21
Jan 16

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Nem sempre concordo com as análises de Raquel Varela, mas desta vez acho que acertou em cheio. É reralmente castrador reduzir os problemas do sector da educação a meros exames ou a questões salariais, que se resolvem (ou não) conforme as conveniencias da mais elementar estratégia partidária. Deixar fora da discussão e da responsabilidade, as escolas, a família e a sociedade no seu todo, só pode piorar o que já mal anda.

 

"Conhecem a velha piada do tipo que está 4 horas a comer e diz que ficou mal disposto porque «comeu a cereja que está em cima do bolo» no final. Somos hábeis a fazer dos pequenos problemas grandes para evitar olhar os grandes, os enormes, que temos pela frente.

O exame é uma análise, que avalia professores, alunos e sistema educativo, o problema não é o exame, é o que se faz com ele. Não são os exames que fazem da escola um lugar segregado, quando nascemos já está determinado que vamos ser o que os nossos pais são - a mobilidade social não existe pela educação porque os pais, o bairro, isso tudo determina hoje muito mais o futuro de cada um - infelizmente «filho de sapateiro, sapateiro será».

Reduzir o problema da escola à existência ou não de exames é não perceber que na escola hoje quase tudo está mal - horários esgotantes para alunos e professores, má formação científica dos professores, universidades que não formam como deviam, professores mal pagos, problemas sociais gravíssimos como o desemprego massivo, carga burocrática insuportável, da primária à Universidade a educação caminha retrocedendo. Só isso explica que as crianças estão 8 horas por dia na escola, repito, 8 horas! - horário de trabalho infantil - e metade das crianças do país não atinge os mínimos a matemática e português - é a confissão de um rotundo falhanço científico e educacional.

Não vale a pena classificá-los a todos como disléxicos, hiperactivos, geneticamente incapazes e drogá-los com ritalina e constante «apoio psicológico» - nós, como sociedade, temos que mudar de rumo. A responsabilidade é nossa, professores, pais, cidadãos. As nossas crianças não estão bem porque tudo à volta delas está mal."

Raquel Varela, RTP 3, O último apaga a luz

 

publicado por Brito Ribeiro às 16:17

12
Jan 16

Considero interessante o "Orçamento Participativo" implementado pela autarquica para aferir junto das populações quais os melhoramentos locais mais ansiados e os que reunem maior apoio. A proposta de valorização do Dólmen da Barrosa do meu amigo Álvaro Meira, proposta simples e ajuizada, traduz a vontade de tantos Ancorenses que defendem a dignificação e divulgação do mais emblemático monumento megalítico da região e um dos mais conceituados de toda a Europa. Daí o meu apoio sem reservas a esta proposta, sem menosprezo pelas demais.

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No ambito do programa autárquico "Orçamento Participativo", apresenta-se a seguinte proposta à discussão e votação dos cidadãos:

O “Dólmen da Barrosa”, em Vila Praia de Âncora, é um monumento megalítico com dólmen de apreciáveis dimensões, inserindo-se na tipologia do Noroeste Peninsular dos dólmens de corredor.

Classificado como Monumento Nacional desde 1910, ergue-se no meio de uma propriedade particular, adquirida pelo Município de Caminha.

O objectivo da intervenção é devolver a este Monumento a dignidade e atratividade que merece, bem como criar condições de salvaguarda contra vandalismo e obras ilegais/lesivas, que violem o estatuto inerente aos Monumentos Classificados.

Entre outros pontos propõe-se:

  • O rebaixamento do muro exterior, permitindo a visualização do Dólmen e minimizando os riscos de vandalismo;
  • Deslocalizar a pista de desportos radicais (para o nó da Erva Verde, por exemplo);
  • Alargar a Rua da Barrosa, criando espaços de estacionamento;
  • Iluminação do Monumento e do espaço adjacente;
  • Criação de um pomar temático com variedades autóctones;
  • Recuperar a antiga casa do caseiro para futuro centro de interpretação e apoio;

Tendo em conta a exiguidade da verba disponível, esta obra teria de ser faseada e com a aprovação da entidade de tutela (DGPC - Direção Geral do Património Cultural).

A votação das propostas decorrerá na sede da Junta de Freguesia de Vila Praia de Âncora a partir do dia 19 de Janeiro.

A VALORIZAÇÃO DO DÓLMEN DA BARROSA é proposta nº  13.

 

publicado por Brito Ribeiro às 20:50

10
Nov 15

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Sobretudo no norte e no centro, o dia 11 de Novembro é, de um modo geral, festejado com magustos de vinho e castanhas. Em muitas regiões rurais, designadamente no Minho, a festa está associada à matança do porco, e é influenciada pela euforia e pelo sentido de plenitude que possui a natureza de uma festa doméstica, muitas vezes a mais importante do calendário familiar. Todavia, o significado mais profundo e original do S. Martinho deve procurar-se nas suas relações com o vinho.

 

     No dia de S. Martinho,

     Mata o teu porco

     E prova o teu vinho.

 

Tradicionalmente é no dia de S. Martinho que se inaugura o vinho novo, que este se prova e se atestam as pipas. A velha legislação municipal proibia em muitos locais a venda do vinho novo antes do S. Martinho, sob pena de multa.

Nas zonas vinícolas há cerimónias características como as “procissões dos bêbados", onde se parodiam os cortejos religiosos e tem na sua base, por vezes, uma irmandade burlesca, a “Ordem” ou “Confraria” de S. Martinho, cujos membro se recrutam entre os mais afamados “bebedolas” da localidade, sendo atribuído o cargo de “juiz” ao maior bêbado, seguido do “mordomo”, do “secretário”, “tesoureiro”, “vogais”, etc.

 

     No S. Martinho bebe o vinho,

     E deixa a água para o moinho.

 

Fonte: Festividades Cíclicas em Portugal - Ernesto Veiga de Oliveira

publicado por Brito Ribeiro às 12:34
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05
Nov 15

O vapor “S. Nicolau”, recentemente saído de Lisboa em serviço da Inglaterra (a), fôra apreendido em Cabo Verde e levava um importante carregamento de pau de campeche, quando foi torpedeado. Era comandado por Amâncio José Azevedo, natural da Ilha Brava, e levava como imediato Tibério da Costa Malheiro, natural de Caminha. A restante tripulação, de 36 homens, era da ilha. O capitão e 16 tripulantes foram salvos e dos restantes nada se sabe.

(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 21 de Novembro de 1916)

 

(a) Em sentido contrário à notícia, o navio estava previsto ser entregue à Furness, Withy, ou seja, posto sob contrato com o governo inglês, após a chegada ao Havre, conforme estaria previamente acordado. Em função do ataque e afundamento ter acontecido em fase anterior à entrega, o vapor encontrava-se ainda sob armação e pavilhão português.

 

O vapor “S. Nicolau”

Como previamente referido, do vapor português “S. Nicolau”, torpedeado na mancha, o capitão e 16 tripulantes foram salvos por um vapor italiano, que os desembarcou em Falmouth, onde estão sob a protecção da autoridade consular respectiva.

A tripulação deste navio era assim constituída:

Comandante, José de Azevedo; imediato, Tibério Pinto Malheiro; 3º piloto, António da Transladação Pinto Neto; carpinteiro, Joaquim Costa Pereira; contra-mestre, Marcelino Silva Pinto; marinheiros: Manoel Fortes Monteiro, Roberto António Soares, Júlio Gonçalves Oliveira, Miguel Fortes do Carmo e António Correia; moços: João Paulo Silva, António Luís da Graça, Francisco Pedro Évora, Abel Vera Cruz Pinto e Valdemiro Cristino Lima; 1º maquinista, José Manuel dos Santos; 2º maquinista, Luís da Silva Gama; 3º maquinista, José Francisco Silva; pilotos maquinistas: Álvaro Sant’Ana Estanislau, Marcelino Brito de Lima, Manoel Lopes e António Vieira; fogueiros; José Maria da Silva, João de Matos, Luiz Machado, Mateus Marques, Manoel Diogo Neves e António de Oliveira Lopes; chegadores: Pedro Diogo Neves, Martins Fortes e José Pereira Barradas; despenseiro, António Mateus Gonçalves; cozinheiro, Manoel Duarte; ajudante de cozinheiro, Belarmino da Conceição Ferreira; criados: Júlio de Brito Lima e Lourenço Peres Viana; moço praticante, João Batista Salgado.

(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 21 de Novembro de 1916)

 

 

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 Imagem do vapor "S. Nicolau" e foto do capitão Amâncio Azevedo

(In "Ilustração Portuguesa", Nº 565 de 18 de Dezembro de 1916)

 

Características do vapor “S. Nicolau”

1916-1916

Armador: Transportes Marítimos do Estado, Lisboa

Nº Oficial: N/s - Iic: H.S.N.I. - Porto de registo: Lisboa

Construtor: Akt. Ges. “Neptun”, Rostock, 1905

ex “Dora Horn”, Reederei Horn, Lubeca, 1905-1916

Arqueação: Tab 2.678,83 tons - Tal 1.698,47 tons

Dimensões: Pp 88,70 mts - Boca 13,40 mts

Propulsão: Do construtor - 1:Te - 9,5 m/h

Equipagem: 37 tripulantes

 

Os náufragos do “S. Nicolau”

No ministério da Marinha foi recebido um telegrama do vice-cônsul de Portugal em Falmouth, com a seguinte relação dos náufragos do vapor “S. Nicolau”, que fôra torpedeado por um submarino:

Capitão Amâncio José de Azevedo, 3º piloto António Pinto Neto, contra-mestre Marcelino Silva Pinto, marinheiro Manoel Fortes Monteiro, moços Abel Vera Cruz Pinto e António Luís da Graça, 2º e 3º maquinistas Luís Gama e José Francisco Silva, praticante Álvaro Sant’Ana Estanislau, azeitadores Marcelino Brito de Lima, Manoel Lopes e António Vieira, fogueiros Mateus Marques, João de Matos e Luiz Machado, chegador Pedro Diogo Neves, despenseiro António Mateus Gonçalves e criado Lourenço Peres Viana. Sobre o destino dos outros tripulantes aguardam-se informações que já foram pedidas.

(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 22 de Novembro de 1916)

 

A bordo do vapor “Dresna” da Mala Real Inglesa, chegado hoje ao Tejo, vieram os 18 tripulantes do vapor “S. Nicolau”, canhoneado por um submarino alemão na Mancha.

Entre os tripulantes figurava o comandante, sr. Amâncio José de Azevedo, velho lobo-do-mar, natural da Ilha Brava, que imediatamente se dirigiu à comissão de administração dos transportes marítimos, a fim de apresentar o seu relatório sobre a perda do navio.

Tivemos ocasião de nos avistar com esse oficial, recolhendo as impressões da primeira vítima dos alemães em tripulações que guarnecem os navios em serviço dos aliados. É profundamente dolorosa e trágica a aventura que esse valoroso marinheiro nos refere:

«O “S. Nicolau”, que tinha saído de Lisboa no dia 11 de Novembro, com destino ao Havre, onde devia ser entregue ao representante do governo inglês, encontrava-se dois dias depois, pelas 11 horas, a 15 milhas leste do ilhote Cassequets, espécie de pedregulho que se destaca na costa bretã. Faltava apenas um dia para chegar ao ponto do destino.

Nessa ocasião, o piloto veio comunicar-me – diz o comandante Amâncio – que a curta distância, encaminhando-se em direção ao navio, vinha uma embarcação que parecia ser uma chalupa.

Dispunha-me a examinar mais detidamente esse barco, quando de bordo dele foi feito o primeiro tiro. Não houve, portanto, aviso prévio algum. O primeiro tiro atingiu o “S. Nicolau” por avante e logo outros dois se seguiram. O último desarvorou a chaminé.

Imediatamente a tripulação correu às baleeiras, que foram lançadas ao mar, sob o fogo do inimigo. O submarino fez ao todo 17 tiros para destruir o navio e fazê-lo submergir totalmente.

A tragédia desenrolara-se sob um céu admirável de beleza e clemencia. As nossas baleeiras andavam ao sabor das ondas quando o submarino se aproximou daquela em que eu ia e de uma outra governada pelo imediato, convidando-nos a passar ao submarino. Ali pediram-nos os papéis de bordo. Como lhes dissemos que os tínhamos deixado lá e que nem o boné conseguíramos trazer porque fôramos atacados de surpresa, mandaram-nos passar à baleeira, entregando-nos à fortuna do mar.

O “S. Nicolau” jazia então nas profundezas das águas. Aproamos as baleeiras à costa francesa. O tempo, porém, mudou de tal maneira que, daí a pouco, o temporal era medonho. Não há marinheiro que não conheça estas súbitas mudanças do mar naquelas paragens.

Para fugir ao perigo de nos despedaçarmos de encontro aos penedos da costa bretã, não hesitamos virar a popa ao ansiado refúgio, fazendo-nos de novo ao mar, em busca da costa inglesa.

Não se pode dizer o que foi essa dolorosa travessia da Mancha, até que o navio salvador foi em nosso auxílio. Foram 30 horas de intraduzível angústia.

Na embarcação em que eu ia morreu de frio o marinheiro Miguel do Carmo; os olhos saltaram-lhe das orbitas. Piedosamente o lançamos ao mar. O homem do leme, com o frio, tinha as mãos inchadas que pareciam uns cepos. Estávamos todos exaustos e desfalecidos. Apenas o 1º maquinista conseguia ainda reunir um pouco de esforço para mexer nos remos.

Finalmente surgiu o vapor italiano “Fido”, que nos veio socorrer.

Todos nós, absolutamente sem forças, fomos içados para bordo e ali alvo da mais carinhosa solicitude. O vapor italiano fez rumo a Plymouth, onde tivemos também uma generosa hospitalidade.

O submarino que afundara o “S. Nicolau” prosseguiu a sua tenebrosa tarefa, afundando outros navios que se viam no horizonte.

Durante a tempestade perdemos de vista a baleeira que conduzia os nossos restantes camaradas.»

(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 28 de Novembro de 1916)

 

O afundamento do vapor “São Nicolau” foi efectuado pelo submarino alemão UC-26, que se encontrava sob o comando do capitão-tenente Matthias Graf von Schmettow. Teve lugar a 16 de Novembro de 1916, no Canal da Mancha, a este-nordeste da Ilha de Batz, na posição 49º20’N 03º46’W.

A segunda baleeira relatada nas notícias, governada pelo imediato Tibério da Costa Malheiro, onde se encontravam 18 dos tripulantes que compunham a guarnição do navio, nunca chegou a ser encontrada, totalizando por esse motivo o registo de 19 vítimas mortais, em resultado do ataque ao navio, quando este se encontrava em viagem de Lisboa para o Havre.

 

Registo publicado no blog http://naviosenavegadores.blogspot.pt/

publicado por Brito Ribeiro às 15:35
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08
Out 15

O início de aulas é um período de ansiedade para os alunos e professores, mas também para os pais que veem associados a este período, um incremento importante de despesas com materiais escolares.

Longe vai o tempo do Estado Novo, em que os compêndios escolares atravessavam várias gerações, mantendo-se em utilização durante décadas. Reflectia uma política conservadora, antiquada e não valorizadora da evolução da ciência e da sociedade. Nessa época, uma das características mais vincadas da política do estado no que respeita à educação, era a ausência quase total das ciências socias das matérias leccionadas.

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 Porém, no pós 25 de Abril, caiu-se no exagero e na instabilidade, com a proliferação de manuais escolares, ao sabor de influências que nada tinham de pedagógicas. Perdeu-se o velho hábito da reutilização, da transmissão do livro, de irmão para irmão, primo ou vizinho, contributo importante para uma economia familiar deprimida.

E o “vício” do período revolucionário persiste após 40 anos, sem que se perceba bem qual a razão desta imaturidade, a não ser pelos interesses do lóbi editorial escolar. Como se não bastasse essa aberração a que chamaram acordo ortográfico, que acarretou a substituição de todos os compêndios escolares e demais materiais de apoio como dicionários ou gramáticas, continua-se com a sanha consumista, obrigando pais e encarregados de educação a verdadeiras ginásticas para esticar os magros recursos sobrantes, que ainda não foram espoliados em impostos e taxas.

Que o nosso ensino está doente é algo que se sabe há muito, com culpas repartidas por todos os intervenientes, mas não é sobre isso que estamos a reflectir.

Vou dar um exemplo que me parece, no mínimo, bizarro: Há manuais escolares a serem substituídos por razões tão prosaicas como a alteração do código de barras e/ou da capa, quando o conteúdo é o mesmo. Vi isso numa reportagem televisiva e, na dúvida, questionei um livreiro que me confirmou isso mesmo. Há professores a não aceitar manuais aos alunos se não corresponderem a determinada edição, mesmo que o conteúdo seja rigorosamente o mesmo. Para terem uma ideia dos custos envolvidos, por aluno e por ano, no secundário a despesa com livros e cadernos de actividades varia entre 200 e 250€ e mesmo nos primeiros anos de escolaridade os custos aproximam-se dos 70€. Se for adicionado o custo dos demais materiais escolares como cadernos, pastas, mochilas, materiais de escrita e desenho, etc., veremos a conta a engrossar substancialmente.

É inaceitável que o Ministério da Educação, sempre tão zeloso para poupar no orçamento, não tenha uma política clara sobre os compêndios aprovados, demitindo-se do seu papel enquanto Órgão de Estado, deixando nas mãos das editoras o papel da elaboração dos manuais, limitando-se a aprová-los; existindo vários compêndios aprovados para a mesma disciplina, na prática quer dizer que num determinado agrupamento o livro X foi adoptado e no agrupamento vizinho, para o mesmo ano e disciplina pode ser livro Y.

Na minha humilde opinião isto não é pluralismo, é falta de visão estratégica e é claudicar perante os interesses comerciais das editoras, relegando para os agrupamentos a tarefa que devia competir a uma comissão científica nacional, encarregue de avaliar e aprovar os conteúdos pedagógicos para utilização em todo o território nacional, por um período de tempo razoável.

Salvaguardando as devidas distancias, diria que era preciso uma política como a do medicamento. Depois de testada e aprovada a composição do medicamento, os laboratórios que o fabricarem estão obrigados a seguir escrupulosamente aquela formulação. Na problemática dos compêndios escolares se fosse seguida a mesma orientação, teríamos um conteúdo (o equivalente ao principio activo do medicamento) estável e as editoras que estivessem interessadas na sua impressão e comercialização, fariam o seu negócio com as políticas de preços e de distribuição que julgassem mais adequadas.

Em consequência, o preço dos livros iria forçosamente baixar, porque as tiragens seriam maiores, haveria um horizonte de estabilidade e deixariam de existir despesas editoriais na elaboração contínua dos novos compêndios.

O Conselho Nacional de Educação já emitiu diversos pareceres sobre esta problemática:

“a actualização de conhecimentos não é tão célere que obrigue a que os manuais sejam constantemente actualizados; a consolidação de manuais é melhor para alunos, pais e professores”

“Essa gratuitidade total geralmente toma a forma de empréstimo no caso dos manuais escolares. Embora com modalidades diversas, a tendência para considerar que a devolução e reutilização dos manuais não só diminui a despesa do Estado como é educativa por ensinar a cuidar dos livros, a partilhá-los com os outros e a evitar o desperdício. Entende-se ainda como uma forma de aprendizagem da responsabilidade, do respeito pelos outros, pelo que é comum e pelo ambiente”.

Facilitaria a vida aos professores que podiam implementar algumas rotinas pedagógicas, aos pais que poupariam muito dinheiro e ao ambiente que pouparia muitas árvores abatidas para o fabrico do papel necessário à impressão.

Para se dar uma ideia das quantidades envolvidas, uma árvore (eucalipto) dá, grosso modo, para fabricar cerca de 15 resmas de papel A4, dependendo da gramagem do papel. A reciclagem de papel, por sua vez, consume mais energia e água, além de utilizar produtos químicos em maior quantidade para conseguir a remoção de todos os resíduos do papel já utilizado. O custo mais baixo do papel reciclado está relacionado, somente, com o menor custo da matéria-prima.

Por estes dados, vemos que a solução, para o ambiente, para a economia das famílias e para o sistema de ensino, passa pela reutilização dos compêndios escolares, sem prejuízo das necessárias e convenientes actualizações, que devem ser pensadas no médio e longo prazo e, fundamentalmente, no interesse público.

A proliferação de bancos de recolha e partilha gratuita de livros escolares, não resolvendo o problema de fundo, é um primeiro passo muito importante para os decisores políticos escutarem, finalmente, esta reivindicação.

 

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 15:00

04
Out 15

No dia 19 de Setembro de 2015 juntou-se a grande família do Externato de Santa Rita, que funcionou em Caminha entre os anos de 1950 e 1989. À chamada compareceram cerca de oitenta alunos e professores, que no Hotel Portas do Sol reviram a matéria, os cabelos brancos e as rugas.

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Entre lembranças e outros tantos esquecimentos, a memória que tantas vezes nos atraiçoa, foi estimulada para o reconhecimento de caras, nomes e situações que marcaram a nossa juventude.

Tivemos o grato prazer de ter a companhia da D. Zita, professora ao longo dos 39 anos de vida do Externato, bem como do António Cruz e da Rita Bouça, à época, uns jovens docentes.

Faltaram muitos colegas, é certo, mas revi companheiros a quem tinha perdido o rasto nos últimos quarenta anos, senti que tinha participado em algo marcante na história do Concelho de Caminha e isso é motivo suficiente para me sentir orgulhoso de integrar esta grande equipa.

Um agradecimento especial aos organizadores que nos proporcionaram esta viagem no tempo.

publicado por Brito Ribeiro às 10:31

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