Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

09
Fev 16

Tomei conhecimento que a Junta de Freguesia de Vila Praia de Âncora pretende adquirir uns terrenos para alargamento do cemitério. Referiram-me também, que seria necessário vender alguns terrenos que possui noutros locais para custear o investimento.

Não me choca a solução, face à urgência em tornar realidade esta obra, mas sinto um amargo de boca quando recordo que as coisas poderiam ter sido melhor delineadas, sem a visão míope do miserabilismo que caracteriza boa parte das decisões quando toca a investimentos em Vila Praia de Âncora.

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O ancestral costume de enterrar os corpos no interior das igrejas e nos adros, foi revertido, em termos de legislação, em 1835, durante o regime liberal e marca o início da secularização dos cemitérios. Porém, a adesão a esta nova disposição nem sempre foi pacífica, estando até na origem daquilo que se conhece por “Revolta da Maria da Fonte”.

Esta revolta ocorrida em 1846 e iniciada na zona da Póvoa de Lanhoso, resultou das tensões sociais remanescentes das guerras liberais, exacerbadas pelo grande descontentamento popular gerado pelas novas leis de recrutamento militar, por alterações fiscais e pela proibição de realizar enterros dentro de igrejas.

Em Gontinhães, assim se chamava a nossa terra à época, não ocorreram conflitos, porque se continuou a enterrar os defuntos no adro, mas o problema foi-se agravando até que no final do século XIX em consequência de um conjunto de surtos epidémicos que provocaram grande mortandade entre a população, ocasionando a saturação do adro da igreja matriz e a consequente falta de condições de salubridade que potenciava os riscos de contágio.

Após o surto de cólera que grassou entre 1833 e 1852, uma epidemia de varíola varreu Gontinhães em 1895, sendo 60,9% dos óbitos registados na zona litoral da freguesia. Especialmente nos meses mais quentes, as epidemias de varíola e tifo ou difteria, atribuídas aos “maus cheiros” dos estrumes do patêlo, que por ali se costumava empregar como estrume, pelo que as autoridades administrativas ordenaram que este estrume depois de colhido no mar fosse imediatamente enterrado a um palmo de profundidade. O correspondente local de “O Jornal da Manhã” refere na sua crónica sobre Gontinhães:

 “nesta freguesia há muito a fazer, particularmente no porto de pesca, e nas casas de alguns lavradores que, nada cuidadosos da sua saúde, têm as cortes dos gados vacum e suíno juntas ou por baixo dos aposentos em que habitam e dormem

Como os cadáveres eram inumados no átrio da Igreja e este já estivesse sobrelotado, o Governo Civil de Viana do Castelo exigiu à Administração da Câmara de Caminha que procedesse de imediato à aquisição dos terrenos necessários à construção do cemitério. Esta deliberou rapidamente e por unanimidade na compra 886 m2, mas será a Junta de Paróquia  de Gontinhães a efectuar empréstimos e a lançar derramas para custear a obra, que se concluirá em 1897.

Um século depois, mais ou menos há vinte e cinco anos atrás, após muitos anos de reivindicação, a autarquia caminhense financiou um alargamento do cemitério que ficou muito aquém das expectativas e das necessidades, como lamentavelmente vimos a constatar por mais uma intervenção que terá de ser feita no futuro próximo e que, recorrentemente, vai ter de ser custeada pela Freguesia e pelo seu património.

publicado por Brito Ribeiro às 16:53

21
Jan 16

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Nem sempre concordo com as análises de Raquel Varela, mas desta vez acho que acertou em cheio. É reralmente castrador reduzir os problemas do sector da educação a meros exames ou a questões salariais, que se resolvem (ou não) conforme as conveniencias da mais elementar estratégia partidária. Deixar fora da discussão e da responsabilidade, as escolas, a família e a sociedade no seu todo, só pode piorar o que já mal anda.

 

"Conhecem a velha piada do tipo que está 4 horas a comer e diz que ficou mal disposto porque «comeu a cereja que está em cima do bolo» no final. Somos hábeis a fazer dos pequenos problemas grandes para evitar olhar os grandes, os enormes, que temos pela frente.

O exame é uma análise, que avalia professores, alunos e sistema educativo, o problema não é o exame, é o que se faz com ele. Não são os exames que fazem da escola um lugar segregado, quando nascemos já está determinado que vamos ser o que os nossos pais são - a mobilidade social não existe pela educação porque os pais, o bairro, isso tudo determina hoje muito mais o futuro de cada um - infelizmente «filho de sapateiro, sapateiro será».

Reduzir o problema da escola à existência ou não de exames é não perceber que na escola hoje quase tudo está mal - horários esgotantes para alunos e professores, má formação científica dos professores, universidades que não formam como deviam, professores mal pagos, problemas sociais gravíssimos como o desemprego massivo, carga burocrática insuportável, da primária à Universidade a educação caminha retrocedendo. Só isso explica que as crianças estão 8 horas por dia na escola, repito, 8 horas! - horário de trabalho infantil - e metade das crianças do país não atinge os mínimos a matemática e português - é a confissão de um rotundo falhanço científico e educacional.

Não vale a pena classificá-los a todos como disléxicos, hiperactivos, geneticamente incapazes e drogá-los com ritalina e constante «apoio psicológico» - nós, como sociedade, temos que mudar de rumo. A responsabilidade é nossa, professores, pais, cidadãos. As nossas crianças não estão bem porque tudo à volta delas está mal."

Raquel Varela, RTP 3, O último apaga a luz

 

publicado por Brito Ribeiro às 16:17

12
Jan 16

Considero interessante o "Orçamento Participativo" implementado pela autarquica para aferir junto das populações quais os melhoramentos locais mais ansiados e os que reunem maior apoio. A proposta de valorização do Dólmen da Barrosa do meu amigo Álvaro Meira, proposta simples e ajuizada, traduz a vontade de tantos Ancorenses que defendem a dignificação e divulgação do mais emblemático monumento megalítico da região e um dos mais conceituados de toda a Europa. Daí o meu apoio sem reservas a esta proposta, sem menosprezo pelas demais.

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No ambito do programa autárquico "Orçamento Participativo", apresenta-se a seguinte proposta à discussão e votação dos cidadãos:

O “Dólmen da Barrosa”, em Vila Praia de Âncora, é um monumento megalítico com dólmen de apreciáveis dimensões, inserindo-se na tipologia do Noroeste Peninsular dos dólmens de corredor.

Classificado como Monumento Nacional desde 1910, ergue-se no meio de uma propriedade particular, adquirida pelo Município de Caminha.

O objectivo da intervenção é devolver a este Monumento a dignidade e atratividade que merece, bem como criar condições de salvaguarda contra vandalismo e obras ilegais/lesivas, que violem o estatuto inerente aos Monumentos Classificados.

Entre outros pontos propõe-se:

  • O rebaixamento do muro exterior, permitindo a visualização do Dólmen e minimizando os riscos de vandalismo;
  • Deslocalizar a pista de desportos radicais (para o nó da Erva Verde, por exemplo);
  • Alargar a Rua da Barrosa, criando espaços de estacionamento;
  • Iluminação do Monumento e do espaço adjacente;
  • Criação de um pomar temático com variedades autóctones;
  • Recuperar a antiga casa do caseiro para futuro centro de interpretação e apoio;

Tendo em conta a exiguidade da verba disponível, esta obra teria de ser faseada e com a aprovação da entidade de tutela (DGPC - Direção Geral do Património Cultural).

A votação das propostas decorrerá na sede da Junta de Freguesia de Vila Praia de Âncora a partir do dia 19 de Janeiro.

A VALORIZAÇÃO DO DÓLMEN DA BARROSA é proposta nº  13.

 

publicado por Brito Ribeiro às 20:50

10
Nov 15

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Sobretudo no norte e no centro, o dia 11 de Novembro é, de um modo geral, festejado com magustos de vinho e castanhas. Em muitas regiões rurais, designadamente no Minho, a festa está associada à matança do porco, e é influenciada pela euforia e pelo sentido de plenitude que possui a natureza de uma festa doméstica, muitas vezes a mais importante do calendário familiar. Todavia, o significado mais profundo e original do S. Martinho deve procurar-se nas suas relações com o vinho.

 

     No dia de S. Martinho,

     Mata o teu porco

     E prova o teu vinho.

 

Tradicionalmente é no dia de S. Martinho que se inaugura o vinho novo, que este se prova e se atestam as pipas. A velha legislação municipal proibia em muitos locais a venda do vinho novo antes do S. Martinho, sob pena de multa.

Nas zonas vinícolas há cerimónias características como as “procissões dos bêbados", onde se parodiam os cortejos religiosos e tem na sua base, por vezes, uma irmandade burlesca, a “Ordem” ou “Confraria” de S. Martinho, cujos membro se recrutam entre os mais afamados “bebedolas” da localidade, sendo atribuído o cargo de “juiz” ao maior bêbado, seguido do “mordomo”, do “secretário”, “tesoureiro”, “vogais”, etc.

 

     No S. Martinho bebe o vinho,

     E deixa a água para o moinho.

 

Fonte: Festividades Cíclicas em Portugal - Ernesto Veiga de Oliveira

publicado por Brito Ribeiro às 12:34
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05
Nov 15

O vapor “S. Nicolau”, recentemente saído de Lisboa em serviço da Inglaterra (a), fôra apreendido em Cabo Verde e levava um importante carregamento de pau de campeche, quando foi torpedeado. Era comandado por Amâncio José Azevedo, natural da Ilha Brava, e levava como imediato Tibério da Costa Malheiro, natural de Caminha. A restante tripulação, de 36 homens, era da ilha. O capitão e 16 tripulantes foram salvos e dos restantes nada se sabe.

(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 21 de Novembro de 1916)

 

(a) Em sentido contrário à notícia, o navio estava previsto ser entregue à Furness, Withy, ou seja, posto sob contrato com o governo inglês, após a chegada ao Havre, conforme estaria previamente acordado. Em função do ataque e afundamento ter acontecido em fase anterior à entrega, o vapor encontrava-se ainda sob armação e pavilhão português.

 

O vapor “S. Nicolau”

Como previamente referido, do vapor português “S. Nicolau”, torpedeado na mancha, o capitão e 16 tripulantes foram salvos por um vapor italiano, que os desembarcou em Falmouth, onde estão sob a protecção da autoridade consular respectiva.

A tripulação deste navio era assim constituída:

Comandante, José de Azevedo; imediato, Tibério Pinto Malheiro; 3º piloto, António da Transladação Pinto Neto; carpinteiro, Joaquim Costa Pereira; contra-mestre, Marcelino Silva Pinto; marinheiros: Manoel Fortes Monteiro, Roberto António Soares, Júlio Gonçalves Oliveira, Miguel Fortes do Carmo e António Correia; moços: João Paulo Silva, António Luís da Graça, Francisco Pedro Évora, Abel Vera Cruz Pinto e Valdemiro Cristino Lima; 1º maquinista, José Manuel dos Santos; 2º maquinista, Luís da Silva Gama; 3º maquinista, José Francisco Silva; pilotos maquinistas: Álvaro Sant’Ana Estanislau, Marcelino Brito de Lima, Manoel Lopes e António Vieira; fogueiros; José Maria da Silva, João de Matos, Luiz Machado, Mateus Marques, Manoel Diogo Neves e António de Oliveira Lopes; chegadores: Pedro Diogo Neves, Martins Fortes e José Pereira Barradas; despenseiro, António Mateus Gonçalves; cozinheiro, Manoel Duarte; ajudante de cozinheiro, Belarmino da Conceição Ferreira; criados: Júlio de Brito Lima e Lourenço Peres Viana; moço praticante, João Batista Salgado.

(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 21 de Novembro de 1916)

 

 

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 Imagem do vapor "S. Nicolau" e foto do capitão Amâncio Azevedo

(In "Ilustração Portuguesa", Nº 565 de 18 de Dezembro de 1916)

 

Características do vapor “S. Nicolau”

1916-1916

Armador: Transportes Marítimos do Estado, Lisboa

Nº Oficial: N/s - Iic: H.S.N.I. - Porto de registo: Lisboa

Construtor: Akt. Ges. “Neptun”, Rostock, 1905

ex “Dora Horn”, Reederei Horn, Lubeca, 1905-1916

Arqueação: Tab 2.678,83 tons - Tal 1.698,47 tons

Dimensões: Pp 88,70 mts - Boca 13,40 mts

Propulsão: Do construtor - 1:Te - 9,5 m/h

Equipagem: 37 tripulantes

 

Os náufragos do “S. Nicolau”

No ministério da Marinha foi recebido um telegrama do vice-cônsul de Portugal em Falmouth, com a seguinte relação dos náufragos do vapor “S. Nicolau”, que fôra torpedeado por um submarino:

Capitão Amâncio José de Azevedo, 3º piloto António Pinto Neto, contra-mestre Marcelino Silva Pinto, marinheiro Manoel Fortes Monteiro, moços Abel Vera Cruz Pinto e António Luís da Graça, 2º e 3º maquinistas Luís Gama e José Francisco Silva, praticante Álvaro Sant’Ana Estanislau, azeitadores Marcelino Brito de Lima, Manoel Lopes e António Vieira, fogueiros Mateus Marques, João de Matos e Luiz Machado, chegador Pedro Diogo Neves, despenseiro António Mateus Gonçalves e criado Lourenço Peres Viana. Sobre o destino dos outros tripulantes aguardam-se informações que já foram pedidas.

(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 22 de Novembro de 1916)

 

A bordo do vapor “Dresna” da Mala Real Inglesa, chegado hoje ao Tejo, vieram os 18 tripulantes do vapor “S. Nicolau”, canhoneado por um submarino alemão na Mancha.

Entre os tripulantes figurava o comandante, sr. Amâncio José de Azevedo, velho lobo-do-mar, natural da Ilha Brava, que imediatamente se dirigiu à comissão de administração dos transportes marítimos, a fim de apresentar o seu relatório sobre a perda do navio.

Tivemos ocasião de nos avistar com esse oficial, recolhendo as impressões da primeira vítima dos alemães em tripulações que guarnecem os navios em serviço dos aliados. É profundamente dolorosa e trágica a aventura que esse valoroso marinheiro nos refere:

«O “S. Nicolau”, que tinha saído de Lisboa no dia 11 de Novembro, com destino ao Havre, onde devia ser entregue ao representante do governo inglês, encontrava-se dois dias depois, pelas 11 horas, a 15 milhas leste do ilhote Cassequets, espécie de pedregulho que se destaca na costa bretã. Faltava apenas um dia para chegar ao ponto do destino.

Nessa ocasião, o piloto veio comunicar-me – diz o comandante Amâncio – que a curta distância, encaminhando-se em direção ao navio, vinha uma embarcação que parecia ser uma chalupa.

Dispunha-me a examinar mais detidamente esse barco, quando de bordo dele foi feito o primeiro tiro. Não houve, portanto, aviso prévio algum. O primeiro tiro atingiu o “S. Nicolau” por avante e logo outros dois se seguiram. O último desarvorou a chaminé.

Imediatamente a tripulação correu às baleeiras, que foram lançadas ao mar, sob o fogo do inimigo. O submarino fez ao todo 17 tiros para destruir o navio e fazê-lo submergir totalmente.

A tragédia desenrolara-se sob um céu admirável de beleza e clemencia. As nossas baleeiras andavam ao sabor das ondas quando o submarino se aproximou daquela em que eu ia e de uma outra governada pelo imediato, convidando-nos a passar ao submarino. Ali pediram-nos os papéis de bordo. Como lhes dissemos que os tínhamos deixado lá e que nem o boné conseguíramos trazer porque fôramos atacados de surpresa, mandaram-nos passar à baleeira, entregando-nos à fortuna do mar.

O “S. Nicolau” jazia então nas profundezas das águas. Aproamos as baleeiras à costa francesa. O tempo, porém, mudou de tal maneira que, daí a pouco, o temporal era medonho. Não há marinheiro que não conheça estas súbitas mudanças do mar naquelas paragens.

Para fugir ao perigo de nos despedaçarmos de encontro aos penedos da costa bretã, não hesitamos virar a popa ao ansiado refúgio, fazendo-nos de novo ao mar, em busca da costa inglesa.

Não se pode dizer o que foi essa dolorosa travessia da Mancha, até que o navio salvador foi em nosso auxílio. Foram 30 horas de intraduzível angústia.

Na embarcação em que eu ia morreu de frio o marinheiro Miguel do Carmo; os olhos saltaram-lhe das orbitas. Piedosamente o lançamos ao mar. O homem do leme, com o frio, tinha as mãos inchadas que pareciam uns cepos. Estávamos todos exaustos e desfalecidos. Apenas o 1º maquinista conseguia ainda reunir um pouco de esforço para mexer nos remos.

Finalmente surgiu o vapor italiano “Fido”, que nos veio socorrer.

Todos nós, absolutamente sem forças, fomos içados para bordo e ali alvo da mais carinhosa solicitude. O vapor italiano fez rumo a Plymouth, onde tivemos também uma generosa hospitalidade.

O submarino que afundara o “S. Nicolau” prosseguiu a sua tenebrosa tarefa, afundando outros navios que se viam no horizonte.

Durante a tempestade perdemos de vista a baleeira que conduzia os nossos restantes camaradas.»

(In jornal “Comércio do Porto”, terça, 28 de Novembro de 1916)

 

O afundamento do vapor “São Nicolau” foi efectuado pelo submarino alemão UC-26, que se encontrava sob o comando do capitão-tenente Matthias Graf von Schmettow. Teve lugar a 16 de Novembro de 1916, no Canal da Mancha, a este-nordeste da Ilha de Batz, na posição 49º20’N 03º46’W.

A segunda baleeira relatada nas notícias, governada pelo imediato Tibério da Costa Malheiro, onde se encontravam 18 dos tripulantes que compunham a guarnição do navio, nunca chegou a ser encontrada, totalizando por esse motivo o registo de 19 vítimas mortais, em resultado do ataque ao navio, quando este se encontrava em viagem de Lisboa para o Havre.

 

Registo publicado no blog http://naviosenavegadores.blogspot.pt/

publicado por Brito Ribeiro às 15:35
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08
Out 15

O início de aulas é um período de ansiedade para os alunos e professores, mas também para os pais que veem associados a este período, um incremento importante de despesas com materiais escolares.

Longe vai o tempo do Estado Novo, em que os compêndios escolares atravessavam várias gerações, mantendo-se em utilização durante décadas. Reflectia uma política conservadora, antiquada e não valorizadora da evolução da ciência e da sociedade. Nessa época, uma das características mais vincadas da política do estado no que respeita à educação, era a ausência quase total das ciências socias das matérias leccionadas.

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 Porém, no pós 25 de Abril, caiu-se no exagero e na instabilidade, com a proliferação de manuais escolares, ao sabor de influências que nada tinham de pedagógicas. Perdeu-se o velho hábito da reutilização, da transmissão do livro, de irmão para irmão, primo ou vizinho, contributo importante para uma economia familiar deprimida.

E o “vício” do período revolucionário persiste após 40 anos, sem que se perceba bem qual a razão desta imaturidade, a não ser pelos interesses do lóbi editorial escolar. Como se não bastasse essa aberração a que chamaram acordo ortográfico, que acarretou a substituição de todos os compêndios escolares e demais materiais de apoio como dicionários ou gramáticas, continua-se com a sanha consumista, obrigando pais e encarregados de educação a verdadeiras ginásticas para esticar os magros recursos sobrantes, que ainda não foram espoliados em impostos e taxas.

Que o nosso ensino está doente é algo que se sabe há muito, com culpas repartidas por todos os intervenientes, mas não é sobre isso que estamos a reflectir.

Vou dar um exemplo que me parece, no mínimo, bizarro: Há manuais escolares a serem substituídos por razões tão prosaicas como a alteração do código de barras e/ou da capa, quando o conteúdo é o mesmo. Vi isso numa reportagem televisiva e, na dúvida, questionei um livreiro que me confirmou isso mesmo. Há professores a não aceitar manuais aos alunos se não corresponderem a determinada edição, mesmo que o conteúdo seja rigorosamente o mesmo. Para terem uma ideia dos custos envolvidos, por aluno e por ano, no secundário a despesa com livros e cadernos de actividades varia entre 200 e 250€ e mesmo nos primeiros anos de escolaridade os custos aproximam-se dos 70€. Se for adicionado o custo dos demais materiais escolares como cadernos, pastas, mochilas, materiais de escrita e desenho, etc., veremos a conta a engrossar substancialmente.

É inaceitável que o Ministério da Educação, sempre tão zeloso para poupar no orçamento, não tenha uma política clara sobre os compêndios aprovados, demitindo-se do seu papel enquanto Órgão de Estado, deixando nas mãos das editoras o papel da elaboração dos manuais, limitando-se a aprová-los; existindo vários compêndios aprovados para a mesma disciplina, na prática quer dizer que num determinado agrupamento o livro X foi adoptado e no agrupamento vizinho, para o mesmo ano e disciplina pode ser livro Y.

Na minha humilde opinião isto não é pluralismo, é falta de visão estratégica e é claudicar perante os interesses comerciais das editoras, relegando para os agrupamentos a tarefa que devia competir a uma comissão científica nacional, encarregue de avaliar e aprovar os conteúdos pedagógicos para utilização em todo o território nacional, por um período de tempo razoável.

Salvaguardando as devidas distancias, diria que era preciso uma política como a do medicamento. Depois de testada e aprovada a composição do medicamento, os laboratórios que o fabricarem estão obrigados a seguir escrupulosamente aquela formulação. Na problemática dos compêndios escolares se fosse seguida a mesma orientação, teríamos um conteúdo (o equivalente ao principio activo do medicamento) estável e as editoras que estivessem interessadas na sua impressão e comercialização, fariam o seu negócio com as políticas de preços e de distribuição que julgassem mais adequadas.

Em consequência, o preço dos livros iria forçosamente baixar, porque as tiragens seriam maiores, haveria um horizonte de estabilidade e deixariam de existir despesas editoriais na elaboração contínua dos novos compêndios.

O Conselho Nacional de Educação já emitiu diversos pareceres sobre esta problemática:

“a actualização de conhecimentos não é tão célere que obrigue a que os manuais sejam constantemente actualizados; a consolidação de manuais é melhor para alunos, pais e professores”

“Essa gratuitidade total geralmente toma a forma de empréstimo no caso dos manuais escolares. Embora com modalidades diversas, a tendência para considerar que a devolução e reutilização dos manuais não só diminui a despesa do Estado como é educativa por ensinar a cuidar dos livros, a partilhá-los com os outros e a evitar o desperdício. Entende-se ainda como uma forma de aprendizagem da responsabilidade, do respeito pelos outros, pelo que é comum e pelo ambiente”.

Facilitaria a vida aos professores que podiam implementar algumas rotinas pedagógicas, aos pais que poupariam muito dinheiro e ao ambiente que pouparia muitas árvores abatidas para o fabrico do papel necessário à impressão.

Para se dar uma ideia das quantidades envolvidas, uma árvore (eucalipto) dá, grosso modo, para fabricar cerca de 15 resmas de papel A4, dependendo da gramagem do papel. A reciclagem de papel, por sua vez, consume mais energia e água, além de utilizar produtos químicos em maior quantidade para conseguir a remoção de todos os resíduos do papel já utilizado. O custo mais baixo do papel reciclado está relacionado, somente, com o menor custo da matéria-prima.

Por estes dados, vemos que a solução, para o ambiente, para a economia das famílias e para o sistema de ensino, passa pela reutilização dos compêndios escolares, sem prejuízo das necessárias e convenientes actualizações, que devem ser pensadas no médio e longo prazo e, fundamentalmente, no interesse público.

A proliferação de bancos de recolha e partilha gratuita de livros escolares, não resolvendo o problema de fundo, é um primeiro passo muito importante para os decisores políticos escutarem, finalmente, esta reivindicação.

 

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 15:00

04
Out 15

No dia 19 de Setembro de 2015 juntou-se a grande família do Externato de Santa Rita, que funcionou em Caminha entre os anos de 1950 e 1989. À chamada compareceram cerca de oitenta alunos e professores, que no Hotel Portas do Sol reviram a matéria, os cabelos brancos e as rugas.

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Entre lembranças e outros tantos esquecimentos, a memória que tantas vezes nos atraiçoa, foi estimulada para o reconhecimento de caras, nomes e situações que marcaram a nossa juventude.

Tivemos o grato prazer de ter a companhia da D. Zita, professora ao longo dos 39 anos de vida do Externato, bem como do António Cruz e da Rita Bouça, à época, uns jovens docentes.

Faltaram muitos colegas, é certo, mas revi companheiros a quem tinha perdido o rasto nos últimos quarenta anos, senti que tinha participado em algo marcante na história do Concelho de Caminha e isso é motivo suficiente para me sentir orgulhoso de integrar esta grande equipa.

Um agradecimento especial aos organizadores que nos proporcionaram esta viagem no tempo.

publicado por Brito Ribeiro às 10:31

18
Ago 15

 

"As sociedades necessitam de símbolos para representarem os seus valores. A arquitectura, a estatuária, a pintura, a arte em geral também cumprem esse papel de dar forma e local de culto ao que uma sociedade considera ser a sua essência, aquilo que pode ser designado pela sua alma. 

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Em África, por exemplo, certas culturas têm as suas árvores sagradas. Na Guiné, na Senegâmbia, chamam-lhes Irã. É ali que repousam os espíritos dos antepassados e ali que eles podem ser chamados a pronunciar-se sobre o presente e a transmitir aos atuais a sabedoria que recolheram da vida, a aconselhar, a julgar.

 

Os panteões começaram por ser os locais de reunião dos vários deuses de uma dada região e de uma dada cultura, ou civilização. Foram um primeiro passo para o monoteísmo. Ali se reuniam todos os veneráveis, num único lugar. Diferiam dos templos porque, ao contrário destes, não tinham altar, não eram lugar de sacrifício, nem de oferendas, apenas de veneração, de unanimidade sobre um certo modo de viver, que aqueles seres divinizados representavam.

 

Os modernos panteões retomaram esse espirito numa vertente laica e republicana. Pretenderam reunir aqueles que uma dada nação considerava como os seus faróis, aqueles que foram orientando a sociedade e dotando-a de uma identidade. Aqueles que foram capazes de decantar a essência do seu povo.

 

A ideia de reunir esses símbolos é em si mesmo louvável. Mas é necessário deixar que o tempo faça o seu trabalho, limpando o efémero. É necessário envelhecer bem para merecer o Panteão. Um panteão não é uma caderneta de cromos com os bonecos dos futebolistas que jogaram nesse anos na primeira divisão.

 

Vem isto a propósito da nova moda dos panteonáveis. Tenho a minha opinião sobre os que lá estão, os da primeira vaga e os da segunda, mas não é sobre um referendo a propósito de inclusões ou exclusões que me parece saudável discutir, mas sobre o conceito de “ir para o panteão”. O ir para o panteão, já, como se ouviu após a morte de Eusébio e agora com a morte de Manuel de Oliveira é o correspondente ao sanctus súbito da Igreja Católica, que deu por vezes péssimos exemplares de santos. O outro perigo é o de transformar o Panteão numa montra dos famosos da época, de amigos de um dado regime... ou num local da moda. Num cemitério de personalidades – em vez de ser uma fonte, uma árvore numa floresta sagrada.

 

É evidente que todas as personalidades ultimamente panteonadas são ilustres, a questão não é essa, é a de a sociedade portuguesa entender que o Panteão passou a ser o jazigo dos ilustres. Isto é, se o Panteão português passou a ter outra finalidade...

 

É que, se o Panteão passou a ser o cemitério do PéreLachaise de Portugal..., convém desimpedir o campo à volta de modo a albergar a vaga de famosos que mais cedo ou mais tarde falecerão e que terão tanto direito como outros a ali figurar! Lembro, sem nenhum desejo de lhes apressar o fim, longe vá o agoiro, atletas como Carlos Lopes, Rosa Mota, Joaquim Agostinho, atores e actrizes como Rui de Carvalho, ou Eunice Munõz, ou Maria de Medeiros, filósofos como Eduardo Lourenço, músicos como Chaínho, pintores como Pomar, escritores como Agustina e, pergunto, onde estarão, entre outros, o Zeca Afonso, ou Agostinho da Silva, ou Saramago, ou Eugénio de Andrade, ou Natália Correia, ou Amadeo de Souza Cardoso, administradores como Azeredo Perdição, ou engenheiros de grandes obras como Edgar Cardoso, enfim a lista podia continuar com os acrescentos e exclusões de cada um, se a ideia for panteonar os nossos ilustres concidadãos e não aqueles que dirão aos nossos descendentes onde devem lançar a âncora, aqui e não ali, as boas épocas para viajar, ou de ficar em casa, as de correr ou as de andar, as de lutar ou as de negociar…

 

No romance Para Sempre, Vergílio Ferreira (aí está outro panteonável) coloca vários escritores de várias épocas a comentarem as vicissitudes de história numa imaginária biblioteca.

 

Eu vejo o Panteão como a «biblioteca do Para Sempre», com os ilustres, que lá se encontram a reflectirem sobre Portugal, sobre os portugueses, sobre o que somos, sobre o nosso futuro e a deixarem-nos ouvi-los. Eu, por exemplo, de todos os ilustres lá imortalizados, o que me parece ter dado a melhor resposta às perguntas que eu lhe faria sobre o que de mais importante devíamos fazer para vivermos melhor e sermos melhores, sobre a causa da nossa pobre situação foi João de Deus: aprendam a ler! E deixou-nos uma cartilha! Inteligente e eficaz. Eis um caso raro!

 

Para já, o que oiço dos que andam cá por fora é: «coitado, lá vai mais um para o panteão». Ou, a nova versão da frase de Almeida Garrett: “Foge cão que te mandam para o panteão!” O que não honra o Panteão, nem quem lá está, nem quem lá deverá estar…

 

O populismo é sempre mau conselheiro e, como diz o povo, “cadelas apressadas parem cães cegos!!!” Ainda corremos o risco de lá irem parar o Alves dos Reis e o Ricardo Espírito Santo, os maiores fazedores de dinheiro falso…"

 

Artigo de Carlos de Matos Gomes

publicado por Brito Ribeiro às 14:28

16
Ago 15

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Olhar o passado para construir o futuro” é o tema da XVIII Bienal Internacional de Arte de Cerveira, que decorre até 19 setembro de 2015, em Vila Nova de Cerveira, para apresentar 400 artistas de 33 países, cerca de 500 obras de arte. Pretende-se a identificação dos saberes e tradições da região, para apresentar soluções de identificação contemporânea, conducentes a uma aposta no diálogo dos artistas criadores com a história e conhecimento dos meios onde se inscrevem geograficamente. A Direção Artística está a cargo de Henrique Silva.

O formato, adotado desde a primeira Bienal, foi mantido de acordo com o objetivo a que este evento se propõe desde 1978: um local de encontro, debate e investigação de Arte Contemporânea, num programa concertado com a vizinha Galiza e o Ensino Superior a nível Europeu.

O programa de 2015 envolve: Concurso Internacional; representações de 13 Universidades, Escolas Superiores e Politécnicos das áreas artísticas, com apresentação dos departamentos de investigação artística e as produções de alunos e professores; Artistas Convidados nacionais e estrangeiros; Curadorias nacionais e internacionais; Artistas Homenageados (Alcino Soutinho, Dacos e Eurico Gonçalves); Conferências e Debates; Ateliers e Workshops; Visitas Guiadas; Espetáculos interiores e exteriores; um Drive-in, entre outros.

A Bienal de Cerveira alarga, mais uma vez, o seu âmbito expositivo, apresentando mostras em Paredes de Coura, Caminha e Tomiño.

De destacar, ainda, a participação da artista grega Danae Stratou, que apresenta dois trabalhos de vídeo, um deles com um texto de Yanis Varoufakis, e Margarida Reis que expõe parte do seu notável trabalho artístico na área da tapeçaria contemporânea.

  

PROGRAMAÇÃO XVIII BIENAL DE CERVEIRA

 

TEMA

O desenvolvimento de objetivos nacionais e internacionais, a atualização e revisão do Estatuto de Estratégia Regional são os planos de enquadramento desta edição, onde se propôs promover uma série de workshops que serão a base da construção de uma coesão regional sustentada para a prestação de serviços culturais essenciais para o desenvolvimento criativo e económico da Bienal de Cerveira e para a sua maior internacionalização. Neste sentido, a XVIII Bienal de Cerveira levou a cabo uma identificação dos saberes e tradições da região, para apresentar soluções de identificação contemporânea conducentes a uma aposta no diálogo dos artistas criadores, com a história e conhecimento dos meios onde se inscrevem geograficamente.

Baseado num Centro de Recursos para as Indústrias Criativas que deverá contribuir para a sua subsistência e desenvolvimento económico, a componente central basear-se-á no apoio dos departamentos de investigação de Universidades e Institutos Politécnicos, como pano de fundo para uma alta e internacional referência cultural. Assim o tema proposto para esta XVIII Bienal de Cerveira é:

 

 "Olhar o Passado para Construir o Futuro”

 

CONCURSO INTERNACIONAL

O concurso foi destinado a artistas de todo o mundo, sendo que cada concorrente apresentou, para além da(s) obra(s) a concurso, um portfólio com fotografias de trabalhos da sua carreira artística, um currículo completo e uma memória descritiva sobre a integração da sua proposta no contexto do tema proposto. Foi dada preferência às obras que refletiam a cultura e tradição do país de origem dos artistas concorrentes, numa interpretação contemporânea. Pretende-se, desta forma, estabelecer um diálogo mais enriquecedor entre os concorrentes e o público em geral.

 

ARTISTAS CONVIDADOS

Com o fim de aproximar os conceitos científicos da prática laboratorial, foram convidadas Faculdades, Institutos e Escolas Superiores de Arte a participar nesta Bienal com mostras dos resultados das investigações dos respetivos departamentos das áreas artísticas, assim como em debates e conferências sobre o estado da arte, em analogia com as investigações feitas nos anos 60 por José Ernesto de Sousa sobre a valorização da “expressão ingénua” como ele lhe chamava.

Participam, nesta edição, 13 Instituições Superiores das áreas das Artes:

  • Colégio Das Artes da Universidade de Coimbra;
  • Escola Superior das Artes e Design das Caldas da Rainha;
  • Escola Superior Artística do Porto;
  • Escola Superior Gallaecia;
  • Escola Superior de Música, Artes e Espectáculo;
  • Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa;
  • Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto;
  • Instituto Politécnico de Tomar;
  • Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro;
  • Universidade Católica Portuguesa do Porto;
  • Universidade do Minho;
  • Universidade Aberta;
  • Universidade do Algarve.

 

No âmbito deste trabalho realizado em conjunto com as Instituições de Ensino Superior, a programação inlcui: exposição das obras de alunos e/ou professores, selecionadas pelas Instituições de Ensino Superior convidadas e que compõem o Conselho Científico / Artístico da Fundação Bienal de Cerveira; uma Assembleia do Conselho Científico / Artístico da Fundação Bienal de Cerveira, tendo como principal assunto a ser debatido o futuro da Fundação Bienal de Cerveira; e, finalmente, um debate público sobre o ensino tradicional versus o ensino contemporâneo das artes.

Está programado também um Retiro Doutoral, até 31 de julho, pela Universidade Aberta e Universidade do Algarve que partilham o Curso de Doutoramento em Média-Arte Digital, onde serão realizadas conferências abertas ao público, apresentação dos trabalhos dos doutorandos, defesa de projetos de teses, entre outras atividades.

Podemos, ainda, falar de dois outros convidados que marcam, com certeza, a XVIII Bienal de Cerveira: a artista Margarida Reis, cujo trabalho em tapeçaria é reconhecido internacionalmente e, ainda, a artista grega Danae Stratou, que participa com dois trabalhos de vídeo, um deles com textos de Yanis Varoufakis.

  

HOMENAGENS

É homenageado o artista Eurico Gonçalves não só pela consistência e personalidade da sua obra, mas também pela dedicação e contribuição que teve ao longo dos 37 anos da Bienal de Cerveira, cujo contributo muito marcou a Instituição, assim como o Arquiteto Alcino Soutinho (1930-2013) pela sua intervenção no ex-líbris de Vila Nova de Cerveira, chamando assim a atenção das autoridades competentes para o futuro do Castelo, onde esteve implementada a Pousada D. Dinis, e que hoje merecia uma integração mais objetiva nos destinos desta Vila das Artes.

Dacos (1940-2012) colaborou com a Bienal de Cerveira durante mais de 10 anos, tendo sido responsável pelos ateliers de gravura. Mestre gravador, muito contribuiu para o desenvolvimento da gravura no Norte de Portugal e foi co-responsável pela organização de exposições no Museu de Liège de artistas portugueses, no qual participou ativamente.

 

INTERVENÇÕES ARTÍSTICAS

Ao longo do mês de julho e agosto decorrerão ações espontâneas de artistas convidados, tanto no interior da Bienal como no espaço público, cujo conteúdo será desenhado de uma forma interventiva nos espaços.

 

WORKSHOPS

Aproveitando as sinergias do “Cluster” das Industrias Criativas da Fundação Bienal de Cerveira, dinamizar este sector com a criação de workshops, cursos e ateliers livres em áreas criativas como o desenho e pintura, cerâmica, gravura, tapeçaria, arte digital, entre outras, integrando nos serviços educativos do Museu da Bienal de Cerveira.

 

4 a 15 agosto | Ateliers

Horário – Das 15H:00 às 19H00

Local: Fórum Cultural (Oficinas)

 

Pintura – Conceção e orientação – Henrique do Vale

Cerâmica /Escultura – Conceção e orientação – Álvaro Queirós

Arte Digital – Conceção e orientação – Joel Ribeiro

Serigrafia – Conceção e orientação – Lídia Portela

Gravura – Conceção e orientação – Cabral Pinto

 

4 a 9 agosto| Workshop de Gravura

Horário| Das 15H:00 às 19H00

Local | Fórum Cultural (Oficinas)

Conceção e orientação – FACAL

 

16 a 29 agosto | Laboratório de improvisação

Horário: 15h00 às 18h00

Local | Fórum Cultural (Openspace)

Atividade Prática Exercícios de: movimento, escrita, oralidade, expressão corporal/dança, sonoros/musicais.

Conceção e orientação – Ana Maria Pintora

 

ATELIERS INFANTIS

O atelier de crianças será dirigido aos jovens em idade escolar, onde aprenderão a manipular os objetos, estimulando a criatividade e, sobretudo, desenvolvendo a capacidade de observação e o contacto com a arte contemporânea. Estão agendados de 9 a 15 de agosto, sob a coordenação de Ana Patrícia.

 

VISITAS GUIADAS

Serão organizadas visitas guiadas por artistas, cumprindo com o objetivo levar o “conhecimento a todas as populações”, único meio para o desenvolvimento social e cultural indispensável a uma melhor qualidade de vida. Já em Setembro a XVIII Bienal estará aberta exclusivamente para receber Instituições de Ensino e de Solidariedade Social.

  

CONFERÊNCIAS E DEBATES

Estão a ser preparadas conferências no âmbito do tema “Olhar o passado para construir o futuro”, tendo sido já definida uma sessão de debate intergeracional sobre a “Idade do saber”.

 

Contacto imprensa | Ana Vale Costa | gab.comunicacao@bienaldecerveira.pt | 925973911

publicado por Brito Ribeiro às 12:20
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Jul 15

Hamburgo 3 - Envolto em chamas após ter colidido com o navio holandês “Simonskerk”, no dia 2 de Fevereiro de 1966, o cargueiro português “Conceição Maria”, de 1.819 toneladas, propriedade da Sociedade Geral de Comércio, Indústria e Transportes e registado em Lisboa, derivou perigosamente em direcção aos reservatórios petrolíferos da Transocean – informou a guarda costeira holandesa.

As autoridades acrescentam que o rebocador de alto mar “Atlas” está a tentar passar um cabo ao navio português, a fim de o afastar dos depósitos e evitar a possibilidade de uma catástrofe ainda maior. Entretanto, os vinte e seis tripulantes portugueses do “Conceição Maria” foram recolhidos pelo navio dos pilotos da barra do Ems, “Pollux”.

Mensagens de rádio recebidas de bordo do “Atlas” indicam que o “Conceição Maria” deve ter derivado perigosamente em direcção dos reservatórios da Transocean, desconhecendo-se, por enquanto, o que sucedeu ao navio holandês envolvido na colisão.

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Dezassete dos tripulantes portugueses recebidos pelo “Pollux” foram, mais tarde, transferidos para bordo do navio da guarda costeira “Georg Breusing”, que os levou imediatamente para terra, regressando, pouco depois, para recolher os nove restantes. Todos os sobreviventes, um dos quais apresentava ferimentos graves, foram para a ilha de Borkum, no Mar do Norte – informa a guarda costeira.

Segundo a rádio «Norddeich», a colisão deu-se ao largo do estuário do rio Ems, a doze quilómetros ao norte da ilha holandesa de Schiermonnikog.

Os vinte e seis tripulantes portugueses foram recolhidos por navios de socorro holandeses.

Por informações obtidas junto da Sociedade Geral, o cargueiro português “Conceição Maria”, propriedade daquele armador, estava fundeado perto da boia JE-2, já na área do porto de Borhum, quando foi abalroado pelo vapor “Simonskerk”, de 9.821 toneladas, que, criminosamente e ao contrário de todas as leis do mar e dos homens continuou o seu rumo. O navio português sofreu um grande rombo e incendiou-se, afundando-se mais tarde, notícia, aliás, ainda não confirmada pela Sociedade Geral.

O marinheiro ferido, Jasmim dos Santos Nascimento, natural de Mafra e que está internado no Hospital de Borkum, sofreu fratura numa perna e nas costelas. Encontrava-se na parte superior do navio e, devido ao abalroamento, foi projectado.

 

A atitude criminosa do navio abalroador

De acordo com mais informações recolhidas na Sociedade Geral, que o comandante do “Conceição Maria”, sr. Manuel Casimiro Soares Sousa, este em contacto telefónico, às 11 horas da manhã, com aquela empresa e dissera que o navio português se encontrava fundeado e devidamente sinalizado. Depois do abalroamento, que provocou grande rombo no costado do “Conceição Maria”, o navio holandês continuou viagem sem prestar assistência ao navio nem à tripulação do cargueiro português.

O “Conceição Maria” saiu de Lisboa no passado dia 29 de Janeiro de 1966, com destino a Bremen, onde devia ter chegado ontem. Levava um carregamento de cortiça e carga geral. A notícia do afundamento do navio não pôde ser confirmada pela empresa proprietária. O último telefonema pra a companhia armadora, feito a bordo do rebocador “Atlas”, onde se encontrava o comandante do navio, informava que já tinha sido lançada uma amarra ao navio português e que se faziam tentativas para o recuperarem e extinguir o incêndio.

 

A tripulação do “Conceição Maria”

São as seguintes as identidades dos membros da tripulação:

Comandante, Manuel Casimiro Soares de Sousa, de Lisboa; imediato, Vasco Dinis de Barros Freire, de Oeiras; segundo-piloto, Délio Carlos Ramos Morgado, de Loulé; praticante de piloto, Afonso Correia Bettencourt, dos Açores; radiotelegrafista, Renato Manuel da Silva Santos Medeiros; contra-mestre, José Fiúza Sampedro, de Lisboa; marinheiros, Cesário dos Santos Evangelista, de Vila Franca de Xira; Vasco Boto Macatrão, da Nazaré; Ernesto Cordeiro, da Figueira da Foz; Armindo Pereira Rico, de Vila Nova de Gaia; José Viegas Samuel, de Setúbal e Jasmim dos Santos Nascimento, de Mafra; primeiro-maquinista, António Fiel, de Lisboa; segundo-maquinista, Fernando Neves do Sacramento, também de Lisboa; terceiros-maquinistas, Domingos Augusto Beira, de Mirandela e João Lima Maranhão, do Porto; artífice, José de Oliveira Ferreira Lopes, de Lisboa; fogueiro-paioleiro, Joaquim dos Santos, da Lourinhã; ajudantes de motorista: Manuel Anselmo Freitas Maciel e Manuel Luís Delgado Gaivoto, ambos de Viana do Castelo; Alípio António da Rocha Carvalho, de Vila Praia de Âncora; cozinheiro, António Luís de Brito, dos Arcos de Valdevez; padeiro, Manuel Rodrigues da Silva, de Aveiro; e, ainda Manuel Ferreira Pousada, de Valença; António Lajes Veloso, dos Arcos de Valdevez; e João de Sousa Marques, de Vila Verde.

Todos se encontram a salvo, no porto de Borkum.

(In jornal “Comércio do Porto”, sexta, 4 de Fevereiro de 1966)

 

Características do navio-motor “Conceição Maria”

1948 – 1968

Armador: Soc. Geral, de Comércio, Indústria e Transportes, Lisboa

Nº Oficial: H-360 – Iic: C.S.I.U. – Registo: Lisboa, 08.07.1948

Construtor: Companhia União Fabril, Lisboa, 07.1947

Arqueação: Tab 1.735,64 tons – Tal 931,59 tons – Pm 2.974 tons

Dimensões: Ff 93,32 mt – Pp 86,40 mt – Bc 12,84 mt – Ptl 4,55 mt

Propulsão: Burmeister & Wain – 1:Di – 7:Ci – 2.500 Bhp – 13 m/h

Equipagem: 26 tripulantes

 

Emden (Alemanha Ocidental), 4 – Chegou hoje aos estaleiros Rheinstahl Nordseewerke, de Emden, o navio português “Conceição Maria”, a fim de ser reparado, pois tem o casco muito queimado.

O capitão e oito tripulantes estavam a bordo quando um rebocador da Alemanha Federal rebocou o navio para o porto de Emden.

O convés superior e a superestrutura do “Conceição Maria” estão reduzidos a ruínas negras. O navio apresenta as marcas da colisão com o navio holandês “Simonskerk”.

Um dos vinte e seis tripulantes portugueses continua hospitalizado na ilha de Borkim, no Mar do Norte.

Os restantes dezassete chegaram a Emden, vindos de Borkum, num «ferryboat» pouco depois do navio. Foram imediatamente recolhidos numa casa de marinheiros onde comeram e descansaram, antes de partirem de comboio para Portugal.

Ainda não se sabe quanto tempo demorarão as reparações que o “Conceição Maria” terá de sofrer em Emden.

 

A Sociedade Geral, empresa armadora do navio “Conceição Maria”, ante-ontem abalroado por um navio holandês, no Mar do Norte, informou que, segundo as últimas notícias recebidas, aquele cargueiro continuava a navegar, às 21 horas de ante-ontem, e estava a ser rebocado para o porto alemão de Emden, onde devia chegar, ontem, cerca das 11 horas.

Pouco antes daquela hora, o capitão do “Conceição Maria”, sr. Manuel Casimiro Soares Sousa, deixara o rebocador “Atlas” para regressar para bordo do navio português, onde o fogo, entretanto, fôra extinto.

Além do comandante Soares Sousa, estão em Emden mais sete membros da tripulação, com vista à possível reparação do navio. Só depois do “Conceição Maria” entrar naquele porto poderá ser decidido se o navio será objecto de reparação provisória em Emden, vindo depois para Lisboa, ou se também se fará na Alemanha a sua reparação definitiva.

Os outros dezoito tripulantes do “Conceição Maria” partiram, ontem à noite, de comboio, para Lisboa, onde devem chegar na segunda-feira à noite.

Vai ser posta uma acção contra o comandante do vapor holandês que não prestou assistência ao navio abalroado.

Simonskerk-01.jpg

 

A Sociedade Geral já incumbiu os seus advogados, em Londres, de prepararem a apresentação da queixa contra o comandante do navio holandês “Simonskerk”, que seguiu viagem sem prestar assistência aos sinistrados, depois do seu navio ter abalroado violentamente o “Conceição Maria”. A atitude daquele comandante, e tanto mais incompreensível, pois o “Conceição Maria” para além de seguir devidamente sinalizado, o sino de nevoeiro ia a tocar, por mera precaução.

(In jornal “Comércio do Porto”, sábado, 5 de Fevereiro de 1966)

 

Em função do referido no texto anterior, confirma-se ter o navio levado a cabo reparações provisórias no porto de Emden, possibilitando a viagem de regresso a Lisboa. Porém, a companhia Sociedade Geral, em função dos múltiplos danos encontrados a bordo, optou pela venda do navio ao sucateiro Américo Vasques Vale, de Lisboa, tendo a demolição acontecido no decorrer do ano de 1968.

 

Publicação original de REIMAR em http://naviosenavegadores.blogspot.pt/

publicado por Brito Ribeiro às 09:49
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