Ambiente, história, património, opinião, contos, pesca e humor

06
Mai 15

Texto publicado originalmente na revista ValeMais do mês de Maio.

 

O anúncio da Reforma do Sector das Águas com a agregação de 19 empresas do Grupo Águas de Portugal, está a gerar polémica e a revoltar autarcas, que já equacionam a possibilidade de recorrer aos tribunais para tentar travar o processo.

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Que o modelo actual não está bem, não é novidade, mas o conjunto de propostas apresentado pelo governo enferma de graves erros de concepção e de estratégia.

A água é um bem universal e é a seiva de nosso planeta. Ela é a condição essencial de vida vegetal e animal. Sem ela, não poderíamos conceber como são a atmosfera, o clima, a vegetação, a cultura ou a agricultura. Os recursos naturais de transformação da água em água potável são lentos, frágeis e muito limitados. Assim sendo, a água deve ser manipulada com racionalidade, precaução e parcimónia. A captação de água em condições de qualidade para ser utilizada para distribuição domiciliária é um processo complexo e de elevados custos, que não podem ser apenas assacados ao consumidor final, sem uma justa ponderação social.

Se retirarmos essa ponderação e acrescentarmos o desleixo na manutenção das redes e outras ineficiências de gestão, teremos um quadro do sector altamente deficitário em termos económicos. E o que faz o Governo neste caso? Resumidamente, decide concentrar os 19 sistemas multimunicipais, em 5 mega sistemas, alegadamente para “obter ganhos de escala e de gama, com benefícios para a tarifa”.

Ora isto é uma falácia, porque não ataca o problema no essencial, que é o desperdício e a má gestão. Quando é o próprio Governo que admite haver um deficit tarifário de 600 milhões e uma divida dos municípios de 500 milhões de Euros, não se pode resumir a restruturação do sector à concentração de empresas e à projecção dos custos ao consumidor final.

É claro que os municípios também não podem continuar a financiar-se à custa do dinheiro dos munícipes, que pagam pontualmente o recibo da água, ficando os municípios a dever à empresa de abastecimento, como aconteceu há uns anos com a Câmara de Caminha, que acumulou, irresponsavelmente, uma dívida de vários milhões de Euros à Empresa de Águas Minho-Lima.

Sabendo-se que a rede de baixa (rede de distribuição domiciliária) tem na imensa maioria das vezes perdas apreciáveis (muitas vezes superiores a 50%), tem de se fazer um esforço no sentido de diminuir esse caudal desperdiçado, mas que é contabilizado como consumo efectivo. Limitar a conservação e reabilitação das infra-estruturas não é uma poupança, pelo contrário, é um acto de má gestão, que condiciona a sustentabilidade financeira do sistema e a qualidade do serviço.

Por outro lado, nas empresas multimunicipais é necessário limitar os custos de gestão, diminuindo os cargos de chefia, nomeadamente os de nomeação política, ajustando as remunerações e outros encargos às necessidades reais das empresas, não as transformando em asilos dourados para políticos em princípio ou fim de carreira.

A sustentabilidade do sistema de captação e distribuição de água não pode ser apenas de ordem financeira, mas deve englobar todas as vertentes, técnica, ambiental, económica, financeira e social, algo que parece esquecido na recente proposta do Governo.

 

publicado por Brito Ribeiro às 09:35
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18
Abr 15

Encontrei no Facebook uma referencia ao Catitinha, um homem enigmático, despontando na memória dos mais velhos, que o recordam a percorrer as praias e a falar com as crianças. Nunca soube de onde vinha, para onde ia, sabia apenas que pernoitava na casa da Dona Titó. Deixo-vos o link onde podem conhecer mais alguma coisa sobre esta personagem extraordinária e um pequeno conto que escrevi no verão de 2012, publicado no quinto volume da colectânea de prosa e poesia "A Arte pela Escrita " da editora Mosaico das Palavras.

 

O Cruzado

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A sombra deslizou sobre o meu castelo de areia, imobilizando-se sobre o barquinho de folha-de-flandres, que noutra vida acondicionara chouriças. Endireitei-me, pisquei os olhos doridos pelo violento contra luz. A manhã de estio quase a terminar, o sol no apogeu, dizem hoje ser perigoso para a derme. Nesse tempo não se pensava nisso, o sol tinha melhores humores.

A sombra projetada no meu reino do faz de conta, representava a silhueta de um homem de longa barba branca que se agigantava sobre mim, observando o motivo da minha concentração.

Por um instante fiquei convencido que o Pai Natal tinha descido à praia. Tirou o chapéu de palha de aba larga, enxugou o suor da testa com um lenço grande e voltou a cobrir-se. O areal apinhado de crianças, uns vigiados por mães e amas; outros, habituados desde sempre à “praia das crianças”, livres de tantos cuidados, que se bastavam a si próprios, apenas à hora em que a fome apertava regressavam à penumbra do lar.

O homem confiava a barba com um sorriso triste, distante. Aproveitei esse momento para melhor observar o amarrotado fato de linho branco. Calças arregaçadas, à pescador, deixavam a nu os pés grandes e os joanetes salientes. Olhos azuis, vivos, saltitavam a cada movimento que eu fazia. O cabelo caia em cachos para fora do “palhinhas”, sobre os ombros, aconchegando-se à gola do casaco do qual não destoava a cor.

Repentino, desinteressou-se, deu-me as costas e continuou caminho, calcorreando a areia escaldante até ao próximo grupo de catraios que sonhavam com o castelo dos mouros, entre pás e baldes de plástico que serviam de forma aos torreões inexpugnáveis.

“É o senhor Catita”, “o Catitinha”, “que pena, parece que lhe morreu um filho”, “um filho, um bebé, coitado, ficou assim”.

Para nós era apenas o Catitinha, o homem que velava pelas crianças na praia. Ano após ano, surgia do nada com a missão de assegurar aos outros o que não conseguira evitar a si próprio.

Um cruzado de armadura branca, que ia e vinha sem dar satisfação, respondendo apenas perante o seu desígnio. Um ano, o verão começou sem o Catitinha. Teria o sol adiantado o seu horário, a sardinha abalado para outro portinho, estaria agora na companhia do filho que tanto amara? Não soubemos, mas a praia nunca mais foi a mesma.

publicado por Brito Ribeiro às 09:17
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26
Mar 15

“Era o filho mais velho de quatro irmãos, o único rapaz. Manuel, como o meu pai, o meu avô, o meu bisavô... Treinado para ser médico. Porque o meu pai era médico e toda a família, inclusive do lado da minha mãe, também. Nasci em 47. Não havia televisão. Portugal era um país muito triste. O meu pai era esquerdista, a minha mãe católica e salazarista. A família do meu pai era republicana, a da minha mãe monárquica.

10983462_1710901495803358_3649713301917296085_o.jpEu era um miúdo que não tinha graça nenhuma. Passava a vida a ler. Li tudo. Tudo. Comecei muto novo. Adorava ir para Arouca, para casa dos meus avós. E, naquela altura, as férias eram muito grandes. Em Arouca não havia nada para fazer. Então, lia Aquilino Ribeiro e Camilo Castelo Branco. Em casa do meu pai lia Eça e Antero, na dos outros avós lia os românticos. Era gordo, não tinha jeito para desporto. Joguei hóquei no Vigorosa, mas fui sempre suplente. E suplente do guarda-redes. Pior não podia ser! Mas fui sempre esforçadíssimo, isso sim. E sempre tive muita dificuldade em perder, o que é uma estupidez para um tipo gordinho que não tinha qualquer jeito para aquilo. Tinha um tratamento diferente do que era dado às minhas irmãs. Em Arouca, o meu avô deixava-me sair para ir jogar futebol para o clube. Elas dizem-me ainda hoje que o melhor bife vinha sempre para mim. Não sei se era verdade, mas provavelmente sim. Nasci no dia de Nossa Sra. da Mó, 8 de Setembro, que é a grande festa de Arouca. Portanto, a minha avó achou que era um milagre. Há uma aura que se estabelece em relação a uma criança que não tinha ponta de graça. As minhas recordações dos meus bisavós nunca sei se são mesmo verdadeiras ou se foram reconstruídas a partir das fotografias. A fotografia e o cinema são umas armas fantásticas. As minhas memórias são muito reconstruídas. Vivi desde miúdo na rua Pedro Teixeira. Todos os médicos tinham vindo viver para perto do hospital de São João, só a nossa rua tinha oito ou nove. Neste sítio onde estamos, onde é agora o IPATIMUP, eram os lameiros da Asprela. A gente brincava ou aqui ou no jardim da Arca de Água. Era um Porto rural. A minha ideia de infância da cidade não tem nada a ver com um lugar cosmopolita. Ia ao cinema em frente ao Académico, em Júlio Dinis, ao Vale Formoso. O Porto era uma cidade de bairros. Fui sempre muito bom aluno. Era um marrão, mas adequado. Ajudava os meus amigos, porque tomava notas e depois passava a limpo. Portanto, as minhas sebentas foram sempre muito cobiçadas. Quer na escola, quer no liceu, quer, mais tarde, na faculdade. Eu topava os professores. Tinha boa memória, mas acima de tudo topava... Sempre achei graça a pessoas. Se tiver de identificar a característica que me distingue mais de uma certa geração próxima da minha é essa. Nunca gostei muito de coisas, sempre gostei muito de pessoas. Não acho graça a automóveis, nunca comprei roupa para mim. Uma vez estava em Londres e precisava de comprar uma camisola. Quando a senhora me perguntou o que queria nem sabia como me explicar. Nem linguagem para isso tenho. Fui para médico sobretudo por causa da pressão familiar. E depois, dentro da Medicina, quis sempre ser professor. Esta coisa que faço, de ser vagamente cientista, é para ser melhor professor. As minhas escolhas foram sempre muito racionais. Gostava de Medicina, de estudar doenças, mas tinha muita pena dos doentes. Emocionava-me. Por exemplo, os tipos que se queixavam de doenças psiquiátricas contavam histórias tão horripilantes que pensava: ‘Eh pá, se fosse eu estava pior...’. Empatizo sempre. E para um médico isso pode ser muito complicado. Portanto, encontrei esta solução da Anatomia Patológica. Sou útil, porque faço diagnóstico. Mas há aqui uma coisa de fuga ao risco. Se não tiver a certeza faço mais colorações, se não tiver a certeza com as colorações mando para segunda opinião. Sou muito atípico nisso. Toda a minha vida foi muito certinha. Ainda não tinha acabado o curso na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto quando fui trabalhar com o professor Serrão. Numa altura havia um congresso que tinha como tema o cancro da tiróide e ele disse-me para fazer a revisão dos casos. Gosto de saber as coisas com profundidade. Não sou nada superficial. Percebi que a partir do cancro da tiróide podia perceber muito de cancro em geral. Foi assim que comecei. Fazia autópsias e não tinha percebido que ia morrer. O que é uma burrice para quem faz autópsias. O meu pai morreu cedo, com 71 anos, de cancro do pulmão. Foi uma tragédia para mim. Adorava o meu pai. Percebi que as pessoas morriam aí. Mas, é engraçado, só quando a minha neta mais velha nasceu é que percebi que eu também ia morrer também. Isso deu-me uma ternura e quase uma doçura trágica. Agora, há dois ou três anos, percebi que me ia reformar. Tenho uma má relação com o deixar de trabalhar, porque não sei fazer mais nada. Tenho um cagaço de deixar de trabalhar... No limite por orgulho, por não querer perder. Continuo a lidar muito mal com a derrota. Pessoal ou não. O que está a acontecer no país, por exemplo, é uma tragédia do ponto de vista social. Irrita-me que aconteça. Por isso tenho tendência para lutar contra. Tenho muito optimismo — ou teimosia — na acção. No limite, a teimosia é a fuga da morte. Ou o medo de perder. O medo de perder para mim é deixar de trabalhar ou que o IPATIMUP deixe de ser um sucesso. Ou que a Universidade do Porto deixe de ser o que é. Não vivo com azedume, mas vivo com irritação. E dá-me sempre para responder fazendo. O que me torna — para a minha mulher, os meus filhos e os meus netos — super irritante. Tenho sempre mais coisas para fazer do que tempo. Essa falta de tempo é tenebrosa. E, nesta altura em que a reforma se aproxima, ainda mais. Para mim, deixar de trabalhar é muito mais grave do que morrer. Por isso, quando devia estar a desacelerar, estou a acelerar. Tenho de programar a reforma. Mas como?.. Ando aterrorizado. Se tiver de definir o meu estado actual seria: triste com o país e assustado com a ideia da reforma. Tenho, talvez, de me manter numa actividade próxima da ciência e do ensino. Estou a achar cada vez mais graça aos meus netos. Tenho orgulho neles. Pode ser que eles sejam uma solução. À segunda-feira juntamo-nos todos lá em casa e tem muita graça. Ajudar a formá-los, dar-lhes livros... isso é um desafio interessante. Mas estou a ter um envelhecimento mau. Em conclusão, fui um puto sem nenhuma graça e estou a ficar um velho muito irritante. O IPATIMUP é a menina dos meus olhos. Indiscutível. Mas por ser uma espécie de emanação da Universidade do Porto. A gente quando pensou o IPATIMUP fez uma espécie de universidade, com mais graça e menos chatices. Mas isto é universidade. Não tive nunca a sedução de fazer um laboratório. Ou uma empresa. O IPATIMUP é, antes de mais, um sítio onde fizemos gente melhor do que nós. Eu não sou um cientista, nunca podia ganhar um prémio Nobel. Tenho algumas descobertas razoáveis, mas não tenho nenhuma muito boa. Mas tenho alguns miúdos que começaram comigo que são do melhor que há. Não foi só por estarem aqui, mas foi também por isso. Estas instituições vivem de fazer pessoas. Se não percebermos isso em Portugal de uma vez cometemos um erro enorme. A gente só evolui se apostarmos em fazer gerações de pessoas melhores do que nós. Nós — São João, IPO, IPATIMUP — fizemos uma escola de cancro do estômago e da tiróide que é das melhores do mundo. Esta geração de hoje é muito diferente da minha. É uma geração indutiva, aprende por tentativa e erro. Muito epidérmica, muito pouco elaborada em termos de estrutura. Por exemplo, não conseguem contar uma história com princípio meio e fim. E estamos a falar de gente inteligentíssima. São pessoas muito simplificadas na expressão verbal. É uma coisa que me assusta. São muito bem educados. Mas por imaturidade. São mais formatados e previsíveis. Provavelmente fruto do ambiente familiar. Na minha cultura a mãe estava muito mais presente, dava-nos mais maturação afectiva. Estes miúdos não têm tempo. E acho que não têm entusiasmo, o que talvez seja fruto do estado do país. Nós tínhamos um futuro. Podia não ser risonho, mas era um futuro. Eu agora falo com os meus alunos e eles querem ser médicos. Ponto. Nós queríamos ser os melhores e ir para todo o lado. Agora, houve um problema, que é estupendo mas é um problema, chamado massificação. E nós lidamos mal com a massificação. Estou a falar do ensino, que é o meu mundo. Vivo pouco fora dele. Ao estrangeiro quase só vou para trabalhar. De resto prefiro ficar cá. Todos os fins de semana vou para Âncora, nas férias grandes vou para Arouca. Sempre. Adoro fazer férias para ler. Nunca pensei sair do Porto. Tive um convite de trabalho muito bom da Suíça, país sem mar. Tive outro muito bom da Noruega, onde há pouca luz. O meu primeiro problema é o afastamento dos meus pais, das minhas irmãs e dos meus amigos. Mas preciso também de mar, luz, sol. Depois, há uma coisa muito importante que existia em Portugal e não existia em mais lado nenhum, talvez com a excepção de Espanha. A oportunidade de fazer a diferença. Durante vinte anos, isto foi uma aventura. Tenho sempre muitas visitas de estrangeiros cá. E, há uns anos, o Porto não era uma cidade muito bonita para se mostrar. Levava-os à Foz e à Ribeira. E depois fugia para o Douro e Viana do Castelo. Agora não. O Porto está lindo. A minha relação com a cidade melhorou muito.”

Portugal, Porto, 24 de Março de 2015

Porto Canal - Manuel Roberto e Mariana Correia Pinto

publicado por Brito Ribeiro às 15:36
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13
Mar 15

Na base da saída de pessoas das zonas interiores, estiveram, essencialmente, motivos económicos, daí resultando uma emigração maciça, descontrolada e clandestina, bem como um êxodo rural para o litoral, que originou um rápido e acentuado crescimento das principais cidades portuguesas, Lisboa e Porto. Actualmente a Área Metropolitana de Lisboa tem cerca de 2,8 milhões de habitantes, o que representa 27% da população portuguesa, enquanto a Área Metropolitana do Porto tem cerca de 18% da população total. Ou seja, as duas metrópoles juntas têm praticamente metade de toda a população residente em Portugal. Estes números demonstram sem margem para dúvidas, que temos um país desequilibrado e litoralizado.

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 As causas aliadas à crescente litoralização do país estão relacionadas com a busca de empregos com melhores níveis de salário, melhor qualidade a nível de escolas, universidades, e melhores infra-estruturas e serviços (hospitais, transportes, educação). Também a sua situação geográfica condiciona a maior instalação e o desenvolvimento das actividades económicas, como é o caso de maior diversificação de indústrias e serviços.

Ora, isto acarreta diversas consequências tanto para as áreas de chegada, como nas áreas de partida. Em relação ao aumento da população no litoral, isto leva a problemas de cariz social, uma vez que as cidades vêem chegar grandes aglomerados de pessoas, não estando apetrechadas dos recursos indispensáveis para dar resposta às necessidades de toda a população.

Os empregos tornam-se insuficientes e precários, levando assim a situações de desemprego, e com isto, ao crescente aumento da pobreza e da marginalidade. A litoralização faz com que haja cada vez menos qualidade de vida no litoral, diminuindo a qualidade dos serviços prestados, aumentando a poluição e a pressão demográfica, com todos os problemas que lhe estão associados.

Os problemas das zonas rurais em consequência do êxodo populacional são, entre outros: desertificação de aldeias, envelhecimento da população e decréscimo da natalidade. Com a diminuição da população decresce a arrecadação de impostos, diminui o turismo nestas zonas, perda de costumes e práticas locais, impedindo o aproveitamento de todas as potencialidades dos territórios afectados (recursos naturais, aptidão para a agricultura e agro-indústria, posicionamento estratégico, etc.)

A combinação destes dois fenómenos aumenta os custos para o país, pois os serviços no interior acabam por ser encerrados, com graves prejuízos para os  utentes locais e os serviços no litoral têm de ser continuamente melhorados para dar resposta à população crescente.

O abandono agrícola e a desertificação do interior é, actualmente, uma das principais causas de alteração da paisagem em Portugal e na Europa. Após séculos de uso humano da paisagem, áreas de agricultura marginal estão a ser abandonadas devido à migração para zonas urbanas ou ao envelhecimento das populações.

Se, por um lado, estas alterações limitam a manutenção das práticas de agricultura tradicional de subsistência e a persistência dos mosaicos de paisagem compostos por áreas de agricultura tradicional, matos e pequenos bosques, por outro lado, abrem uma janela de oportunidade para a regeneração natural da floresta nativa que em Portugal sofreu uma regressão intensa após séculos de desflorestação e degradação.

A par com a oportunidade de restaurar a floresta nativa, o abandono de campos agrícolas acarreta também um aumento do risco de incêndio devido à acumulação de biomassa nas áreas abandonadas, o que pode comprometer a regeneração natural da floresta.

Assim, é fundamental descobrir e implementar novas formas de gestão destes espaços rurais, onde a mudança e a transformação são das tónicas mais acentuadas. O abandono da actividade agrícola e o despovoamento são elementos que unem os municípios do interior do País.

Contudo, assiste-se hoje em dia a um ligeiro, mas progressivo, retorno de pessoas às áreas rurais, e estas são designadas “neo-rurais” ou “novos rurais”. Eles constituem um novo capital humano, que procura uma melhor qualidade de vida, mas igualmente querem contribuir para o desenvolvimento destas áreas. Dedicam-se a várias actividades, muitas delas ligadas à agricultura, sobretudo à biológica, mas também ao turismo em espaço rural. Têm sido, sem dúvida, elementos dinamizadores, que devem ser incentivados pelo poder local e instituições governamentais.

Nenhum país não mede o seu grau de desenvolvimento pelo elevado número de pessoas sediadas nas grandes cidades, mas sim, pela sua capacidade produtiva, pelos seus níveis de riqueza.

Por isso, é tempo de mudar mentalidades e apostar noutras áreas, como o Alto-Minho, que possui os diversos recursos indispensáveis ao desenvolvimento de um ambicioso projecto regional. Basta porem os olhos na Galiza!

publicado por Brito Ribeiro às 11:39
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13
Fev 15

 

Em 1998, António Rosa Casaco, ex-inspector da PIDE, explicou ao EXPRESSO os pormenores da «Operação Outono», nome de código da armadilha montada contra Humberto Delgado. Hoje, 50 anos após a sua morte não é demais relembrar este crime pela voz de um dos seus carrascos. 

 

António Rosa Casaco chefiou a brigada da PIDE que assassinou o general Humberto Delgado, no dia 13 de Fevereiro de 1965, perto de Badajoz. Fugido do país depois do 25 de Abril, foi julgado à revelia e condenado a oito anos de prisão, sendo ainda hoje procurado pelas autoridades portuguesas e pela Interpol. À beira de completar 83 anos, o ex-inspector da polícia política, que vive no Brasil sob falsa identidade, quebra o silêncio a que sempre se remeteu e conta ao EXPRESSO a sua versão sobre o mais importante assassínio cometido pelo regime salazarista. Assume que a cilada fatal foi montada pela PIDE, confirma que o assassino foi Casimiro Monteiro, mas garante - contrariando o acórdão do Tribunal - que Arajaryr Campos, a secretária do general, foi morta por Agostinho Tienza.

A «Operação Outono» - nome de código da armadilha montada contra Humberto Delgado - começou a ser delineada «na sequência da tentativa de assalto ao quartel de Beja», explica António Rosa Casaco.

Realizado no primeiro dia de 1962, o golpe de Beja estava concebido para ser liderado pelo «general sem medo», que conseguira iludir a vigilância da polícia e entrara em território nacional disfarçado com um bigode postiço. O assalto frustrou-se, Delgado escapou-se, mas o estado-maior da PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado) resolveu que, para grandes males, grandes remédios.

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Foi nessa altura que Barbieri Cardoso, cérebro e estratego da polícia, «decidiu estudar o modo de neutralizar as actividades de carácter político» do general, «designadamente as que assumiam formas violentas de assalto ao poder constituído e que beneficiavam os sectores mais à esquerda da Oposição».

 

Uma «toupeira» junto do general

 

Um primeiro passo foi «a introdução de uma ou mais 'toupeiras'» na «entourage» do general, capazes de ganharem a sua confiança, «de modo a permitir a detecção de todos os seus movimentos e das actividades revolucionárias que congeminava».

O próprio Barbieri se encarregou de procurar a pessoa indicada. Subdirector-geral desde Abril de 1962, Agostinho Barbieri de Figueiredo Batista Cardoso ingressara na polícia, como inspector, em 1948, vindo da GNR. Nascido em Lisboa em 1907, mas de ascendência italiana, Barbieri «mantinha contactos regulares da mais diversa natureza com personalidades italianas da direita e extrema-direita». Entre elas, contavam-se Ernesto Bisogno - um médico com clínica em Roma, e Pascoale Pascuelino - «ex-oficial do exército fascista que fugira de um campo de concentração na Índia e atingira Diu». Cunhado do inspector Cunha Passo, Pascuelino era tradutor da PIDE, valendo-se dos seus impressionantes dotes linguísticos, já que «falava cerca de 21 línguas e dialectos diferentes».

 

Duas viagens a Roma

 

Pasquelino e Bisogno detectaram em Roma a presença de um cidadão português, Mário Alexandre de Carvalho, «que alegava ser oposicionista e refugiado político e que privava com Delgado, sendo, aparentemente, pessoa da sua estrita confiança». Carvalho, um lisboeta da freguesia dos Anjos, nascido em 1912, residia em Itália há um punhado de anos e possuía um estranho e sinuoso currículo. No prolongado e paciente trabalho de aliciamento de Mário de Carvalho envolveu-se o próprio Barbieri que «efectuou algumas viagens a Roma, sozinho», bem como Pereira de Carvalho, o director dos chamados Serviços Reservados. Nascido na Figueira da Foz em 1920, Álvaro Augusto das Neves Pereira de Carvalho entrara para a PIDE em 1956, como inspector, e era considerado, com propriedade, o nº 3 da hierarquia.

Inspector desde 1962, Rosa Casaco era um dos mais experimentados e eficientes operacionais da polícia, para onde entrara em 1937. Colocado na Secção Central, em Lisboa, e gozando da total confiança de Barbieri Cardoso, foi chamado a participar na «Operação Outono», tendo sido enviado a Roma várias vezes com o objectivo de «controlar» a dupla Ernesto Bisogno/Mário de Carvalho. De uma das vezes, foi na companhia de Barbieri e de Pereira de Carvalho, a parelha que desde 1962 dirigia o nevrálgico serviço de informações. Numa segunda viagem a Roma, foi secundado por um sub-inspector, de nome Ernesto Lopes Ramos, que de certo modo entrara na PIDE pelas suas mãos. Nascido nas Caldas da Rainha, em 1933, formado em Direito, concorrera aos serviços noticiosos da RTP nos seus primórdios. Hábil e destemido, Ernesto Lopes estagiara na CIA e era um operacional de mão-cheia, razão porque foi adstrito a Casaco. «Tínhamos de assegurar-nos, sem margem para quaisquer dúvidas, de que realmente o Mário de Carvalho dispunha, como afirmava, de acesso íntimo ao general.»

As eventuais dúvidas desvaneceram-se por completo. Carvalho passou a trabalhar activamente para a polícia, que lhe atribuiu o nome de código de «Oliveira», com uma remuneração de dez mil escudos mensais. A verba era enviada através de cheque para a conta nº 433045 da filial de Génova do Banco de Roma; sobre o cheque, a assinatura de Jorge Farinha Piano, um banqueiro e amigo de peito de Casaco.

Com Carvalho a contar para Lisboa tudo quanto Delgado dizia, urdia e fazia, a PIDE decidiu «passar à fase seguinte, ou seja, ao contacto com o próprio general». A ideia foi gizada por Barbieri e Pereira de Carvalho. Casaco possuía todas as qualidades para o tentar, mas apresentava um senão insuperável: Delgado conhecia-o perfeitamente - «nos anos 50, quando o general exercia o cargo de director-geral da Aeronáutica Civil, eu chefiava o posto do aeroporto de Lisboa, tendo tido, então, inúmeros contactos com ele». Eliminada a hipótese Casaco, a escolha acabou por incidir em Ernesto Lopes.

 

Encontro em Paris no Hotel Caumartin

 

Em Dezembro de 1964, Casaco e Ernesto Lopes voaram de novo até Roma, donde tomaram um avião para Paris, com uma missão particularmente arriscada: «Manter um encontro 'conspirativo' com Humberto Delgado.» A entrevista teve lugar no dia 27 de Dezembro, no Hotel Caumartin.

O contacto, a que estiveram presentes Mário de Carvalho e o professor Emídio Guerreiro, ambos colaboradores do candidato às célebres eleições presidenciais de 1958, foi um êxito. «Mário de Carvalho apresentou Ernesto Lopes ao general como Ernesto de Castro e Sousa, nas supostas qualidades de advogado, oposicionista e recém-chegado de Portugal. É aí combinado o encontro de Badajoz, entre Humberto Delgado, Mário de Carvalho, Ernesto de Castro e Sousa e alguns 'militares' portugueses das fileiras da Oposição Democrática.» A data exacta viria a ser fixada mais tarde.

No dia imediato, 28 de Dezembro, o general apareceu inesperadamente no Hotel Commodore, onde se haviam hospedado os dois homens da PIDE. O objectivo era entregar «pessoalmente a Ernesto Lopes um maço de cartas dirigidas à Dr.ª Alcina Bastos». Era a prova provada de que Castro e Sousa - aliás, Lopes Ramos - «havia, efectivamente, granjeado a confiança pessoal de Delgado».

O sucesso da reunião de Paris permitiu consolidar o projecto delineado pelo estado-maior da PIDE. Ou, mais rigorosamente, por Barbieri e Pereira de Carvalho. Com efeito, o director-geral, Silva Pais, «discordava das linhas gerais do plano, não participando, via de regra, das conversas travadas sobre o assunto».

Natural do Barreiro, Fernando Eduardo da Silva Pais, de 54 anos, era director-geral desde Abril de 1962. Só que, apesar de ocupar o topo da hierarquia, «deixava-se intimidar um pouco perante o Barbieri. Este era muito mais culto e inteligente do que o Silva Pais, que se sentia inferiorizado». Ainda por cima «com os serviços secretos na mão», Barbieri era quem, na altura, «assumia o papel principal» na organização, «acolitado por Pereira de Carvalho, o verdadeiro nº 2», enquanto Silva Pais «havia sido relegado para funções quase marginais».

Mas em que consistia, afinal, o plano? «Raptar o general e levá-lo clandestinamente para Portugal, para lhe ser dada voz de prisão e responder em tribunal por 'actos de terrorismo'.» A ideia de Casaco, como haveria de declarar em Madrid logo após o 25 de Abril, era «cloroformizar o general», por forma a adormecê-lo, transportando-o de seguida «na mala do automóvel pela fronteira de S. Leonardo».

Casaco nega que a morte do general fosse o objectivo do plano, pelo menos tal qual lhe foi transmitido. Muitos anos depois, quando o caso subiu a tribunal, a acusação haveria de considerar que «o objectivo central» da direcção da polícia era o de «reduzir» o general «à não actuação, quaisquer que fossem os meios necessários para tanto» - o que incluiria, obviamente, a possibilidade da liquidação física. Esta tese, contudo, não foi acolhida pelos juízes do Tribunal Militar. Na sua apreciação, a morte não figurava no plano traçado, que visava, outrossim, «tentar raptar e prender» o general, «trazendo-o para Portugal».

Do ponto de vista legal, a detenção de Delgado justificar-se-ia, segundo Casaco, «por ter sido condenado pelos tribunais portugueses pelo grave crime da prática de terrorismo, tentado em Portugal por sequazes seus, oriundos do Brasil» - referência a um alegado projecto de «fazer ir pelos ares alguns postes de alta tensão e o comboio 'rápido' Lisboa-Porto, próximo de Alfarelos».

 

Brigada escolhida ou imposta a Casa?

 

A última fase da «Operação Outono» iniciou-se com a convocação de Casaco, já em Fevereiro de 1965, ao gabinete do director-geral. Presente o triunvirato da PIDE, ficou determinado, segundo o acórdão do tribunal, que «Casaco chefiaria a brigada» e que «assumiria o falso papel de Coronel do Exército» ido ao encontro do general. Diferente é a versão do inspector: «Fui incumbido de acompanhar e proteger a brigada que iria tentar deter o general em Badajoz, no dia 13.» A escolha foi justificada pelo facto «de me considerarem pessoa capaz de efectuar essa protecção, dado gozar de grande influência junto das autoridades militares e civis das províncias de Cáceres e Badajoz e, especialmente, dos altos comandos policiais de Madrid».

Casaco prossegue: «Disciplinadamente tive de aceitar a missão, mas não deixei de chamar a atenção dos meus superiores para os perigos que implicitamente acarretaria tão perigosa incumbência, porque seria extremamente arriscado fazer passar pela fronteira espanhola o general sem que este protestasse, o que poderia provocar um conflito não só entre as duas polícias, mas, principalmente, entre os governos de Portugal e de Espanha.»

A brigada seria completada pelo sub-inspector Ernesto Lopes Ramos - o elo de contacto com Delgado - e pelos chefes de brigada Agostinho Tienza e Casimiro Monteiro, ambos de 44 anos. Natural de Alcáçova (Elvas), Agostinho Giraldo Cilero Tienza entrara para a PIDE em 1947 e era o motorista de Casaco. Nascido em Goa, Casimiro Emérito Rosa Teles Jordão Monteiro só fora admitido na PIDE em Novembro do ano anterior. No seu cadastro figuravam vários crimes de sangue, particularmente na antiga Índia Portuguesa. «Era um facínora», reconhece Casaco; «matava a torto e a direito. Mas era um patriota exacerbado».

Quem escolheu estes dois agentes? O Tribunal foi peremptório, ao sentenciar que Tienza e Casimiro Monteiro «foram escolhidos» por Casaco. Este, porém, diz que «a brigada foi-me imposta pelo triunvirato». Mais: os restantes elementos «tinham sido instruídos na minha ausência» - instruções que, de resto, «não me foram dadas a conhecer».

Instado por Casaco a explicar a razão deste procedimento, Pereira de Carvalho «alegou que não se justificaria a realização de uma reunião conjunta de todos os funcionários» e reiterou que «a minha missão se limitaria, unicamente, a protegê-los de qualquer eventual interferência por parte das autoridades espanholas e nada mais».

Casaco aceitou a «diligência» de que foi incumbido, apesar de, sublinha, a ter considerado «uma estupidez, tanto mais que Delgado não oferecia qualquer perigo, por ser um homem gravemente doente (há mais de um ano que derramava pus do ventre, de forma quase incontida, e que os médicos em Roma nada puderam fazer contra este mal, dando-lhe o máximo de um ano de vida)». Além de que, em sua opinião, ele «não dispunha de qualquer crédito político ou revolucionário e, em consequência, mais tarde ou mais cedo, se apresentaria às autoridades portuguesas», até porque estava «sem fundos para a sua subsistência e da sua amante».

 

A armadilha de Badajoz

 

A brigada largou de Lisboa na tarde de 12 de Fevereiro. Monteiro e Tienza seguiram no carro deste, um Opel verde e creme, com a matrícula EI-44-39; Ernesto Lopes e Casaco foram na viatura do primeiro, o Renault Caravelle IA-65-40. As viaturas e os agentes tinham documentação falsa. Casaco utilizou um passaporte a que já recorrera numa viagem ao Brasil, em nome de Roberto Vurrita Barral, um cidadão da Guatemala; Ernesto Lopes serviu-se de documentos passados em nome de Ernesto de Castro Sousa, o tal falso advogado; Tienza seguiu como se fosse Filipe Garcia Tavares; e a Monteiro foi dada a falsa identidade de Washdeo Kundaumal Nilpuri, da ilha de Jersey.

O grupo passou a noite numa pensão em Reguengos de Monsaraz. Na manhã seguinte os dois carros tomaram a direcção do posto fronteiriço de S. Leonardo, chefiado pelo agente da PIDE António Gonçalves Semedo. Antes, substituíram as placas de matrícula de ambos os veículos por outras, falsas. Em S. Leonardo, «ordenei a todos os funcionários que deixassem as suas armas de serviço no posto fronteiriço». Casaco assegura que «as armas foram depositadas e guardadas» pelo chefe do posto - o que foi formalmente negado, em tribunal, pelo próprio António Semedo.

Já no lado espanhol da fronteira, «verifiquei que, no carro do Tienza, se encontravam um garrafão, um saco com cal, uma picareta e uma pá». Admirado ao ver o ácido sulfúrico e a cal viva, Casaco terá perguntado a Tienza «que material era aquele, respondendo-me o próprio que se destinava a umas obras que estavam em curso, na sua casa em Sintra, e que não tinha tido a oportunidade de o retirar do carro». Este pormenor não condiz com uma declaração de Casaco em Madrid, em 1974, segundo a qual «ignorava totalmente a existência daqueles produtos destrutivos» até ao momento em que os corpos foram enterrados.

Para o projectado encontro com Delgado, foi escolhido um local ermo, perto da estrada principal que liga Badajoz a Olivença. Foi aí que, cerca das 15 horas, surgiu a viatura de Ernesto Lopes, transportando o general. No assento da retaguarda, uma personagem não prevista no elenco idealizado pela PIDE: Arajaryr Campos, a secretária do general.

Carioca de 34 anos, divorciada, Arajaryr Canto Moreira de Campos era a dedicada colaboradora do general, que acompanhava para todo o lado desde há cinco anos. A apreciação de Casaco é deveras pejorativa, referindo-se sempre a Arajaryr como «a amante brasileira».

A aguardar a chegada do general estavam, ansiosos e impacientes, os outros três elementos da PIDE, supostos «oficiais do Exército português anti-situacionistas», liderados por um imaginário coronel: Casaco.

 

Monteiro dispara sobre Delgado...

 

É aqui que a versão do ex-inspector mais difere dos factos dados como provados pelo tribunal. Segundo o acórdão, Casaco estaria no interior da viatura de Tienza, a uma distância de cerca de dez metros do local onde se deteve o carro em que viajava Delgado. «Isso é falso», protesta Casaco, que assegura que não só não estava no carro como ficara «a cerca de 120 metros de distância», com o objectivo de «impedir qualquer possível intervenção das autoridades espanholas, pois o general poderia ter alguém a protegê-lo ou estar a ser seguido».

Continuando a citar o texto judicial, Rosa Casaco - que se passava por um coronel que Ernesto Lopes prometera trazer de Lisboa - saiu do carro e dirigiu-se ao encontro do general. Mais lesto, Casimiro Monteiro, que já estava fora do veículo, tomou a dianteira e, ao aproximar-se de Delgado, empunhou uma pistola e disparou sobre o general.

O revólver, de fabrico francês, de modelo «Unique», estava munido de um silenciador e não fazia parte do armamento distribuído ao pessoal da PIDE, de marca «Walther». Atingido na cabeça, Humberto Delgado teve morte imediata.

Casaco nega que se tenha dirigido ao general, até porque este o «conhecia pessoalmente», desde os tempos em que trabalhara na aeroporto de Lisboa. Mantém a versão de que assistiu a tudo de longe: «Voltando a minha atenção para a estrada, ouvi um disparo seco e vibrante, como se fosse uma pistola de pressão de ar, vindo do alto da colina, e gritos agudos femininos. Verifiquei, então, que o Casimiro Monteiro estava abatendo o general.» Estaria Delgado armado, como alguns membros da brigada viriam mais tarde a sustentar? «Eu não vi arma nenhuma.» Já o dissera, de resto, em Madrid: «O general não estava armado, tendo disso absoluta certeza.»

 

...e Tienza mata Arajaryr

 

Testemunha impotente de um assassínio a sangue frio, a secretária, descontrolada, desatou aos gritos. «Assustado», prossegue Casaco, «corri coxeando para o topo do monte e gritei: 'Calem-me essa mulher'». Após o que também Arajaryr foi mortalmente baleada. Segundo o tribunal, o autor do segundo homicídio voltou a ser Casimiro Monteiro. Casaco desmente em absoluto e acusa - tal como fizera na declaração de Madrid - o seu ex-motorista, Agostinho Tienza, o que até levou Ernesto Lopes a gritar «Eh pá, não me fodas o carro!», aparentemente mais preocupado com a viatura do que com as mortes. A arma era do mesmo modelo que a utilizada por Monteiro.

«Perante a consumação deste duplo crime», prossegue, «manifestei, de imediato, a minha veemente repulsa por tal acto tão miserável e, também, por ter sido enganado pelos meus superiores. Admiti, imediatamente, que o Monteiro e o Tienza iam predestinados e preparados para tão nefando acto, uma vez que ambos eram portadores de pistolas com silenciadores.» Casaco garante que interpelou os seus subordinados, «ao que o Casimiro Monteiro respondeu: 'O Sr. Inspector não se meta neste assunto! Isto não é nada consigo'», ao mesmo tempo que se mostrava «ameaçador, com a pistola na mão». Mais tarde, Casaco terá indagado «junto dos elementos da brigada quem tinha dado a ordem de execução», mas não obteve «qualquer resposta». Cedo se convenceu que também Ernesto Lopes «nada sabia quanto à intenção de matar, porque os seus estados de espírito e de indignação eram idênticos aos meus».

 

Inúmeras contradições

 

Os dois cadaveres foram, então, metidos nas bagageiras dos automóveis. Aqui surge mais uma contradição. Para os juízes, ambos os corpos foram colocados na mala do Opel de Tienza, levados por Monteiro e Casaco. Este nega: «Eu tinha lá força para isso! Tinha acabado de ser operado a uma perna... Quem os transportou foram o Casimiro e o Tienza, cada um para sua bagageira.»

Os corpos acabaram por ser sepultados numa vala natural, num local a cerca de seis quilómetros a sul de Villa Nueva del Fresno. O acórdão não o confirmou, mas Casaco não tem dúvidas em afirmar que os corpos foram previamente regados com ácido sulfúrico e cal viva. As roupas e os documentos pessoais das vítimas «foram queimados, posteriormente, noutro local».

Em face do adiantado da hora, o grupo pernoitou na localidade espanhola de Aracena, tendo reentrado em Portugal na manhã seguinte, pela fronteira de Vila Verde de Ficalho. Pereira de Carvalho terá sido o primeiro responsável da PIDE a ser informado do resultado da missão. Casaco diz que foi pelo telefone, a partir da pousada de Serpa, onde a brigada almoçara. O acórdão sustenta que foi pessoalmente, na noite de dia 14, na residência de Pereira de Carvalho, em Lisboa.

Na manhã do dia seguinte, já na sede da PIDE, os seus três dirigentes máximos ouviram um relato completo do que se passara. «Todos eles manifestaram surpresa, em particular o major Silva Pais, que ficou aterrorizado.»

No final da reunião ficou estabelecido que seria guardado o mais absoluto silêncio sobre o assunto. Não sem que, antes, tenha sido determinada a destruição de todas as provas susceptíveis de incriminar a PIDE no duplo homicídio - desde a documentação (verdadeira e falsa) utilizada, até às duas viaturas. Nova e farta contradição surge neste ponto. Para Casaco, «não sei exactamente como isto se processou, mas, tanto quanto pude apurar, essa destruição terá tido lugar numa quinta próxima de Sintra, previamente alugada». O acórdão, contudo, é taxativo e acusa Rosa Casaco de ter tomado a iniciativa da destruição, seja dos automóveis, seja da maior parte da documentação.

Qual a justificação que Casaco apresenta para tantas e tão graves diferenças entre a sua versão e a sentença judicial? Desde logo, os mais de trinta anos que passaram sobre os acontecimentos e os seus inevitáveis efeitos sobre a memória de um octogenário. Aduz, por outro lado, que «a minha perturbação» no momento do crime «foi grande, o choque emocional tremendo, daí qualquer confusão que tenha surgido no meu espírito». Considera, finalmente, que durante o julgamento «todos me acusaram. Era fácil descarregar tudo para cima de mim, porque eu não estava presente, não me podia defender». Guardadas as devidas proporções, conclui que «as principais vítimas em todo este processo foram o Humberto Delgado e... eu!».

 

O telefone toca duas vezes

 

Uma semana depois do crime, Casaco recebeu uma chamada telefónica de Badajoz. Era Manuel Pozo, o chefe da polícia daquela província espanhola e velho amigo, que pedia «ajuda na identificação de uns passaportes e de uma bagagem abandonada no Hotel Simancas» - o mesmo onde Delgado dormira a sua derradeira noite.

Com a indispensável autorização de Silva Pais, e ainda que «bastante contrariado», Casaco rumou a Badajoz no dia 20 de Fevereiro. As suspeitas confirmaram-se em absoluto: «A documentação, as roupas, bagagens e uma bolsa de plástico com ligaduras cheias de pus pertenciam ao general e à sua amante.»

A 25 de Abril, o telefone voltou a tocar, desta feita a partir de Madrid. Na linha, um outro amigo espanhol, general Eduardo Blanco Rodriguez, director da Dirección General de Seguridad, «dizendo-me que tinham aparecido», na véspera, «os esqueletos de um casal nas proximidades de Villa Nueva del Fresno e que se suspeitava teria sido obra de um grupo de portugueses que atravessou aquela fronteira no dia 13 de Fevereiro».

Os cadaveres haviam sido localizados junto a um caminho conhecido por «Los Malos Pasos», que conduz à fronteira portuguesa. O chefe da secreta espanhola «solicitou-me que investigasse a quem pertenciam» as matrículas registadas no posto fronteiriço espanhol. A resposta foi dada meia hora depois: «Telefonei ao general referindo que as matrículas indicadas pertenceram a um camião e a um táxi, ambos fora de circulação, há muitos anos.» Perante «tão insólito» facto, o general Blanco Rodriguez pediu ao amigo português que fosse pessoalmente a Madrid «apresentar explicações».

 

«Menti descaradamente»

 

Posta a questão à hierarquia da PIDE, esta concordou com a ida à capital espanhola, com o fito de «confirmar que a polícia portuguesa nada tinha a ver com os corpos aparecidos»

Em Madrid, as autoridades já não tinham dúvidas: os cadaveres em causa eram mesmo do general Delgado e da secretária Arajaryr.

Alarmada com as imprevisíveis consequências de um crime político daquele jaez, perpetrado no seu território, a DGS espanhola dispensou um acolhimento muito especial ao enviado da PIDE. «Fui recebido num amplo salão pelo general Blanco, pelo subdirector-geral, pelo chefe dos Serviços Secretos daquela corporação, Vicente Reguengo, e pelos chefes das 'secretas' dos três ramos das Forças Armadas espanholas.»

A selecta assistência parecia ter uma ideia já formada sobre a autoria dos dois crimes. «Notei que todos aqueles senhores estavam convencidos que o duplo assassínio tinha sido obra da polícia portuguesa. Tive dificuldade em convencê-los de que teria sido acção de terceiros, ou seja, um saldar de contas entre grupos oposicionistas rivais» - a versão oficial inventada e posta a correr pelo regime de Lisboa.

A reunião de Madrid esteve longe de ter sido agradável para o inspector português. «Fui submetido a um interrogatório implacável durante várias horas. Consegui convencer os presentes que se iria proceder a exaustivas diligências em Portugal para se tentar descobrir quem seriam os ocupantes dos dois carros suspeitos. Devo dizer que passei um mau bocado, por ter que mentir descaradamente diante daquela assembleia, alguns deles meus amigos.»

No íntimo, verberou os seus superiores por não terem «tido a coragem de se justificar diante das autoridades espanholas, fugindo às suas responsabilidades por incompetência e cobardia, 'empurrando-me' para a 'boca do lobo'».

Desde então, admite, «passei a manifestar uma irritação maior» perante a «troika» dirigente da PIDE, «por me terem envolvido no crime que considerei inútil, contraproducente e disparatado, por terem transformado o general num mito que iria ser glosado por toda a oposição durante anos».

Na sequência da convocação de Casaco a Madrid, o tenente-coronel Blanco Rodriguez veio a Lisboa a 7 de Maio. O chefe da DGS espanhola discutiu com a direcção da PIDE uma articulação entre as duas polícias em torno do escaldante crime. Com o mesmo objectivo, Barbieri Cardoso voou até Madrid em 18 de Maio. A sensação de Rosa Casaco é que «as autoridades espanholas não ficaram completamente convencidas» pela argumentação aduzida pela PIDE, ou seja, que nada tivera a haver com o duplo assassínio. Convencidas ou não, o facto é que «só vieram a saber a verdade dos factos depois do 25 de Abril de 1974».

 

Jornal EXPRESSO 1998

 

 

 

publicado por Brito Ribeiro às 16:27
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28
Jan 15

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 A propósito de um comunicado de uma força política do Concelho, não posso deixar de tecer alguns breves e atentos comentários. Sobre as obras descritas no dito comunicado e as alterações tarifárias implementadas nada há a reparar. É verdade o que lá está escrito e tenho a certeza que no futuro mais iniciativas se irão juntar as estas.

Agora, dizer que o desemprego desceu mais de 20% é uma irresponsabilidade, que só serve esse desgraçado governo do PSD. Além de não ser verdade!

Se há alguma dúvida, digam-me onde se criaram cerca 220 postos de trabalho. E não me venham com a treta do Continente. É muito bem-vindo este investimento, mas irá criar apenas um terço do valor em causa. Então, onde estão os outros 150 postos de trabalho?

A verdade é que entre as pessoas que emigraram, que entraram nos programas de formação do Instituto de Emprego e Formação Profissional, que conseguiram um estágio profissional (por um ano) ou que por qualquer outro motivo deixaram de constar das listas do IEFP, é que encontramos uma explicação sustentada.

publicado por Brito Ribeiro às 14:32
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15
Jan 15

Artigo de 22 de Maio de 1885, do "correspondente da Praia d'Ancora", no Jornal da Manhã, publicado no Porto.  Sem mais comentários.

 

No juizo de direito da comarca de Caminha procedeu-se há dias ao auto de exame corpo de delicto directo na pessoa de Rozalina Martins Lírio, menor de 20 annos, filha do snr. Francisco Lírio, rico proprietário da freguezia d’Ancora e vereador da camara de Caminha, por participação ao ministério publico d’este snr. Contra o reverendo abbade da mesma freguesia pelas consequências funestas da seducção e relações ilícitas do pároco com a sua filha, segundo consta da participação.

Além das terríveis declarações da infeliz deshonestada foram inquiridas varias testemunhas. Mas oxalá que elle sirva de exemplo, e que nunca mais um sacerdote, e particularmente um pároco, caia em delicto tão grave e tão desairoso para uma classe inteira, que soffre sempre na sua dignidade e no seu estado, embora uma corporação ou classe não seja responsável pelas faltas de alguns dos seus membros ou de qualquer dos indivíduos que a ella pertence.

Isto é certo; mas não o é menos que hoje em dia os vícios ou crimes d’sacerdote se fazem reflectir sobre toda a classe ecclesiastica, porque não se diz -“o padre fulano cometeu esta culpa”; mas sim-“os padres comettem estas culpas e por isso é que a religião está perdida”.

Não se deve nem pode discorrer assim contra a classe sacerdotal e contra a religião; mas os que não sabem o principio de que uma classe ou corporação  não é responsável pelos abusos e delictos de qualquer dos seus membros, acusam a classe em geral e não o individuo em particular que a ella pertence, e que é o único responsável; e os inimigos d’essa classe e da religião aproveitam estes factos particulares para a consecução dos seus fins, que não são bons.

Eis o motivo principal porque sentimos profundamente que tal facto se tenha dado e que em juízo esteja a acusação d’elle. Esta facto é do domínio publico; e por isso temos direito e obrigação de nos referismos a elle.

 

No juízo ordinário da Riba d’Ancora, procedeu-se também a auto do corpo de delicto contra Gerardo Martins Lírio, a requerimento do referido abbade, que acusa aquelle individuo, irmão da desonhestada, de lhe haver atirado um tiro entre umas devezas.

É, porem, opinião geral e provável, senão certa, que similhante facto não se deu, ou pelo menos não se prova, segundo nos consta e é publico.

Entretanto esta publicidade pode ser e é proveitosa para exemplo de todos e emenda dos delinquentes.

publicado por Brito Ribeiro às 12:35
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08
Jan 15

A impermeabilização dos solos é um problema que se tem avolumado continuamente. Os problemas mais evidentes, resultantes da impermeabilidade dos solos estão frequentemente associados às cheias e inundações, sobretudo por os danos daí resultantes, terem grande expressão socioeconómica, em termos imediatos.

Apesar das mudanças climatéricas globais em curso serem sobejamente conhecidas, e do ritmo de ocupação de zonas naturais de leito de cheia a que se vem assistindo nas últimas décadas, os fenómenos artificiais resultantes da impermeabilização em massa dos solos urbanos e resultantes da desflorestação envolvente, vieram agudizar em muito a dimensão das inundações.

Em 1971, Gonçalo Ribeiro Teles, um arquitecto paisagista, aparecia na RTP explicando as causas para a catástrofe que em Novembro de 1967 ceifara a vida a cerca de 300 pessoas na região de Lisboa, defendendo que era consequência da falta de planeamento, da inépcia, da ignorância e da incompetência, por se construir nas zonas baixas, nos leitos de cheia, alterar as margens e provocar estrangulamentos à livre passagem das águas das chuvas. Nem a Censura conseguiu abafar esta pedrada no charco.

Hoje, mais de quatro décadas depois, as palavras dele, mantêm-se tristemente actuais e as circunstâncias para se repetirem as consequências nefastas de uma grande cheia, seja em Lisboa, na Madeira ou em qualquer outro ponto do país até aumentaram, com o incremento da urbanização, a impermeabilização dos solos e os estrangulamentos dos fluxos de água, quer superficiais e subterrâneos.

pis2.jpgÉ evidente que as ruas alcatroadas, os telhados, os pátios cimentados e o solo comprimido, não permitem que a água se infiltre para o solo e subsolo através do filtro natural que constitui a terra, até ao nível freático. Ao contrário, a chuva escorre pelas superfícies não ficando retida, causando situações de erosão, bem como situações de transporte de quantidades crescentes de sedimentos para os rios (já abordei isso no artigo anterior) e outras zonas húmidas baixas. Combinada com a água bombeada do subsolo para abastecer a comunidade, esta situação resulta na diminuição dos níveis de reserva dos aquíferos e na redução dos níveis (em qualidade e quantidade) da água nas nascentes, devido à alimentação dos aquíferos ser diminuta.

Contribuíram para a dimensão do problema, as actuais políticas de ordenamento que estão perfeitamente enraizadas e generalizadas, as quais se baseiam na canalização do escoamento, apenas se preocupando em transferir as inundações para jusante. Subjacente a essa prática, encontra-se a ideia de que: “a melhor drenagem é a que escoa o mais rapidamente possível a precipitação“. Porém, na verdade este tipo de políticas conduz a dois tipos de perdas: custo mais alto das infra-estruturas e maiores inundações.

Tem as autarquias a possibilidade de introduzir políticas de planeamento na área de impermeabilização dos solos em sede de PDM (Plano Director Municipal), embora se verifique que a ausência de normas quantitativas como o IP (Índice de impermeabilização) é a mais frequente.

Por outro lado, quando os índices são presentes, estes apresentam elevada discrepância de valores, aparentemente sem sustentação técnica, entre os diversos municípios.

A vinculação de normas de boas práticas ambientais, bem como as taxas de impermeabilização do solo nos instrumentos de planeamento como os PDM, PU (Planos de Urbanização) e mesmo nos PP (Planos de Pormenor) e a fiscalização do cumprimento dos mesmos, assim como as questões relacionadas com a educação ambiental, nomeadamente dos decisores, é uma necessidade imperiosa face ao histórico recente de inundações e outros cataclismos do género.

publicado por Brito Ribeiro às 15:17
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08
Dez 14

 

Li numa revista de âmbito regional um artigo que me deixou com um misto de repugnância e paz interior. Eu explico! No dito artigo, um sujeito congratula-se com a derrota que outro sujeito sofrera ao candidatar-se a um cargo directivo, salvo erro, numa Misericórdia de um Concelho do Alto Minho.

TORRE DE MENAGEM MELGAÇO - CERCA DE 1940.jpg

A repugnância chega na forma como o autor tenta provar que cai um mito na pessoa do candidato derrotado, enquanto se congratula pela vitória do seu correligionário partidário para a presidência da tal Santa Casa. Pelos vistos a folia partidária é tal, que até se tropeça na máscara da pouca-vergonha e se tecem louvores à filiação partidária, em vez de se salientarem as qualidades de carácter e sabedoria do vencedor.

Mas este doutor da mula ruça também me abonou uma grande paz interior, pois aplacou os meus receios e confirmou que até nos mais altos cargos públicos exercidos em Lisboa há cretinos mesquinhos, sem uma pinga de dignidade (algo que eu já desconfiava há bastante tempo), que se regozijam mais com as derrotas alheias do que com os seus próprios êxitos.

 

publicado por Brito Ribeiro às 15:25
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27
Nov 14

Não é por acaso que o Concelho de Caminha é dos mais pobres do Norte de Portugal, registando nos últimos anos um recuo dos indicadores económicos e um saldo demográfico negativo.

No sector primário, a agricultura é de mera subsistência e a pesca reúne cada vez menos embarcações de pesca artesanal. No sector secundário, o tecido empresarial foi-se extinguindo gradualmente com o encerramento de diversas unidades industriais, estando hoje próximo da “estaca zero”.

O sector terciário ressente-se porque o rendimento das famílias é baixo e o desemprego elevado. Tal e qual como a questão da pescadinha de rabo na boca. Se não há agricultura e industria, o comércio e os serviços agonizam. As pessoas vão procurar trabalho fora do Concelho, eventualmente, optam pela emigração.

Se ficamos todos à espera do turismo/produção de eventos, como se diz na gíria, podemos esperar sentados. Há uma imensa maioria de cidadãos do Concelho que não tem competências ou interesses na área turística, mas que também não encontram soluções para os seus problemas de emprego ou de criação de negócio.

Particularmente, o Concelho de Caminha não tem sabido criar condições para cativar investimento privado, que contribua significativamente para o seu desenvolvimento, ao contrário dos Concelhos vizinhos, que tem aproveitado as oportunidades.

E aqui coloca-se a questão fundamental, que ainda não vi equacionada nas estratégias e nas agendas políticas dos nossos autarcas. O Concelho de Caminha não tem uma área adequada à implantação de unidades industriais.

Não é minha intensão, aqui e agora, atirar pedras à gestão autárquica passada ou presente, mas é estrutural capacitar o Concelho com uma zona industrial suficientemente vasta e com uma localização de excelência (encostada à auto-estrada), capaz de dar resposta às necessidades e às demandas dos investidores interessados.

Face ao atraso de desenvolvimento, face aos preocupantes dados demográficos, face ao desemprego elevado, o Concelho de Caminha tem de concentrar todos os esforços nesta via, procurando soluções válidas e realizáveis no curto prazo.

Sem menosprezar o impacto socioeconómico de algumas iniciativas de animação e dinamização do tecido empresarial, levadas a efeito nos últimos anos, temos de reconhecer que não é assim que o Concelho se desenvolve, nem é assim que se cria riqueza de forma sustentada.

É hora de reunir gente capaz, encontrar consensos, discutir coisas sérias e deixar de lado as pequenas incidências da vida partidária e da chicana política, sob pena dos intervenientes ficarem esganiçados e completamente fora de tom.

publicado por Brito Ribeiro às 11:39
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