Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

01
Ago 14

Embora de forma breve, já fiz parte do Orfeão de Vila Praia de Âncora. Não propriamente do orfeão, leia-se grupo coral, mas da secção de teatro. Nunca tive voz para cantorias, nem jeito para dançar, mas a certa altura convenci-me que tinha alguns dotes de representação. Se calhar convenceram-me, já foi há tanto tempo…

Não recordo o ano com exactidão, mas foi pouco depois do 25 de Abril. Disso tenho a certeza!

Tudo começou com o Padre Marinho. A direcção do Orfeão “engatou-o” para director artístico do grupo de teatro e para arranjar gente capaz de dar vida àquela secção, já que ninguém queria pegar naquilo.

A cisão no Orfeão, que deu origem à criação do Etnográfico de Vila Praia de Âncora, ainda estava muito fresca e notava-se uma certa indefinição, alguma letargia, mas também muita determinação por parte de alguns elementos. Eu é que não tinha nada a ver com aquilo, mas anui com entusiasmo ao pedido do Marinho, para participar numa peça que ele queria levar à cena.

Deixem-me abrir um parêntesis para vos explicar quem era o Padre Marinho. Os da minha idade lembram-se dele, mas os mais novos não o conhecem. Era pároco em Âncora, seria, no máximo, dez anos mais velho que eu e alinhava com a malta para tudo, perdão, para quase tudo e conseguia dizer a missa em dez minutos, tipo Pepe Rápido!

Era proprietário de um Datsun 1200 e achava-se um grande condutor, o que não era bem verdade. Felizmente nunca teve nenhum acidente, mas que arriscava um bocado, arriscava! Resumindo, era o que se costuma designar por “gajo porreiro”.

Mas dizia eu, que fui parar ao grupo de teatro do Orfeão de Vila Praia de Âncora juntamente com mais um punhado de amigos, mais ou menos a malta que andava a estudar no Liceu de Viana, o “nosso” grupo.

Recordo a Fernanda Neves e a Fernanda Bouças, a Carla e a Nela, o Chico e o Churriba, o Zeca do Morrosó, o Zé da Linha, a Ilda, o Cândido e o Aristides. De certeza que havia mais alguns, mas de momento não me recordo. Como éramos todos novatos em teatro, excepto a Fernanda Neves que já tinha alguma experiencia, o Marinho decidiu ensaiar uma coisa “ligeira” e “fácil”, uma peça de Bertold Brecht, muito em voga nos meios intelectuais de esquerda da época e que se chamava “O que diz sim e o que diz não”.

Uma peça em dois actos praticamente iguais, que só eram diferentes nos cinco minutos finais (do segundo acto). De fácil não tinha nada, nem para os actores, nem para os espectadores, que ficavam completamente baralhados ao começar o segundo acto e ouvirem tudo com no princípio. Mas para uns actores de gabarito como nós, estava tudo bem!

Depois de dois ou três meses de ensaios, com muita borga pelo meio, foi marcada uma saída para participar no Encontro de Coros na Covilhã; o grupo de danças e o grupo de teatro também iam para dar um espectáculo numa aldeia vizinha.

Foi durante uma madrugada do mês de Junho que entramos para o autocarro, cruzamos o Rio Âncora pela Ponte de Estrada Real e rumamos para sul. Se aqui em Vila Praia de Âncora estava bom tempo, conforme nos aproximávamos da Covilhã a canícula ia aumentando, até se revelar um calor abrasador.

Fomos directamente para Unhais da Serra, a tal aldeia que afinal não ficava assim tão perto e lá demos o nosso espectáculo, durante o qual os espectadores barafustaram ruidosamente com frases do género “Estão outra vez a repetir a mesma merda” ou “Que c… de teatro é este?”. Foi uma barraca completa, apesar de não nos enganarmos e fazermos tudo direitinho!

A seguir actuou o grupo de danças que teve de dançar num ringue de patinagem, porque o palco onde nós actuamos era muito pequeno. Assim passamos a tarde à espera do jantar que nos ia ser servido lá em Unhais da Serra. Uma aldeia serrana, os sabores da natureza e nós a contar com os chouriços, as broas, os presuntos, aquele vinho da Cova da Beira…

Afinal, serviram-nos sandes de alface e tomate, água e vinho de garrafão, do mais reles que havia na mercearia. Foi uma grande desilusão e uma grande barrigada de fome.

Regressamos à Covilhã de orelha murcha, a tempo do grupo coral actuar à noite, mas ainda não sabíamos onde iríamos pernoitar. O calor continuava e nem com a noite refrescou.

No final do espectáculo, de regresso ao ponto combinado, junto do autocarro, ainda ninguém sabia onde se iria dormir, logo havendo alguns elementos que decidiram abalar para uma pensão próxima.

Por fim, já depois da meia-noite, apareceu um tipo da organização que guiou os homens até uma escola e as mulheres até um convento. Ahh… Pensavam que ficava tudo junto? Não, não, eram outros tempos e não havia essas confusões! Até havia, mas não se dava tanto nas vistas, percebem?

 

Ainda bem que estava calor, porque o alojamento resumia-se a uns colchões de espuma espalhados pelo chão nas salas de aula, às quais tinham tirado as mesas e as cadeiras. Acho que adormeci madrugada alta, pouco antes de nascer o sol, tendo passado o tempo a fazer todo o tipo de patifarias possíveis. Ainda recordo de ter ajudado a trazer um camarada (com colchão e tudo) para o jardim onde continuou a dormir placidamente, em cuecas.

De manhã cedo, andava o Vasco Moreira, que tinha idade para ser nosso pai, de clarinete em punho, passando pelas salas a acordar a malta, sendo recebido com toda a cerimónia, própria para estes casos “Ó Vasco, mete a gaita no cu”, vai acordar o c…” e outros mimos do género.

O meu pequeno-almoço foi num café perto da praça do município e ao qual voltei muitas vezes, mais tarde, no decurso da minha vida profissional, sempre que pelo sopé da serra pernoitava. Uma sande de queijo e um fino, uma imperial, com se diz para aqueles lados, para espanto do empregado, mais habituado a servir galões e torradas pela manhã.

Depois de todos reunidos, mais uma vez à volta do autocarro, lá arrancamos serra acima, o autocarro ronceiro que fumegava em cada curva, a dúvida residia em saber se conseguiria ultrapassar os desníveis do percurso. O local escolhido para o convívio dos Coros, já passadas as Penhas da Saúde, era aquele vale glaciar enorme, antes da subida para a Torre.

Aí assistimos a uma missa campal e conseguiu-se pôr todos os coros a cantar um hino conjunto. Não estou certo, mas seriam mais de mil e quinhentas pessoas.

No final havia o piquenique e o regresso a casa. Como no dia anterior tínhamos passado fome de cão, ansiávamos por esta refeição, até porque o ar da serra puxa pelo apetite. Não recordo o manjar, recordo a fome com que continuei e a “fita” que foi chegar ao camião onde estava o vinho.

Tudo em fila, de copo na mão, aguardando pacientemente a vez para abrir a cobiçada torneirinha. O Professor Laurentino Monteiro é que não foi de modas, ao chegar a sua vez, bebeu logo dois ou três copos seguidos, começando a ser imitado por muitos outros. Se a bicha andava devagar, passou a andar ainda mais devagar, para desespero dos sequiosos orfeonistas.

No regresso, paramos em Coimbra ou arredores, para comer qualquer coisa ,pois a larica era muita e a viagem iria durar mais algumas horas.

Recordo uma viagem animada, com muita música, muita cantoria e muita brincadeira, novos e velhos irmanados na amizade e no companheirismo.

 

Esta foi a minha primeira e ultima saída com o Orfeão, ainda demos mais um ou outro espectáculo pelos arredores, mas o Marinho acabou por admitir que a peça era “difícil”, face aos repetidos e pouco abonatórios comentários dos espectadores e à nossa recusa em continuar a fazer o papel de bombo da festa. Decidiu ensaiar outra peça, “O espantalho” que ainda era pior que a anterior e por isso deixei de ir aos ensaios, nunca mais retomando o contacto com o grupo de teatro.

Aos poucos, todos foram desistindo, o próprio Marinho também abandonou, assim se perdendo a oportunidade de motivar e de formar gente que pudesse encenar com regularidade peças interessantes. Por mim, peças do Brecht… não, obrigado!

 

 

 

 

 

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 16:21
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23
Jul 14

Nunca estive de acordo com a instalação de um parque radical junto do Dólmen da Barrosa. Disse-o quando estavam a construir, repito-o agora, mais uma vez. Entendo que este tipo de equipamento poderia ter outra localização mais adequada, por exemplo junto à área escolar e das piscinas ou, em alternativa, no Monte Calvário, isto para não se cair na tentação de concentrar no litoral mais um equipamento.

O Dólmen da Barrosa, classificado como Monumento Nacional desde 1910, tem uma área de protecção que foi violada ostensivamente com esta construção, apesar das denúncias feitas por várias entidades, junto do organismo público que tutela o sector. Assistiu-se a um lavar de mãos ou um fechar de olhos, provavelmente por ter acontecido nas vésperas das eleições autárquicas.

É triste quando uma questão de cumprimento da lei, fica sujeita aos humores e às carrancas de interesses alheios. Enfim…

Voltemos à questão principal; junto ao Dólmen, o que deveria ser feito era um centro interpretativo de arqueologia ou, melhor ainda, um núcleo museológico que reunisse o espólio, não só daquele monumento funerário, mas também outros artefactos recolhidos no Vale do Âncora, que estão hoje na posse do Centro Social e Cultural de Vila Praia de Âncora, do NAIAA (Núcleo Amador de Investigação Arqueológica de Afife) e outros.

Não faz sentido haver imensos objectos recolhidos, representativos do modo de vida daqueles tempos pré-históricos e estarem encerrados, longe da vista do público, designadamente dos jovens em idade escolar, sem cumprir a obrigação pedagógica subjacente à sua recolha.

Por outro lado, o conceito actual de museologia, impõe que as colecções e as mostras sejam dinâmicas e esclarecidas, sendo necessário uma vertente de investigação, geralmente associada a pólos universitários. Ora, tendo nós o site specific, que pode ser traduzido de forma muito abrangente como “local apropriado”, não vejo porque se insiste em ideias esdrúxulas, como o parque radical e um campo de vólei de praia, não se avançando com um projecto de valorização cultural do Dólmen da Barrosa e sua envolvente. Ou será que a matriz cultural do Concelho continua a ser festas e regabofes?

Não podia terminar sem denunciar as condições em que encontrei o local, como as fotos documentam. Enquanto estiver lá a Academia de Patins, ao menos que se faça a limpeza de manutenção, de modo a dar ao local a dignidade que merece.

Lixo espalhado pelo piso. Pode-se ver que parte do muro caiu
O outro lado do muro, parte tombado e o restante com "barriga" e em perigo de derrocada
Mais lixo espalhado
Entulho que não foi retirado no fim da obra
Equipamento e entulho que o empreiteiro não retirou
Se é uma tela de protecção devia ter sido coberta com terra
publicado por Brito Ribeiro às 09:49
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22
Jul 14



Foto do final do ano de 1968, com as quatro irmãs. da esquerda para a direita, Felisbela Meira, Arminda Gomes, Maria José Ribeiro e Julieta Castilho.



publicado por Brito Ribeiro às 11:46

07
Jul 14

Desde que António Costa começou a falar para o exterior, deixando a discussão quezilenta do entre muros partidário para um único protagonista, sentiu-se uma brisa fresca a trespassar a modorra bolorenta da crise e das desgraças anunciadas a vozes contraditas, de quaisquer esganiçados do governo.

Costa está a falar para os socialistas de sempre e para aquele milhão de eleitores que alteram frequentemente o sentido do seu voto. Finalmente há alguém a pensar em português, depois de anos de oposição segurista, a mastigar um combinado de puré e óleo de fritar churros, sem coerência, sem garra e sem mobilizar expectativas, como se confirmou no último acto eleitoral, mostrando que há novas formas de intervenção no espaço público, à custa da destruturação dos velhos modelos.

Aconteceu pela primeira vez em Portugal que a intervenção no espaço público rasgou as barreiras da formalidade desse mesmo espaço, não disfarçando a fraca representatividade que o actual sistema político revela, traduzido nos níveis recorde de abstenção e no aumento da base eleitoral dos partidos, ditos anti-sistema.

Não foi por acaso que A. J. Seguro, após ser eleito secretário-geral, alterou os estatutos do partido, entrincheirando-se de qualquer ataque à sua liderança até às próximas legislativas. A cereja em cima do bolo é a questão das primárias, oferecida como alternativa ao congresso, exemplo maior das boas práticas socialistas.

Quem não deve, não teme e Seguro mostrou que teme e mal se segura nas canetas, por muitas contas que faça, por muitas federações a que se alape, por muitas espingardas que imagine ter.

Desenganem-se todos aqueles que vêem em Costa a salvação messiânica, a cura para todas as maleitas, qual anti-inflamatório genérico, que podemos prescrever a eito.

Não faço parte desse grupo, mas parece-me que não há comparação entre o pensamento estruturado de Costa e a postura engaiolada de Seguro. Agora que foi empurrado para fora da dita, encontra em cada esquina motivo para denegrir o seu adversário, deixando aos seus desesperados apoiantes a tarefa de esbracejarem ao governo. Se não fosse pelo dramático da situação, seria interessante ver Seguro a formar governo com sapientes ministros, como Álvaro Beleza, Eurico Brilhante Dias, Carlos Zorrinho, João Proença ou Alberto Martins.

Mas o avanço e disponibilidade de Costa, não importunaram apenas o ainda secretário-geral do Partido Socialista. Foi um murro no estomago do governo, do PCP e de um Bloco de Esquerda frágil e desavindo. A emergência de Costa como candidato a líder do PS, face aos estatutos internos e outros condicionalismos do modelo partidário actual, nunca seria possível se não tivesse encontrado na sociedade civil acolhimento tal, que se impôs ao partido e ao seu "aparelho".

Costa sabe que tem de pescar à esquerda eleitorado imprescindível para chegar ao poder, abrindo o espaço natural dos socialistas, fugindo do pântano central onde tantas vezes se refugiam e onde são invariavelmente esmagados pelos partidos de direita.

publicado por Brito Ribeiro às 16:47

06
Jul 14

A revista Domingo do Correio da Manhã, publicou hoje um artigo sobre o passado da nossa praia, para o qual dei um pequeno contributo, cedendo algumas fotos e informações aos jornalistas Marta Silva e José Lima.

 

publicado por Brito Ribeiro às 11:10

05
Jul 14

Este é um documento inestimavel da vivencia nos mares do norte, partilhado na primeira pessoa, onde os nossos conterrâneos labutavam em condições muito duras.

Ora para fugir à fome, ora para escapar ao serviço militar, a ida ao bacalhau passou de geração em geração até ao advento da democracia, quando as condições infra humanas praticadas, foram contestadas e irradicadas.

Em boa hora a Câmara Municipal de Caminha decidiu reunir para memória futura este conjunto de testemunhos, que contribuem decisivamente para se escrever a história deste povo marinheiro.

publicado por Brito Ribeiro às 16:00
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22
Jun 14

Depois de ter publicado o post sobre o afundamento do "Maria Carlota", bacalhoeiro à linha onde dois Ancorenses trabalhavam, recebi diversas informações que devo partilhar neste espaço.

O Sebastião Simões tinha por alcunha "o Lonzinho", casado com a "Pinotas", eram moradores na Rua do Sol Posto. O Francisco Pires Oliveira, conhecido por "Chico das Pontas" foi viver para Almada onde nasceram cinco filhos.

Ficha de inscrição e matrículas no Grémio do Chico das Pontas

O barco que resgatou os naufrafos do "Maria Carlota" foi o navio hospital americano USAHS Charles Stafford, deixando-os em Nova York, de onde regressaram a Portugal. Ambos apareceram em Vila Praia de Âncora com roupa nova e de boa qualidade, segundo testemunhas que ainda se recordam dos casacos vistosos que o Lonzinho e o Chico das Pontas envergavam.

publicado por Brito Ribeiro às 15:16
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19
Jun 14

Foi da estação rádio-telegráfica da Armada, na Horta, que informaram o Ministério da Marinha de que o “Maria Carlota”, que vinha dos bancos da Terra nova com um carregamento de bacalhau, pedia socorro por ter água aberta e estar a afundar-se.

O capitão do lugre emitiu vários rádios informando que o seu navio começou a sofrer forte temporal e, por esse motivo, produziram-se dois rombos pelos quais esta a entrar muita água.

As bombas de bordo conseguiram esgotar a água, de modo a não deixar que o navio corresse o risco de se afundar. As vagas alterosas, porém, punham o navio em perigo. A tripulação portara-se corajosamente.

Além do “Queen Elizabeth”, outros navios navegaram em direcção ao “Maria Carlota”, entre os quais o “Caramulo”. O arrastão “Álvaro Martins Homem” também estivera em contacto com o navio sinistrado. Notícias posteriores informam que a tripulação tivera de abandonar o lugre.

O último rádio recebido em Lisboa dizia que o “Maria Carlota” estava raso com a água e, que seguia à deriva, levado pelas vagas e pelo vento, na direcção Sul-Sudoeste.

O “Maria Carlota” pertencia ao armador sr. João Gonçalves Guerra e era um navio construído em madeira, em 1918, nos estaleiros da Nova Escócia. Deslocava 230 toneladas e tinha capacidade para recolher 4.632 quintais de peixe. Fizera diversas viagens à Terra Nova, contribuindo para o abastecimento do País na medida da capacidade dos seus porões. Desta vez, trazia a bordo um carregamento apreciável de bacalhau.

 

Lista de tripulantes embarcados no “Maria Carlota”

Capitão            António Fernandes Matias,              de Ílhavo

Imediato           Jorge Fort’ Homem,                        de Ílhavo

Cozinheiro        Tomé dos Santos Ferreira Gordo,   de Ílhavo

Aj. Cozinheiro  Celestino Esteves de Figueiredo,      de Ílhavo

Pescador          António Maria Valente,                    de Matosinhos

Pescador          Bartolomeu da Silva Boia,                de Lavos

Pescador          Domingos Lucas,                             da Fuzeta

Pescador          Francisco Serrano,                           da Nazaré

Pescador          Joaquim Fernandes Parracho,          de Ílhavo

Pescador          José Rodrigues Romão,                   de Ctº. Branco

Pescador          Manuel José Inácio,                         da Fuzeta

Pescador          Manuel Portugal,                             da Nazaré

Pescador          Paulo de Jesus Figueira,                   da Nazaré

Pescador          Silvério Antunes Fialho,                   da Nazaré

Pescador          Silvestre Soares Zabumba,              da Nazaré

Pescador          Sebastião Simões,                         de V.P. Âncora

Pescador          Francisco Pires Oliveira,               de V.P. Âncora

Pescador          João Francisco Gateira,                    de Ílhavo

Pescador          Manuel Maria Valente,                     de Matosinhos

Pescador          João Aires da Silva,                         de Ílhavo

Pescador          Manuel Dinis Faria,                          de V. do Conde

Pescador          Manuel Gonçalves Puga,                 de V. Castelo

Pescador          José da Silva e Sá,                          de Ílhavo

Pescador          Paulino Figueira,                              da Fuzeta

Pescador          António Pedrosa Luís,                      da Cova

Pescador          João Baptista Barbosa Carvalho,     da Nazaré

Pescador          Joaquim António Carreira,               de Portimão

Pescador          João Saraiva Verdade,                    de Ílhavo

Pescador         Abílio da Serrana Gandaio,               da Nazaré

Pescador         António Martins Júnior,                     da Fuzeta

Pescador          José Canas Júnior,                          de Setúbal

 

(In jornal “Comércio do Porto”, quarta, 5 de Novembro de 1947) Publicado em http://naviosenavegadores.blogspot.pt/

publicado por Brito Ribeiro às 09:28
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22
Mai 14

«...a sua absoluta probidade política, a sua invulgar intuição clínica para diagnosticar e curar com os remédios rudimentares de há mais de meio século, a sua devoção humanitária à profissão de médico, da qual fazia um apostolado, impunham-no à admiração, granjeavam-lhe a amizade e o carinhoso respeito de todos...»

 

João de Barros Morais Cabral (1)

 

Luís Inocêncio Ramos Pereira nasceu a 18 de Setembro de 1870 na cidade do Porto. Era filho do comendador José Bento Ramos Pereira, natural de Riba d'Âncora, e de Maria Gertrudes da Silva Pereira.

Estudante prodigiosamente dotado, destacou-se como um dos primeiros representantes do Partido Republicano Português em Caminha. Formou-se depois em Medicina (1897), na Escola Médico-cirúrgica. Ali, ao terminar a carreira escolar, defendeu e publicou a tese «Algumas Palavras sobre a Anesthesia Cocaïnica». Desde então, ocupou vários cargos: Médico em Vila Praia de Âncora, Paredes de Coura e dos Caminhos de Ferro do Sul e Sudeste (1910), Administrador da Companhia do Niassa, Deputado à Assembleia Constituinte por Viana do Castelo (1911-1925), Inspector da Procuradoria de Lisboa, Provedor da Assistência em Lisboa (1913) e Senador da República (1913-1926).

Desempenhou um papel importante no Congresso, foi membro da Comissão de Agricultura, autor do projecto de lei para alterar os contratos de 27 de Setembro de 1904 e 4 de Março de 1907 sobre a construção e exploração dos caminhos-de-ferro de Braga a Guimarães, Braga a Monção e Viana a Ponte da Barca. Na sessão do Senado da República, no dia 27 de Fevereiro de 1924, apresentou um projecto de lei com o objectivo de elevar à categoria de vila a freguesia de Gontinhães:

 

«Senhores Senadores. — A freguesia de Gontinhães (Praia, de Âncora), do concelho de Caminha, tem progredido consideravelmente a ponto de ser a mais populosa do concelho.

É um grande centro comercial e industrial e tudo faz antever que num futuro muito breve deseje a sua autonomia administrativa, a fim de o seu desenvolvimento mais se acentuar.

Estância de turismo, como é, tem a sua comissão de iniciativa que carinhosamente estuda os projectos que hão-de facultar a Âncora o lugar de uma das nossas primeiras praias.

As condições naturais são de primeira ordem e talvez se possa afirmar que poucas serão as praias portuguesas que as tenham melhores.

Com a sua população de cerca de 3:500 habitantes está bem nos casos de ver as suas prerrogativas aumentadas e, prestando preito aos laboriosos filhos de Gontinhães (Praia de Âncora), tenho a honra de apresentar ao vosso critério o seguinte projecto de lei:

Artigo 1. ° Elevada à categoria de vila a freguesia de Gontinhães (Praia de Âncora), a qual se ficará denominando Vila Praia de Âncora.» (2)

 

Com o parecer favorável da Comissão de Administração Pública, a proposta foi aprovada por unanimidade na Câmara de Deputados, na sessão de 2 de Julho de 1924.

A população de Vila Praia de Âncora encontrou em Ramos Pereira não só um ardente defensor dos seus interesses, mas um grande médico amigo dos humildes, um homem de carácter, de valores sagrados. Para ele, a trilogia «liberdade, igualdade e fraternidade» tinha um amplo e profundo sentido na vida quotidiana.

Em 1918-1919,quando o país foi varrido por um surto de gripe, a «pneumónica», abandonou a capital e foi socorrer os doentes de Gontinhães, Afife, Moledo, Perre, Cristelo, Vile, Carreço e Caminha, sem esperar recompensa alguma aos cuidados que oferecia. De dia ou de noite, deslocava-se a pé, de comboio, de bicicleta ou em carro de cavalos. «Não cobrava contas, e algumas vezes ainda deixava aos pobres dinheiro para caldos e remédios» (3).

Nunca abandonou as gentes e a terra do seu pai. Afeiçoou-se para sempre à paisagem azul, ao mar, à comunidade piscatória, à vila. E lá está, mesmo depois da morte, que ocorreu em Lisboa, no dia 22 de Julho de 1938, a dormir o sono do descanso em campa rasa.

 

NOTAS

(1) João de Barros Morais Cabral. Natural de Vila Praia de Âncora. Juiz-conselheiro do Supremo Tribunal da Justiça.

(2) Diário da Câmara dos Deputados, Sessão de 2 de Julho de 1924

(3) Alexandre H. S. Rodrigues, Traços Biográficos (em prosa bárbara) do Dr. Luís Inocêncio Ramos Pereira e do seu Pai José Bento Ramos Pereira, Edição de Autor, Viana do Castelo, 1970, pg. 28

 

Texto original publicado em http://luisdantas.skyrock.com/2761731020-LUIS-INOCENCIO-RAMOS-PEREIRA.html acedido em 22-05-2014

publicado por Brito Ribeiro às 15:37
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24
Abr 14

Os pobres que sempre foram pobres, os novos pobres, os desempregados que emigraram e os que ficaram, os reformados, os que ainda trabalham, mas conscientes que podem ser despedidos, legal ou ilegalmente, vão comemorar o quê?

Os que clamam justiça que tarde ou nunca chega, que vêem encerrar tribunais e sair em liberdade os ladrões do BPN, que vêem prescrever os processos dos banqueiros e da generalidade dos casos de corrupção envolvendo políticos, vão comemorar o quê?

Os que sentem na carteira o aumento das taxas moderadoras, o encerramento e deslocalização de serviços dos Centros de Saúde e hospitais de província para as grandes cidades, que vêem negado o indispensável transporte para consultas e tratamentos, que esperam meses por uma simples consulta ou anos por intervenções cirúrgicas que se fazem da noite para o dia no sector privado, vão comemorar o quê?

Os que têm filhos a frequentar escolas onde reina a balburdia e a indisciplina, onde sobra a desmotivação e o desencanto, tudo em nome de uma visão economicista e de mera estatística escolar, vão comemorar o quê?

Os que vêem as forças policiais desacreditadas por escândalos internos e por tribunais que em vez de castigar o delinquente, não raras vezes julga e pune o agente da autoridade, vão comemorar o quê?

Os que vêem ser rasgado o contrato de honra estabelecido com o Estado, enquanto gestor dos descontos de uma vida de trabalho, agravando as taxas e impostos aplicados às reformas, vão comemorar o quê?

Os que vêem as remunerações leoninas das Parcerias Público Privadas e das Rendas Energéticas continuarem a sugar os nossos impostos, vão comemorar o quê?

Os que se chocam com os privilégios de reformas antecipadas, subsídios de reintegração e outras mordomias, designadamente de políticos, enquanto a idade de reforma aumenta para os demais portugueses, vão comemorar o quê?

 

40 anos depois do 25 de Abril de 1974 que vamos nós comemorar? Será motivo de comemoração o aperto socioeconómico em que nos enfiaram?

 

Quando temos um Presidente da República que se comporta como uma múmia; uma tonta na Presidência da Assembleia da República; um primeiro-ministro, que começou a trabalhar aos quarenta anos e que tinha por principal muleta no governo um licenciado a martelo; um vice-primeiro-ministro suspeito até à medula de corrupção no caso dos submarinos; uma tia do Movimento Nacional Feminino como presidente da caridade e das sopas dos pobres; um alambique a Presidente do Governo da Madeira; uma administração invisível do BPN, a maior fraude europeia do sector financeiro; dois cervejeiros, um como ministro da economia, outro como presidente da RTP; um gerente de revista de cabaret manhoso na cultura; dois comentadores televisivos, um que justifica as trapalhadas, o outro que justifica as mentiras do Governo; quando se permite que funcionários da Troika comandem os destinos do Estado e dos cidadãos; quando se governa à vista e em função dos mercados e dos especuladores financeiros; quando se governa para a destruição do Estado Social e não para o crescimento, desenvolvimento e qualificação de vida dos portugueses.

 

Mas que raio é que nós vamos comemorar?

 

PS – Sem dúvida, deve-se comemorar a liberdade; de contrário, artigos como este seriam cortados pelo lápis azul da censura e o seu autor seria (com grande probabilidade), atirado para os calabouços de um certo edifício da Rua do Heroísmo, no Porto.

publicado por Brito Ribeiro às 22:13
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